A gente mira no amor e acerta na solidão

3 Quem ainda se interessa pelo amor?

Amor é uma experiência grande demais para se reduzir a

apenas uma modalidade. Há muitas formas de amar e nenhuma delas é exatamente fácil, uma vez que nenhuma delas nos livra da solidão.

 

3

QUEM AINDA SE INTERESSA PELO AMOR?

Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto à própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão.

Clarice Lispector

Quanto mais as mulheres ascendem às suas liberdades, mais as taxas de divórcio aumentam. Não se trata unicamente de pensarmos que as pessoas não sabem mais amar umas às outras, mas também de que talvez agora possam amar a si mesmas – e, por vezes, em nome desse amor por si, pela própria vida, precisem abrir mão de um casamento.

Freud já havia nos avisado que encontrar a infelicidade no amor é muito mais fácil do que encontrar a felicidade. Assim, seguimos encantados e extremamente interessados pela experiência amorosa, mas muito desengonçados ao vivê-la.

Então a gente se defende! Como se o amor fosse uma luta, como se o amor fosse um jogo, como se o amor fosse uma disputa entre nós e nós mesmos.

Uma amiga minha me contava que foi a um encontro com uma pessoa com quem engatou um papo interessante por um aplicativo de relacionamentos. Ela, que, toda elegante, preocupava-se sempre com os bons modos e o bom português dos rapazes, deparou-se nesse encontro com um homem que, imediatamente depois de comer, se pôs a palitar os dentes sem nenhum constrangimento ou pudor. Ela, que em outras circunstâncias certamente descartaria naquele exato momento a possibilidade de estreitar uma relação com um homem assim, tão “ogro”, ali ficou. Achou graça do homem que palitava os dentes, mas, sobretudo, achou graça de si mesma e de sua tranquilidade naquela situação. Como ela poderia não rejeitar de imediato um homem em um cenário assim? Esse espanto era, sobretudo, consigo mesma. Quem era aquela mulher estranha nela? O amor nasce de um mistério.

Quem sou eu para além do que já sei? É a pergunta que nos fazemos na vida, e a pessoa do nosso amor tende a ser aquela que nos dá alguma pista de que tem alguma resposta. Não tem, é claro, como poderia alguém saber mais sobre nós do que nós mesmos? Mas a sensação de que há ao menos uma pessoa no mundo que nos entende, que nos conhece, que nos antecipa, é uma das primeiras marcas que temos em nosso psiquismo. São as mães, afinal de contas, que são essas primeiras figuras: seres que apostam que nos conhecem, que sabem o que queremos. É preciso dizer que também as mães não sabem. Mas elas costumam ser malucas o suficiente para acreditar (ainda que parcialmente) que sabem. Uma mãe escuta o choro de seu bebê e diz: “É fome!”, “É cólica”, “É

manha!”, e, assim, à medida que empresta sua subjetividade

para o seu bebê, interpretando-o, vai dando consistência à sua existência – daí sairá o “chão” do narcisismo da criança.

Vale dizer também que, se tudo correr bem, mães são seres bastante decepcionantes. Elas nos barram, nos impedem, demandam de nós mais do que podemos dar. Elas (e os pais também, é claro) colocam suas regras, sustentam seus limites, dizem que na casa delas é assim, nos animam a fazer diferente em nossas próprias casas. Muitos de nós (senão todos) já proferiram o famoso dito: “Quando eu crescer e tiver a minha própria casa, jamais farei isso”. Ótimo. Mesmo que a gente repita aquilo que prometemos jamais repetir, repetimos diferente.