Você tem Fome de Quê?

Deepak Chopra · Capítulo 12 de 21

Páginas do PDF

Você tem Fome de Quê?

Leveza de Alma

 

Pontos principais

As experiências espirituais dependem da ligação entre o corpo e a mente. Um ciclo de feedback espiritual envia mensagens à mente e a todas as células do corpo. A definição mais simples de espiritualidade é a tomada de consciência. A paz, o amor e a verdade estão dentro de nós e são atributos de Deus. Ao entrarmos em contato com esse lugar, encontramos o nosso eu verdadeiro.

O nosso eu verdadeiro existe aqui e agora. Se quisermos encontrá-lo, basta estarmos presentes. O presente nunca termina, portanto as escolhas que fazemos neste momento afetam a nossa vida inteira – a vida é um fio contínuo de momentos “presentes”. Para estar presente, é possível aprender e praticar algumas habilidades de conscientização. Quando a consciência está em plena atividade e expandida, é possível ter a vivência espiritual máxima: “Eu sou o universo”. O nosso ser se funde ao próprio Ser. A mente toca a mente divina.

 

Depois de satisfazer todos os outros apetites, ainda ficamos com um anseio espiritual. Ele também pode ser satisfeito uma vez que saibamos onde encontrar o alimento certo. A chave está na inspiração. Quando nos sentimos inspirados, nos animamos. Quando nos animamos, nos sentimos inspirados. Esse é o mais sutil dos ciclos de realimentação, porém ele conecta a mente e o corpo tanto quanto os demais ciclos. Quando a mente recebe um alimento espiritual, ela envia mensagens a todas as células do corpo. São mensagens químicas que decodificam paz e amor interiores em uma linguagem que pode ser compreendida pelas células do coração, do sistema digestivo, da pele e de todos os órgãos.

Não devemos separar a espiritualidade do corpo. Quando pensamos em Deus, alma ou espírito (seja lá como definimos esses termos), insinuamos a vivência espiritual a trilhões de células. Essa vivência se torna mais profunda quando os pensamentos entram em contato direto com:

A experiência de ser amado.

Comunhão com a natureza.

Sensações físicas de leveza.

Paz.

Expansão do coração.

Sentimento de desapego e abertura.

Sensação de harmonia com todas as coisas.

Experiência de contentamento.

Todo mundo já teve um lampejo dessas vivências – basta se lembrar da última vez em que ficamos absorvidos com a beleza de um pôr do sol ou com a vastidão do mar. Estávamos nutrindo o ciclo da espiritualidade. Acredito que todo mundo naturalmente deseja satisfazer um anseio de espiritualidade, e por isso somos naturalmente atraídos por essas coisas.

Às vezes, basta um acidente para que a nossa natureza interior venha à tona. Quando eu era criança, na Índia, caí enquanto brincava, bati a cabeça e desmaiei. Quando acordei, me encontrei numa realidade estranha – nada tinha mudado ao meu redor, mas eu sentia uma expansão em tudo o que olhava. (Inadvertidamente, eu estava vivenciando algo que Don Juan menciona em um dos livros de Carlos Castaneda: para um bruxo – alguém que de fato enxergue – o infinito está em todas as direções.) Essa estranha expansão da consciência durou apenas um instantinho, e, se isso acontecesse com qualquer outro menino, talvez ele tivesse logo esquecido. Porém, eu fui profundamente tocado por aquele instante. Ao lembrar disso, percebo que vivenciei o medo pela primeira vez. A mente racional é desafiada pelo medo e talvez eu tenha tido uma síncope ou uma leve concussão, em termos médicos. Mas, racional ou não, o medo enriquece a vida interior, junto com a surpresa, a comunhão, o amor e a inspiração.

O caminho dos hormônios e das químicas cerebrais que estamos acompanhando se torna débil neste campo. Mas sabemos que a experiência espiritual não é invisível. Existe algo real, não apenas um fantasma em uma máquina. Estudos do cérebro de monges budistas tibetanos indicam que os anos de meditação sobre o valor da compaixão deixaram impressões físicas; havia uma atividade mais intensa nos lóbulos frontais, lugar de valores mais altos como o amor e a compaixão. Também havia uma alteração na frequência na região das ondas delta que o cérebro deles produzia. A meditação não é sono, mas sim um estado paradoxal, em que se combinam descanso profundo e atenção. A trilha química da meditação também leva a descobertas sobre o ritmo mais desacelerado do batimento cardíaco, diminuição dos hormônios do estresse e pressão sanguínea normal. As alterações cerebrais incluem aumento de ondas alfa, que estão relacionadas à criatividade e a momentos de descobertas importantes.

Esses traços físicos indicam que o ciclo de feedback da espiritualidade é real. Mas as pegadas não são a mesma coisa que viver a jornada. Para fazer isso, é preciso transformar o nosso estado de consciência. Quando a consciência está inteiramente viva, ao sintonizar com experiências mais sutis de amor e alegria, adentramos o reino da espiritualidade. Esse é o estado mais inspirador de viver. A realidade se altera de maneira tão radical que a realidade cotidiana nem chega perto. Uma metáfora admirável da tradição védica indiana nos oferece uma ideia do que significa se transformar. Trata-se da imagem de um jarro de barro, do tipo que as mulheres levavam ao poço para buscar água (e ainda levam na Índia rural).

As bordas do jarro definem o seu espaço interior, que não é muito amplo, e, no entanto, em toda a sua volta, do lado de fora dessas paredes, o espaço é imenso. Agora, trinquemos o jarro. As paredes ficam destruídas, mas o espaço interno do jarro permanece. Porém, em vez de parecer separada de todo o espaço em volta, não existe mais separação – o espaço interior do jarro se funde com o espaço infinito. Do mesmo modo, as pessoas acham que estão encerradas pelas paredes de um corpo separado e de uma mente limitada. Mas na realidade essa separação é artificial. É literalmente verdade que o infinito está a nossa volta mesmo que não enxerguemos isso. Nada nos separa da infinidade. Estamos todos fundidos com o todo, e o que prezamos na vida – amor, criatividade, inteligência, verdade – pode se expandir sem limitações. A consciência humana tem essa capacidade, e o caminho está sempre aberto – assim confirmam as tradições místicas de todas as culturas.

Todos nós vivemos entre limites e ao mesmo tempo sempre desejamos que eles não existissem. Rumi, o maior dos poetas místicos, já enxergava isso há milhares de anos:

Conhece quem

se contenta com menos?

Quem entra, furtivo,

em cantos pequenos?

São como cartas fechadas

Cuja mensagem é:

Viver! Viver! Viver!

Esse verso pede com veemência ao leitor que se transforme, o tipo de transformação que vai de uma vida de baixas expectativas a uma vida de liberdade sem limites. Lendo Rumi, somos cutucados por uma vontade de ser tão livres, apaixonados e alegres quanto ele. Ao mesmo tempo, Rumi sabe que a voz que nos convoca é débil e frágil:

À noite, uma canção delicada e indecisa.

Quando não puder mais ouvi-la

Já fui.

Ele está falando de nosso elo com a fonte da mente e do corpo. Há um estado puro de existência – ou de ser – num nível mais profundo que é a meta da jornada espiritual. Quando estamos conectados ao nosso próprio ser, a vida em si é plena, e há inspiração o tempo todo. Deixe-me explicar melhor.

 

Consciência espiritual

Reconectar-nos com o que somos de fato, é disso que se trata a espiritualidade. Na origem, todos vivenciamos a pureza. É pureza porque não há nenhum conteúdo. Apenas o ser. No entanto, não vamos vivenciar isso como o frio vácuo do espaço exterior. Vamos perceber, em vez disso, que há plenitude no ser. Existem infinitas possibilidades. Num momento não estamos falando; porém, se mudamos de ideia, não há limites para as frases que podemos pronunciar. Essas sentenças não estão programadas. Existem como possibilidades, e se decidimos dizer “Ser ou não ser, eis a questão” ou “Vamos assistir à TV”, estamos sorvendo da reserva de potencial infinito que existe em nossa consciência. Nessa mesma reserva há mais do que palavras. Existem infinitas descobertas a serem feitas, infinitas aplicações para a criatividade e a inteligência.

Uma vez que descobrimos que somos um ser espiritual, nunca mais nos conceberemos de outra maneira. Um novo ser começa a se revelar. É perfeito, não lhe falta amor, beleza nem sabedoria. Talvez não seja possível acreditar nesse ser do ponto de vista de onde estamos agora – o ceticismo só é natural até a jornada espiritual se tornar uma parte importante da vida. Nessa jornada espiritual, descobrimos verdades que ficam ocultas na vida cotidiana. Não fazer uso da consciência é faltar com o nosso verdadeiro eu.

