Você tem Fome de Quê?

Deepak Chopra · Capítulo 8 de 21

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Você tem Fome de Quê?

“O que Devo Comer?”

 

 

Pontos principais

Os princípios do aiurveda, a tradicional “ciência da vida” da Índia, propicia uma orientação confiável para a alimentação atual.

O aiurveda considera o alimento como parte de toda a nossa experiência de vida. Segundo essa medicina oriental, existem seis sabores, cada um com um efeito diferente sobre a mente e o corpo.

Ao conhecer os seis sabores, podemos expandi-los para as emoções e outras áreas da vida. O aiurveda respeita as sabedorias do corpo, procurando sinais de desequilíbrio muito antes que os sintomas da doença apareçam.

 

Desde o início, eu quis mostrar como um livro sobre perda de peso não é o mesmo que um livro sobre regime. As dietas drásticas nunca foram eficientes, e muitas nem fazem bem ao organismo. Mas a palavra “dieta” também tem outro significado: é um modo geral de se alimentar. Os seres humanos são onívoros. Temos a capacidade de digerir quase todos os nutrientes encontrados na natureza. No entanto, essa grande bênção é também uma desvantagem, pois existem muitas possibilidades para encontrar a melhor dieta. O que comer hoje e amanhã e nos próximos anos? Essa pergunta é normal, e tem uma resposta. Mas a resposta na verdade não está em uma lista de compras.

Quando comecei a comer melhor, cheguei a uma filosofia alimentar em que acredito completamente. Para mim, em todas as refeições, a melhor dieta deve:

Conservar a minha saúde.

Não contribuir com o processo de envelhecimento. Propiciar uma sensação de leveza e energia.

Revigorar os sentidos.

Enviar mensagens corretas ao meu corpo.

Aumentar a sensação de bem-estar.

Já sabemos a importância desses aspectos. Para oferecer o pacote completo, o Chopra Center incentiva o bem-estar vida afora. No conhecimento de ponta da medicina existe a percepção de que as escolhas alimentares podem prevenir doenças e o envelhecimento precoce. Por exemplo, os Centros de Controle de Doenças anunciaram, em 2012, que até dois terços dos tipos de câncer podem ser evitados. Acredita-se que metade deles está relacionada à obesidade. Outro grande segmento está relacionado ao cigarro e a outras toxinas ambientais.

Não existem fórmulas mágicas na área da dieta e do câncer. Não é possível dizer que o alimento A previne um câncer, por duas razões: a interação entre alimento e corpo é extremamente complexa, e as causas de câncer são tão complexas quanto. Existem muitos tipos de câncer, e suas causas envolvem múltiplos fatores. Apenas poucos deles podem ser atribuídos a uma única causa. Se não conhecemos uma causa específica, não é possível dizer o que impede essa causa. De qualquer modo, existe um quadro promissor: a de uma dieta natural livre de toxinas; consumo de alimentos integrais e não industrializados; e a eliminação do excesso de gordura, açúcar e sal por causa da sua conhecida ligação com um amplo leque de transtornos decorrentes do estilo de vida. As doenças cardíacas há muito são consideradas transtornos do estilo de vida, ou seja, uma mudança para um estilo de vida melhor reduz muitíssimo o risco de contrair esse tipo de doença. Parece que o câncer também vai entrar para essa lista. Em outras palavras, podemos ter mais confiança em nós mesmos para conservar a saúde vida afora, com um mínimo de dependência de médicos, remédios e cirurgias. Muito mais que um bom conselho médico, isso há de ser, no final das contas, o melhor regime preventivo que existe.

Vou esboçar aqui como funciona a minha filosofia alimentar.

 

À maneira aiurvédica

Os princípios que me orientam em todas as refeições estão de acordo com o aiurveda, consagrado sistema medicinal da Índia, que em sânscrito significa “ciência da vida”. De propósito, evitei o uso da terminologia aiurvédica neste livro, já que muita gente não tem familiaridade com essa tradição indiana ou acha que é esotérica, de conceituação difícil. Contudo, já que o programa do Chopra Center se baseia no aiurveda, vou explicá-lo em termos comuns, em resposta a qualquer um que faça a seguinte pergunta: “O que devo comer?”

Para começar, o aiurveda trata da experiência pessoal. Enxerga a alimentação como algo não isolado. Uma refeição harmoniosa se encaixa num dia harmonioso. Quando comemos um prato delicioso, não experimentamos conscientemente as 323 calorias, 25 gramas de proteína, 7 gramas de gordura e 40 gramas de carboidratos que ele contém. Em vez disso, vivenciamos com entusiasmo os cinco sentidos e as sensações que o alimento evoca. Ouvimos a sopa borbulhando no fogão e nos sentimos acolhidos. Deliciamo-nos com a textura de uma colher cheia de creme. No aiurveda, a harmonia abrange tudo. Inclui a vibração das cores dos alimentos e o prazer de uma mesa bem-posta. Todas as sensações dizem alguma coisa, e todas as mensagens são recebidas pelas nossas células.

Considerando essa compreensão aiurvédica, no Chopra Center prestamos mais atenção à experiência pessoal do alimentar-se do que a cada valor nutritivo específico. A ciência tratou de dividir os ingredientes nutritivos dos alimentos. Mas o conhecimento deve se converter em experiência e depois em sabedoria aplicada. A tabela nutricional do pacotinho de batata frita oferece o conhecimento. Não comprar o pacotinho de batata frita é uma escolha que nos dá a oportunidade de experimentar algo melhor. A sabedoria aplicada vai mais longe. Consideremos o seguinte versículo bíblico:

“Mais vale um pedaço de pão seco, com tranquilidade, do que um banquete em uma casa com

desavença.”

(Provérbios 17:1)

Encontramos aqui a sabedoria aplicada. Acho que o aiurveda permite mais coisas assim a quem estiver aberto para a qualidade dessa sabedoria.

Um fragmento de sabedoria aplicada é: “Primeiro, não faça mal”, a mesma orientação dada aos médicos no juramento de Hipócrates. O alimento ingerido não deveria interferir no estado de bem-estar natural do corpo. Segundo, devemos consumir alimentos frescos, se possível colhidos no mesmo dia. O paladar consegue perceber a diferença de imediato, e, de acordo com o aiurveda, o resto do organismo também, pois é sobretudo pelo sabor que instintivamente moldamos a nossa dieta.

No Chopra Center recomendamos que sejam excluídos ou reduzidos os seguintes alimentos:

Congelados

Sobras

Artificiais

De micro-ondas

Enlatados

No aiurveda, quanto mais fresco o alimento, maior a disponibilidade de força vital, chamada “prana”. Esse princípio se aplica a todas as categorias de alimentos, não só às frutas e verduras, mas também às carnes (inclusive peixe), ovos, laticínios e grãos. Embora estimulemos a dieta vegetariana, acreditamos que carne de boa qualidade (como frango e peixe, orgânicos quando possível) e laticínios, ambos com moderação, podem fazer parte de uma dieta equilibrada.

Mais dicas para o máximo de frescor

Escolha frutas e verduras recém-cultivadas na sua região e preparadas logo depois da colheita. São mais saborosas e dizem ao seu corpo que ele vai receber nutrientes da mais alta qualidade. Alimentos armazenados e transportados por longas distâncias têm mais probabilidade de serem afetados pela oxidação. Assim que uma fruta ou verdura é colhida, se inicia o processo de decomposição. Em uma hora, uma banana madura fica marrom, pois as moléculas dos radicais livres esgotam os seus antioxidantes naturais.

Alimentos da época

É melhor consumir frutas e hortaliças da época, pois elas terão sabor e valor nutricional melhores. Se você mora em uma região onde não há produção disponível o ano todo, procure frutas e verduras que irradiem maior força vital. Se parecem frescas e estão cheirosas, é provável que estejam saborosas e contenham ótimos níveis de energia.

Conheça os produtores regionais

Os produtores regionais não só oferecem alimentos mais frescos e orgânicos da estação, mas também ficam em lugares interessantes de conhecer, seja sozinho, com amigos ou familiares. É possível aprender muito sobre os alimentos e seus benefícios conversando com agricultores locais. Além disso, você estará apoiando o pequeno agricultor e a economia local.

Cultive você mesmo

É divertido e prazeroso cultivar as próprias frutas, verduras e ervas. Mesmo num apartamento pequeno, você pode ter um canteiro no peitoril da janela ou numa sacada. Existem muitos livros excelentes sobre jardinagem orgânica – escolha algum que combine com a sua região e clima.

O que significa “natural”?

