A gente mira no amor e acerta na solidão

5 Nosso primeiro amor: o Eu

Quando nos sentimos desamparados, temos a sensação de não fazer falta para o outro. Nesse buraco da existência humana, onde tudo perde o sentido, nos sentimos excessivamente sós, e o amor titubeia. Em minha clínica várias vezes recebi pessoas muito deprimidas e tristes, que diziam não desistir da vida porque sabiam que isso acabaria com a vida dos pais, do irmão, da namorada, das amigas. Em última instância, aquilo que nos liga à vida é sempre da ordem do amor… mas nunca sem uma dose de solidão.

 

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NOSSO PRIMEIRO AMOR: O EU

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rostoChamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gostoÉ que Narciso acha feio o que não é espelhoE à mente apavora o que ainda não é mesmo velhoNada do que não era antes quando não somos mutantes.

Caetano Veloso Amar é algo que aprendemos sendo amados. É

porque alguém em algum momento nos amou, ainda que tenha amado mal, que a gente aprende a amar, ainda que ame mal. Mas nossas primeiras experiências de amor são irremediáveis. Não no sentido de que elas nos paralisam e condenam necessariamente num mesmo ponto, mas no sentido de que ninguém sai imune da família que tem. Ninguém sai ileso de uma mãe, de um pai, dos irmãos etc. Nosso modo de ocupar um lugar mais ou menos precioso para alguém servirá como bússola para nos posicionarmos no campo do amor nas escolhas da vida madura, ainda que não seja tão madura assim.

Chegamos à vida sem corpo, embora tenhamos um organismo. Não sabemos quem somos, não nos reconhecemos no espelho, não temos desejos de grandes coisas. Chegamos à vida tão frágeis que dependemos de que alguém nos adote

para sobreviver. É o amor de um outro, a quem frequentemente chamamos de mãe, que nos liga à vida. Nossa primeira tarefa na vida é receber o amor do outro. Em seguida, nos identificamos com o lugar de objeto precioso para o outro e passamos a nos amar também. Esse primeiro tempo de relação amorosa com a gente mesmo Freud chamou de narcisismo primário. É o desejo de um outro de que existamos que nos liga à nossa carne, como efeito da aposta desse primeiro outro (ou primeiros outros) que nos amará. O

psicanalista e discípulo de Freud chamado Sándor Ferenczi desenvolve lindamente essa ideia em um texto chamado “A criança

mal acolhida e sua pulsão de morte” .3

Se boa parte dos pais consegue apostar nos filhos com tanto amor,

isso não é por acaso. Freud4 aponta que os pais reinvestem nos filhos o narcisismo infantil deles já abandonado. Ou seja, os pais amarão nos filhos a própria imagem idealizada, e por isso tenderão a esperar que eles os restabeleçam em suas frustrações. Seus filhos serão amados como sendo a parte mais valiosa deles mesmos. É com esse amor, idealizado, que a criança se identificará, vindo a se achar a “última bolacha do pacote”.

A criança, do alto de seu narcisismo primário, não terá medo e nem vergonha de nada. Daí a sedução que ela exerce sobre as outras pessoas. É o tempo de fofura máster de uma criança, que se sente potente, como se nada tivesse a perder.

Inclusive, é um perigo. Uma fase onde os adultos precisam estar de olho na criança o tempo todo, que “não tem noção do perigo”. Será essa sensação de imenso valor que fundará o que depois se constituirá como autoestima do sujeito, por isso se trata de um tempo tão importante, de um amor tão

fundamental.

No entanto, para que essa criança venha a se tornar um ser humano minimamente agradável, será preciso que esse narcisismo seja furado. Eis o fundamento que organiza nossa civilização: todo mundo precisa perder um pouquinho. É o que nos permite a mínima dose de segurança. Inibo minha agressividade em relação ao outro e aposto que o outro também inibirá sua agressividade em direção a mim. Assim, tanto eu quanto o outro nos sentimos seguros para circular no mundo.

À medida que a criança vai transitando pelo mundo, vai à escola, conhece e convive com outras crianças, vai se dando conta de que não é superior às outras. Mas é importante também que os pais possam auxiliar a criança na tarefa de descobrir que ela é um ser humano como os outros. Quando os pais não conseguem desidealizar a criança, ficam fixados na ideia de que a criança é uma versão melhorada deles e que os restabelecerá de seus fracassos. Na medida em que os pais topam se desapontar com os ideais que colocaram na criança, podem perceber que seu filho não é uma versão atualizada deles mesmos, mas outra pessoa. Parece simples, mas é uma grande descoberta. Lembrem-se, as coisas mais óbvias costumam ser as mais difíceis de serem entendidas. Para além de fazer o filho entrar na moldura de filho ideal (moldura essa que os colocaria no lugar de pais deais), os pais podem, assim, aprender a serem pais com o filho que têm. A isso Freud chamou narcisismo secundário, um amor pelo Eu que é furado, que sabe que não é perfeito.

Essa passagem do narcisismo primário para o secundário não acontecerá sem angústia. A criança, num primeiro