Até agora, me concentrei em como podemos usar a consciência para melhorar a vida. Mas a consciência não é uma mera ferramenta – é a nossa essência. O ser humano não é uma máquina que aprendeu a pensar. Somos pensamentos que aprenderam a fazer uma máquina. Em outras palavras, o cérebro trabalha para a mente e, de uma maneira natural (mas assombrosa), podemos gerar um cérebro espiritual. Sublime como uma epifania, o mesmo cérebro que aprende um idioma estrangeiro é necessário para desvendar níveis sutis de realidade. Esses níveis não são terras desconhecidas; existem aqui e agora, mas nosso cérebro não harmonizado não os compreende. A vida não é mais plena que a nossa consciência. Quando voltamos a atenção para a espiritualidade, vislumbramos o invisível – não se trata de milagre, mas de uma extensão do olhar que voltamos para nosso íntimo.

Um obstáculo para ultrapassar as limitações é a palavra Deus. Mais gente hoje em dia se descreve como espiritualizada, mas não religiosa. Pelos mais diversos motivos, distanciaram-se da religião institucionalizada. Um entrevistador irritado uma vez me desafiou com o argumento de que “espiritual mas não religioso” não tinha sentido.

“Tem sentido, sim”, retruquei. “Se você define a espiritualidade sem questionar Deus, como fazem todas as religiões.”

“Qual é então a sua definição de espiritualidade?”, ele perguntou.

“Muito simples,” respondi. “Consciência pessoal. Todas as promessas da religião são uma verdade interior. As vivências espirituais já existiam muito antes de alguém organizar a religião. O lugar aonde devemos ir ainda é o nosso interior.” Ele não replicou.

Nas sabedorias tradicionais, o espírito fica localizado num nível muito sutil da consciência. Os níveis mais vulgares da consciência estão voltados a assuntos e acontecimentos “por aí afora”. Usamos os cinco sentidos para navegar pelo mundo físico. Mas existe um tipo mais sofisticado de conscientização que navega pelo “aqui dentro”. Voltamo-nos para a consciência pessoal no início deste livro ao nos perguntar: “Eu tenho fome de quê?”. Sempre que nos perguntamos o que anda acontecendo “aqui dentro”, estamos usando a consciência pessoal. Independentemente da resposta, é o que somos naquele momento. O mundo interior existe para nos dar respostas que não podem ser obtidas “por aí afora”. As questões essenciais como “Quem sou eu?”, “Por que estou aqui?” e “Qual o significado da vida?” dependem desse nível mais profundo. São perguntas sobre nosso verdadeiro eu, o que significa um exercício de consciência pessoal.

Costumamos supor que a espiritualidade pertence aos santos e devotos religiosos – pessoas que entregam a vida a Deus. Mas a consciência pessoal é universal. A vivência espiritual ocorre sempre que temos consciência de nosso eu verdadeiro, que é amoroso e compassivo. Nosso eu verdadeiro se sente seguro no mundo. Vê paz em todas as direções. Contentamento é sua experiência constante. Portanto, sempre que sentimos uma onda de alegria, trata-se de nosso eu verdadeiro – e enquanto essa alegria durar há um contato direto com ele. Como sabemos, a alegria aos poucos desaparece. Não é uma perda permanente, porém. Ficamos desligados de nosso eu verdadeiro, mas entrar de novo em contato com ele é sempre possível. Toda sensação de amor, alegria, pertencimento, inspiração, intuição, visão e liberdade oferece um ponto de volta ao nosso eu verdadeiro.

 

A espiritualidade acontece aqui e agora

Para nos orientar de volta ao nosso eu verdadeiro, não peço que ninguém empreenda uma jornada a um destino desconhecido. O lugar desejado está tão perto quanto o momento presente. Se o nosso eu verdadeiro não existe aqui e agora, jamais será alcançado. Todas as escolhas se dão no momento presente, o que significa que o que estamos fazendo neste instante é a atitude mais importante, e não as atitudes que desejamos ou esperamos nem as atitudes que tememos ou das quais nos arrependemos. A vida toda é uma jornada apenas de momentos no presente.

O presente é mais misterioso do que as pessoas pensam. Para começar, não é possível defini-lo. Por exemplo, não há dúvida de que vamos ter novos pensamentos nos segundos a seguir (estima-se que a mente tenha um pensamento ou sentimento a cada três segundos). Quando o novo pensamento nos ocorrer, ele vai preencher o momento. Vamos pensar em algo comum, como “Estou com fome”, ou em alguma coisa séria, como “Não tenho o emprego que desejo”.

Como experimento, feche os olhos e diga em voz alta qual será o seu próximo pensamento. Se tentarmos isso, vamos ver que dá um branco. Não é possível agarrar o presente antes que ele aconteça, e, se tentamos forçar isso, acontece um branco mental – o presente se recusa a ser preso numa rede. O mistério do “agora” não é apenas um enigma filosófico. É prático, pois no “agora” apenas duas coisas podem acontecer:

Você estar presente por inteiro. O seu eu verdadeiro é você. Você se sente livre e vivo.

ou

Você não está presente por inteiro. Lembranças antigas, hábitos e condicionamentos o bloqueiam. Você

está preso a uma névoa mental.

Ser capaz de vivenciar o primeiro estado é muito desejável, pois a melhor vida é a que vivemos como o nosso eu verdadeiro. Infelizmente, o segundo estado é onde vive a maioria das pessoas. Apenas imaginam que estão presentes. Por exemplo, recentemente conheci uma mulher chamada Nina, de cerca de 40 anos, que estava casada havia quinze. Apresentava excesso de peso, e o marido não sentia mais atração por ela. Fiquei surpreso ao saber que ele estava com ela, mas resolvera ficar na sala de espera enquanto ela conversava comigo no consultório.

“Ele acha que eu não devia me preocupar com essas coisas”, ela disse. “Coisas” significava a sua batalha constante contra o peso.

“Ele falou isso hoje?”, perguntei.

Nina balançou a cabeça. “Nem precisou. Sei o que pensa. Não falamos sobre isso.”

“Mas vocês conversam?”, perguntei.

Ela deu de ombros. “Estamos casados há muito tempo. Não temos mais assunto, acho.”

“Obviamente, você não está contente com isso”, comentei. Nina baixou a cabeça. Comentei que o casamento dela talvez tivesse chegado a um impasse, um bloqueio que impedia tudo. Nina concordou e me falou mais de sua vida doméstica, em que tudo girava em torno das refeições, de assistir à TV e dos filhos. Entre ela e o marido quase mais nada acontecia. Era óbvio que um puxava o outro para baixo.

Ela estava presa a um lugar familiar, conhecido como “passado”. O momento presente não existia de fato. Nem podia existir enquanto ela e o marido o enchiam de entulhos do passado – brigas antigas não resolvidas, emoções não exprimidas, opiniões sufocadas e assim por diante. Tinham “resolvido” os problemas ao ficar numa zona morta do presente. Sentiam um vazio, mas pelo menos não era muito doloroso.

“Você pode sair dessa armadilha”, eu disse. “Foi você mesma quem a armou.”

Nina reclamou. “Não é você quem vive com ele.”

“Tem razão. Nem conheci o seu marido ainda. Com certeza você tem que se livrar de um monte de ressentimentos. Se conversar com ele sobre o que não vai bem, sobre o casamento e tudo o mais, isso vai levar horas. Mas a resposta está mesmo em você”, eu disse. “Neste exato momento, você está ausente da própria vida, quando o que precisa, desesperadamente, é estar presente.”

Pedi a Nina que fechasse os olhos e ficasse quieta. Então apliquei um exercício simples.

“Pergunte a você mesma se está consciente neste instante. Está?” Nina concordou com a cabeça. “Tudo bem. Então do que está consciente? Não fale nada. Apenas verifique. Perceba o seu corpo. Sente alguma coisa? Perceba o seu humor. Considere a sua mente, com calma. Quando terminar de verificar tudo, abra os olhos.”

Depois de alguns momentos, ela me olhava de novo. Pedi que descrevesse esse inventário íntimo. Nina disse que estava para baixo, mas que o corpo estava bem. Aconteceu algo ainda mais interessante. Fazia um dia lindo, e eu tinha deixado a janela aberta, por onde entrava uma brisa e um leve cheiro de mar.

“Estava tão envolvida nos meus problemas”, Nina disse, “que não tinha percebido como o dia estava bonito. Mas, assim que senti a brisa, comecei a relaxar e aí me dei conta do dia bonito”.

“Ótimo”, eu disse, entusiasmado. “Para estar no presente momento é preciso estar presente. Tudo o que a vida tem a oferecer chega a nós pela consciência. Quando você está presente, você sorve tudo o que a mente, o corpo e o ambiente lhe oferecem. Sem conscientização, a vida não lhe diz nada, porque você apenas passa o dia atenta a hábitos e rituais.”

