Você tem Fome de Quê?
Mude Sua História, Mude Seu Corpo
PARTE 1
A SOLUÇÃO
CHOPRA
MUDE SUA HISTÓRIA, MUDE SEU CORPO
Pontos principais
Você escreve a sua própria história de vida. O seu corpo é uma projeção física dessa história. A sua história traz suas vivências e como você as processa física e mentalmente. Se você está acima do peso, a sua história provavelmente reflete aspectos negativos relacionados à comida, à alimentação e à imagem corporal. Antes de mudar a própria história, você precisa conhecer alguns dados sobre a relação entre a mente e o corpo. Conhecimento é poder.
A fim de ativar essa relação entre a mente e o corpo, enuncie para si mesmo os seus objetivos conscientes. Essa é a mensagem mais poderosa para enviar a seu corpo.
Neste momento, embora sejamos desconhecidos um do outro, estamos fazendo a mesma coisa. Estamos vivenciando a nossa história de vida. A parte mais importante da vida de todos nós poderia ser intitulada: “O que me faz feliz”. Toda história apresenta o mesmo objetivo, pois, ainda que a pessoa A esteja jogando futebol profissionalmente a fim de vencer o campeonato, a pessoa B esteja em um trabalho cotidiano e a pessoa C esteja criando duas crianças pequenas em casa, essas diferenças desaparecem diante do objetivo de ser feliz, da melhor forma possível.
Podemos alterar essa história de modo que um capítulo tenha o título “Como perdi todo o peso que desejava (e o mantive bem longe!)”. Ora, toda história tem um tema que a percorre, e atualmente os temas sobre comida e alimentação provavelmente são negativos. Quando converso com pacientes com sobrepeso, os mesmos temas se repetem, às vezes por décadas. Será que algum deles lhe soa familiar?
Já tentei de tudo e li um monte de livros sobre regimes, mas nada funcionou. Talvez seja melhor desistir.
Acho que o meu excesso de peso é genético.
Não sou atraente mesmo. A minha aparência é uma desgraça. Já estou velho demais para tentar de novo.
O meu corpo é este. Melhor aceitar isso.
Sei que devia fazer exercícios, mas não me entusiasmo. Conheço os alimentos corretos, mas não resisto a tentações e desejos. É tudo muito difícil.
A maioria dos médicos, quando ouve tais declarações, não está prestando atenção às implicações psicológicas – está tentando identificar uma queixa física. Além disso, grande parte dos médicos, inclusive eu mesmo, não recebeu nenhum ensinamento sobre nutrição na faculdade, apenas os ensinamentos mais elementares sobre peso (em aulas de endocrinologia), e não passou tempo nenhum estudando os efeitos dos regimes. Quanto às emoções, elas demandam um psiquiatra ou um terapeuta. Isso não faz parte das atribuições de qualquer médico.
Quando a relação entre a mente e o corpo é ignorada, trata-se de uma medicina incompleta. No histórico das pessoas, os principais temas não são acasos nem irrelevantes. Quando o cérebro recebe dados negativos, ele se altera em conformidade com as mensagens recebidas. O cérebro não tem pensamentos próprios. Não consegue escolher quais orientações obedecer e quais ignorar. É a pessoa, dona da mente, quem escreve a própria história. O que significa ter o maior controle. Pode-se alimentar o cérebro de mensagens negativas ou positivas – a escolha é de cada um.
Sei que a neurociência trata o cérebro e a mente como sendo um só, pois a mente é invisível e o cérebro, um órgão sólido, que pode ser tocado e mensurado. A minha posição é diferente e, acredito, mais próxima da vida real. Para mim o cérebro é como um rádio, que recebe o que a mente tem para dizer. Quando ouvimos a transmissão de um concerto, não confundimos o rádio com Mozart. Se alguém cochicha “eu te amo” em nosso ouvido, somos nós que nos apaixonamos, não o nosso sistema límbico. A mente vem antes, pois a pessoa vem antes.
O nosso corpo é o registro físico da história que vivemos até o momento. Cada quilo representa a escolha de uma certa maneira de comer, e cada mordida recebeu a silenciosa influência de um conjunto de hábitos, uma lista de coisas de que gostamos ou não gostamos, e de maneiras de comer de outras pessoas ao redor. Se não estamos felizes com o nosso peso, esses quilos a mais provavelmente representam algumas vivências infelizes: momentos de frustração, altos níveis de estresse, ansiedade no trabalho ou num relacionamento. Se o nosso corpo representa a nossa história até o presente, a forma mais natural de mudar o corpo é mudando essa história.
