Você tem Fome de Quê?
Bem-Estar Emocional - Trata-Se de uma Escolha
BEM-ESTAR EMOCIONAL
Trata-se de uma escolha
Pontos principais
Quando a conscientização é maior, é possível fazer escolhas melhores. Essas escolhas aumentam a sensação de bem-estar emocional ou a diminuem. Assim como faz o organismo, a mente envia sinais sobre o seu estado geral. Os sinais de consciência mental são alegria/sofrimento, amor/medo, compaixão/egoísmo, paz (serenidade)/falta de paz.
A chave da felicidade é fazer de todo dia um dia feliz. As pessoas que dizem estar felizes têm uma característica em comum: elas se relacionam ativamente com amigos e entes queridos uma ou duas horas por dia. Não existe, contudo, nenhum esquema para garantir a felicidade, pois ela não é mensurável. As experiências de prazer e dor que podem ser quantificadas não são a mesma coisa que bem-estar.
Num estado de tranquila atenção, a mente fica equilibrada e aberta às mudanças constantes que a vida traz.
Quando trazemos consciência a qualquer aspecto da vida, semeamos benefícios, pois a consciência nos diz como andam as coisas. É um tipo de radar infalível, se ficar sempre ligado. Tomar consciência permite distinguir o que estamos fazendo, como nos sentimos, do que temos medo, o que esperamos ou desejamos – tudo da vida, mesmo. É uma pena que tanta gente se desligue da consciência ou que a concentre em estados de infelicidade, como a ansiedade e a depressão, que afetam milhões de pessoas. A obesidade é um estado mental de infelicidade e também um estado infeliz do organismo.
A consciência fica desligada quando vivemos de acordo com as seguintes circunstâncias:
Agimos inconscientemente, de acordo com hábitos e comportamentos mecânicos. Deixamos que outras pessoas tomem conta da nossa vida. Sentimo-nos vítimas ou numa armadilha emocional. Isolamo-nos e não temos vínculos íntimos com outras pessoas. Agimos com passividade e resignação diante de coisas que nos chateiam. Não sabemos ao certo o que queremos.
Esse último aspecto é tão crítico que este livro inteiro tem como pauta uma melhor compreensão disso.
É preciso saber o que queremos. Do contrário, acabamos deixando o barco correr. Ou a vida acaba tomando rumos indesejáveis. Como já comentamos, muitas pessoas levam comida à boca quando estão famintas de atenção, elogios, amor e afeto. Mas o que essas pessoas realmente querem é uma reorientação.
A mente humana é incrivelmente complexa, mas ela mostra alguns estados básicos que se sobrepõem a todos os pensamentos e sentimentos que temos em um dia, assim como um mosaico forma uma figura e não apenas uma mistura de pedrinhas coloridas. Os sinais enviados pela mente funcionam como os sinais de conforto e desconforto do organismo. Quando estamos mentalmente conscientes, os principais sinais são os seguintes:
Alegria/sofrimento
Amor/medo
Compaixão/egoísmo
Paz (serenidade)/falta de paz
As primeiras palavras levam mensagens de bem-estar emocional. As segundas, mensagens que diminuem o bem-estar. Podemos escolher de que lado dessa equação queremos viver. O bem-estar não acontece sozinho.
O melhor de todos os hábitos:
Consciência pessoal
Quando monitoramos as mensagens que a mente nos envia, estamos praticando a consciência pessoal. A consciência corporal também está incluída nisso, como deve ser se a nossa meta é relacionar a mente e o corpo. Assim que sintonizamos com o organismo a fim de receber as mensagens dele, a consciência pessoal sintoniza com o nosso mundo íntimo. Quando isso se torna habitual, é como uma segunda natureza. A qualquer momento do dia, podemos nos perguntar:
Estou feliz ou sofrendo?
Eu amo ou tenho medo?
Sinto compaixão ou sou egoísta?
Estou em paz ou sinto falta de paz?
Se as pessoas se perguntassem essas questões básicas, a vida delas se transformaria – então, por que não o fazem? A resposta não é nenhum segredo. O hábito de sintonizar com o mundo das emoções traz obstáculos para todos nós. Se você estivesse comigo neste instante, e eu dissesse: “Volte-se para si mesmo e me diga como se sente”, por experiência sei que muitas coisas podem acontecer:
Talvez você resista e se recuse a fazer isso.
Talvez tenha muito medo do que vai perceber em si mesmo. Talvez obtenha uma mensagem equivocada, baseada no que acha que devia sentir. Talvez sinta duas coisas ao mesmo tempo, sem muita certeza de qual seja a verdadeira.
Talvez se emocione por causa de uma enxurrada de sentimentos e lembranças inesperadas.