Havia muito mais a dizer, mas o importante foi que Nina saiu dali com a promessa de repetir esse exercício simples de conscientização que tinha acabado de aprender. O casamento dela só poderia melhorar – assim como uma porção de outras questões – se ela começasse a estar presente. No entanto, nada mudaria se ela continuasse a falhar internamente.

O nosso eu verdadeiro quer se conectar conosco. Se não pudéssemos entrar em contato com esse eu verdadeiro, não haveria magia no momento presente. Seria apenas mais um tique-taque no relógio, mais um número mudando no relógio digital. O que nos diz que o momento presente está cheio de magia é que podemos amar, sentir alegria e nos inspirar aqui e agora. A intensidade da vida só acontece no presente.

Não devemos nos arrepender se ultimamente não estamos vivenciando o presente. O universo demonstra uma verdade enunciada pelo grande físico quântico Erwin Schrödinger: “O presente é a única coisa que não tem fim”. Mais do que um assunto interessante da física, isso significa uma porta para um tipo de imortalidade prática, um território atemporal onde todas as possibilidades existem aqui e agora.

 

Habilidades em conscientização

O momento presente demanda que tenhamos consciência dele. Mas isso é suficiente? As pessoas que perderam a memória em decorrência de doença de Alzheimer ou amnésia não conseguem se conectar com o passado. Pode-se dizer que vivem no presente, mas mesmo assim, sofrem. A consciência vazia não tem nada a oferecer. Temos que participar da própria consciência. A maior parte das pessoas mal passa um minuto no silêncio profundo da sua paz interior; trata-se de território estrangeiro para elas. Mas as sabedorias tradicionais descobriram que a consciência tem vantagens ocultas. Essas vantagens ficam escondidas no silêncio, e no entanto todos nós as temos.

Se sondarmos a própria consciência, vamos perceber o seguinte:

Desde a infância, a nossa mente favoreceu o avançar em vez da inércia. Ela não gosta de ficar parada.

Ao avançarmos, a evolução acelera o ritmo.

A consciência expande-se naturalmente. O combustível do caminho do desejo é desejar mais. Quanto mais nos conhecemos, melhor fica a vida. As intenções positivas têm mais apoio do que as negativas. A consciência individual está ligada a uma consciência maior, que percebemos como a sensação de estar ligado a um propósito maior.

Quem explora o nosso mundo interior somos nós mesmos, sozinhos. A fim de testar se essas vantagens realmente existem no caminho da conscientização pessoal. Talvez, no início, o ciclo de feedback seja frágil. Ainda não pensamos em como crescer e evoluir – gastamos tempo demais para ganhar a vida, formar uma família e explorar o mundo por aí. Mesmo assim, vamos construindo um “eu” pela vida afora, e esse processo acontece conscientemente.

Agora, podemos praticar a construção do eu que realmente desejamos e expandir tudo desta lista:

Vamos preferir avançar todos os dias.

O desenvolvimento pessoal vai acelerar.

Quanto mais nos conhecemos, mais teremos carinho pela vida. À medida que a autocrítica diminui, nos tornamos mais positivos, e isso vai refletir em tudo. Vamos nos sentir conectados a uma visão mais ampla de vida e a um poder maior que faz essa visão ser verdadeira.

Esses são aspectos práticos, marcas da jornada espiritual que alcançamos na vida real. Eu dimensiono por elas o meu progresso diário. Estou avançando se sinto mais compaixão, menos culpa e mais calma. O meu desenvolvimento pessoal está acelerando quando atinjo logo um objetivo que pensei que fosse levar anos para atingir, como deixar de lado a necessidade de me enraivecer. Acredito mesmo em ter o pé no chão o máximo possível. Houve momentos, quando tomava o trem expresso de Nova York para Boston e ficava olhando a paisagem passar a jato pela janela, que eu me fundia com a paisagem, e me sentia como se Deepak tivesse desaparecido e só existisse um Ser – a paz da mais pura existência. São esses momentos privilegiados a que me refiro como marcas.

Durante muito tempo, a espiritualidade se debilitou, pois parecia apenas um conjunto de ideias bonitas. Só é útil o tipo de espiritualidade que gera mudanças verdadeiras. Por natureza, a consciência sustenta a vida – surgindo de um órgão que pesa pouco mais de um quilo e tem a consistência de um mingau frio, a mente é um milagre, e é responsável pelas necessidades básicas que dão sustento ao corpo e garantem a nossa sobrevivência. A melhor oferta que podemos nos fazer é estarmos presentes, pois assim se dá o casamento perfeito entre a consciência e o “agora”.

Apresentei um panorama vibrante, mas, na prática, o que você deve fazer?

Uma vez que você entenda o valor de estar presente, pode adquirir as habilidades necessárias para isso. Essas habilidades treinam o seu cérebro para estar presente, e, à medida que você reforça novos caminhos, estar presente fica cada vez mais fácil, até que um dia isso se torna natural – estar presente é muitíssimo mais fácil do que se cercar da bruma da ilusão. Demorar-se no passado ou antecipar o futuro é inteiramente ilusório. O passado e o futuro não existem. Apenas o “agora” existe, e, portanto, nascemos para morar nele.

 

Atitude: Como adquirir habilidades de conscientização

O cérebro foi projetado para atender a vivências espirituais. Quando nos sentimos inspirados ou plenos de encanto, essa experiência é processada no cérebro. Mas também podemos treinar o cérebro a ser mais receptivo a questões espirituais. Vamos falar de quatro das habilidades de conscientização mais importantes:

Ser centrado

Prestar atenção

Concentrar-se

Aprofundar-se

Habilidade nº1: Ser centrado

Ser centrado é a habilidade de conscientização mais fundamental. A maioria das pessoas não consegue estar no presente porque está ocupada demais estando em algum outro lugar. Distrai-se com o mundo, que está sempre cheio de atividades. Mas você já deve ter observado pessoas que têm as seguintes qualidades:

Sabem quem são.

Concentram-se bastante no que estão fazendo.

Parecem inteiras e à vontade com o que são.

Escutam com atenção.

Não anseiam pela aprovação dos outros nem temem a desaprovação. Em uma crise, ficam calmas, e não em pânico.

Essa pessoa é centrada. Sente-se à vontade em estar aqui em vez de em outro lugar. Em uma sociedade em que as pessoas se desperdiçam em atividades de todo tipo, ser centrado requer esforço. É preciso treinar para não se distrair. Se não, sempre haverá alguma coisa nova para nos tirar do eixo – um telefonema, um filme, uma crise em casa, um prazo no trabalho. Mas, se permanecemos centrados, conseguimos lidar melhor com a vida, inclusive com os aspectos externos que solicitam respostas e soluções.

Em tudo isso, existe o risco de ser autocentrado? Alguns críticos acreditam que sim, embora eu ache que o espectro da geração “eu” não está pairando por aqui. Ser autocentrado é o mesmo que ter um egoísmo extravagante, em que o que conta antes de tudo sou eu e o que eu quero. Trata-se, basicamente, de uma forma de insegurança, ao passo que ser centrado é o oposto. As pessoas seguras de si são em geral emocionalmente flexíveis e se preocupam com os outros. Os egoístas têm limites frágeis; não conseguem se conectar com outras pessoas (portanto, fingem que fazer isso não vale a pena).

Ser centrado ajuda a não ter um monte de problemas. Eis um exemplo recente da vida real. Uma amiga foi fazer um saque num caixa eletrônico, mas descobriu que estava com saldo negativo. Ficou atarantada e um pouco chocada, mas estava atrasada para um compromisso, então correu até sua casa, pegou o talão de cheque de outra conta e foi rapidinho ao banco, que já estava fechado. Fez um depósito no caixa eletrônico e disparou para o tal compromisso.

No dia seguinte, foi ao caixa eletrônico sacar e descobriu que ainda estava com saldo negativo. Furiosa com o erro do banco, ela discutiu com o gerente, que lhe mostrou o cheque que ela tinha depositado. Ela havia se esquecido de assiná-lo. Constrangida, assinou e pronto, fim do caso. Parece algo muito normal chocar-se com um inesperado saldo negativo, mas, se a minha amiga não estivesse tão atrapalhada, teria assinado o cheque e evitado todo o estresse e o tempo perdido. Ela estava fora de si. É um incidente pequeno, mas podemos multiplicá-lo por todas as vezes que as coisas nos tiram do sério. O estresse cotidiano faz isso com a maior parte das pessoas, e elas nem percebem o que aconteceu, pois estão muito habituadas a ver a consciência ser atirada de um lado para o outro pelos acontecimentos externos.