De acordo com a minha experiência, quando alguém está acima do peso repete coisas negativas sobre si mesmo. Lembremos: quando alguém muda essas mensagens íntimas, não está apenas falando consigo mesmo. Está escrevendo páginas novas no livro da vida. É essencial mudar as mensagens negativas para, em vez de reforçar comportamentos ruins, começar a reforçar os comportamentos positivos.
Atitude: Reverter as mensagens
Quando nos sentimos insatisfeitos, não é possível nos enganar. Mas é possível reverter as mensagens negativas que nos empatam. A tristeza prospera por inércia – é fácil continuar se sentindo hoje como nos sentimos ontem. O cérebro aguenta a inércia a menos que lhe dermos algo novo para processar.
Portanto, vamos fazer isso. Sempre que os temas familiares enunciados por pessoas com excesso de peso vierem à mente, pare e observe em que você está pensando. Em seguida, substitua esse pensamento por outro contrário, por um antídoto positivo. Assim, você dá um salto no processo de reescrever a própria história, mudando o seu corpo ao mesmo tempo.
Na lista seguinte, as mensagens positivas são apenas sugestões. Fique à vontade para criar as suas próprias mensagens novas. É o melhor jeito de realmente controlar o que o seu cérebro está recebendo.
1. Negativa: “Já tentei de tudo e li um monte de livros sobre regimes, mas nada funcionou. Talvez
seja melhor desistir”.
Positiva: “Hoje é um novo dia. Seja lá o que aconteceu antes, não conta. Sempre existe uma solução”.
2. Negativa: “Acho que meu excesso de peso é genético”.
Positiva: “Não posso mudar a genética, mas posso disparar outros genes que regulam um apetite normal. Afinal, sei que tem gente que perdeu peso aos montes. A genética não foi impedimento, então para mim também não vai ser”.
3. Negativa: “Não sou mesmo atraente. A minha aparência é uma desgraça”.
Positiva: “O patinho feio também se sentia desgraçado até surpreender todo mundo ficando bonito. Vou ser como ele. Já tenho facetas bonitas que as pessoas apreciam. Vou acentuar essas qualidades combinando-as com o corpo”.
4. Negativa: “Sou velho demais para começar tudo de novo”.
Positiva: “A idade não importa, pois perdendo peso volto no tempo. Vou reverter o processo de envelhecimento e ter o meu corpo de volta do jeito que ele costumava ser – e gostava de ser”.
5. Negativa: “O meu corpo é este. Melhor aceitar isso”.
Positiva: “As células do meu corpo estão sendo renovadas o tempo todo. Hoje não tenho o mesmo corpo que tinha há um ano. Então, se estou sempre renovando o meu corpo, posso renová-lo para ficar melhor”.
6. Negativa: “Sei que deveria fazer exercícios, mas não me entusiasmo”.
Positiva: “Não preciso me exercitar se isso é muito difícil agora. Só preciso me movimentar, e existem muitos jeitos de fazer isso. Dançar ou simplesmente praticar ioga, por exemplo, é até divertido. Quando conseguir perceber como é bom caminhar e me movimentar, não vai ser difícil me sentir motivado”.
7. Negativa: “Conheço os alimentos certos, mas não resisto às tentações e aos desejos”.
Positiva: “Esses desejos indicam que o meu corpo quer ser satisfeito. Vou dar a ele o que deseja, sintonizando-me com ele e o escutando. Gostaria de me sentir satisfeito, e comida não é a única maneira de fazer isso. Quanto mais feliz eu for, menos precisarei da comida como muleta”.
8. Negativa: “É tudo muito difícil”.
Positiva: “Privação, disciplina e a luta contra a fome eram as dificuldades. Não vou mais fazer nada disso. Não é difícil buscar a satisfação, e é esse o meu novo caminho”.
Essa substituição por pensamentos novos é na verdade um tipo de terapia cerebral, e usa a capacidade de crença da mente superior. O pensamento é um negócio complicado, mas as convicções ganham poder ao se ligar às emoções. Já é bem-sabido que as lembranças se conservam conosco por muito tempo porque as revestimos de emoções. Do primeiro beijo à repreensão feita pelo professor do primeiro ano, tudo pode permanecer conosco anos a fio, ao passo que acontecimentos sem valor emocional rapidamente desaparecem da memória. (Alguém consegue se lembrar da primeira vez que escovou os dentes ou arrumou a cama? O primeiro detergente que comprou ou quantas vezes estacionou o carro na semana passada?)