Os psicólogos rotulam os obstáculos que nos impedem de ficar à vontade com o que a nossa mente nos indica: negação, repressão, neurose, obsessão, ansiedade – a lista é bem comprida. Porém, se praticamos a consciência pessoal, podemos penetrar nessa névoa mental, mesmo que pareça espessa. Tomando como exemplo apenas um dos pares, suponhamos que alguém queira verificar se está vivenciando amor ou medo. Essas palavras são simples, contudo, por trás delas há um mundo de vivências interiores. Se amor significasse apenas romance, e se medo significasse apenas se sentir apavorado, ninguém descobriria muita coisa ao entrar nessa sintonia pessoal. Portanto, vamos trabalhar a consciência pessoal e dar uma olhada no que amor pode significar:
Saber que existe carinho mútuo: amar e ser amado. Apreciar o que estamos fazendo.
Gostar de onde você está.
Sentir-se bem em relação a quem é.
Ter uma relação amorosa e estável.
Sentir que a vida é vibrante e estimulante.
Vivenciar uma ligação profunda com um tipo mais elevado de amor.
Se fizermos uma pausa por um instante e nos concentrarmos na consciência, saberemos se estamos vivenciando as sensações citadas acima, que fazem do amor algo mais amplo e profundo. Não se trata apenas de romantismo. As pessoas que conseguem dar respostas positivas e encontrar cada uma dessas coisas batalharam para isso. Escreveram uma história de vida que incluía o amor, encontraram coragem para encarar o oposto do amor, que é o medo, e depois fizeram escolhas que as afastaram do medo.
O medo também vai além de sentir receio ou pavor. O medo é:
Sentir-se inseguro.
Não confiar no que está acontecendo.
Ter medo de nunca realmente se vincular a outras pessoas. Ver-se como alguém desprezível.
Colocar-se em posição de vítima.
Não ver boas escolhas, sentindo-se desamparado e impotente. Estar sob o domínio ou controle de alguém.
Enxergar as pessoas como “os outros”, inimigos ou adversários. Estar apreensivo em relação ao futuro.
O amor dissolve o medo. É por isso que podemos fazer escolhas que nos afastam do medo e nos levam ao amor. Se a mente funcionasse de outro jeito, o amor não seria uma resposta. O medo seria como uma mancha amarelada que temos que tirar de um guardanapo de linho. O medo é mais do que uma mancha. É um estado mental que bloqueia o bem-estar. Portanto, o bem-estar (estado que inclui o amor) aumenta quando resolvemos deixar o medo de lado.
Como este livro trata da mente e do corpo, temos falado de ciclos de realimentação, e, assim como a fome faz parte de um ciclo com a saciedade, o amor está no mesmo ciclo que o medo. As mesmas coisas se aplicam a um e outro. Se esse ciclo está funcionando bem, sentimos o amor naturalmente e agimos a partir desse impulso. Se esse ciclo estiver distorcido – ou seja, alguma coisa não vai bem com o que entra e sai dele – a situação toda muda. Vejamos como esse mecanismo deveria ser simples. A pessoa quer ser amada, portanto, volta-se para alguém que pode amá-la e pede o que deseja. Os bebês e as crianças pequenas não têm dificuldade para procurar o amor da mãe. Eles querem o conforto, o abraço, a segurança, ouvir que a mamãe os ama.
Para nós, adultos, é fácil complicar esse ciclo de feedback. Não pedimos amor. Ou pedimos, mas para a pessoa errada, que não pode nos dar o que desejamos. Nós desviamos o sentimento do amor para coisas como ganhar dinheiro ou adquirir mais bens. Ou seja, a confirmação profunda que o amor propicia nos escapa de alguma maneira, e, quanto mais ficamos sem isso, mais temerosos ficamos de nunca encontrar o amor. Acabamos não amados e não amáveis.
Se podemos nos identificar com um amor pouco satisfatório, não há como não ser importante encontrar uma solução para isso. Mesmo que nos sintamos entorpecidos, entediados, rejeitados, solitários ou qualquer outra coisa que bloqueie o amor, a solução sempre é tomar consciência da situação, pois o que está nos segurando é um ciclo de feedback mental. Sei que as pessoas tendem a manifestar o amor. Existe a fantasia de que tudo vai ser perfeito quando encontrarmos “a pessoa certa”. Mas o jeito de encontrar “a pessoa certa” é ser a pessoa certa. É preciso analisar esse ciclo íntimo e alterar o medo de amar. Quando isso acontece, a situação externa muda automaticamente. Mesmo que “a pessoa certa” não apareça no dia seguinte, como num passe de mágica, ao restabelecer um estado de amor íntimo, normal e saudável, não nos sentimos mais ansiosos em relação à fantasia de uma alma gêmea. Qualquer diminuição na ansiedade significa um passo na direção do amor.