Quando tomamos a decisão de nos centrarmos, isso vem naturalmente. Primeiro, pare de fazer as coisas que atrapalham isso:

Não faça mil coisas ao mesmo tempo. Concentre-se no momento. Tente não se distrair. Se alguém precisa interagir com você no trabalho, por exemplo, feche a porta, desligue o telefone e deixe o computador hibernando. Deixe que a pessoa veja que está concentrado apenas nela. As pessoas conseguem perceber se você não está interessado no que elas têm para dizer, e um dos sinais mais evidentes é uma impaciência silenciosa enquanto você espera para dizer o que precisa. Evite os sinais óbvios de falta de interesse, como ficar batendo a caneta, se remexendo, ficar olhando pela janela ou interrompendo os outros antes que terminem de falar.

Não disperse a sua atenção ao acaso. Administre o seu tempo mental de modo eficiente, de modo que você possa ficar sozinho para reflexões sérias. Dedique o seu tempo aos outros sem sentir que está sendo desviado de seus interesses.

Evitando esses deslizes e maus hábitos, o seu relacionamento com outras pessoas vai longe, mas você também precisa da experiência positiva de ser centrado. Ela começa quando estamos sozinhos. Em um lugar sossegado, feche os olhos, respire fundo e volte-se para o seu íntimo. Atente para o seu coração, no meio do peito. Fique sentado, calmamente, e deixe que sua atenção permaneça ali. Se pensamentos eventuais tirarem a sua atenção, concentre-se de novo assim que se der conta. Depois de alguns minutos, abra os olhos. Durante a meia hora seguinte mais ou menos, observe-se para ver se permanece centrado. Não se volte de imediato para as exigências exteriores.

Se você repetir essa prática muitas vezes por dia, vai começar a aprender a diferença entre estar ou não centrado. Com a repetição, você treina o seu cérebro e o sistema nervoso involuntário a preferir um estado de concentração calmo e sossegado. Essa preferência traz com ela uma pressão sanguínea mais baixa, menor reação ao estresse e ritmo cardíaco mais desacelerado. Você não fica inerte nem indiferente; nem está se forçando a ficar atento. O estado desejado, na verdade, é mais alerta, pois você ficou mais à vontade com ele, permitindo que chegasse a respostas sem distrações externas.

Habilidade nº 2: Prestar atenção

A atenção é importante, porque tudo em que prestamos atenção se desenvolve. Se atentamos para o emprego, o relacionamento, o passatempo preferido, a atenção nutre um ciclo de feedback. (Quando uma esposa infeliz reclama de que o marido não lhe dá atenção, é bobagem se ele responde assim: “Mas eu comprei uma casa e tudo o que você queria”. A atenção é o que há de mais pessoal e precioso a oferecer.) A atenção não pode ser fingida nem forçada. Quando um professor dá uma bronca numa classe indisciplinada com um “Prestem atenção!”, ele pode até conseguir algum resultado durante uns minutos, mas a ordem logo perde o efeito. É inútil pedir que uma mente inquieta se acalme e preste atenção. O segredo é saber como a atenção funciona de fato.

A atenção é uma consciência focada. A primeira exigência dela é estar centrado, como já mencionamos, pois antes de mais nada é preciso estar presente. Segundo, a nossa consciência foca naturalmente quando temos um desejo. Focamos no que desejamos. Terceiro, a atenção funciona melhor combinada com a intenção – como encontrar uma maneira de satisfazer o desejo. Quando esses três ingredientes estão juntos – estamos centrados, temos um desejo e temos a intenção de satisfazer esse desejo –, a atenção se torna extremamente poderosa.

Qualquer um que tenha se apaixonado à primeira vista conta essa história; trata-se da definição do alvo. Para algumas pessoas, porém, essa mesma atenção se volta para a ambição, o dinheiro e o poder.

A atenção se torna espiritual quando focamos em assuntos relacionados ao desejo interior. Quase todo mundo já se perguntou: “Quem sou eu?”, mas quem de fato descobre foi levado pelo desejo de saber. Esse desejo é tão forte quanto o de quem deseja mais dinheiro, status e poder. As questões espirituais que por acaso fazemos são poucas. Deus poderia nos enviar uma mensagem curta com as respostas e elas mudariam a nossa vida. Todo caminho espiritual deve ser movido a desejo. Digamos que alguém experimente uma inesperada paz interior. Lá está ela, no meio de um dia comum.

Talvez essa pessoa a perceba, ou então dê início a uma série de pensamentos como estes:

Estou em paz. Que estranho. Gosto disso.

De onde será que essa sensação veio?

Vou descobrir, pois seria bom me sentir em paz mais vezes. Vou levar adiante essa experiência. Não quero me esquecer dela, é muito valiosa.

Essa é uma sequência de pensamentos bem natural, e todas as pessoas espiritualizadas que conheço passaram por ela, não necessariamente por causa de um momento de paz interior. Há quem vivencie uma alegria inesperada; outros se sentem protegidos e cuidados; alguns foram pegos de surpresa pela sensação de uma presença divina. O que tinham em comum é que realmente prestaram atenção a essa vivência. Esse processo pode ser simplificado em três passos. Da próxima vez que você tiver uma sensação íntima de paz, alegria, amor, inspiração ou visão, pare um instante:

Passo nº 1: Perceba o que está acontecendo. Sossegue e não se distraia. Aprofunde a experiência sem

comentários nem interrupções.

Passo nº 2: Quando esse momento começar a desaparecer, não se apresse em deixá-lo. Considere o

significado dele. Contextualize esse significado e reflita sobre como isso faz você se sentir diferente do que é em outros momentos comuns.

Passo nº 3: Valorize essa experiência. Considere como a sua vida vai se transformar se puder repeti-

la. Além disso, pense em uma vida cheia de alegria, paz e amor. Enxergue isso com o olhar da mente. Sinta como sua vida seria bonita.

Nesses três passos, ativamos o cérebro e o córtex emocional, ou mente superior – o primeiro, ao sentir essa vivência por inteiro; o segundo, ao pensar e refletir sobre ela. É assim que os sonhos se realizam. Combinando uma ideia de possibilidades com uma intenção focada que gera novos caminhos cerebrais. O mundo “aqui dentro” está sempre conectado com o mundo “lá fora”. Não é possível agarrar uma oportunidade sem ter consciência dela. Não é possível nutrir uma nova possibilidade sem desejá-la. Quando a consciência, o desejo e a intenção estão juntos, dominamos a capacidade de atenção.

Habilidade nº 3: Concentrar-se

Quando desejamos alguma coisa, a concentração nela acontece naturalmente. Mas é difícil falar de concentração em termos espirituais. Para a maioria das pessoas, Deus, a alma, o espírito ou um poder superior são imagens vagas.

Muita gente se apega a uma imagem de Deus como um patriarca de barba branca, sentado acima das nuvens, sobretudo porque é uma imagem viva. Mas não é real imaginar Deus como se ele fosse uma pessoa, assim como imaginar a alma como um fantasma delicado junto ao coração. Os valores espirituais são invisíveis e intangíveis, no entanto, vêm à tona na consciência.

A fim de que esses valores espirituais se tornem reais, é preciso usar um tipo diferente de foco, conhecido como “intenções claras”. Ter intenções claras é saber o que se deseja, sem confusões. O nosso corpo obedece às intenções claras com mais facilidade do que às intenções confusas. Basta olhar para a linguagem corporal de alguém ansioso para chegar ao campo de futebol e a de alguém que foi para a igreja arrastado. Sempre que hesitamos ou que as emoções são confusas, a intenção não está clara. É essa a diferença entre correr uma maratona louco de vontade de vencer e fazer a mesma maratona com o medo de desmoronar na metade. O cérebro fica atrapalhado com mensagens mistas, mesmo que sejam sutis. Por exemplo, se você tem experiência, em geral leva menos de dois minutos para fazer um omelete. Mas marque um prazo de dois minutos e tente acompanhar o tempo: ou você vai se atrapalhar em etapas simples ou pelo menos ficar com a cabeça dividida entre fazer o omelete e olhar o relógio.

Misturar assuntos também é um problema nas questões espirituais e gera muita frustração. Consideremos o ato de rezar. As pessoas rezam nas mais diversas circunstâncias: algumas em desespero, quando a mente está agitada, e algumas em paz, voltando-se para Deus com calma. Existem orações de redenção, perdão ou cura – ou, se alguém tem 10 anos de idade, faz orações para ganhar uma bicicleta nova. As pessoas fazem barganhas em suas orações: “Deus, se me conceder o que desejo, prometo ser bom”, é uma fórmula comum. O fato de algumas orações serem atendidas enquanto outras são ignoradas leva a muita confusão e frustração. Mas, em termos de consciência, não se pode esperar que a oração funcione se a intenção não for clara. Em qualquer área da vida, as intenções ficam sombrias quando:

Não sabemos bem o que desejamos.