O termo “natural” precisa de uma breve explicação. Em embalagens, o termo “natural” é uma denominação que pode significar o que o fabricante bem entender. O Ministério da Agricultura dos Estados Unidos (USDA) não tem definições nem regulamentos rígidos em relação ao uso desta palavra em embalagens, exceto nas de carnes. Um potinho de iogurte “natural” pode muito bem conter pesticidas tóxicos, organismos geneticamente modificados (transgênicos), antibióticos e hormônios de crescimento. Por outro lado, o padrão legal para alimentos rotulados “orgânicos”, nos Estados Unidos, obedece a regras federais (embora sejam eternas as reclamações sobre inspeções confusas e negligentes). Em geral, escolher alimentos orgânicos frescos garante produtos com altos níveis de pureza e vitalidade. [No Brasil, todo produto orgânico comercializado deve levar o selo do SisOrg – Sistema Brasileiro de Avaliação de Conformidade Orgânica, administrado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.]

Natural versus Orgânico

Natural Orgânico

Resíduos de pesticidas e herbicidas tóxicos permitido proibido

Transgênicos permitido proibido

Antibióticos permitido proibido

Hormônios de crescimento permitido proibido

Radiação permitido proibido

Regulamentação sobre bem-estar animal não sim

Níveis baixos de poluição ambiental não necessariamente sim

Auditoria da fazenda à mesa não sim

Necessidade de certificados, inclusive de inspeções regulares não sim

Vacas no pasto durante época de pastagem não sim

Restrições legais aos materiais usados não sim

Tabela adaptada de www.stonyfield.com/why-organic/organic-vs-natural [em inglês]

A tabela seguinte resume bem o que acabamos de explanar.

 

Eliminar Preferir

Alimentos congelados Alimentos recém-colhidos, sempre que possível Sobras Alimentos recém-preparados

Corantes, sabores e aditivos artificiais Ingredientes 100 por cento naturais

Alimentos para micro-ondas Alimentos preparados de modo convencional

Alimentos enlatados Alimentos frescos, quando possível

Alimentos refinados e processados Frutas, hortaliças e laticínios orgânicos frescos

Alimentos geneticamente modificados Alimentos que não foram geneticamente

(transgênicos) modificados

 

Meditação para uma alimentação consciente

A fim de extrair o máximo de benefícios do alimento que consumimos, nossa mente deve participar de tudo. Comer com pressa e sem pensar não satisfaz, ao passo que dar toda a atenção a cada mastigada – alimentando-se com consciência – é a maneira de obter satisfação plena. Mastigar um simples pedacinho com toda a concentração é muitíssimo diferente de simplesmente engoli-lo. Algumas pessoas se surpreendem diante de coisas que nunca tinham observado.

A meditação a seguir faz uso do poder da atenção para melhorar a digestão e o metabolismo, além de toda a experiência sensorial do ato de comer.

Deve ser realizada quando você estiver comendo sozinho e sem distrações. Essa técnica demanda desaceleração e intenção deliberada em cada movimento:

1. Comece olhando para a comida e absorvendo-a visualmente. 2. Tome consciência do aroma da comida. Aprecie-o por um instante. 3. Ao se servir, saboreie completamente cada bocado, sem distrações. Observe quais sabores

consegue identificar, orientando-se pelos seis sabores do aiurveda (tratados nas páginas 105-119). Aprecie a textura de cada pedaço ao mastigar.

Este exercício de se alimentar com atenção aguça a consciência; não é para ser praticado continuamente. Fazendo isso em uma ou duas refeições por semana, gradualmente transformamos a nossa relação com o alimento, conseguindo um nível mais profundo de nutrição.

Uma palavra sobre inflamação

Pesquisas médicas modernas estudaram a inflamação como uma contribuição importante para muitos tipos de doenças, inclusive o diabetes tipo 2, doenças cardíacas e vários tipos de câncer. É difícil entender as origens de uma inflamação, pois se trata de um processo extremamente necessário e, ao mesmo tempo, prejudicial. A inflamação aguda é a resposta normal do corpo a qualquer ferimento ou ataque por bactéria, vírus ou fungo. Quando se torce o tornozelo, logo começamos a perceber o aquecimento da região, seguido de inchaço, vermelhidão e dor. É o nosso sistema imunológico trabalhando para proteger e curar os tecidos lesionados. A inflamação aguda é temporária, dura apenas alguns dias, no máximo, semanas. Sem ela, os ferimentos e as infecções não sarariam. Mas a febre é uma forma prejudicial de inflamação aguda, assim como a inflamação forte que leva as vítimas de queimaduras ao choque, ameaçando a vida delas.

Nem toda inflamação é aguda: a inflamação crônica é de longo prazo, e pode durar vários meses ou até anos. Em vez de ajudar na cura do corpo, ela exaure as células e os tecidos, e está relacionada a doenças crônicas. No início, poucos sintomas ou nenhum indicam a existência de algum problema. Em geral, quando a pessoa está se sentindo saudável e bem, não há necessidade de uma reação inflamatória, mesmo assim é o que parece acontecer em muitas pessoas. A causa desse estado crônico é complexo e ainda pouco compreendido, mas sempre que o nosso corpo se desequilibra, os tecidos podem se inflamar, sendo a causa mais provável um leve estresse crônico. Excesso de peso, gordura no abdômen e falta de sono também podem contribuir, já que tudo isso está relacionado a hormônios do estresse e desequilíbrios metabólicos. As toxinas dos herbicidas, pesticidas e de vários aditivos químicos também são suspeitas, e levaram alguns pesquisadores a culpar os alimentos muito refinados e processados como fomentadores de inflamações no organismo, sobretudo diante do uso generalizado de hormônios na ração dos animais para apressar a formação dos músculos e aumentar a produção de leite das vacas leiteiras.

Pesquisadores da área médica e nutricionistas também se referem à inflamação crônica quando falam sobre alimentos ou dietas inflamatórios. Alguns alimentos, ao que parece, contribuem para a inflamação crônica, enquanto outros ajudam a reduzi-la. Gorduras trans, sódio e conservantes são fontes potenciais importantes de inflamações crônicas. Alimentos integrais e frescos diminuem a inflamação e propiciam fibras valiosas, que podem amenizar a inflamação.

Em geral, se evitamos congelados, sobras, produtos artificiais, alimentos preparados em micro-ondas e enlatados e damos preferência a alimentos frescos de verdade, estamos oferecendo nutrientes anti-inflamatórios ao organismo.

 

Os seis sabores das refeições

De acordo com o aiurveda, uma maneira simples de garantir uma alimentação equilibrada é incluir todos os sabores que existem em todas as refeições. Eles são seis: os quatro de sempre – doce, azedo, salgado e amargo – e ainda mais dois, o pungente e o adstringente.

A ampla variedade de alimentos na natureza fornece esses seis sabores. Nos séculos anteriores à nutrição moderna, incluir esses seis sabores em todas as refeições garantia que os principais grupos alimentícios e nutrientes estivessem representados, além de propiciar uma satisfação completa, o que também é importante no aiurveda.

Quando ficamos satisfeitos ao final de uma refeição, é muito menos provável que ataquemos a geladeira duas horas depois com aquela sensação de vazio.

Uma dieta norte-americana típica tende ao predomínio dos três sabores básicos de guloseimas e fast-food: doce, azedo e salgado (os principais sabores do “molho especial” do Big Mac, por exemplo). Sim, precisamos desses sabores, diz o aiurveda, mas em excesso geram vontades e, portanto, desequilíbrio. Para dizer o mínimo, se ficamos apenas no doce, azedo e salgado, excluímos as verduras folhosas, principal fonte do amargo, e a maioria das leguminosas e legumes, que são adstringentes, de acordo com a medicina oriental aiurvédica. No esquema ocidental, esses dois sabores também agem como anti-inflamatórios.

Traduzindo o aiurveda em termos ocidentais, os seis sabores são os códigos que informam o sistema nervoso sobre o conteúdo nutricional de uma refeição. A evolução combinou sabores e benefícios dos alimentos – uma sabedoria milenar da experiência. A sensação de sabor é tão sutil que, ao contrário de mamíferos cuja demanda nutricional pode ser satisfeita com uma pequena série de alimentos (por exemplo, os leões se abastecem de gazelas e outros antílopes), ou até com um único alimento (por exemplo, os coalas comem apenas folhas de eucalipto), os seres humanos acham enjoativo um único sabor o tempo todo – percorremos todos os sabores a fim de obter satisfação.