O que nos faz felizes?
O bem-estar é o mesmo que felicidade e, se pudermos acreditar em pesquisas de opinião pública, pelo menos 70 por cento dos norte-americanos, e às vezes consideravelmente mais, relatam que estão felizes. Mas essa é normalmente a resposta habitual, a resposta esperada. Quando interrogados com mais profundidade, menos de um terço está de fato prosperando, o que combina satisfações internas e externas. Os outros dois terços estão apenas levando a vida ou acham que estão em declínio. Embora quedas financeiras tenham um papel nisso, a principal razão da infelicidade das pessoas é não ter encontrado um jeito de ser feliz. Todo mundo concorda que a felicidade é um objetivo, mas como atingi-la é ainda um mistério. Vamos dar uma olhada nas descobertas mais confiáveis extraídas de pesquisas em psicologia dos últimos anos.
OS INGREDIENTES
DA FELICIDADE:
O que dizem as pesquisas
Até onde sabem os psicólogos, ser feliz depende em geral de algumas condições básicas:
1. A infelicidade não é nenhuma propensão. Cerca de metade da felicidade em geral
depende de escolhas pessoais, não de genética nem de circunstâncias.
2. Ter segurança material. A pobreza contribui muito para a infelicidade, portanto é
importante ter conforto financeiro. Depois de certo ponto, no entanto, ter mais dinheiro não aumenta a felicidade. Nem todas as pessoas ricas são felizes, e muitas vezes os ricos são mais infelizes do que pessoas com renda de classe média.
3. É preciso tentar ser feliz hoje, aqui e agora. Se existe uma fórmula para uma vida feliz, é
fazer de todo dia um dia feliz. Satisfação adiada é satisfação negada.
4. Relacionar-se. As pessoas mais felizes passam de uma a duas horas por dia ativamente
em contato com as pessoas que amam. Conversam ao telefone, enviam e-mails e mensagens. Elas não se baseiam apenas na sensação de ter relações.
5. Não ter dor física. Sabe-se que é muito difícil, se não impossível, superar
psicologicamente uma dor crônica. Isso também vale para a depressão, que é um dos maiores inimigos da felicidade, pois não existe uma maneira positiva de adaptação a ela.
6. Todo mundo tem algum ponto de partida para a felicidade, algum tipo de parâmetro
emocional. Um acontecimento alegre ou triste nos afasta desse parâmetro, mas isso raramente é permanente. Em seis meses, quase todo mundo retoma esse parâmetro, sentindo-se tão feliz quanto antes dessa virada repentina ou dessa queda.
Essa é uma lista bem pobre, mas o campo da psicologia positiva, que estuda a felicidade em vez
dos transtornos mentais, é ainda novo, e suas descobertas não levaram a um consenso. No entanto, alguns estudos importantes parecem concordar que a maioria das pessoas não se sai muito bem ao predizer o que as faz felizes. Elas pensam em casar, ter filhos, ficar ricas ou famosas. Quando essas coisas desejadas acontecem, no entanto, a realidade não combina com as expectativas. Mães de primeira viagem, por exemplo, relatam que cuidar de uma criança pequena está entre as coisas mais estressantes de sua vida.
Outra descoberta não muito positiva é que a felicidade permanente talvez seja uma ilusão. O que
deveríamos procurar, aconselham alguns psicólogos, é um estado de contentamento estável. Momentos de felicidade vêm e vão. São imprevisíveis, e já que não nos saímos bem ao predizer o que nos fará felizes, é melhor não fazer um plano de felicidade que no final das contas não vingue. Nós tropeçamos na felicidade como, no escuro, tropeçamos nos móveis, e conviver com sua imprevisibilidade é apenas ser realista.
Acho essa atitude melancólica e estreita. Ela contradiz o conhecimento tradicional mundial, tanto
do Oriente quanto do Ocidente. Quando Jesus ensinou que o reino dos céus está entre nós, ele estava apontando um caminho de felicidade do mais alto nível. O paraíso é um estado de alegria, e a razão de toparmos com vivências de felicidade, mesmo com pouca alegria, é não termos encontrado um caminho íntimo adequado. Na Índia, na tradição védica, a própria consciência está impregnada de alegria, ou ananda. Naturalmente nos conectamos à alegria porque ela existe em nossa própria consciência. Se não nos sentimos alegres, alguma coisa bloqueou o caminho, e todos os bloqueios estão em nós mesmos. Mais uma vez, um caminho interior deve ser encontrado.