Achamos que não merecemos obter o que desejamos. Somos céticos em relação a resultados.

Temos motivações variadas.

Temos conflitos íntimos.

A oração é um assunto fundamental, e não estou julgando se funciona (diante de uma ligação clara com o nosso eu verdadeiro, acredito que as orações – ou qualquer intenção clara – podem vingar). Mas as linhas de comunicação são cortadas quando a mensagem enviada é confusa. Com a clareza vem o foco, e, quando estamos focados, o poder da consciência fica ativado.

O segredo para manter o foco é fazer isso sem esforço. A imagem de um gênio de cenho franzido concentrando-se feito louco é equivocada. A consciência gosta de estar concentrada quando se sente satisfeita – por isso duas pessoas apaixonadas não conseguem tirar os olhos uma da outra. Elas se embriagam uma da outra, sem esforço algum. Portanto, use a sua concentração em coisas da vida espiritual que o encantem. Para mim, há trinta anos a poesia de Rumi me fascina, pois gosto da sensação que ela me transmite. Textos espirituais inspiradores sempre têm esse efeito em mim, como acontece com muita gente que faz esse tipo de leitura. Expandindo um pouco mais essa definição: é possível encontrar prazer espiritual em qualquer lugar – num pôr do sol tropical, em crianças brincando, na serenidade do rosto de alguém dormindo.

O foco não deve exigir esforço, mas não é passivo. Quando nos focamos de fato em experiências espirituais, acontece o seguinte:

Ficamos relaxados e num estado receptivo.

Há uma quietude interior.

A experiência pode se aprofundar.

Ficamos plenos de uma sensação sutil de beleza, prazer, encanto ou amor. Gostamos da sensação e deixamos que ela perdure.

Em resumo, essa é uma das mais suaves habilidades da consciência, e uma das mais prazerosas.

Habilidade nº 4: Aprofundar-se

Quando penso na mente, penso num rio. O ondular da superfície indica uma corrente que flui rapidamente. Abaixo da superfície o mesmo rio flui mais lentamente, não há ondas agitando a água. Mergulhemos mais, e a água passa ainda mais devagar, e, lá no fundo, quase não há movimento. No entanto, é o mesmo rio. A maior parte das pessoas passa 90 por cento do tempo na superfície da mente, local revirado pelos acontecimentos cotidianos. Seria fácil acreditar que essa atividade inquieta é a mente. E, realmente, não existe mais nada enquanto não mergulharmos fundo.

Todo mundo já vivenciou momentos de maior paz de espírito – milhares de pessoas saem de férias só para ter essa vivência. Mas as sabedorias tradicionais não consideram que a paz e a calma sejam as férias. Ensinam que a natureza da mente é silenciosa, ampla e calma. A atividade da mente, ou seja, todos os pensamentos e sentimentos que temos, é algo secundário. O silêncio mental é essencial. Por quê? Não saberemos o valor desse silêncio até conseguirmos chegar até ele e explorá-lo. Muitos jardins de infância mandam as crianças fecharem os olhos e relaxarem por alguns minutos toda tarde. Talvez alguém se lembre de como ficava impaciente, de como queria que aquilo acabasse logo para ir correr e brincar.

Nos adultos, essa mesma impaciência formou uma ranhura profunda. Resistimos a ficar quietos, pois só conhecemos a atividade, um estado constante de agito mental. A natureza silenciosa, calma e pacífica da mente não faz parte de nossa vivência. Milhares de pessoas no Ocidente já ouviram falar de meditação, muita gente até já tentou. A vida diária é tão estressante e confusa que fazer uma pausa soa tentador. Mas o mentor espiritual J. Krishnamurti disse algo importante ao declarar que a verdadeira meditação dura 24 horas por dia. A verdadeira meditação ocorre quando damos um mergulho profundo em nossa mente e ali ficamos.

Esse mergulho profundo nos aproxima de nossa origem. Na origem da mente ficam a criatividade, a inteligência, a paz e a alegria. Não é preciso trabalhar para obter essas coisas. Fazem parte do panorama. Como dizem: estão inclusas no pacote. A meditação permite que as encontremos. Não é difícil de obter um vislumbre disso, e, com a repetição, esse vislumbre se transforma numa vista. A mente vai gostar do que vê, e assim o desejo de se aprofundar cresce sozinho.

A fim de dar um mergulho neste instante, eis aqui um exercício respiratório e meditativo. Certifique-se de que não vai ser importunado. Feche os olhos, limpe a mente e fique receptivo. Em seguida, volte a atenção para a ponta do seu nariz. Sinta o ar entrar e sair suavemente ao respirar. Faça isso durante dez minutos. Se sua atenção se desviar da ponta do nariz – como acontece naturalmente –, traga-a de volta. Mas não force a atenção nem tente controlar a respiração. Aja com naturalidade e leveza.

Antes de abrir os olhos, aprecie o seu íntimo. Deixe que essa sensação se aprofunde, permanecendo com ela. Agora, abra os olhos e continue o seu dia. Quase todo mundo sente que os efeitos dessa meditação simples perduram algum tempo. As cores ficam um pouco mais vívidas ou os sons parecem mais nítidos. Há uma sensação íntima de calma e uma tendência menor de ser tragado pelas atividades. Se o seu dia é frenético e você mergulha rapidamente nele, essa sensação vai se prolongar menos. Mas medite duas vezes ao dia por dez a vinte minutos e você vai sentir uma diferença mais prolongada.

O silêncio seria de pouca valia e só serviria como um tipo de férias íntimas se não alterasse a vida exterior. Essa é uma medida essencial. Cumprindo por um mês uma programação de meditação você poderá se fazer as seguintes perguntas:

 

Inventário da meditação

Eu me sinto mais leve?

Sinto mais energia?

Sinto-me mais centrado?

As dificuldades estão ficando mais fáceis?

O meu humor melhorou?

O nível de estresse baixou?

Tive momentos inspiradores?

Sinto-me agradecido?

Valorizo mais a minha vida?

Estou mais íntimo das pessoas que amo?

Sinto-me menos isolado ou que faço parte de alguma coisa? Estou julgando menos os outros e a mim mesmo? Estou mais à vontade comigo mesmo?

Sinto paz interior?

Esse inventário é detalhado. Tem que ser, pois sempre que alguém diz: “Já tentei meditar, mas desisti”, em geral não tem uma razão específica para ter parado. Esse hábito novo não “pegou”, os antigos permaneceram. Mas, se avaliamos item por item desse inventário, percebemos que não se trata apenas de se sentir mais calmo com a meditação. Trata-se de ativar a mente como um todo, e isso afeta todos os aspectos da vida.

Com essas quatro habilidades você pode fazer do caminho espiritual uma prática.

A transformação está ao seu alcance. Não é apenas um sonho ou uma concepção abstrata, inspirada pelas escrituras e pela poesia. Os maiores milagres são obtidos ao aceitarmos o dom da consciência com o qual nascemos. Pode dar a sensação de que estávamos perambulando muito longe de onde começamos. Comer em excesso foi o problema original que a maioria de nós acha importante resolver, mas é um problema mundano. No entanto, a solução – comer com consciência – nos levou longe. Expandiu-se em conscientização de vida, e a maneira mais inspiradora de viver é a espiritualidade. Os temas leveza, pureza, equilíbrio e energia se aplicam a leveza da alma, pureza do coração, equilíbrio interior e exterior e energia para buscar o melhor da satisfação.

É um desperdício a vida de quem fica num canto, como a carta fechada de Rumi. Para mim, basta um lembrete de Rumi para que eu recupere o sentido da vida:

Esta vida sabe de si

Mais do que dizem as palavras,

É como passar uma taça onde está escrito,

A vida é minha, mas não é minha.

A vida pertence a cada um de nós, mas também nós pertencemos à vida. Sempre que nos sentimos satisfeitos, estamos gerando o impulso cósmico do gozo. No momento presente uma taça é passada para diante e para trás. Você a segura nas mãos por um breve instante antes de devolvê-la ao universo. O grande milagre é que quando a recebe de novo, a taça está sempre cheia, pronta para ser saboreada mais uma vez.

HORA DE AGIR:

Ser holístico –

Programa de meditação de sete dias

 

No início deste livro falei de uma onda de mudanças e de como tomar parte dela. Meu estilo de

vida se modificou quando me juntei a ela: fiquei mais ciente do que comia e de que pequenos passos conduziam a uma compreensão mais profunda do que a nutrição realmente significa para a mente, para o corpo e para a alma.