Vamos considerar os sabores em detalhes. Nem todas as fontes dos seis sabores coincidem exatamente com a nossa percepção normal, embora isso aconteça com a maioria deles. Vamos também mencionar alguns benefícios em potencial para a saúde, mas é preciso fazer uma advertência. Há exaustivas pesquisas em andamento sobre como certos alimentos podem ser eficazes na prevenção de um grande número de transtornos devidos ao estilo de vida, tais como doenças cardíacas, diabetes e câncer. No entanto, o fato de uma pesquisa médica isolar um composto promissor não deveria ser considerado uma prova positiva de que vamos receber um benefício importante, nem as alegações tradicionais do aiurveda podem substituir estudos cuidadosamente controlados. O importante é o efeito holístico de uma dieta natural, na qual todos os componentes benéficos dos alimentos entram em ação. A medicina moderna, em convergência com o aiurveda, reconhece que as causas das doenças crônicas estão relacionadas umas com as outras; portanto, depois de décadas em busca da fórmula mágica, é maior o respeito pelas soluções holísticas.

 

Doce

Fontes: grãos, cereais, pão, massa, frutas secas, leite, laticínios e óleos são classificados como alimentos doces, juntamente com todos os peixes, aves e outras carnes. Além das frutas maduras, existem hortaliças doces, inclusive o tomate (tecnicamente uma fruta), ervilhas, milho, inhame e batata-doce.

No aiurveda, os alimentos que oferecem o sabor adocicado são considerados os mais nutritivos, ricos em carboidratos, proteínas e gorduras. Alimentos com amido, sem adição de açúcar, também pertencem à categoria dos doces, pois a ação da saliva os converte em açúcar. (O açúcar refinado e processado e o xarope de milho não eram conhecidos na Índia quando o aiurveda se estabeleceu.) Se analisarmos uma nota de compras na saída do supermercado, é provável que reconheçamos o grande consumo de alimentos dessa categoria de sabor mais do que qualquer outra. O açúcar adicionado aos alimentos e guloseimas industrializados reforça o sabor doce além dos limites saudáveis, como já foi confirmado pelos nutricionistas. Como a categoria dos doces abrange uma ampla gama de substâncias comestíveis, dos mais diversos doces à quinoa, é importante saber que no Chopra Center jamais nos referimos ao açúcar refinado como fonte do sabor doce. Todos os sabores deveriam ser equilibrados e nutritivos; as calorias vazias estão longe disso. Em geral, recomendamos:

Preferir alimentos ricos em carboidratos complexos, incluindo pelo menos cinco porções diárias de hortaliças. Uma porção de hortaliças significa ½ xícara de qualquer legume cozido ou 1 xícara da maior parte dos verdes. Devemos escolher entre uma ampla variedade de hortaliças verdes e amarelas.

Reduzir o consumo de todos os alimentos à base de farinha. A ação do fermento nos pães transforma amido em açúcar. Atenção: mesmo que o pão tenha o rótulo de “farinha integral” ou “grão integral”, é em geral feito de grãos que foram transformados em farinha, e não de grãos inteiros ou quebrados. Por isso, em termos de taxa de glicemia, a maior parte dos pães de farinha integral se classifica como os pães brancos (ou seja, o carboidrato deles não é mais do tipo complexo, mas simples, elevando a taxa de insulina e de açúcar no sangue). Em vez de

comer pão, devemos priorizar grãos em seu estado natural, como a quinoa, o arroz integral, o painço e os grãos de trigo. No final deste livro, apresentamos várias receitas deliciosas com alguns desses ingredientes.

Quando desejamos alguma coisa realmente doce, melhor que o açúcar seja o mais complexo possível, ou seja, sobremesas feitas com frutas integrais ou a própria fruta. Frutas enlatadas na calda, assim como sucos de frutas, não são recomendados – esse açúcar é simples ou foi separado da casca e de outras fibras. Não devemos passar de duas ou três porções de fruta por dia. Uma maçã, pêssego, pera ou banana; meia xícara de frutinhas vermelhas; ou metade de um pequeno cantalupo (variedade de melão) são exemplos de uma porção de fruta. Em vez de carne ou aves, devemos preferir fontes vegetais de proteína, inclusive leguminosas, legumes, sementes e frutas secas. Embora com alto teor de gordura, a maior parte é gordura poli-insaturada ou monoinsaturada, que é melhor do que a gordura saturada encontrada nos produtos de origem animal. Devemos eliminar da dieta as gorduras hidrogenadas e trans, originadas a partir de um processo químico que transforma óleos líquidos em gorduras sólidas. As oleaginosas (nozes, amêndoas etc.) contêm muitos fitonutrientes benéficos (dos quais trataremos adiante em mais detalhes) e demonstraram ter níveis baixos de colesterol. Devemos preferir laticínios frescos e orgânicos. Embora existam controvérsias sobre os benefícios dos laticínios para a saúde, no Chopra Center defendemos que, a menos que alguém tenha alergia, o consumo moderado de laticínios desnatados tem como efeito equilibrar e realçar a sensação dos seis sabores.

Se a pessoa não é vegetariana, deve diminuir o consumo de carne vermelha, preferindo os peixes de água fria e aves magras. Devemos lembrar das esclarecedoras descobertas de 2013, sobre os benefícios da dieta mediterrânea na redução de doenças cardíacas e derrames. Esse estudo feito na Espanha e amplamente divulgado não afirma que a dieta mediterrânea reverta a doença cardíaca, mas que é considerável a diminuição de incidências de ataques cardíacos e derrames se comparados com o grupo controle que simplesmente reduziu o consumo de calorias. A dieta mediterrânea é rica em peixes, oleaginosas, frutas frescas, hortaliças e azeite de oliva, com menos manteiga, queijo e carne vermelha em comparação à dieta ocidental média. Preferir gorduras e óleos derivados de fontes vegetais e peixe. O óleo de cozinha deve ser monoinsaturado, como o azeite de oliva, ou poli-insaturado, como o de canola, girassol ou açafrão. Uma pequena quantidade de manteiga (menos de 1 colher de sopa por dia) acrescenta sabor doce com uma dose de colesterol aceitável.

Ajuda para formiguinhas

Entre todos os sabores, a maior ansiedade das pessoas é pelo doce. Talvez porque o adocicado tem um efeito calmante, levando-nos de volta ao peito materno. Se alguém é apaixonado por doces, deve fazer uma dieta bastante equilibrada, incluindo os seis sabores preparados de maneiras deliciosas. A completude é satisfatória em si, muito mais que uma dose de açúcar.

Se a pessoa consome os seis sabores todos os dias e ainda anseia por doce, deve reconhecer que esse desejo exagerado vem de um condicionamento sobretudo social e quase todo da infância. Ela não deve se exigir muito enquanto muda esse hábito antigo. Não deve ficar fanática e querer eliminar o consumo de açúcar refinado de uma vez – cortar os quilos de açúcar branco que em geral fazem parte da maioria das dietas já é uma conquista, mesmo sem chegar à total abstinência dele. Como provavelmente todo mundo já experimentou, sempre que reprimimos um desejo para tentar ter a alimentação mais natural possível, a recaída é inevitável.

Um alimento que ajuda a diminuir a ansiedade por açúcar é o leite. Ele tem o sabor adocicado e tem um efeito tranquilizador sobre a fisiologia dos adultos, não apenas das crianças. Se alguém sempre anseia por doces e não é vegano, pode experimentar uma xícara de leite morno, talvez no café da manhã. O mel também pode reduzir essa ansiedade por doce. Pode-se usar uma xícara de água quente com uma colher de chá de mel e acrescentar gotas de limão.

Dicas para o desejo por açúcar

Se você tem desejos incontroláveis por açúcar, pode tentar algumas destas estratégias:

Não consuma guloseimas adocicadas (refrigerantes, bolinhos ou barras de chocolate) isoladamente. Uma dose de açúcar faz a gente querer ainda mais, além de ter efeitos drásticos sobre a insulina e o nível de açúcar no sangue. Espere até o almoço ou o jantar, quando os outros grupos de alimentos podem amenizar os efeitos do açúcar. Tente se desligar do açúcar. Para beliscar, fatie uma maçã ou outra fruta qualquer e polvilhe com uma colherzinha de açúcar ou mel. Isso oferece um intenso sabor açucarado, mas a quantidade real de açúcar ingerido é mínima, e a fruta natural vai ajudar a amenizar o efeito. Não use adoçantes artificiais. A gente acha que está enganando o corpo com um refrigerante diet, mas só o sabor doce já é o suficiente para alterar o açúcar do sangue e para alimentar a vontade de mais sabor doce.