As convicções das pessoas com sobrepeso podem ser marcadas com palavras carregadas de emoção: gorducho, derrotado, fracassado, preguiçoso, guloso, relaxado, glutão, feio e assim por diante. Precisamos alterar esses termos pesados por termos novos, igualmente emocionais, mas positivos. Para se sentir bem é preciso que a mente preencha receptores específicos com mensagens químicas. Se esses receptores ficam sobrecarregados positivamente, a comida não vai mais dar fissura – é exatamente o que acontece com os viciados em drogas, cujos receptores de dor e prazer estão tão sobrecarregados que eles precisam de doses cada vez maiores da droga para se satisfazerem. Se alguém fica comendo o dia todo, a resposta cerebral fica enfraquecida. O equilíbrio natural entre fome e saciedade é desligado. É como jogar lenha úmida na fogueira. O combustível está correto, mas não vai pegar fogo.
Nutrido em todos os níveis
Quero apresentar palavras que carregam um colorido emocional positivo: leve, vital, sucesso, vencedor, satisfeito, esperançoso, renovado, livre. Ao alimentar a mente com elas, reforçamos novos caminhos, que afetam todas as células do nosso corpo. Graças à relação entre a mente e o corpo, que é holística, cada palavra nos influencia por inteiro. Todos os níveis da vida são nutridos. Na verdade, “nutrido” é o melhor termo para descrever como você vai mudar a sua vida. Sem dúvida você já sabe o porquê. O alimento satisfaz a nossa necessidade de nutrição; é o oposto da privação. Como somos criaturas complexas, associamos o alimento a várias experiências: ao lar, à mãe, à infância, à família, à união, ao aconchego, à proteção, à abundância, à doação.
São marcas fortes de vivências intensas. Quando as misturamos com vivências negativas que também são intensas, o que é bom fica contaminado. Não estou sugerindo que uma história de vida deva ser cheia de doçura e leveza. Encher a cabeça de propaganda é um equívoco, não tem sentido. Na vida de todo mundo essas marcas intensas – mãe, lar, família, infância – também são carregadas de lembranças de dor e tristeza. Mas a realidade está sempre se renovando. Podemos e devemos inserir novas mensagens se desejamos progredir. Não há motivo para ficarmos presos a condicionamentos antigos e lembranças negativas.
Atitude: Nutrido de leveza e luz
É possível provar a si mesmo como uma palavra nova pode ser nutridora assim que ela passar a ser um tema pessoal. Vamos experimentar com as palavras “leveza” e “luz”. Como “leveza” é o oposto de “peso”, é uma das melhores palavras para o nosso propósito. Quanto mais leveza (e luz) você trouxer para a sua vida, mais fácil será perder peso. Por quê? Porque muitas experiências positivas envolvem leveza e luz. Vejamos estas:
Leveza de coração
Leveza de gestos
Iluminação
Sentindo-se leve e solto
A luz da inspiração
Leveza de ser
Leveza de alma
Luz divina
Se você tivesse todas essas coisas na vida, seria muito mais fácil ter um corpo leve. A sua mente produziria mensagens muito distintas de “pesado, lerdo, inerte, cansado, entediado, sombrio, apagado”. Portanto, comece a se livrar dessas mensagens e deixe o seu corpo ajustar-se à leveza e à luz, a todas as conotações positivas dessas simples palavras.
Nesse cenário é possível continuar usando essas palavras de várias maneiras, iniciando a experiência com uma sensação física de sentir-se leve e iluminado.
Exercício: Nutrindo-se de luz e de leveza
Acomode-se sozinho num lugar silencioso. Feche os olhos e respire fundo algumas vezes até se sentir centrado e pronto. (Se possível, é melhor se sentar ereto do que se recostar numa cadeira.)
Respirando normalmente, visualize uma luz preenchendo o seu peito a cada inspiração. A luz é suave, acolhedora e branca. Observe como ela se espalha pelo seu peito. Agora, expire normalmente, mas deixe a luz onde está.
Ao inspirar de novo, traga mais luz. Observe a luz do seu peito começando a se espalhar pelo resto do seu corpo, descendo pelo abdômen. Não force a visualização, e não se preocupe se tiver dificuldade em perceber a luz – uma leve sensação de luz branca já é suficiente.