Mas existe outra onda que vai ainda mais longe, além dos limites da vida de uma pessoa – o

movimento em busca de uma maneira holística de viver. Ele é global e afeta a todos porque a ecologia mundial está em perigo e o planeta sofre com a pressão do superpovoamento. Assim, procurar viver como fazíamos no passado não é mais possível. A vida sustenta-se a si mesma e ainda assim os seres humanos são os cuidadores dela. Temos a responsabilidade de sustentar o meio ambiente embora a maneira de fazê-lo não esteja totalmente clara.

Viver holisticamente significa sentir-se ligado a tudo. Uma árvore na Amazônia exala o oxigênio

de que você precisa para viver, enquanto você exala o dióxido de carbono de que essa árvore também precisa para viver. O vírus que faz uma criança na China adoecer alcança rapidamente a soleira da porta de outra criança em algum outro lugar do mundo. Água, alimento e ar não são mais apenas necessidades locais, alimentam o corpo do planeta. Para o indivíduo, um estilo de vida holístico deve ainda trazer felicidade. Não precisamos ser monges e freiras e renunciar ao nosso bem-estar para que a Mãe-Terra possa ficar melhor. As duas coisas são complementares. É possível ser feliz e ao mesmo tempo promover o bem-estar de tudo que tem vida.

A maioria dos temas expostos neste livro diz respeito ao viver holístico, em especial à pureza e

ao equilíbrio. Devorar os limitados recursos do planeta é desequilibrado. Encher a atmosfera com poluentes é impuro. Por que continuar a fazer o que sabemos ser obviamente errado? Porque estamos amarrados à felicidade, e os velhos padrões de felicidade dependem de sermos um consumidor que anseia mais de tudo, dispõe dos resíduos sem cuidado, se preocupa apenas com “o eu, o mim, o meu”, sem olhar para toda a família humana, e vive o presente deixando que o futuro cuide de si mesmo.

Acredito que a vida também pode ser feliz com objetivos maiores. A satisfação será sempre a

chave. Mas a satisfação interior é muito mais satisfatória do que a promessa de felicidade baseada no consumo interminável. Gostaria de oferecer um novo padrão de felicidade para substituir o antigo. Convido você, leitor, a encontrar satisfação a cada dia, começando exatamente agora. Você não se juntará a uma causa ou a uma procissão. Fará apenas uma conexão, que começa e se espalha com você.

A seguir, você encontrará um programa de meditação de sete dias que não depende de esforço,

mas é pleno de significado. Ele fez sucesso e ficou conhecido entre centenas de pessoas que o seguiram no Chopra Center. Leia o texto e depois pratique a meditação de cada dia. Todos os

mantras têm origem na tradição védica da Índia – usá-los é opcional, mas recomendado, pois conduzem a mente a um local mais profundo.

Você já está ligado a toda vida existente na Terra – isso é um dom – e agora é a hora de sentir essa

conexão e deixar que ela penetre em sua consciência. Muitas pessoas clamam por uma mudança no estado de consciência e por um novo paradigma para o futuro. Aqui está uma maneira de responder pessoalmente a esse chamado.

 

Domingo, 1º dia

Saúde perfeita

Na consciência de cada pessoa existe um espaço livre de doenças, que nunca sente dor, que é

alegre e vibrante. Quando se alcança esse espaço, as limitações que geralmente sentimos deixam de existir. Se a conexão entre mente e corpo for forte, a consciência pode ser convertida em saúde perfeita. Isso não é um sonho. No ciclo de feedback do corpo, cada pensamento, sentimento ou sensação intangível é transformado em sinais químicos ou elétricos. A consciência afeta constantemente o corpo. Por isso, é razoável acreditar que mensagens negativas tenham consequências negativas para a saúde, enquanto mensagens positivas tenham o efeito oposto.

Ter uma saúde perfeita é o padrão normal de cada célula. Ou as imperfeições são curadas ou a

célula morre. Se forçada a existir em estado imperfeito, uma célula pode adaptar-se com extraordinária flexibilidade – é assim, por exemplo, que o coração consegue funcionar durante anos mesmo com baixa oxigenação devido ao bloqueio das artérias coronárias. No entanto, se o estado de desequilíbrio perdura por tempo exagerado, células, tecidos e órgãos morrem. Uma vez que a saúde perfeita é uma norma para suas células, também deve ser norma para você, como ser que envia cada mensagem a essas células. A maneira como você intervém depende das suas escolhas. Cada intervenção positiva oferece ao corpo perfeita saúde; cada intervenção negativa estressa o corpo e empurra-o, muito ou pouco, em direção a uma saúde precária.

Décadas foram necessárias para a medicina moderna reconhecer a conexão entre a mente e o

corpo, e, como os médicos ainda são treinados a tratar partes isoladas do seu corpo, ser saudável é uma responsabilidade sua. Chegar a um estado de saúde perfeito exige maior conscientização da sua parte. Este livro descreveu o que “viver conscientemente” pode fazer por você. Obter todas as ferramentas é importante. Mas você tem que usá-las. É fácil contentar-se com menos e, quando as expectativas caem, velhos padrões reaparecem do nada, oferecendo o caminho de menor resistência.

O que alimenta um modo consciente de viver é a inspiração, e a inspiração vem do íntimo. Ela

não surge sob a forma de massagens revigorantes – embora estas também sejam ótimas –, mas de um estado centrado de ser e de sentir-se em relação a você mesmo. Protegido do agito do estresse e das pressões externas, você vai perceber como é mais fácil seguir sua nova concepção de vida. Uma voz calma vai lhe mostrar como fazer o que sabe ser o melhor para você. Esse se torna o caminho menos resistente, sem cair em maus hábitos. Na meditação de hoje, e em todas as seguintes, o objetivo é simples: o que você deseja fazer em seguida será a melhor coisa que você pode fazer para si mesmo.

Quando iniciar sua primeira meditação do dia, concentre-se no seguinte pensamento:

“Comprometo-me a viver em perfeita saúde”.

Para começar, ache uma posição confortável, apoie gentilmente as mãos no colo e feche os olhos.

Observe a entrada e a saída do ar. A cada inalação e expiração fique mais relaxado, mais confortável e mais à vontade.

O mantra: Em seguida, entoe o mantra que faz a conexão com sua lembrança de plenitude,

repetindo-o mentalmente e deixando que ele flua sem esforço: Om Bhavam Namah, que significa “Eu sou uma existência absoluta. Sou um campo para todas as possibilidades”.

Repita-o silenciosamente, de olhos fechados. Sempre que você se distrair com pensamentos,

sensações corporais ou ruídos no ambiente, apenas retome a atenção, repetindo mentalmente o mantra.

Continue a meditação. Ao pensar que cerca de dez minutos já se passaram, dê uma olhada em seu

relógio. Se ainda sobrar tempo, feche os olhos e continue com o mantra. Se os dez minutos já passaram, então está na hora de liberar o mantra. Transfira a atenção gentilmente de volta para o seu corpo. Assuma um momento de repouso, inalando e expelindo devagar e profundamente. Ao sentir-se pronto, abra os olhos devagar.

Siga adiante: Ao continuar as atividades diárias, simplesmente mantenha consigo o conhecimento

de que, com uma mudança mental, você pode alterar sua vida. Volte ocasionalmente a este pensamento central: “Estou criando uma saúde perfeita a cada escolha que faço. Estou criando uma saúde perfeita a cada escolha que faço”.

 

Segunda-feira, 2º dia

A sabedoria do seu corpo

Cada um de nós possui uma qualidade interior que não se reflete em nossos pensamentos diários,

ocupados principalmente com as tarefas da vida. Essa qualidade está enraizada no corpo. Enquanto os seres humanos lutam e discordam, trilhões de células sincronizam cada processo biológico levando em conta centésimos de segundo. Enquanto o ego nos leva a preencher autocentradas ambições, cada parte do corpo instintivamente trabalha em cooperação, sempre objetivando o todo. As células não sabem como ser egoístas e, se parecem esquecer o bem-estar do corpo todo, tais células tornam-se malignas. Buscando a própria expansão a qualquer custo, essas células invadem outras partes do corpo, apenas para, no fim das contas, descobrir que sua única recompensa é a morte.

Ao longo deste livro, você aprendeu a obedecer à sabedoria de seu corpo. Ao confiar

completamente nele, você deixa de interferir nessa sabedoria. Você deixa de sobrecarregá-lo com estresse, sono de baixa qualidade, dieta imprópria e horas diárias de total inatividade com surtos intermitentes de hiperatividade. Estamos todos envolvidos por uma visão materialista do mundo e, durante muito tempo, uma noção semelhante à sabedoria do corpo foi desqualificada – e em algumas partes ainda é –, classificada como não científica. Mas não há necessidade de retomar esse assunto. A conexão entre a mente e o corpo é uma certeza científica, e os maiores avanços procedem de pesquisadores que demonstraram que as mensagens químicas recebidas e enviadas pelas células cerebrais eram encontradas no trato digestivo, no sistema imunológico e na pele. O cérebro não é mais o único local da inteligência. Em vez disso, a inteligência é como um rio que percorre todos os tecidos. Está correto referir-se ao sistema imunológico como um cérebro flutuante e considerar as intuições tão legítimas quanto as emoções e os pensamentos “em sua cabeça”.