Espere dez minutos antes de pedir uma sobremesa num restaurante. Tome uma xícara de café ou chá ou se distraia com uma boa conversa. Dar a oportunidade de o corpo registrar que não está com fome é meio caminho andado para baixar essa ansiedade por açúcar. Antes de se dar uma dose de açúcar, pare, feche os olhos e espere um instante. Pergunte-se se quer mesmo fazer essa escolha. Se não, essa ansiedade muitas vezes passa naturalmente. Mesmo que você se dê essa dose, deve continuar repetindo esse exercício. Quanto mais chances nos dermos para tomar a decisão certa, maior a taxa de êxito.

Se comermos com moderação, com consciência, não vamos abandonar as melhores intenções e nos flagrar devorando uma caixa de biscoitos. Apresentamos algumas receitas de sobremesa no final do livro. Se nos restringimos a comer sobremesa uma ou duas vezes por semana, o nosso organismo logo volta a um estado de equilíbrio. De qualquer modo, o doce deve ter sabor de prazer, sem carregar a culpa junto.

 

Azedo

Fontes: alimentos como queijo feta e vinagre trazem o sabor azedo. As melhores fontes são as frutas frescas, como maçã, damasco, morango, cereja, mirtilo, framboesa, grapefruit, uva, limão, laranja, abacaxi e tomate. O iogurte orgânico é uma boa fonte de sabor azedo e oferece bactérias acidófilas, que são úteis para equilibrar o trato digestivo.

O sabor azedo resulta da ação química de ácidos orgânicos nas papilas gustativas. Todos os ácidos são sentidos como azedos, inclusive o ácido cítrico, o ascórbico (vitamina C) e o acético (vinagre). Uma pequena dose de sabor azedo desperta o apetite e estimula a digestão. Pode também diminuir o vazio do estômago, reduzindo o efeito dos carboidratos de estimular a insulina.

O aiurveda considera que a fermentação tem efeitos maléficos sobre o corpo, portanto não recomenda que se obtenha o sabor azedo a partir de vinagres e queijos curados. É aconselhável diminuir o consumo desses queijos porque em geral têm taxas altas de colesterol e calorias. Os queijos frescos são mais aceitáveis, embora os industrializados talvez usem químicas para separar o coalho e o soro. O processo caseiro aposta no suco de limão ou numa pequena quantidade de vinagre.

As frutas de sabor azedo são associadas a poderosos benefícios para a saúde. São em geral excelentes fontes de vitamina C e flavonoides, que nos protegem de doenças cardíacas e câncer, de acordo com alguns estudos. Oferecem fibras solúveis, que reduzem as chances tanto de doenças coronarianas quanto de diabetes. Muitos condimentos fermentados, como picles, azeitonas e chutneys, também apresentam sabor azedo. Embora ajudem a estimular a digestão, é melhor consumi-los em quantidades pequenas. Obtenha a maior parte de suas porções de azedo preferindo mais frutas ácidas e menos molhos de salada e alimentos fermentados ou picles.

 

Salgado

Fontes: além do sal de mesa comum, o sabor salgado está presente no peixe, no shoyu, no molho tamari, nas algas marinhas e nas carnes embutidas ou defumadas, como bacon, linguiças e presunto.

Assim como o sabor doce, o sabor salgado é necessário com moderação e perigoso se levado a extremos. Esse sabor é o dos minerais que produzem íons na língua. Esses sais minerais, que refletem a nossa herança marinha de bilhões de anos atrás, são fundamentais para o equilíbrio químico do organismo. Essencialmente, somos um oceano ambulante, mas um século atrás consumíamos um terço do sal que em geral consumimos hoje em dia. Os alimentos industrializados e com conservantes normalmente têm alto teor de sódio. Somando-se aos enlatados, fast-food, queijos e condimentos, temos as principais fontes de sódio da nossa dieta.

No aiurveda, o sabor salgado propicia a digestão, é levemente laxante e também tem um efeito ligeiramente relaxante. Sal em demasia pode levar à retenção de líquido e desempenhar um pequeno papel no desenvolvimento da osteoporose. Em termos médicos, a preocupação com o sal está relacionada principalmente à pressão alta, mas não existe um teste fácil para sabermos se somos sensíveis ao sal. Os rins são responsáveis por eliminar o excesso de sal do organismo, e em geral são confiáveis. Porém, à medida que envelhecemos, ou se os rins entram em declínio por alguma outra razão, o sal se torna mais perigoso. A quantidade de sal que o organismo realmente necessita é muito pequena, cerca de 0,5 gramas, ou menos de ½ colher de chá. Podemos usar um pouco do sal de mesa a gosto, mas quase ninguém corre risco com menos sal na dieta. O jeito mais prudente é continuar reduzindo o consumo de sal constantemente até atingir um mínimo confortável. Se reduzimos o sal gradualmente, nos surpreendemos com a facilidade de as papilas gustativas se adaptarem ao menor sinal de sal.

 

Amargo

Fontes: hortaliças verdes e amarelas são a principal fonte do sabor amargo, inclusive as folhas verdes das saladas (chicória, rúcula e endívia); e o amargor menos pronunciado do pimentão, brócolis, salsão, acelga, berinjela, espinafre e abobrinha. Muitas ervas também apresentam o sabor amargo e elementos vantajosos numa refeição equilibrada. Camomila, coentro, cominho, endro, feno-grego, alcaçuz, ruibarbo, alecrim, açafrão, sálvia, estragão e cúrcuma são exemplos de ervas culinárias e condimentos que contêm o sabor amargo.

O sabor amargo reprime o apetite e tem um efeito calmante. Combinado com o doce, como na água tônica, ele esfria o organismo no calor do dia. Equilibra o efeito de saturação do excesso de doce e a tendência que os alimentos salgados têm de nos fazer comer em excesso. Pequenas quantidades de sabor amargo realçam os outros sabores da refeição. Além disso, o amargo pode ser usado estrategicamente. Se comermos folhas amargas em uma salada ao final de uma refeição, o apetite vai diminuir e com ele o desejo de uma sobremesa.

O amargo espelha os muitos fitoquímicos (do latim phyto, planta) naturais contidos nos vegetais. Além de normalmente serem saudáveis, o aiurveda acredita que combatem o envelhecimento precoce. Por exemplo, o brócolis e a couve-flor são ricos em fitoquímicos conhecidos como isotiocianatos, que parecem desempenhar algum papel na prevenção de câncer e de doenças cardíacas. O aspargo, o pimentão verde e o repolho são ricos em outros flavonoides que podem proteger o organismo de danos genéticos, combater infecções e até reduzir o risco de perda de memória.

Além de dietéticas, a maior parte das ervas medicinais, como a babosa, erva-de-são-cristóvão, equinácea, genciana, hidraste, alcaçuz, passiflora, escutelária e erva-de-são-joão, é predominantemente amarga devido a altas concentrações de fitoquímicos.

 

Pungente

Fontes: a pungência é o sabor picante encontrado em várias ervas e condimentos, e também na pimenta, cebola, alho, gengibre, rabanete, mostarda e salsão. É também encontrada em ervas pungentes não consideradas tão picantes, como hortelã, manjericão, tomilho e alecrim.

A pungência, que descrevemos como picante ou condimentado, em geral vem de óleos essenciais, que são antioxidantes naturais. Na verdade, sua habilidade de neutralizar os radicais livres causadores de deterioração talvez explique por que os condimentos eram comumente usados para conservar os alimentos antes da invenção da geladeira. O aiurveda também considera antibacterianas as substâncias químicas naturais dos condimentos picantes.

Algumas pesquisas indicam que os compostos naturais presentes na família da cebola, inclusive no alho-poró, na cebolinha e no alho, podem baixar os níveis de colesterol e a pressão sanguínea. Outras pesquisas apontam que esses alimentos pungentes protegem o organismo de elementos cancerígenos presentes no ambiente. E, por abrir as vias respiratórias, as pimentas às vezes são recomendadas para problemas respiratórios e para limpar os seios da face. Deixando de lado qualquer possível benefício para a saúde, no aiurveda, o principal encanto das ervas e condimentos é que eles transformam o ato de comer em uma experiência mais variada e colorida. A pungência é o mais estimulante dos seis sabores. Nos países tropicais, a gastronomia conta com esse sabor para animar e energizar as pessoas, contrapondo-se ao efeito letárgico de um longo dia de calor.

 

Adstringente

Fontes: o sabor seco e um tanto ácido dos alimentos adstringentes é mais familiar de bebidas como o chá e o café. As principais fontes são todos os tipos de leguminosas, como a soja, a lentilha, ervilha, grão-de-bico. Porém, uma leve adstringência está presente em muitas frutas e hortaliças, como a maçã verde, alcachofra, aspargo, pimentão, salsão, cereja, mirtilo, pepino, figo, limão, cogumelos, romã, caqui, batata e espinafre. O centeio e o leitelho são bastante adstringentes.