A cada inspiração, deixe a luz se espalhar pelos braços, depois pelas mãos, até a ponta dos dedos. Deixe que se espalhe pelas pernas até a ponta dos dedos dos pés. Por fim, mande a luz em direção a sua cabeça, irradiando-a até o alto.
Continue sentado por alguns instantes com essa luz no seu corpo; depois, erga os braços, deixando que pairem acima da cabeça, como se a luz os tivesse levantado. Você parece um balão completamente cheio de luz. Aprecie essa sensação, depois abra os olhos.
Este é um bom exercício para se contrapor aos sentimentos de lentidão, peso, fadiga e tristeza. A sensação de estar fisicamente leve, combinada com a visualização de uma luz branca interna, muda muito a maneira de se relacionar com o corpo. Porém, é possível fazer muito mais com as palavras “leveza” e “luz”:
Prefira alimentos mais leves. Quanto mais frescos e naturais, melhor. Beba bebidas mais leves – água gaseificada com sabor em vez de refrigerante, por exemplo, ou cerveja sem álcool.
Todo dia, faça alguma coisa para se sentir de coração leve. Seja mais gentil com você mesmo e com os outros, com gestos mais leves. Use cores e tecidos mais leves.
Quando se sentir alegre, deixe que os outros vejam o seu brilho interior. Ilumine-se, juntando-se a pessoas que são fonte de inspiração para você. Leia poemas inspiradores e literatura espiritual, nutrindo assim a sua alma.
Quando compreender que a luz nutre todos os níveis, será maravilhoso brincar com esse tema. O significado de uma única palavra pode se transformar em inúmeras atitudes. Uma vida iluminada é tudo o que alguém pode desejar.
Como toda história de vida é complexa, a simplicidade é necessária para que seja possível fazer mudanças sem se perder nas ervas daninhas. Convenhamos, há muita erva daninha pelo caminho, com todas as distrações, complicações, acasos e obstáculos. Qualquer pessoa pode se beneficiar ao fazer uso desses padrões simples. Se você se dedicasse apenas a dois desses temas que temos discutido – leveza e luz – a sua existência seria inteiramente transformada.
Compreensão da mensagem
Vamos aprofundar essa relação entre a mente e o corpo. Em nossa cabeça, as palavras seguem um caminho circular, conhecido como ciclo de feedback:
1. Pensamos alguma coisa.
2. O pensamento é registrado no cérebro.
3. O cérebro envia sinais químicos a cada célula do corpo. 4. As células reagem e reenviam a mensagem ao cérebro.
À medida que a resposta percorre esse circuito, vivenciamos uma nova sensação, emoção ou pensamento. No entanto, alguns aspectos passam despercebidos, e é por isso que a medicina moderna levou décadas para descobrir que todas as ocorrências mentais afetam também o corpo. As pesquisas feitas para descobrir os microscópicos e fugidios neurotransmissores cerebrais – que levam as mensagens de célula a célula – foram bastante cuidadosas.
Transformar as entradas negativas em entradas positivas faz uma diferença imensa. Alguns princípios elementares se aplicam a todo mundo (supondo a ausência de transtornos físicos ou mentais sérios). Já tratamos deles, mas é bom ser claro.
Princípio nº 1: Para mudar o seu corpo, mude primeiro a sua história.
Princípio nº 2: Toda história é sobre como ser feliz.
Princípio nº 3: Se encontrar um jeito melhor de ser feliz do que comendo, o seu corpo naturalmente vai voltar a um estado de equilíbrio.
Se estar acima do peso é algo crônico para você, um ou mais desses princípios elementares precisam da sua atenção. Eis aqui um exemplo de como esse enredo pode sair do controle mesmo que não precise.
Jerry tem 45 anos e um emprego estável. Este ano, passou por um divórcio difícil. Passaram-se dez meses, e tudo indica que Jerry já começou a se consolar comendo demais, pois ele já tem que espremer o começo de um pneuzinho na cintura. Mas isso não o preocupa; ainda não está atrás de outro relacionamento. Pode se soltar um pouco, essa é uma das vantagens de estar solteiro de novo.