A bioquímica da intuição e da introspecção, ou do rio interior, que torna os seres humanos tão

curiosos e criativos, ainda não aflorou. Mas não há dúvida de que a conexão entre a mente e o corpo

estará envolvida nisso – é preciso apenas encontrar meios mais sutis de observá-la. Nas sabedorias tradicionais, a sapiência do corpo não precisa ser justificada, nem jamais foi questionada. Ela já existe em um estado de unidade. O corpo é visto como um componente da dança cósmica, seu aparato de inteligência deriva de um campo de inteligência que organiza toda a criação. Essa é uma visão espiritual, embora se fosse possível perguntar a uma célula de onde ela veio, é claro que ela apontaria para o corpo como um todo – uma célula cardíaca ou hepática não acredita nem por um instante que sua vida seja isolada, separada ou acidental. Ser uma única célula no corpo do universo, como cada um de nós, funciona da mesma maneira. Se você pudesse ser tão sábio quanto o seu corpo, cada coisa em sua vida estaria em harmonia com tudo o mais. A meditação é um poderoso meio para atravessar a ponte entre nossa imperfeita autoimagem e a perfeição que chega sem esforço ao nosso corpo.

Quando iniciar sua meditação, contemple este pensamento centralizador: Confio na sabedoria do

meu corpo.

Inicie sua meditação seguindo as instruções do 1º dia. O mantra: Agora, entoe gentilmente o mantra. É um som, Shyam, que está associado à intuição e à

visão interior. Pronuncia-se “shi-um”.

Siga adiante: À medida que você dá continuidade ao seu dia, escute sua intuição e contemple este

pensamento centralizador: Minha mente e meu corpo estão em perfeita sincronia. Minha mente e meu corpo estão em perfeita sincronia.

 

Terça-feira, 3º dia

Restaurando o equilíbrio

A chave para restaurar o equilíbrio e manter nosso peso ideal é, a partir de hábitos inconscientes,

expandir a consciência até fazermos escolhas conscientes. Sempre que temos uma experiência, a mente está em um dos três estados: inconsciente, consciente ou consciente de si mesma. Os principais modos de ação da mente, inconsciente e consciente, são altamente desenvolvidos. Ao agir de modo inconsciente, o cérebro é capaz de cuidar do corpo sem necessitar de detalhadas instruções específicas, processando os cinco sentidos de modo a manter-nos conscientes a respeito de nosso mundo interior e exterior. No entanto, no estado inconsciente, saúde e bem-estar geralmente são deixados ao acaso e um ciclo de feedback mínimo age automaticamente, sem percebermos.

Pense neste exemplo: se no trabalho você se serve da terceira xícara de café do dia sem pensar,

você está fazendo algo inconscientemente, que é a maneira de agir que sublinha os hábitos. Se você se vê pegando o bule de café, então você está consciente. Então você vê o último biscoito que ficou para você pegar. A consciência pessoal pode também entrar no jogo. Nesse momento, você pode se perguntar: “Por que eu preciso disto?”. Quando começamos a fazer indagações a nós mesmos, refletindo a respeito de comportamentos, vislumbrando uma perspectiva mais ampla e então nos abrindo para as respostas, estamos no rumo da consciência pessoal. Agindo assim, você começa a prestar atenção no seu verdadeiro eu. E é dele que procedem valores, significados, objetivos e respostas.

A consciência pessoal nos leva além dos velhos e gastos caminhos cerebrais que mantêm fixos

hábitos inconscientes. Imagine uma situação em que você esteja aborrecido. Nesta circunstância, quando você reconhece, “Estou aborrecido” é um pensamento consciente. Mas saber de onde seu

aborrecimento procede envolve um componente de consciência pessoal da situação que lhe permite reconhecer um padrão de comportamento. Você percebe que velhos hábitos semelhantes – antigas explosões, por exemplo – não lhe foram úteis, e começa a tomar medidas para transcender essas respostas habituais.

Com a consciência pessoal, a realidade se altera e, com a ajuda de nosso espírito, começamos a

ter controle sobre ela. A consciência pessoal abre as portas para mudanças duradouras e nos dá forças para fazer escolhas mais gratificantes.

Aqui está o pensamento centralizador para a meditação de hoje: Com consciência crio hábitos

saudáveis.

Comece sua meditação, seguindo as instruções do 1º dia. O mantra: Agora, gentilmente, entoe o mantra de hoje. Ele é Om Kriyam Namah (Kriyam

pronuncia-se “krii-yum”), que se traduz como: “Minhas ações estão alinhadas com a lei cósmica”.

Siga adiante: À medida que você der continuidade ao seu dia, contemple o seguinte pensamento

centralizador: Com consciência, crio hábitos saudáveis. Com consciência, crio hábitos saudáveis.

 

Quarta-feira, 4º dia

Respirar para equilibrar

Todos os seres vivos são animados pela respiração, a troca de átomos que dá suporte à vida na

atmosfera ou nos oceanos. Na tradição hindu, a respiração ocupa um nível mais sutil, ligado à força da vida ou prana. Segundo esse antigo modelo, o prana pulsa através do corpo e nos dá vida. Em sânscrito “prana” significa simplesmente “respiração”, e baseados nisso – sem a necessidade de aceitar a noção implícita de força vital – foram estabelecidos muitos exercícios que usam a respiração para fazer as pessoas se sentirem calmas, centradas e equilibradas. Esses sentimentos subjetivos também foram associados a benefícios físicos, tais como a diminuição da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos.

As pessoas também relatam que os exercícios prânicos lhes proporcionam um aumento de energia

durante o dia. No Ocidente, estudos a respeito do “corpo sutil” são raros porque não há uma ligação entre modelos antigos e modernos. Mesmo assim, a ioga baseia-se em um modelo antigo e centenas de pessoas se beneficiam dela sem precisar adotar uma diferente visão do mundo. Considera-se que o prana ative todas as forças vivas do corpo. E, embora o prana nos forneça energia por meio da respiração, todas as formas de energia – luz, calor, eletricidade – são associadas ao prana, assim como na medicina moderna as atividades do cérebro dependem da mistura de processos químicos e elétricos, com os nutrientes derivados de alimentos e do oxigênio.

Na ioga há práticas elaboradas para controlar o fluxo do prana. Mas, em termos ocidentais, o

ponto central consiste em fornecer uma melhor conexão entre mente e corpo. Clareza mental e energia são essenciais para ouvir o corpo. Assim, no sistema hindu o prana funciona como um tipo de ciclo de feedback vital. Como você descobriu neste livro, a consciência serve ao mesmo objetivo. Há aqui uma ligação com a meditação. Quanto mais sua prática estiver conectada com a respiração, mais espontaneamente você entra em um estado consciente definido – a respiração consciente leva a mente de volta a si mesma.

Aqui está o pensamento central para a meditação de hoje: Estou unido ao sopro da vida.

Comece a meditação, seguindo as instruções do 1º dia. O mantra: Agora entoe gentilmente o mantra de hoje. Ele é So Hum, que significa “Eu sou”. Siga adiante: À medida que você segue adiante com o seu dia, contemple o seguinte pensamento:

Sou sustentado pelo sopro da vida. Sou sustentado pelo sopro da vida.

 

Quinta-feira, 5º dia

Comer em prol do equilíbrio

Comer é uma atividade diária, mas há um significado mais profundo nesse ato. No Ocidente

estudamos os alimentos em termos de nutrição mensurável – calorias, proteínas, gorduras, vitaminas e assim por diante –, ao passo que sob um ponto de vista holístico você é o que você come. O corpo converte alimentos em pensamentos, sentimentos, sensações, humores e tudo o mais que existe na complexidade do sistema mente-corpo. Portanto, a alimentação se funde com o estado de consciência, com a inteligência e com as escolhas diárias. Quando você consome alimentos íntegros naturais e bebe água limpa e fresca, ingere a energia vital que transforma centenas de processos no corpo humano.