O sexto sabor, o adstringente, é o menos conhecido do paladar ocidental, mesmo sendo o mais predominante nos chás. De acordo com o aiurveda, os alimentos adstringentes expandem o efeito seco, concentrado e ácido por todo o organismo. Embora a medicina tradicional não classifique as propriedades adstringentes como sabor (a língua não tem papilas gustativas específicas nem para a pungência nem para a adstringência), o aiurverda considera que a química natural que produz adstringência oferece benefícios para a saúde: ajuda a regular a digestão (combatendo a diarreia, por exemplo) e reforça a cicatrização de ferimentos. As leguminosas adstringentes são ricas em carboidratos complexos, proteína vegetal e fibras solúveis e insolúveis.

Boas notícias para os amantes do café

Durante muitos anos, as pessoas que adoram uma xícara de café forte recém-preparado sentiram-se culpadas por seus malefícios para a saúde. Um substancioso número de pesquisas, no entanto, sugere que beber entre três e cinco xícaras de café por dia tem o potencial de prevenir uma ampla gama de doenças, como diabetes tipo 2, doença de Parkinson, doença de Alzheimer, câncer e doenças cardiovasculares.

Embora os pesquisadores ainda estejam trabalhando para descobrir por que o café traz tantos benefícios, já sabem que ele contém poderosos antioxidantes que ajudam a evitar que radicais livres causem danos aos tecidos do organismo. O café também contém traços de minerais como magnésio e cromo, que fazem o organismo produzir insulina, regulando assim o açúcar do sangue.

Dando preferência ao café orgânico, não ingerimos pesticidas nem outras toxinas que contribuem para anular os benefícios dessa saborosa bebida matinal. Além disso, devemos evitar adoçantes artificiais, como a sacarina, o aspartame ou a sucralose, pois contêm substâncias químicas tóxicas ao organismo, de acordo com o aiurveda.

 

E o álcool?

Embora algumas bebidas alcoólicas, como o vinho tinto, tenham propriedades antioxidantes, o aiurveda considera que os efeitos negativos do consumo de álcool excedem qualquer benefício que ele possa ter para a saúde. Em primeiro lugar, o álcool tem altos níveis de açúcar e calorias, oferecendo relativamente poucos nutrientes (nenhum em sua forma pura, como na vodca). Uma caneca de cerveja ou 230 ml de vinho apresentam 200 calorias; 30 ml de licor destilado têm cerca de 80 calorias. As calorias do álcool contribuem facilmente para o ganho de peso e a obesidade. Quando consumido em excesso, também tem o potencial de prejudicar todos os sistemas do organismo, inclusive o sistema nervoso central, o fígado e o trato digestivo.

Mesmo consumido com moderação, o álcool interfere na qualidade do sono de algumas pessoas. Quando não dormimos o suficiente, nosso organismo diminui a produção do hormônio leptina, que gera uma menor satisfação quando nos alimentamos. Ao mesmo tempo, a falta de sono dispara um aumento da produção do hormônio grelina, estimulando o apetite e nos levando a comer mais. Esse desequilíbrio contribui com o aumento de peso.

O terceiro argumento contra o álcool é que ele enfraquece a consciência. E este livro vem estimulando constantemente a descoberta da consciência para expandi-la em busca de mais alegria, equilíbrio e bem-estar.

O álcool é o oposto dessa intenção, pois entorpece as emoções, esgota a energia e diminui a clareza mental.

Reconheço que, apesar dessas advertências, beber faz parte da vida cotidiana de milhares de pessoas. Beber suaviza as relações sociais, complementa as refeições nos restaurantes e, ao término de um dia difícil, é a automedicação escolhida. Se desejamos beber, o melhor jeito é nos limitarmos a uma taça de vinho ou um equivalente – um coquetel, uma latinha de cerveja – e acompanhar a bebida com algum alimento. O nosso organismo vai agradecer se esse consumo não for diário. Apesar da tradicional tolerância médica com “beber um pouquinho”, não se iluda: aqui você está descobrindo como melhorar sua saúde e bem-estar. Como é comprovado que o álcool desempenha um papel na formação de doenças, há grandes chances de que ele não faça parte de nenhum programa para melhorar a saúde.

 

Resumindo os seis sabores

A fim de incluir os seis sabores em todas as refeições, é preciso experimentar alimentos diferentes e novos temperos. As receitas apresentadas ao final deste livro oferecem uma variedade de paladares inspiradores. Se for difícil incluir os seis sabores em uma determinada refeição, é aconselhável pelo menos tentar provar cada um deles ao longo do dia. Depois de começar a fazer isso, fica cada vez mais fácil incorporá-los à dieta.

 

Principais Efeito na fisiologia do

Sabor Fontes alimentares

componentes corpo e da mente

Prefira: grãos integrais, frutas, hortaliças

com amido e laticínios orgânicos com

baixo teor de gordura Tem efeito calmante sobre o

Carboidratos,

Doce Reduza: carne (inclusive frango e peixe), organismo; traz satisfação e

proteína e gordura

melado e mel forma massa muscular

Elimine: açúcar, grãos, massa e arroz

refinados

Prefira: frutas cítricas, frutas vermelhas e Ácidos orgânicos: Estimula o apetite e ajuda a

tomates ácido ascórbico, digestão (mas pode irritar o

Azedo

Reduza: picles, alimentos fermentados e ácido cítrico e estômago para quem sofre

álcool ácido acético de azia)

Não se preocupe em consumir alimentos

salgados, pois o sal está presente em Reforça o apetite e acentua

muitos dos alimentos que consumimos os outros sabores; o excesso

Salgado Sais minerais

Reduza: alimentos muito salgados, como de sal, porém, embota o

batatas fritas, salgadinhos, carnes salgadas paladar

e molho de tomate pronto

Desintoxica o organismo; o

Amargo Prefira: todas as hortaliças verdes e Alcaloides ou consumo excessivo pode

amarelas glicosídeos

causar gases ou indigestão

Prefira: porções pequenas de alimentos

Propicia o suor e limpa os

picantes, como cebola, alho, pimenta-de-

Pungente Óleos essenciais seios da face; estimula o

caiena, pimenta-do-reino, cravo-da-índia,

metabolismo

gengibre e mostarda

Provoca ressecamento e

Adstrin- Prefira: lentilhas, ervilhas, maçã verde, sensação de peso no

Taninos

gente cereja, figo, chá verde, romã organismo; regula a digestão

e ajuda na cicatrização

 

A expansão dos sabores

Nasci na Índia, logo depois que o país conquistou a independência dos britânicos, em 1945. Os meus pais tinham um imenso orgulho de fazer parte dessa nova geração, mas ainda se voltavam para o Ocidente. O meu pai, também médico, não tinha paciência alguma com a medicina tradicional indiana. Para ele, o aiurveda pertencia a um mundo de curandeiros de vilarejos, que receitavam remédios caseiros, algo superado pela avançada medicina ocidental.

Meu irmão Sanjiv e eu seguimos os passos dele, e ambos nos tornamos médicos em Boston, nos Estados Unidos. Tive que mudar muito meu jeito de ser, tanto social quanto pessoalmente, para o aiurveda me tocar. Quando por fim isso ocorreu, reconheci não apenas um sistema medicinal, mas um modo de vida milenar que oferecia ao ser humano um lugar harmonioso e holístico na natureza. Nele, o corpo não era visto como uma máquina que, ao quebrar, é levada ao médico para fazer reparos específicos. Era um espelho do cosmos, e seu ritmo estaria relacionado às estrelas e às marés; as células plenas de inteligência, com o propósito de fazer da existência diária algo prazeroso e produtivo.

De acordo com esse modo de vida chamado aiurveda, sintonizar-se com o corpo não é uma escolha acidental – é um vínculo com a mais profunda inteligência da natureza. Dito assim, “sintonizar” parece genérico e amorfo demais, parece não passar de verificar se alguma parte do seu corpo dói. Mas no aiurveda sintonia é algo bem específico. Os seis sabores demonstram como o conhecimento aiurvédico é preciso, e eles são apenas uma frequência, por assim dizer, do sistema de mensagens do organismo. O aiurveda trata da troca entre a mente e o corpo, antecipando-se em séculos ao entendimento moderno sobre o ciclo de feedback. Depois de mapear o sistema de mensagens do organismo em detalhes, esses sábios orientais delinearam um modo de vida que serve para qualquer lugar. Vou apresentar um panorama mais amplo do alcance desses seis sabores.