Um mês depois, Jerry vai ao médico para um exame de rotina. Ele acha que a enfermeira se enganou quando lhe disse que estava pesando 7 quilos a mais do que no ano anterior. Mas a balança está certa, e o médico de Jerry observa um aumento da pressão arterial e o que chama de uma predisposição ao diabetes. É preciso fazer alguma coisa. Jerry imediatamente começa a frequentar uma academia. Abandona as pizzas congeladas, item principal de sua dieta desde que a esposa o deixou, mas, no fim das contas, ele trabalha demais e só consegue ir à academia uma ou duas vezes por semana. Começa a sair com uma mulher que, segundo ela mesma, não tem nada contra os quilinhos a mais dele – ela mesma vem ganhando alguns. E, embora Jerry não esteja muito satisfeito com o diagnóstico médico, os dois continuam frequentando alegremente restaurantes caros. Uma série de justificativas começa a se juntar em sua mente:
Para minha idade, pareço bem e me sinto bem.
Passei por um período difícil. Posso relaxar um pouco. Jamais gostei que implicassem com o meu peso.
Sou adulto. Posso comer o que quiser.
Tem muita gente pesando mais do que eu.
Não existe vilão nesta história, apenas uma corrente contínua de pensamentos e sentimentos que gradualmente vão dando um resultado ruim. E, enquanto tudo isso acontecia, o circuito mente e corpo estava sempre atento.
A mente tem um poder imenso, portanto, quando começar a mudar a sua história, há um roteiro que precisa conhecer:
1. Não somos o nosso corpo. Somos criadores do nosso corpo. 2. Criamos nosso corpo atual fazendo uso tanto de pensamentos conscientes como inconscientes. 3. Podemos criar um novo corpo através de escolhas conscientes. 4. O corpo é um verbo (um processo), não um substantivo (um objeto imobilizado). 5. O corpo físico é sempre reciclado – quase todo ele – uma vez por ano (o revestimento do
estômago a cada cinco dias; a pele, uma vez por mês; o esqueleto a cada três meses; o fígado a cada seis semanas; o material genético a cada seis semanas).
6. Sempre mudamos a atividade dos genes por meio dos mesmos sinais enviados pelos
pensamentos, emoções e comportamentos.
Como se veem no espelho como um objeto sólido, de pé e firme no espaço, as pessoas não compreendem que o corpo não é uma coisa. É um processo em constante mudança. Imaginemos um edifício que se parece com qualquer outro, porém, quando nos aproximamos dele, vemos que os tijolos ficam saindo do lugar e são renovados o tempo todo. Esse é o nosso corpo. Embora, por exemplo, o esqueleto pareça sólido, ele sempre troca o cálcio com o resto do corpo, e como esses átomos se movimentam, a substituição deles reage a mudanças. O esqueleto de um maratonista é completamente diferente do esqueleto de uma pessoa totalmente sedentária, se examinado no nível das células. Até um par de sapatos novos é o suficiente para alterar a forma dos ossos das pernas. Quando uma pessoa tem 20 anos, a sua coxa tem tanta musculatura quanto gordura. Diante da falta de atividade física, quando ela tiver 50 ou 60, vai ter o dobro de gordura.
Embora os órgãos conservem basicamente a mesma forma, estão sempre mudando seus tijolinhos fundamentais. Por isso, gosto de dizer que o corpo é um verbo, não um substantivo. As pessoas ficam surpresas ao descobrir que isso chega até os genes. Não é possível acrescentar ou perder os genes com que nascemos, mas eles não são fixos, são ligados e desligados por uma série de fatores. O dr. Dean Ornish e seus colegas da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, demonstraram que o rendimento de até quinhentos genes são alterados quando uma pessoa faz mudanças positivas no estilo de vida, tais como alimentar-se melhor, fazer exercícios moderados, meditar ou controlar o estresse.
O maior obstáculo: mensagens confusas
Se a mente tem tanto poder, por que as pessoas se sentem impotentes quando querem mudar? A questão são as mensagens confusas que estão sendo processadas pela ligação entre mente e corpo. Todo mundo que come demais conhece como é lutar contra as vontades e vê-las vencer. Eis um exemplo perfeito de duas mensagens em conflito: uma dizendo “Não devo ceder” e a outra dizendo “Não consigo resistir”.
Se pudéssemos congelar a imagem da mente quando ela vai atrás de uma guloseima tentadora, a escolha entre “coma” e “não coma” seria simples de compreender. A história naquele instante seria: “Não tinha fome de fato, então comi uma cenoura em vez de um doce”. Contudo, tal simplicidade nem sempre acontece na vida real. As mais variadas ocorrências mentais estão acontecendo de uma vez. Imaginemos que seis telegramas estão chegando ao mesmo tempo, mais ou menos assim:
Estou com pressa, não tenho tempo para comer direito. Estou ansioso.