No sistema aiurvédico, a nutrição é encarada holisticamente, no sentido de alcançar um estado de

equilíbrio dinâmico. Séculos mais tarde, as pesquisas ocidentais confirmaram as ligações químicas que unem o alimento ao cérebro, apresentando provas concretas de que, em termos de mensagens que circulam pelo corpo, realmente “você é aquilo que come”. A mensagem mais básica que o alimento passa a você decorre do próprio ato de comer. Se você come depressa, sem prestar atenção à comida, sem oferecer gratidão, mas simplesmente abastecendo o seu motor biológico, não há efeito algum nas calorias e nos nutrientes da comida. No entanto, há uma grande mudança na sua experiência. Quando você dá a primeira mordida, seu corpo recebe uma porção de informações, primeiramente através do paladar, mas também por meio de seus pensamentos, sensações, humores e expectativas. “Eu não deveria estar comendo isto” envia uma mensagem muito diferente de “Estou fazendo um bem danado a mim mesmo”.

Você pode fazer do ato de comer uma ótima experiência e, quando o faz, não apenas sua comida,

mas toda a experiência é metabolizada.

É importante apreciar e celebrar a comida por seu valor holístico. Comer com consciência,

sentando-se numa atmosfera calorosa, com pessoas amadas e fazendo da refeição um momento de trocas positivas, montará o palco para uma melhor experiência. A refeição vai estar em harmonia com o seu corpo. Você vai comer com satisfação.

Aqui está o pensamento central para a meditação de hoje: Escolhi alimentos que me ajudam a

prosperar.

Comece sua meditação, siga as instruções do 1º dia. O mantra: Agora, gentilmente entoe o mantra Om Vardhanam Namah, que significa “Alimentei o

universo e o universo me alimenta”.

Siga adiante : À medida que você dá continuidade ao seu dia, contemple este pensamento central:

Como para nutrir mente, corpo e espírito. Como para nutrir mente, corpo e espírito.

 

Sexta-feira, 6º dia

Movimento-me em prol do equilíbrio

Seu corpo quer se movimentar e se você se movimenta de acordo com a própria natureza, vai

receber quase todos os benefícios de um exercício organizado. O movimento é pessoal. A mais avançada pesquisa sobre ciência esportiva revela que nem todo mundo se beneficia de um mesmo exercício – aumentos na oxigenação sanguínea e força adicional variam muito. Na maioria dos casos, seu corpo lhe dirá o quanto ser ativo. Há um acordo natural entre pessoas que gostam de fazer ginástica e pessoas cujos corpos estão prontos a se beneficiar com isso.

Apesar disso, todo mundo deveria se movimentar pelo menos uma hora por dia. Se a gente fica

sentada durante uma hora, as gorduras sanguíneas e os níveis de açúcar sanguíneo aumentam. Apenas ficando em pé e movimentando-se um pouco você já ajuda a reequilibrar esses níveis. Se acrescentar alguma caminhada, mesmo andando devagar, quase dobrará seu metabolismo. Acrescente alguns poucos minutos de exercício vigoroso, suficiente para aquecer os músculos, e estará fazendo ainda mais para equilibrar os açúcares sanguíneos. Em outras palavras, segundo a ciência médica o nosso estilo de vida cada vez mais sedentário não está em harmonia com o modo como o corpo foi projetado.

A ioga, que se tornou popular no Ocidente, é um regime muito mais amplo do que o

condicionamento físico (chamado propriamente de hatha yoga). Seu objetivo global é unir corpo, mente e espírito em um todo harmonioso. Você pode começar em qualquer parte, porque todo o sistema está interligado. Ajustar a mente também ajusta o corpo e vice-versa. Desde que preste atenção à questão do “equilíbrio”, você estará beneficiando cada célula, permitindo-lhe balançar para trás e para frente, entre descanso e atividade, pressão e relaxamento, função alta e função baixa. A única coisa que tira o equilíbrio do lugar é a estase. Pode parecer que você não está fazendo nada quando só fica sentado, mas a negligência não é tudo. Você também está forçando seu corpo a se manter em baixa função o dia inteiro, quando o que ele deseja é um equilíbrio dinâmico entre atividade e descanso.

Como um programa voltado para o equilíbrio, a ioga pode abranger qualquer atividade que ajude

a trazer uma sensação de paz e unidade à sua vida. Você merece saborear a experiência de estar habitando um corpo. Há muitas maneiras de aprofundar a experiência. Dançar, nadar, correr, andar no parque – se proporcionarem satisfação tais atividades podem ser como meditações móveis para seu corpo. Permita-se experimentar a riqueza do mundo natural fortalecendo seu sistema cardiovascular, liberando endorfinas em seu cérebro e limpando a mente. O objetivo último da ioga, em todas as suas formas, é animar o consciente e aumentar sua compreensão a respeito do verdadeiro eu. Portanto, altere todos os seus preconceitos a respeito dos exercícios serem um dever. Exercício é qualquer movimento do corpo que o faça se sentir mais em contato com você mesmo e mais feliz por estar vivo.

Aqui está o pensamento central da meditação de hoje: Sou flexível, forte e equilibrado. Comece sua meditação, seguindo as instruções do 1º dia. O mantra: Gentilmente entoe o mantra de hoje: Om Varunam Namah, que significa “Minha vida

está em harmonia com a lei cósmica”.

Siga adiante: À medida que você dá continuidade ao seu dia, contemple este pensamento central:

Quando me movimento, gosto de estar vivo e do bem-estar que isso me proporciona. Quando me movimento, gosto de estar vivo e do bem-estar que isso me proporciona.

Sábado, 7º dia

Seu bem-estar

Parabéns! Você passou sete dias trabalhando uma visão mais holística de sua consciência, não

apenas intelectualmente, mas na prática. O objetivo da tradição espiritual indiana é compatível com um estilo de vida holístico. A palavra “yoga” significa “unidade”, e o conceito por trás da palavra – ser uno – é universal. Apesar das diferenças entre as línguas e as culturas, todas as gerações procuraram alcançar a satisfação. As soluções que elas encontraram estavam destinadas a ser compartilhadas como uma herança comum. Seria um triunfo do espírito humano se ignorássemos muros e fronteiras e olhássemos Aham Brahmasmi, “Eu sou o universo”, como uma visão aplicável a todos, e não apenas como a cultura védica que floresceu há centenas de anos. Da mesma maneira, o ensinamento de Jesus sobre como buscar o reino do céu em nosso interior é uma solução que não merece ficar fechada em um compartimento acessível apenas aos cristãos.

Você está procurando um estado próprio de bem-estar e, de muitas maneiras, não está sozinho.

Cada homem e mulher que o precedeu deixou um donativo silencioso: a evolução do cérebro. Passaram-se dezenas de centenas de anos para se constituir a conexão entre a mente e o corpo que existe hoje, equilibrando os impulsos primários que compartilhamos com os répteis, as emoções que começaram a aparecer entre os primatas e os primeiros hominídeos, e a racionalidade e introspecção do neocórtex, último estágio evolutivo do cérebro.

Em termos modernos, essas meditações diárias constituem uma nova maneira de treinar o cérebro,

mas afinal corpo e espírito são o que interessa. O cérebro é a sua interface física, trazendo objetivo e significado ao mundo físico, de modo que cada um de nós pode escrever sua história. A meditação não é um fim em si mesma. Ela leva a consciência a um lugar em que você pode fazer escolhas que determinam como sua história se desenvolve, dia a dia. Se você deseja que clareza, equilíbrio, energia e pureza façam parte da sua história, comece agora – eles pertencem ao presente momento.

Você tem todas as ferramentas necessárias para encontrar a própria satisfação. O que essas

meditações diárias acrescentaram foi um impulso de inspiração. Hoje, adicionamos a nota final, que é a gratidão. A gratidão é uma parte importante para viver em equilíbrio. Quando somos gratos por tudo que temos em nossa vida, o ego sai do caminho e ficamos completamente abertos à troca dinâmica do universo. Se você ainda não estiver fazendo isso, comece a manter um registro de gratidão e tome nota de cada coisa pela qual você deve ser grato a cada dia. Faça um balanço de como “viver conscientemente” se manifesta em sua vida. Pergunte a si mesmo de que modo fazer escolhas conscientes gerou alguma diferença. Agradeça a si próprio por todas as mudanças que tenha feito – pequenas e grandes – e aprecie os benefícios delas.

Lembre-se também de que vivemos em comunhão com os outros. Portanto, partilhe sua nova

consciência pessoal, disponha-se a ajudar os outros nas jornadas deles e peça apoio para as suas. Você é parte da conscientização coletiva, uma onda em um vasto e belo oceano. Reconheça e comemore essas sagradas conexões.

Aqui está o pensamento central da meditação de hoje: Eu escrevo minha história. Eu crio meu

bem-estar.

Comece sua meditação, seguindo as instruções do 1º dia. O mantra: Agora, gentilmente entoe o mantra de hoje. Ele é Sat, Chit, Ananda, ou “Ser,

consciência, bem-aventurança”.

Siga adiante: À medida que você dá continuidade ao seu dia, contemple este pensamento central:

Minha história está sendo aperfeiçoada neste momento. Minha história está sendo aperfeiçoada neste momento.