Até certo ponto, os psicólogos são forçados a ter uma visão curta se eles próprios não
encontraram um caminho para o bem-estar. Compreender a mecânica da psicologia humana não é o mesmo que vivenciá-la. Viver num estado de bem-estar significa que estamos no caminho da consciência pessoal. A compreensão intelectual ajuda nesse caminho, claro, mas a maioria das pessoas, na verdade, precisa de orientação, não de fatos. Precisa que alguém mostre como evoluir e crescer, como superar obstáculos internos, e, em um nível mais básico, como descobrir o que realmente deseja.
Chegando lá a partir daqui
À medida que comer sem consciência se transforma em alimentação consciente, o estágio seguinte – viver com consciência – não está muito longe. Podemos tecer a felicidade em todos os aspectos da vida, uma vez que façamos escolhas novas. Ser capaz de controlar se estamos felizes ou infelizes está ao nosso alcance, mas precisamos expandir a nossa consciência ao longo desse caminho. Muita gente tenta ficar mais feliz escolhendo mais prazeres e menos dores. Essa estratégia poderia funcionar, mas não funciona. Deixe-me explicar em detalhes o porquê.
Temos hormônios diretamente relacionados à experiência de prazer. No último capítulo, mencionei as endorfinas, o analgésico natural do cérebro. Podemos acrescentar mais três hormônios para ajudar a explicar o que nos faz sentir bem:
Serotonina
Dopamina
Oxitocina
Eles estão entre os mais excitantes hormônios cerebrais porque nos indicam processos básicos do cérebro, sendo a chave do mundo dos humores e das emoções, como considerado por muitos neurocientistas. Dois deles, a serotonina e a dopamina, também pertencem à classe dos neurotransmissores, que permitem que duas células nervosas se comuniquem através da sinapse, a lacuna que as separa. Essas moléculas especializadas, na verdade, traduzem os pensamentos e humores em químicas, permitindo que eles se comuniquem – por meio de uma complexa rede de interações – com o resto do organismo. Quando digo que trilhões de células estão bisbilhotando nossa mente, isso acontece através de muitos tipos de “moléculas mensageiras”, como foram originalmente intituladas.
Por um lado, o elo com os estados mentais é forte. Isso nos levaria a ficar otimistas de que, brincando com algumas químicas cerebrais, a felicidade estaria à mão. A serotonina foi rotulada como tendo um papel fundamental na sensação de bem-estar de uma pessoa, enquanto desequilíbrios estão associados com a depressão. (Durante muito tempo, considerou-se que os antidepressivos mais conhecidos ajudavam a regular a serotonina do cérebro, daí seu nome: inibidores seletivos de recaptura de serotonina. A ideia era que no cérebro das pessoas depressivas havia uma reabsorção em demasia de serotonina, levando a um nível emocional exaurido, e o antidepressivo corrigia esse desequilíbrio.)
A dopamina está associada aos bons sentimentos quando temos êxito e conseguimos o que queremos. Algumas pessoas precisam demais se sentir recompensadas pelo que conquistam, e nesses indivíduos movidos a recompensa os níveis de dopamina são altos. (Drogas viciantes como a cocaína devem sua reação ao modo como afetam o sistema de dopamina.) A oxitocina, que foi popularmente denominada como o “hormônio do amor”, está associada aos orgasmos sexuais e aos vínculos sociais – mães de recém-nascidos, por exemplo, apresentam níveis altos dela.
Por outro lado, a felicidade não é química. Alguém talvez descubra que a cocaína oferece uma explosão incrível de felicidade, que é quimicamente induzida. Mas fazer uso de cocaína atrapalha o delicado equilíbrio químico do cérebro, e depois de algum tempo, se o vício se estabelece, a pessoa descobre que a cocaína é um suplício. Em uma vida normal, podemos nos proporcionar explosões de prazer, mas elas não podem ser sustentadas quimicamente. Basta examinar mais de perto os três hormônios apresentados anteriormente para vermos que não existe uma trilha química simples para a felicidade.
Consideremos a serotonina e a dopamina, cujos vestígios podem ser encontrados sempre que alguém se sente bem com a vida. São hormônios complexos, conectados a todos os demais hormônios, sem falar em uma dúzia de outros neurotransmissores e mais de cinquenta moléculas similares conhecidas como peptídios. E têm ligações para todo canto: sono, apetite, digestão e estresse. Falar em sinfonia de hormônios não é apenas uma metáfora. Observemos que podemos comer algo delicioso (uma experiência prazerosa) e ao mesmo tempo sentir culpa (uma experiência desagradável).
Há evidências de que se temos um desequilíbrio hormonal relacionado com a serotonina e a dopamina, o nosso humor pode ser drasticamente afetado (embora a antiga crença de que a serotonina teria o papel principal na depressão tenha sido desacreditada, o que diz muito sobre por que os antidepressivos não funcionam para muita gente, e em última análise podem não passar de placebos em termos de confiabilidade). Mas muito mais importante é o fato de que a mente ativa a química do organismo. Se fazemos escolhas inadequadas – e as escolhas são um processo mental –, elas são acompanhadas pelos efeitos ruins na química do organismo.