Açúcar me faz muito bem.
Não vou me preocupar com nutrição agora.
A loja de doces fica bem ali.
Bem que eu gostaria de me impedir.
Os seis telegramas chegam juntos ao mesmo lugar. O que acontece em seguida é que a pessoa faz uma escolha. Qual será? Qualquer pessoa adulta sabe que a escolha racional – em termos de saúde, peso, nutrição e satisfação como um todo – é passar longe da loja de doces. Mas cinco desses seis telegramas estimulam a vontade de comer, apenas um é claro e racional. A indústria alimentícia ganha uma fortuna ao contar conosco para ignorar o lado racional e ceder aos impulsos, esquecendo o que nos faz bem e pegando logo o primeiro doce que encontramos.
Enquanto milhares de pessoas entopem o corpo de alimentos nulos em nutrientes e adocicados, a ironia é que só nós temos controle sobre essa conexão entre a mente e o corpo. As palavras “sim” e “não” não são estranhas para nós, e sabemos como pesar os prós e os contras de nossas decisões. A vida inteira é feita de escolhas. Mas a ligação entre a mente e o corpo funciona mal por uma simples razão: os seis telegramas trazem mensagens que estão em conflito umas com as outras. Isso leva a um estado, só recentemente descoberto pela neurociência, conhecido como “inibição cruzada”. Trata-se de um jargão que explica as mensagens conflitantes em nossa cabeça. Todo mundo que luta com o peso sabe como é essa briga:
“Não devo ceder” versus “Não vai ter jeito”. “Isso não me faz bem” versus “Mas é muito gostoso”. “Não posso me prejudicar assim” versus “E daí? Faço isso o tempo todo”.
Inibição cruzada: quem vai ganhar?
As mensagens em nossa cabeça não apenas falam conosco, mas também tentam anular as outras mensagens. Isso é quase literal, como têm demonstrado avançadas pesquisas sobre o cérebro. O grupo de neurônios que envia uma mensagem (“Não pegue este picolé.”) emite sinais químicos para bloquear a mensagem inversa enviada por outro grupo de neurônios (“Vá em frente, pegue o picolé.”). Nesse sentido, o cérebro age como algumas árvores, como as sequoias e nogueiras, cujas raízes secretam substâncias químicas que impedem outras árvores de germinar nas proximidades. Só que, nesse caso, a química defensiva vem de ambos os lados. Uma escolha deve ser feita, no entanto, e as ligações do cérebro são feitas de modo que uma mensagem acaba vencendo, caso contrário viveríamos em constante estado de indecisão.
A inibição cruzada é positiva – se a mensagem vitoriosa for a correta. A mente é bastante eficiente em reduzir decisões complexas a um mero “sim” ou “não”. Pensemos em todos os elementos envolvidos na decisão sobre qual faculdade fazer ou com quem se casar ou ter filhos. Seria insuportável viver em eterna indecisão. O nosso cérebro está desenhado para nos levar a fazer uma escolha, e, o que é ainda mais fascinante, uma vez que o “sim” vença o “não”, a decisão parece definitiva. Em geral, também parece acertada e boa.
Mas às vezes as mensagens negativas pesam injustamente contra as positivas, e então começam os problemas. As escolhas não se acomodam. Aparece um tipo de remorso (“Não acredito que comi tudo isso!”). O que faz o impulso para comer demais ser muito mais forte que o impulso de não comer? Não é a fome em si. A ligação entre a mente e o corpo faz um relato diferente. As mensagens negativas tornaram-se injustamente pesadas por meio da repetição, que altera o cérebro em prol da desistência.
Por que as mensagens negativas vencem?
Hábito.
Um histórico de escolhas equivocadas.
Sensação de fracasso.
Falta de controle do impulso.
Pressão da família e dos companheiros.
Talvez a pessoa não se lembre de todas as vezes que as mensagens negativas venceram as positivas, mas o corpo dela sabe, graças aos caminhos cerebrais mais usados.
Grupos de apoio a obesos tentam reequilibrar a balança. Pode-se telefonar a um padrinho ou colega do grupo, e essa pessoa reforça as mensagens positivas que devem prevalecer. São o inverso das negativas. O que parece ser apoio moral é na verdade uma tática para alterar a fiação do cérebro.
Quando as mensagens positivas vencem
Encontramos um jeito de romper o hábito ruim.
Estabelecemos um padrão de escolhas corretas.
Obtemos uma sensação de êxito.