 

Sabores da emoção

O aiurveda afirma que as emoções são uma parte crucial da conversa entre a mente e o corpo. Os seis sabores não se restringem aos alimentos – são considerados parte da consciência que descreve nossos sentimentos. Em um nível profundo, reconhecemos essa relação porque todos os idiomas usam metáforas de sabor para descrever sentimentos. Um exemplo disso são expressões como “doces sonhos”, “pessoa amarga”, “conversa picante” e “cara azeda”.

Assim como é importante incluir os seis sabores nas refeições, o nosso cérebro reage a todos os sabores da vida, e mesmo que a amargura e a acidez não sejam compreendidas como emoções positivas, os seres humanos se desenvolveram com um desejo de experimentar o máximo da vida – degustamos o doce junto com o amargo. O drama da vida é encenado por opostos. Se alguém é doce o tempo todo, o efeito é de enjoamento, como aconteceria se tomássemos sorvete o dia inteiro. Um toque de acidez acrescenta profundidade, porém em excesso parece afetação. Não devemos realçar demais nenhum sabor emocional, mas, pelo mesmo motivo, não devemos negligenciar nenhum inteiramente. Cada sabor tem um lugar no metabolismo da experiência, e cultivar o equilíbrio de todos eles enriquece a vivência pessoal.

 

Emoções: os sabores da vida

Sabor Equilibrado Desequilibrado

Doce Alentador Enjoado

Azedo Estimulante Cáustico

Salgado Vigoroso Exasperado

Amargo Energizante Ressentido

Pungente Apaixonante Hostil

Adstringente Espirituoso Cínico

 

O arco-íris de cores dos alimentos

Além de incluir os seis sabores em todas as refeições, encher o prato com as cores do arco-íris propicia uma aparência atraente. O que agrada aos olhos agrada ao corpo todo. Vamos fechar os olhos e imaginar que estamos numa ensolarada praia do Caribe. Junto ao azul brilhante da água foi organizado um piquenique exótico na areia. Em vez de porcelana, temos folhas de bananeira. A refeição é um banquete para os olhos: peixe grelhado com brilhantes mangas alaranjadas, um cheiroso arroz branco com raspas de coco e um belo melão cor-de-rosa com gomos de limão. Ao imaginarmos esta refeição, é provável que o nosso paladar seja estimulado pelas imagens e que a expectativa seja de uma experiência feliz. Essas mensagens percorrem todo o organismo.

Podemos criar essas mesmas imagens em tempo real, com comida de verdade. Bastam alguns minutos para acrescentar cores vibrantes a uma refeição com salsinha, hortelã e outras ervas, um gomo de limão-taiti ou siciliano e/ou um bocadinho de chutney – os restaurantes se dedicam para fazer a apresentação do prato valer tanto quanto o sabor. O aiurveda considera as cores como um sabor em si. Imagine um prato de porcelana repleto de peixe cozido no vapor, couve-flor e arroz. O fato de as cores serem claras causa a impressão de uma refeição insossa, mesmo que os sabores sejam variados. Isolada, porém, a cor branca é a cor da pureza. A chave é oferecê-la combinada com outras cores.

Seguem aqui algumas sugestões para acrescentar vibração à paleta de cores de suas refeições. De acordo com o aiurveda, um espectro ideal incluiria todas as cores.

 

Cor Alimentos

Framboesa, maçã, cereja, morango, romã, tomate, melancia, grapefruit rosa, pimentão

Vermelho

vermelho, pimenta malagueta

Laranja, melão, manga, damasco, batata-doce, cenoura, abóbora, caju, cajá, acerola, pitanga,

Laranja

mexerica

Amarelo Limão, banana, abacaxi, pêssego, maracujá, milho, abóbora amarela, pimentão amarelo

Kiwi, maçã verde, limão, uva verde, espinafre, alface, acelga, rúcula, couve, brócolis,

Verde alcachofra, aspargo, salsão, abacate, abobrinha, couve-de-bruxelas, ervilha, agrião,

escarola, pepino

Azul e

Uva roxa, repolho roxo, beterraba, berinjela, ameixa, mirtilo, açaí, jabuticaba, amora

roxo

Pera, coco, cebola, alho, couve-flor, inhame, nabo, alho-poró, mandioca, tapioca, graviola,

Branco

arroz

 

O aiurveda também enxerga aqui uma relação nutricional. Os alimentos com cores fortes e vivas são líderes em antioxidantes e os derivados de plantas contêm muitos fitonutrientes, que reforçam a imunidade maximizando a saúde. As melhores pesquisas atuais sugerem que os alimentos mais medicinais são aqueles que contêm concentrações de compostos vegetais, responsáveis pelo sabor e pela cor. Os seis sabores estão bem coordenados com esses compostos.

A desvantagem em dividir os componentes nutricionais em químicos é que nós não experimentamos realmente os fitonutrientes. É pouco provável que alguém diga a um amigo: “Acabei de comer um delicioso licopeno no almoço” ou “Esse foi o melhor flavonoide que já experimentei!”. Estou incluindo aqui essas informações sobre os fitonutrientes porque conhecimento é poder, mas é melhor nos concentrarmos em fazer das refeições uma experiência enriquecedora. Ao apreciar os prazeres sensoriais de uma alimentação consciente, nutrimos de modo muito mais completo o organismo do que qualquer tabela de valores nutricionais jamais descreveria.

A seguir, veja alguns dos fitonutrientes contidos nas frutas frescas, hortaliças, condimentos e ervas que reforçam a saúde.

 

Fitoquímicos Ação Fonte Sabor

Cebola, brócolis, uva roxa, maçã, Azedo,

Antioxidante, anticancerígena,

Flavonoides cereja, frutas cítricas, tomate, frutas pungente,

protege de doenças cardíacas

vermelhas doce

Compostos Antioxidante, inibe alterações Frutas secas, frutas vermelhas, chá Adstringente,

fenólicos cancerosas verde azedo, doce

Antioxidante, anticarcinogênica,

Sulfetos Alho, cebola, cebolinha Pungente

inibe a coagulação sanguínea

Licopenos Antioxidante, anticarcinogênica Tomate, grapefruit rosa Azedo

Inibe o desenvolvimento de

Isotiocianatos Brócolis, repolho, couve--flor Adstringente

câncer

Bloqueia o câncer estimulado por

Soja e derivados, grão-de-bico, Doce,

Isoflavonas hormônios, baixa o nível de

feijão-carioca adstringente

colesterol

Antioxidante, baixa o colesterol, Frutas vermelhas, cereja, uva,

Antocianinas Doce, azedo

estimula a imunidade groselha

Antioxidante, antibacteriana, Pimenta, canela, salsão, alecrim, Pungente,

Terpenoides

previne úlcera do estômago tomilho, cúrcuma amargo

Anticancerígena, baixa o nível de Linhaça, gergelim, farelo de trigo e Adstringente,

Ligninas

colesterol e a pressão sanguínea azeitonas doce

Cravo, alfafa, brotos de soja, lentilha, Amargo,

Coumestans Anticancerígena

feijão-carioca adstringente

Adstringente,

Anticancerígena, baixa o nível de Salsão, salsinha, cenoura, inhame e

Ftalida amargo,

colesterol e a pressão sanguínea erva-doce

doce

 

Condimentos do bem-estar

Antes que os farmacêuticos entrassem em cena, a medicina tradicional se baseava nas propriedades naturais das ervas, especiarias e em outros produtos naturais. O aiurveda não é uma exceção, e pesquisas desenvolvidas, principalmente na Índia, continuam a explorar esses remédios. As propriedades medicinais da maioria dos medicamentos não podem ser identificadas previamente com análises químicas grosseiras, então as empresas farmacêuticas ainda esquadrinham a caixa de remédios naturais a fim de encontrar novas curas.

A preocupação deste livro não é com medicamentos, mas, já que o aiurveda é holístico, muitos alimentos recomendados têm propriedades curativas. A seguir, apresentamos os benefícios de algumas especiarias de sabores fortes para a manutenção do bem-estar. As especiarias têm aromas intensos, portanto enviam mensagens fortes ao organismo (sem acrescentar calorias). Embora os pesquisadores tenham isolado os princípios ativos de algumas ervas e especiarias, disponibilizando-os em cápsulas, eles foram despojados de sua condição natural. É definitivamente mais agradável usufruí-los em sua forma natural, preparados com condimentos e ervas frescas.