Eis um exemplo. Imaginemos que uma pessoa está dirigindo um carro. Está apressada, com uma mão na direção enquanto a outra segura um sanduíche. Ao mesmo tempo, está falando ao celular. (Qualquer um que tenha tomado um táxi numa grande cidade dos Estados Unidos provavelmente já viu um taxista fazendo essas três coisas ao mesmo tempo.) Nessa distração, ela quase bate num ciclista ou passa direto em algum sinal vermelho. Três coisas aconteceram simultaneamente:
A pessoa está comendo sem consciência.
A pessoa está exigindo da mente muitas tarefas ao mesmo tempo. A pessoa acaba passando por um incidente estressante.
No nível dos hormônios, essas três coisas contam; tornam-se parte da química do organismo. Embora um endocrinologista possa separar e isolar cada hormônio, nomeando a sua função, na vida real essa precisão não existe. Uma coisa se mistura com a outra. Estresse, apetite, digestão, gordura abdominal, humor – não existe uma fronteira rígida entre eles. Quem manda é a química cerebral. Não podemos levar uma vida feliz baseada na fórmula “mais prazer, menos dor”, pois todos os estados da mente e do corpo estão misturados uns com os outros.
Um padrão de felicidade
Vamos nos afastar desse nível da química. Essa química funciona como impressões digitais, nos dizem por onde a mente andou. Por isso a consciência ao comer funciona tão bem – controlamos então a verdadeira chave por trás da conexão mente e corpo. A felicidade é uma forma expandida de consciência – essa mesma chave tem muito mais funções do que comer. “Viver com consciência” não é um termo dos mais elegantes, mas nos diz o que é preciso saber, ou seja:
Como a conscientização leva à felicidade
A consciência nos diz o que de fato está acontecendo. Quando sabemos o que está acontecendo, podemos nos concentrar na solução. Soluções são uma questão de escolha.
Fazer a escolha certa leva a novas mensagens químicas. Os caminhos para a felicidade são tão simples de gravar quanto os caminhos para a infelicidade.
É lamentável que poucas pessoas saibam dessa última afirmativa, ou seja, que os caminhos para a felicidade são tão simples quanto os da infelicidade. Elas deixam escapar esse ponto vital, ou nunca o aprenderam antes, pois os hábitos antigos, os condicionamentos, as lembranças, os preconceitos, as crenças e o ego criam uma névoa de ilusão. Vagando em uma névoa assim, não podemos culpar as pessoas por não saberem como resolver os seus problemas.
Em termos de bem-estar, podemos atravessar essa névoa ao considerar do que temos fome, o que significa o primeiro passo do processo de ser feliz: ter consciência do que está de fato acontecendo. Não podemos saber o que de fato está acontecendo se não prestamos atenção. Tomar consciência da situação nos dirá se precisamos de:
Conforto, proteção, segurança
Amor e afeto
Sensação de pertencimento
Realização, sucesso, conquista
Autoestima
Criatividade
Sentido e propósito
Listei aqui desde as mais básicas às mais sofisticadas necessidades da vida humana. Vendo como as pessoas atendem às próprias necessidades, vemos que por trás do estresse – que inclui insatisfação – está o fato de elas cederem às suas necessidades menores. Se é em casa ou não que nos reasseguramos de que alguém nos ama, ou se construímos uma casa maior para nos sentirmos mais importantes, no íntimo todo mundo quer encontrar conforto, segurança e proteção. Onde a comida se encaixa? Nessas necessidades menores.
Planejar a felicidade como uma hierarquia de necessidades – ensinamento do psicólogo Abraham Maslow que ficou famoso anos atrás – faz sentido. Um magnata hollywoodiano inseguro que insiste em viver numa mansão imensa; a linda modelo que cai na farra secretamente; a mãe com síndrome do ninho vazio que se preocupa o tempo todo com os filhos já crescidos – de formas distintas, estão todos procurando conforto, segurança e proteção, enquanto se sentem frustrados tentando satisfazer necessidades maiores. Mas a sinfonia de hormônios deveria nos lembrar que todas as nossas necessidades estão sendo atendidas – ou ignoradas – em uma confusa sopa química que reflete a eterna complicação da mente humana.