Controlamos o impulso.
A pressão da família e dos companheiros não exerce influência, não somos levados a comer mais para acompanhá-los.
Essas duas listas levam a uma conclusão valiosa. Engordamos porque as mensagens que levam a comer em demasia têm derrotado as mensagens que dizem “você não precisa comer isto”. (Um monitoramento cuidadoso sustenta essa conclusão. Quando se pede a pessoas com sobrepeso que anotem tudo o que comeram durante o dia, quase todas estão consumindo mais calorias do que imaginam.) Depois de derrotas suficientes, a mensagem “coma” formou uma trilha no cérebro, e esse trecho da fiação garante que as futuras vontades por comida triunfem.
Do mesmo modo, se firmamos vitórias sobre a mensagem “coma”, recupera-se um estado de equilíbrio. Novos caminhos se formam no cérebro. Quando o impulso de comer cresce, a competição será mais equilibrada e, com o tempo, a ansiedade por comida vai desaparecer. Nesse ponto, a ligação entre a mente e o corpo será saudável de novo. O peso adequado vai ser conservado automaticamente.
São dois os aprendizados que devemos tirar dessa discussão sobre inibição cruzada:
1. Mensagens conflitantes tentam se derrotar mutuamente no cérebro. 2. Quanto mais atendemos às mensagens positivas, mais facilmente elas derrotarão as mensagens
negativas.
Atitude: Escolha uma mensagem melhor
Quando sentimos impulso de comer fora do horário das refeições, essa é uma mensagem do nosso cérebro. Os impulsos são mensagens rápidas e fortes, e por isso é quase impossível controlá-los. Em vez de lutar contra o impulso da fome, a melhor maneira é deixar que o restante do cérebro o alcance. A parte relativa à tomada de decisão reage mais devagar, mas, se refazemos o treino do cérebro, a tomada de decisão fica cada vez melhor, ao passo que os impulsos voltam ao equilíbrio.
Da próxima vez que você sentir ansiedade por comida, use a técnica do pare!
1. Pare o que está fazendo.
2. Inspire fundo por um minuto. Ao inspirar e expirar, conte até vinte, da seguinte forma: um ao
inspirar, dois ao expirar, três ao inspirar e assim por diante.
3. Observe a sensação física de fome. Dê a ela uma pontuação de 1 a 5, sendo 5 para “faminto” e
1 para “sem fome”.
4. Aja com consciência.
O objetivo principal dessa técnica é que você chegue no “Aja com consciência”, pois isso indica que o seu cérebro racional faz parte de sua conversa íntima. Agir com consciência significa que você decide o que fazer em seguida, o que é muito melhor do que agir feito um robô, obedecendo o impulso de fome do cérebro reptiliano se ele estiver desequilibrado.
Que tipo de escolha consciente você pode fazer agora? Eis algumas sugestões:
Beba um copo d’água. Vai preencher o ímpeto de se sentir satisfeito, e a água reprime o apetite. Coma dez amêndoas ou uma fatia de pão integral ou cinco bolachas de água e sal. Uma pequena ingestão de 100 a 200 calorias elimina a fome por uma a duas horas (um estudo no qual os participantes deviam comer uma fatia de pão integral antes de cada refeição constatou que eles perdiam um peso significativo sem fazer mais nada). Leia um livro ou artigo interessante por dez minutos, depois verifique se ainda está com fome.
Esse truque de comer dez frutas secas quando sinto muita vontade de comer tem sido bem eficaz na minha vida, aliás. Às vezes, as escolhas mais simples funcionam melhor.
Se fazemos uma escolha que nos leva a evitar a ansiedade, não devemos deixar de parar e desfrutar dessa pequena vitória. “Fiz a coisa certa. Que bom!” é uma mensagem forte quando repetida muitas vezes ao longo de semanas e meses, pois reforça a prevalência da escolha sobre a propensão de ceder.
Essa atitude nos torna conscientes do que fazemos, e perder peso está muito relacionado a escolhas conscientes. Assim como os fumantes que abandonam o hábito da nicotina, a repetição é fundamental. Quanto mais tentar parar, maiores são as chances de conseguir. É por isso que as pessoas que conseguem abandonar o cigarro são as que tentaram mais vezes – tantas quanto foram as recaídas. Por fim, a decisão de resistir a essa ansiedade sai ganhando. A repetição ajuda a reforçar a decisão, pouco a pouco. A mesma coisa acontece com a decisão de não comer demais.