Observação: os benefícios de cada condimento mencionado a seguir fazem parte da tradição aiurvédica; não há nenhuma pretensão médica. No Chopra Center o objetivo é criar bem-estar. Diante de sintomas de doenças, que o aiurveda considera como um estágio avançado de desequilíbrio, a medicina ocidental é na maioria das vezes mais eficaz, pois é especializada no período depois da erupção da doença. O aiurveda é especializado na manutenção de um equilíbrio de bem-estar prolongado, uma abordagem diferente da medicina ocidental.

Gengibre

O gengibre é uma especiaria pungente e aromática que há muito vem sendo empregada em processos de cura tradicionais para melhorar a digestão e aliviar a náusea, gases intestinais e cólicas menstruais. O aiurveda recomenda o uso da raiz fresca em vez do gengibre em pó. Os pesquisadores descobriram que o gengibre possui fitonutrientes anti-inflamatórios conhecidos como “gingeróis”, bem como poderosos antioxidantes e propriedades antibacterianas. Seguem aqui algumas das novas descobertas sobre os potenciais benefícios do gengibre:

Consumi-lo com regularidade reduz o nível de dor e inchaço em pessoas com osteoartrite ou artrite reumatoide.

Pesquisas apontam que o gengibre possui um componente específico que pode estar ligado aos receptores de serotonina do cérebro, que ajudam a aliviar a ansiedade. O gengibre é eficaz na prevenção dos sintomas de enjoos, inclusive náusea, tontura e vômito. Pequenas doses ajudam a aliviar os enjoos e os vômitos em gestantes, sem os efeitos colaterais dos remédios para enjoo.

Estudos sugerem que o gengibre também ajuda a estabilizar o metabolismo, inclusive reduzindo o risco de diabetes.

O gengibre pode inibir o crescimento de alguns tipos de células cancerígenas humanas, inclusive células do câncer colorretal.

Há muitas maneiras de apreciar o gengibre, e eu incluí neste livro receitas de chá de gengibre e outros pratos. É melhor usá-lo fresco do que em forma de pó – ele terá um sabor superior e maiores níveis de gingeróis e outros compostos anti-inflamatórios. Ao fazer uso do gengibre seco, devemos preferir o produto cultivado organicamente, que não recebeu radiação.

Outra dica do aiurveda: devemos beber chá de gengibre ou água morna antes das refeições. Isso melhora a digestão e diminui a tendência a comer demais.

Cúrcuma

No aiurveda, este lindo condimento amarelo é um remédio. Para começo de conversa, pesquisas descobriram que a cúrcuma apresenta potentes propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes – isso é de grande valor diante das suspeitas da relação entre níveis baixos de inflamação crônica e muitos transtornos devidos ao estilo de vida. Estes são alguns outros usos possíveis:

A cúrcuma exerce sobre o fígado um efeito protetor e ajuda a reduzir níveis elevados de colesterol no sangue.

Em tratamentos de artrite, usada sozinha ou combinada com outros componentes, ajuda a diminuir a dor e a rigidez.

Muitos estudos em animais demonstraram que a cúrcuma pode prevenir ou inibir o desenvolvimento de certas células cancerígenas. A cúrcuma tem um efeito calmante sobre a digestão e ajuda a reduzir o risco de úlceras e indisposições estomacais.

Sendo um antibiótico natural, ela pode inibir o desenvolvimento de bactérias, leveduras e vírus em condições de laboratório.

Um dos principais princípios ativos da cúrcuma é conhecido como curcumina, que não é facilmente absorvido pelo organismo. Mas outro elemento químico, a piperina, da pimenta-do-reino, pode aumentar a absorção da curcumina. A cúrcuma e a pimenta estão presentes na maioria das misturas de curry em pó. Estudos feitos por epidemiologistas indicam que na Índia, onde o curry é o principal ingrediente da dieta cotidiana, as taxas de doença de Alzheimer estão entre as mais baixas do mundo.

Entre a população de 70 a 79 anos, a taxa é 25 por cento menor que nos Estados Unidos. Embora a menor expectativa de vida e morte por outras causas tenham um papel importante, a hipótese de alguns pesquisadores é de que as propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes de um composto como a curcumina talvez sejam um fator relevante na prevenção do Alzheimer. Podemos apreciar a cúrcuma em sopas, hortaliças refogadas e outros pratos. Sua cor vibrante e leve sabor picante oferecem uma nova dimensão ao prato.

Canela

A canela é uma especiaria adocicada, calorosa e pungente derivada da casca interna da árvore de canela. Há aproximadamente cem variedades da árvore Cinnamomum verum, que desde tempos remotos tem sido usada para dar energia e tratar de resfriados, indigestões e cãibras. A canela é um antioxidante poderoso e contém componentes que reduzem inflamações e combatem bactérias, vírus e fungos. A canela pode ajudar a reduzir inflamações crônicas relacionadas a transtornos neurológicos, como doença de Alzheimer, doença de Parkinson, esclerose múltipla e meningite. Os pesquisadores continuam a agregar novas descobertas. Seguem aqui algumas das mais recentes:

Alguns estudos indicam que a Cinnamomum cassia pode ajudar no tratamento do diabetes tipo 2 porque baixa o nível de açúcar do sangue e aumenta a produção de insulina. A canela possui um composto anti-inflamatório conhecido como cinamaldeído, que ajuda a evitar a aglomeração doentia das plaquetas sanguíneas. Estudos descobriram que a canela ajuda a reduzir o nível de colesterol LDL e a diminuir o risco de doenças cardíacas.

Em condições laboratoriais, a canela diminui a proliferação de células cancerígenas de leucemia e linfoma.

Quando combinada com o mel, a canela pode reduzir as dores da artrite. O perfume da canela ajuda a melhorar funções cognitivas, inclusive a concentração, a memória e a agilidade visual e motora.

Quando compramos canela, seja em pau ou em pó, devemos cheirá-la para garantir que esteja com o perfume pronunciado e adocicado.

Pimentas

Empregadas na culinária mundial, tanto as pimentas doces quanto as picantes contêm elementos fitoquímicos com propriedades antioxidantes. (Embora compartilhem do mesmo nome, as pimentas pretas em grão não pertencem à mesma família das malaguetas, pimentões e afins.) As pimentas frescas apresentam variedade de cores, como vermelho, amarelo, verde e roxo. Cada cor está associada a um grupo diferente de fitoquímicos e outros nutrientes. A pimenta-malagueta, por exemplo, é rica em licopenos, luteína (que faz bem para a saúde dos olhos), betacaroteno e vitaminas B6, C e A.

Pimentas como a jalapeño e a habanero apresentam taxas altas de uma enzima chamada capsaicina, um antioxidante natural que nos faz suar e transpirar com uma única mordida.

Os pesquisadores descobriram que pimentas picantes podem aumentar o metabolismo e controlar o apetite, benefícios que ajudam na perda de peso. Seguem aqui algumas das mais recentes descobertas sobre a capsaicina (que é encontrada apenas em pequenas quantidades nos pimentões e em outros tipos adocicados):

A capsaicina ajuda a reduzir a dor ao extrair um elemento químico chamado “substância P”, que transmite sinais de dor para o cérebro. Os estudos descobriram que a capsaicina alivia a dor de cabeça causada por enxaquecas e sinusite.

Estudos em animais apontam que a capsaicina pode ser eficaz para combater células cancerosas no pâncreas, na próstata e nos pulmões.

A capsaicina ajuda na prevenção de doenças cardiovasculares ao reduzir o colesterol e o triglicéride e previne a coagulação doentia do sangue. As pimentas apresentam propriedades bactericidas, que ajudam a combater infecções crônicas dos seios da face.

À medida que as culinárias locais foram se diversificando, incorporando pratos do mundo inteiro, os cozinheiros passaram a usar pimentas em saladas, molhos, guacamole e curry. Devemos experimentar pimentas variadas a fim de obter uma ampla gama dos fitonutrientes que elas oferecem.

Alho

O alho é nativo da Ásia central, mas era também bem conhecido na antiga China, Grécia e Egito. Há séculos essa planta pungente é um gênero de primeira necessidade na região do Mediterrâneo, valorizada tanto pelos propósitos medicinais quanto culinários. Há muito tempo tem reputação de ser eficaz no tratamento e no alívio da congestão pulmonar e da dor e rigidez de artrites. Nas curas tradicionais, o alho também foi usado para acalmar a ansiedade, promover a regularidade menstrual das mulheres e para aumentar a libido masculina. O óleo de alho é aplicado topicamente em músculos inflamados e para acelerar a cura de ferimentos.