Felizmente, se atendemos a necessidades superiores, não seremos constrangidos a retroceder para as inferiores. Diante de um bolo de chocolate, a autoestima nos permite dizer: “Não vou fazer isso comigo”. A criatividade enche o dia de tanta satisfação que não precisamos beliscar para acabar com o tédio. Sentido e propósito acabam com a sensação de vazio que as pessoas futilmente tentam encobrir comendo mais. Se satisfizermos as necessidades maiores, só restam duas razões para nos fazer ganhar peso: ou descuidamos de alguma fome ansiosa ou paramos de ficar atentos. Ambos são lapsos de consciência, e trazê-la de volta ao que está acontecendo vai resolver o problema.
Um inventário de necessidades
Um inventário sincero de nossas necessidades e de como elas estão sendo aplacadas vai nos ajudar a ficar mais conscientes. Considere as sete necessidades listadas a seguir e classifique cada uma de acordo com uma escala que vai de “Muito bem” a “Mal”. Se ficar nervoso para fazer essa avaliação, lembre-se de que não conseguirá mudar o que não tiver consciência, e a ideia é mudar no sentido positivo.
Em seguida, liste especificamente o que está fazendo para satisfazer cada necessidade. Invente alternativas para se sair melhor. Isso lhe dará uma ideia do que realmente está acontecendo e, estando assim consciente, você pode começar a encontrar o verdadeiro bem-estar.
Necessidade nº 1: Conforto, segurança, proteção
Estou me saindo Muito bem / Na média / Abaixo da média / Mal
Atendo essa necessidade assim: _______________________ ______________________________________________________________________________________________________
(Exemplo: Possuindo uma casa, tendo um(a) marido/mulher leal, tendo uma renda estável, morando numa região segura da cidade, pagando um seguro, poupando para a aposentadoria.)
Seria melhor satisfazer essa necessidade assim:____________ ______________________________________________________________________________________________________
(Oriente-se pelos exemplos anteriores: como você poderia melhorar cada um?)
Necessidade nº 2: Amor e afeto
Estou me saindo Muito bem / Na média / Abaixo da média / Mal
Atendo essa necessidade assim:_______________________ ______________________________________________________________________________________________________
(Exemplos: Possuindo um(a) marido/mulher amoroso(a), amigos íntimos, uma família afetuosa, prezando a compaixão e as boas realizações, e acreditando no amor divino.)
Seria melhor satisfazer essa necessidade assim:____________ ______________________________________________________________________________________________________
(Oriente-se pelos exemplos anteriores: como você poderia melhorar cada um?)
Necessidade nº 3: Sensação de pertencimento
Estou me saindo Muito bem / Na média / Abaixo da média / Mal
Atendo essa necessidade assim:_______________________ ______________________________________________________________________________________________________
(Exemplos: Fazendo parte de uma comunidade, defendendo uma causa, prestando serviço, unindo-se aos parceiros de trabalho, trabalhando num clima de cooperação, vinculando-se aos amigos íntimos, exercendo o papel de mentor, tendo um confidente.)
Seria melhor satisfazer essa necessidade assim: ____________ _____________________________________________________________________________________________________
(Oriente-se pelos exemplos anteriores: como você poderia melhorar cada um?)
Necessidade nº 4: Realização, sucesso, conquista
Estou me saindo Muito bem / Na média / Abaixo da média / Mal
Atendo essa necessidade assim:_______________________ ______________________________________________________________________________________________________
(Exemplos: Desafios no emprego, sendo promovido no trabalho, liderando, sendo respeitado pelos demais, vencendo a competição, lidando com as crises, tornando-se notável em sua área de atuação, educando bem os próprios filhos.)
Seria melhor satisfazer essa necessidade assim:____________ ______________________________________________________________________________________________________
(Oriente-se pelos exemplos anteriores: como você poderia melhorar cada um?)
Necessidade nº 5: Autoestima
Estou me saindo Muito bem / Na média / Abaixo da média / Mal
Atendo essa necessidade assim:_______________________ ______________________________________________________________________________________________________
(Exemplos: Exprimindo a sua verdade, posicionando-se, tendo orgulho de si mesmo, prezando as conquistas, deixando que os outros saibam quem você é de verdade, valorizando os outros como a si mesmo, mostrando dignidade.)
Seria melhor satisfazer essa necessidade assim:____________ ______________________________________________________________________________________________________
(Oriente-se pelos exemplos anteriores: como você poderia melhorar cada um?)
Necessidade nº 6: Criatividade
Estou me saindo Muito bem / Na média / Abaixo da média / Mal
Atendo essa necessidade assim:_______________________ ______________________________________________________________________________________________________
(Exemplos: Escrevendo, fazendo diários, tendo passatempos criativos, como música, pintura e teatro comunitário, sendo curioso, descobrindo coisas novas, conhecendo uma cultura estrangeira, desenvolvendo habilidades de cura e de terapia.)
