A gente mira no amor e acerta na solidão

7 Solidão × sentimento de solidão

 

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SOLIDÃO × SENTIMENTO DE SOLIDÃO

“Titia, fale comigo! Estou com medo porque está muito escuro.”

E a tia respondeu:“De que adianta isso? Você não pode me ver”.

“Não faz mal”, respondeu o menino, “quando alguém fala fica mais claro”.

Sigmund Freud, citando uma criança de 3 anos Gostaria de destacar, no entanto, outro ponto: a solidão é uma ilusão, porque em última instância a gente nunca está sozinho, mas está com a gente mesmo. Pode parecer um discurso de autoajuda aqui, mas não se preocupe, leitor, não se trata de “coachizar” a solidão e proferir frases chulas, tipo que a gente sempre pode contar consigo mesmo ou coisa assim. O que quero dizer com isso é que se temos medo da solidão é porque no fundo ela é uma ilusão; a gente está sempre, em algum nível, com o nosso Supereu.

Explico: como falei anteriormente, a base do nosso psiquismo são os primeiros amores da nossa vida, com frequência os nossos pais, que nos interpretam e interpretam o mundo para nós. Isso não ocorre sem consequências. Do mesmo modo que uma mãe pode marcar seu filho para sempre fazendo-o acreditar que ele é uma criatura especial,

linda e inteligente, os pais e cuidadores da criança, assim como toda a cultura em que ela está inserida, marcam-na com ordens e imperativos. O que chamamos de “patriarcado”

também tem relação com isso, de um dito do outro que nos marca na carne e nos leva a tomar posse dele. Uma moça que atendi em algum momento da vida odiava seu nariz e contava que a mãe, que se dava muito mal com a sogra, dizia que o nariz da filha era igual ao da sogra. Tornou-se bastante difícil para essa moça olhar para si mesma sem os efeitos dos olhares da mãe.

Os ditos dos nossos primeiros amores, e também alguns da cultura, são internalizados em nós e nos constituem, e é isso que Freud chamou de Supereu. Isso é ótimo, porque funda valores éticos e morais em nós, nos situa em relação ao que é entendido como certo e errado na vida, mas também pode vir a ser muito danoso, porque esse circuito não tem fim.

Sabemos o quanto o machismo, por exemplo, tão presente em nossa sociedade, atravessa cada um de nós – e o grande trabalho que temos para nos desembaraçar dele.

O amor transmitido pelos pais funda a criança como alguém que se liga à vida e ao seu corpo, mas também a encapsula em uma autoexigência fantasiosa. Pensar que somos especiais nos leva a uma exigência infinita de que sejamos melhores, de que leiamos mais livros, viajemos mais etc., porque somos especiais. Essa demanda desmedida que fazemos a nós mesmos, herança do amor dos nossos pais por nós, por vezes também nos leva a fantasias amorosas impossíveis. Assim, há quem siga buscando nas parcerias amorosas da vida adulta o amor infantil que viveu ou que gostaria de ter vivido na relação com os pais. Um baita equívoco. Na melhor das hipóteses, ninguém nos amará como fomos amados pelos nossos pais.

Ter o narcisismo furado, entender que não somos especiais, mas pessoas faltantes, castradas, furadas, por vezes é algo que se consegue só com muito trabalho de análise. E é um grande alívio descobrir que não temos nada de mais, que somos só mais uma pessoa dentre as quase 8 bilhões neste mundo. Aliás, com tanta gente nesse mundo, como alguém ousa se sentir só? Nesse ponto percebemos o quanto, por vezes, a solidão é um tema tratado como sentimento. Sentir-se só não é o mesmo que estar só.

Em 2018, o Reino Unido criou um “Ministério da Solidão”

e, mais recentemente, em 2021, o Japão também o fez, preocupado com o aumento das taxas de suicídio no país. A solidão tem sido pensada como uma patologia a ser eliminada, como se não fosse da nossa condição humana sermos solitários.

A palavra “solitude” tem sido utilizada numa tentativa de se referir a uma espécie de solidão que não caia rapidamente no campo do sofrimento. No entanto, acho que vale ter cuidado com o uso dessa palavra para que ela não recaia em um sentido romântico, como se o tédio fosse algo a ser vivido com alegria, como se fosse possível viver em pleno estado de bem-estar no próprio corpo.

Por isso preferi manter aqui a palavra solidão, na tentativa de restituir alguma dignidade a ela, que por vezes é, sim, estado meditativo, de bem-estar, de contentamento consigo mesmo. Mas que também, por vezes, dá notícias do desamparo e da angústia com que chegamos ao mundo, os afetos fundamentais que nos levam às vivências amorosas.

Cada um de nós experimentou, experimenta em alguma medida e ainda voltará a experimentar esses afetos na vida, já que é da nossa condição de ser humano e de ser falante passar por aí. Mas o fato de esses afetos nos constituírem não significa que eles nos determinem, e é por isso que o amor é efeito da solidão, ainda que não nos livre dela. Quem sabe o amor sobre o qual eu escrevo aqui restaure alguma dignidade à solidão. Por isso insisto em chamar esse estado de solidão e não de solitude, ainda que a solidão contemple algo disso.