Já foram publicados milhares de estudos científicos sobre esse aliado botânico complexo, que contém quase duzentos componentes químicos diferentes. A maioria deles ainda não foi cuidadosamente estudada. Até agora, a maior parte das pesquisas se concentrou na alicina, um fitoquímico do alho que tem muitas propriedades curativas. Veja alguns aspectos desse alimento revelados nos estudos científicos mais recentes:

O alho cru apresenta fortes propriedades antibacterianas, antifúngicas e antivirais. Ajuda a fortalecer o sistema imunológico, previne o resfriado comum e trata de infecções fúngicas e de leveduras.

Pode reduzir o risco de alguns tipos de câncer, como o de mama, próstata, estômago e cólon. Os pesquisadores descobriram que pessoas que consomem mais do que seis dentes de alho por semana têm um índice de desenvolvimento de câncer colorretal 30 por cento menor do que quem não o consome. No caso do câncer de estômago, o índice de desenvolvimento cai 50 por cento. O alho ajuda a aliviar a congestão das cavidades nasais. Alguns estudos indicam que o alho ajuda a reduzir os níveis de colesterol no sangue, embora sejam necessárias mais pesquisas para confirmar essas descobertas e determinar que formas de alho trazem mais benefícios.

Estudos descobriram que o consumo regular de alho ajuda a prevenção da arteriosclerose e de doenças cardíacas ao diminuir as placas e acúmulos de cálcio nas artérias coronarianas, reduzindo a coagulação doentia do sangue e melhorando a circulação sanguínea.

Devemos lembrar que quando o alho é cozido ou seco, ele perde a maior parte de seus benefícios medicinais. Por essa razão, as cápsulas de alho não são tão valiosas para a saúde quanto o alho cru. Quem gosta de pratos temperados com alho, mas não gosta de seu efeito no hálito, pode experimentar mastigar salsinha depois da refeição ou depois de tomar a cápsula.

 

A mais antiga prevenção

Ao dividir cada doença em seus componentes, a medicina científica chegou a uma sofisticação surpreendente. Assim que um novo tipo de gripe é deflagrado, o vírus pode ser analisado em questão de dias. O câncer tem sido acompanhado em um nível molecular e descrito de acordo com o genoma do paciente.

Mas, segundo o aiurveda, esse diagnóstico avançado – que é o grande esforço da medicina científica – entra em cena no final de uma longa série de acontecimentos. Antes que qualquer sintoma apareça, e a intervenção de remédios e de cirurgias seja necessária, o próprio sistema de cura do organismo atingiu um crítico estágio de colapso. Esse colapso é resultado dos ciclos de realimentação sobrecarregados por causa de algum tipo de desequilíbrio grave. O desequilíbrio tem início num nível sutil, que se deixa conhecer através de sinais de conforto ou desconforto. Portanto, a longa cadeia de eventos que culmina na doença na verdade tem início nas escolhas cotidianas, que ajudam o nosso organismo a permanecer em equilíbrio ou o tiram do equilíbrio.

A medicina moderna não nega essa lógica simples. Mas os médicos são treinados para funcionar como interventores, que entram em ação depois que o dano está adiantado demais para que o organismo cuide de si mesmo. Não existe nenhum treinamento para o estado pré-enfermidade, embora nas últimas duas décadas o papel esmagador que a prevenção pode desempenhar tenha começado a impressionar as principais correntes da comunidade médica.

O aiurveda concentra a sua visão em como criar uma vida de boa qualidade, de acordo com práticas que unem mente e corpo. Devemos fazer escolhas mais nutritivas no dia a dia, sejam elas baseadas no aiurveda ou nos princípios expressos pela linguagem dos ciclos de realimentação. Um estilo de vida equilibrado e harmonioso é o mais antigo programa de prevenção. Veja a seguir um resumo do estilo de vida que venho recomendando ao longo deste livro.

 

As nossas melhores escolhas, muito antes

de a doença surgir

Consumir alimentos naturais e integrais.

Acompanhar os sinais de fome e saciedade do organismo. Sintonizar as sensações de desconforto e observá-las. Prestar atenção ao biorritmo diário, sobretudo ao sono. Permanecer num estado de tranquila atenção.

Propiciar energia e leveza na dieta e também na escolha dos exercícios. Lidar conscientemente com níveis de estresse.

Ter um conceito de bem-estar em mente e o segui-lo.

A melhor maneira de prevenir doenças é viver de modo tão harmonioso que o precursor sutil da doença (isto é, os primeiros desequilíbrios) não consiga ganhar apoio do sistema mente-corpo. É esse o pressuposto do aiurveda, e ainda que seus princípios tenham sido estabelecidos há mais de duzentos anos antes do surgimento da ciência, sem nenhuma compreensão técnica da homeostase ou de ciclos de realimentação do cérebro, os melhores conhecimentos atuais sobre bem-estar e doença aproximam-se dos temas mais importantes do aiurveda de modo notável.

Os primeiros sinais de desequilíbrio sistêmico não são misteriosos; todos nós os conhecemos bem: cansaço, falta de energia, insônia, susceptibilidade a resfriados e gripes, azia, dores de cabeça, problemas digestivos, dores sem causa definida, depressão e ansiedade. Quando são ocorrências menores, que ainda não podem ser chamadas de sintomas sérios (a maior parte do tempo), esses sinais não significam muito para a medicina ocidental a menos que persistam. Mesmo assim, pressupõe-se que esses desconfortos não sejam tão sérios quanto doenças em estágios avançados.

A concepção do aiurveda é o oposto dessa, pois enxerga o desequilíbrio inicial como o primeiro elo de uma cadeia de acontecimentos que podem levar à doença propriamente dita. Essa perspectiva, no entanto, tem ganhado espaço rapidamente na medicina científica, uma vez que os pesquisadores perceberam que as mudanças genéticas relacionadas a diabetes, autismo, depressão, esquizofrenia e doença de Alzheimer – para mencionar apenas alguns transtornos mais proeminentes – são geradas anos e às vezes décadas antes que os sintomas apareçam. Também percebemos que o estilo de vida afeta a configuração genética a longo prazo. Os genes não ligam e desligam como um interruptor, mas gradualmente, como um dimmer ou um reostato.

Por essa razão, o que entra diariamente no sistema mente-corpo é muito importante. O organismo foi construído como uma duna, grão a grão, e não como uma parede, tijolo por tijolo. Então, cada dia é como um microcosmo de uma vida inteira – o que comemos, pensamos, sentimos e fazemos está profetizando o nosso futuro. Uma vivência harmoniosa hoje profetiza um futuro harmonioso, o que é diferente de viver como bem entender até o dia em que as coisas desandam, para só então correr atrás do prejuízo para compensar o que foi feito antes. Às vezes, isso é impossível.

O aiurveda consegue resolver esse problema da falta de compromisso? Acho que sim. Apesar das campanhas de saúde pública, as pessoas continuam a ser sedentárias e a se alimentar mal. Uma das principais razões disso é o clima de medo em relação a câncer, doenças cardíacas, derrame, doença de Alzheimer e outras enfermidades relevantes. Essas são doenças sobretudo da meia-idade e da velhice, e as pessoas têm muito medo delas porque estão relacionadas a uma imagem assustadora de degeneração. A motivação baseada no medo raramente funciona a longo prazo. A ansiedade não leva ninguém a cumprir metas no dia a dia.

O aiurveda inverte essa situação tendo o foco nos primeiros desequilíbrios. Afinal, eles não são assustadores, pelo contrário. Ter uma vida harmoniosa e equilibrada traz mais alegria e afugenta o espectro do que poderia ocorrer nos anos de declínio do corpo físico. Estando em equilíbrio, não é preciso definhar. A nova “terceira idade” já substituiu os piores pressupostos de uma velhice inútil, solitária e desapercebida em cadeiras de balanço. A geração dos baby boomers enxerga os 70 anos como uma meia-idade avançada, e uma pesquisa que perguntava aos participantes quando a velhice começava concluiu que a resposta média foi aos 85 anos. A melhor maneira de ter uma vida longa e ativa é ter essa expectativa sempre em mente.

A solução é encontrar um estilo de vida que nos faça feliz aos 20, 30, 50 e 80 anos. Acredito que o aiurveda apresenta uma bela base para tal estilo de vida. Se acrescentarmos outro elemento-chave, podemos fazer da vida inteira uma curva crescente, sem medo do declínio. Esse elemento-chave é ter uma maior consciência e estarmos prontos para explorá-la profundamente. A consciência alimentar é apenas uma aplicação da consciência – um horizonte mais amplo se dispõe quando descobrimos que a consciência oferece a chave para uma maior satisfação mental e espiritual.