Seria melhor satisfazer essa necessidade assim:____________ ______________________________________________________________________________________________________
(Oriente-se pelos exemplos anteriores: como você poderia melhorar cada um?)
Necessidade nº 7: Sentido e propósito
Estou me saindo Muito bem / Na média / Abaixo da média / Mal
Atendo essa necessidade assim:_______________________ ______________________________________________________________________________________________________
(Exemplos: Seguindo uma visão pessoal, uma prática espiritual, sentindo-se ligado a um poder superior, filantropia, caridade, doando-se.)
Seria melhor satisfazer essa necessidade assim:____________ ______________________________________________________________________________________________________
(Oriente-se pelos exemplos anteriores: como você poderia melhorar cada um?)
Guarde esse inventário e retome-o todo mês. Transforme em atitudes reais as melhorias sugeridas. Ao mesmo tempo, reavalie a sua classificação à medida que progride e preze a sua contribuição para o próprio bem-estar.
É importante perceber, como sugere uma pesquisa sobre a felicidade, que as suas escolhas pessoais têm mais importância do que qualquer outro fato. A felicidade não vem de mão beijada nem é predeterminada. Não há limites para a expansão da consciência – a psicologia positiva pode ser de grande contribuição para esse conhecimento. No entanto, por ora, o projeto de atingir um estado de bem-estar pertence a você. Não veja isso como um fardo. É inato seguir os próprios desejos, e, embora o prazer seja atraente, também intuímos que a vida é mais do que uma ocasional onda de alegria.
No capítulo seguinte, ofereço uma visão de consciência pessoal para maior alegria da existência. A mesma consciência que nos traz uma vida feliz tem sido a estrela guia de todas as sabedorias tradicionais do mundo.
HORA DE AGIR:
Liberdade emocional
Ter emoções faz parte da vida e é algo a ser celebrado. Ter bagagem emocional é outra história.
Todos nós já vivemos mágoas e sofrimentos. Quando esses sentimentos perduram conosco, ficamos com uma dívida emocional difícil de ser paga – é a nossa bagagem emocional, o peso morto de experiências antigas. É fundamental nos livrarmos dessa bagagem emocional, pois preocupar-se com o passado bloqueia a nossa participação no presente. Quase todas as pessoas que comem em excesso com que tive contato fazem isso porque se comportam em nome de um eu antigo (uma criança desencorajada, um adolescente impopular, um jovem acanhado) que não existe mais.
A fim de expulsar essas personalidades antigas, é preciso lidar com dívidas emocionais
duradouras. Depois de anos de experiência com meus pacientes, descobri que isso pode ser feito sem a dor que muitas pessoas sentem quando pensam em tocar nesses sofrimentos mais íntimos. Não é necessário ativar um campo minado; não é preciso tomar coragem para uma segunda rodada de sofrimento. Esse processo pode se desenvolver naturalmente, e, quando isso acontece, sentimos alívio e uma onda de bem-estar.
Esta atividade completa foi denominada “Liberdade emocional” e apresenta sete etapas. Leve o
tempo que julgar necessário em cada etapa, e não vá adiante enquanto não sentir que funcionou. (A maioria das pessoas prefere ter um parceiro nesse exercício. A presença de outra pessoa propicia a segurança de não estar sozinho nem sem apoio.)
Passo nº 1: Recorde uma emoção
Com os olhos fechados, evoque uma experiência emocional que esteja causando mal-estar. Com
clareza e de modo vívido, relembre as circunstâncias. Pode ser uma experiência constrangedora ou uma rejeição que sofreu; o sentimento talvez gire em torno de perda ou fracasso. Não generalize, seja específico. Você está chamando um gatilho emocional de volta. Se essa lembrança for muito incômoda, abra os olhos e respire fundo algumas vezes. Quando se sentir menos sobrecarregado, feche os olhos de novo e continue.
Passo nº 2: Sinta a emoção no seu corpo
Observe onde foi que essa emoção se alojou no seu corpo. Ao se recordar de uma emoção
incômoda, a maioria das pessoas tem uma sensação de aperto, enrijecimento, desconforto e até dor no estômago ou no coração. Para algumas pessoas, a sensação será na garganta ou uma dor de cabeça. Localize a sua sensação. Se num primeiro momento não sentir nada, relaxe, respire fundo e sintonize-se de leve com o seu corpo. Há quem possa se sentir entorpecido, num sinal de que uma emoção profunda está ligada ao medo. Mas todo mundo acaba sentindo alguma coisa no corpo ao
fazer esse exercício. (Costumo dizer que a emoção é um pensamento conectado com uma sensação.)