HORA DE AGIR:
Temas para a semana
Este capítulo ofereceu exemplos de como você pode mudar a sua história adotando eficientes
ferramentas como as palavras “luz” e “nutrição”. Existem outros temas que também funcionam bem. Se acha essa abordagem interessante, por que não se concentrar em temas diferentes a cada dia da semana? Existem inúmeras maneiras de substituir um tema antigo por um novo, que seja mais positivo e estimulante para a mente e o corpo.
Segunda-feira: Transforme passivo em ativo. Terça-feira: transforme apático em vibrante. Quarta-feira: transforme rotina em surpresa. Quinta-feira: transforme rançoso em fresco. Sexta-feira: transforme pessimista em otimista. Sábado: transforme trabalho em lazer.
Domingo: transforme comum em inspirador.
Para começar, aqui estão algumas sugestões. Uma vez que inicie a mudança, novas possibilidades
rapidamente aparecerão.
Segunda-feira: como transformar passivo em ativo. Pegue qualquer atividade passiva de um dia – assistir à TV deve estar na lista da maioria das
pessoas – e a substitua por uma atividade ativa, por exemplo, dar uma volta no quarteirão. Em vez de pegar o elevador, suba as escadas. Em vez de deixar que outras pessoas falem sem parar, leve a conversa para um tópico interessante para você. Ao fazer coisas assim, reforce a mensagem em sua mente: “Estou sendo ativo”.
Terça-feira: como transformar apático em vibrante. Defina vibrante como bem entender: uma cor viva, um sabor picante, uma conversa brilhante.
Insira o vibrante em sua rotina hoje. Vista uma cor viva, coma algo mais picante ou mais colorido. Veja imagens de arco-íris na internet ou fique perto de uma fonte de água. Ao fazer coisas assim, reforce a mensagem em sua mente: “Estou sendo vibrante”.
Quarta-feira: como transformar rotina em surpresa. A vida fica confortável quando temos uma rotina, mas a existência seria sem graça sem uma
pontinha de emoção. Hoje, mude alguma coisa em sua rotina. Vá a um restaurante diferente ou a uma loja instigante. Em vez de ler o jornal no ônibus, por que não ler algo mais inspirador? Inspire alguém que você ama com um bilhete. Em sua relação íntima, ouse sugerir alguma coisa excitante na cama – compartilhe uma fantasia erótica ou explore novas sensações de prazer. Ao fazer coisas
assim, reforce em sua mente: “Estou sendo surpreendente”.
Quinta-feira: como transformar rançoso em fresco. Todos os temas têm um significado amplo, e com “frescor” é possível ir aonde quiser. Hoje, jogue
fora a comida rançosa que está na geladeira e traga frutas frescas e verduras. Coloque flores novas na mesa. Observe algo novo em um velho amigo e conte a ele, como um elogio. Ao fazer coisas assim, reforce em sua mente: “Estou trazendo frescor para minha vida”.
Sexta-feira: como transformar pessimista em otimista. É muito fácil se acostumar a ficar lamentando sobre a vida. Hoje, pegue qualquer atitude
pessimista e explore um ângulo otimista dela. Pense em esperança, em novas possibilidades, na bondade das pessoas, na recuperação do tempo. Encontre uma maneira de sentir compaixão por quem sofre em vez de culpar as pessoas pela situação em que se encontram. Encare o seu futuro da mesma maneira, insistindo em coisas que vão melhorar. Ao fazer coisas assim, reforce em sua mente: “Estou sendo otimista”.
Sábado: como transformar trabalho em lazer. O fim de semana é de diversão e relaxamento, mas muitas vezes nos flagramos ainda trabalhando,
seja em tarefas domésticas ou do trabalho. Encontre um jeito de se divertir, fazendo da recreação uma recriação. Tome parte em alguma atividade renovadora. Plante uma árvore, passe algum tempo com crianças, desenhando na calçada, faça um passeio pelos arredores, levante-se cedo e assista ao nascer do sol. Ao fazer coisas assim, reforce em sua mente: “Estou me recriando”.
Domingo: como transformar comum em inspirador. Um dos dias da semana deveria ser extraordinário, e nada é mais extraordinário que se conectar
com uma perspectiva ampla e própria. Hoje, leia textos das escrituras ou um pouco de poesia. Veja obras de arte, ouça obras-primas musicais – tudo para alimentar a alma. Ao fazer coisas assim, reforce em sua mente: “Estou me sentindo inspirado”.