Passo nº 3: Dê um nome a sua emoção
Agora dê um nome a essa emoção. É medo ou raiva, tristeza ou ressentimento? A maior parte das
pessoas fica surpresa ao perceber que não tinha identificado antes a emoção. “Não me sinto bem” ou “Não estou num bom dia” foi o máximo que fizeram. Ser mais específico permite que você se concentre na bagagem emocional que deseja liberar. Portanto, leve o tempo que quiser para perceber exatamente o que está sentindo.
Para ajudá-lo, seguem as emoções negativas mais comuns que as pessoas carregam:
Raiva, hostilidade, ódio
Tristeza, pesar, mágoa
Inveja, ciúme
Ansiedade, medo, preocupação, apreensão
Ressentimento
Humilhação
Rejeição
Vergonha
Passo nº 4: Expresse a experiência
Arrume papel e caneta. Escreva o que aconteceu a você no passado. Anote em detalhes como você
se sentiu, o que as outras pessoas fizeram e como você reagiu.
Quando se sentir satisfeito por ter expressado tudo, pegue uma segunda folha de papel e reconte o
mesmo incidente do ponto de vista da outra pessoa envolvida. Faça de conta que você é essa pessoa. Escreva o que estava sentindo, por que agiu, como agiu e como reagiu depois. Essa parte é mais difícil de escrever do que o seu ponto de vista do incidente, mas fique firme – vai ser um grande passo para se livrar desse peso do passado.
Quando ficar satisfeito com o que escreveu, pegue uma terceira folha de papel e relate o mesmo
acontecimento como se fosse a reportagem de um jornal, escrevendo em terceira pessoa. Como um observador objetivo contaria o incidente em questão a seus leitores? Dê os detalhes com o máximo de objetividade e imparcialidade possível.
Este passo leva mais tempo que os anteriores, mas as pessoas gostam muito dele. Descobrem que
não estão mais presas ao próprio ponto de vista. Podem invocar outras vozes, outros olhares e, assim, ter uma imensa sensação de distanciamento. É libertador.
Passo nº 5: Partilhe a experiência
Agora, partilhe a experiência lendo esses três relatos para alguma outra pessoa. Em um grupo –
que é como eu geralmente aplico este exercício –, as pessoas ficam ansiosas para partilhar, e o clima é de alto-astral, cheio de entusiasmo e riso. A perspectiva de se livrar emocionalmente do passado é estimulante. Portanto, se está fazendo o exercício em casa, um parceiro ou um grupo pequeno aprimora este passo.
Também funciona bem se você estiver sozinho e tiver um bom amigo ou membro da família a
quem possa telefonar. Leia as três versões para essa pessoa, certificando-se de que compreendam o motivo. Mas não peça ajuda da pessoa que lhe causou essa mágoa que você está revendo. Ela não vai compreender e, sobretudo, não vai cooperar. Tampouco vai concordar com a sua versão – em 90 por cento dos casos é assim. Ela pode até negar o que ocorreu. Portanto, ligue para alguém que tenha empatia e compaixão pelos seus problemas.
Passo nº 6: Crie um ritual
Chegou a hora de você se livrar formalmente dessa experiência dolorosa. Pegue os seus relatos e
literalmente livre-se deles. Isso é feito em um ritual em que você entrega esse passado ao fogo, ou simbolicamente a um poder superior que você reconheça: o universo, Deus, deuses, seu eu superior. Fique à vontade para planejar o próprio ritual. Queime os seus relatos e jogue as cinzas ao vento ou no mar – há quem jogue na privada e dê descarga ou faça picadinho e enterre no fundo do quintal.
Esse ritual é importante porque traça uma linha entre o seu passado e quem você é agora. Se você
expressou inteiramente as suas emoções antigas, libertar-se delas é muito bom. Mas não se engane. Libertar-se leva tempo, e muitas vezes é preciso repetir o processo mais de uma vez, pois alguns sentimentos permanecem engasgados. Com o tempo eles irão embora, tenha paciência e seja persistente. Liberte-se do que puder hoje. É normal e natural se você tiver que se libertar dessa mesma mágoa novamente mais adiante.
Passo nº 7: Comemore
Uma vez que soltou essa história antiga no universo, comemore esse momento de libertação. Você
pode fazer isso sozinho ou com outras pessoas, desde que aprecie o passo dado. Já reparei que as pessoas muitas vezes pulam este passo se não forem lembradas. Não querem dar muita importância as suas emoções – mas na verdade elas são muito importantes. As emoções podem nos prender e amarrar, mas podem também nos libertar e mudar o nosso futuro.
Quando nos libertamos de uma emoção antiga, é como abandonar um caminho conhecido e sem
saída. É preciso mapear um novo caminho ou, neste caso, um novo caminho no cérebro. Uma única tentativa não nos leva pelo novo caminho afora, mas já é um começo. Com um passo, você pode dar início a uma longa viagem!