A gente mira no amor e acerta na solidão
4 De onde vem essa ideia de que há a metade da laranja?
É preciso que uma mãe não seja tão boa assim a ponto de a gente querer ficar perto para sempre. Talvez seja disso que Winnicott trate com seu famoso conceito de mãe suficientemente boa. Mãe precisa ser boa, mas não demais, que é para a gente poder se separar. Nossa história de amor com uma mãe, se corre bem, termina em separação. É bom para um filho ter sua casa, seu dinheiro, seu corpo, sua vida, mesmo que ele tenha uma relação afetiva amorosa e estável com sua mãe.
No amor no sentido sexual, no entanto, pretendemos não nos separar nunca do outro. Temos a ambiciosa fantasia de ficar juntos para sempre. É claro que essa é uma fantasia amorosa que costuma estar advertida do impossível de encontrar a tampa da panela, a metade da laranja, especialmente nos dias de hoje, em que trabalhamos tanto para desconstruir as idealizações, por vezes delirantes, do amor romântico. Mas saber racionalmente que alma gêmea não existe não nos exime de desejar que ela venha a existir,
ou mesmo de agir como se não soubéssemos que ela não existe. A capacidade que temos de não saber aquilo que sabemos é impressionante. A isso nós, psicanalistas, chamamos de recalque, um mecanismo de defesa que nos leva a fingir para nós mesmos que não sabemos de coisas que sabemos. Por isso, com frequência, as coisas mais óbvias são também as mais difíceis de perceber.
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DE ONDE VEM ESSA IDEIA DE QUE HÁ A METADE DA
LARANJA?
Por onde andei
Enquanto você me procurava?
E o que eu te dei?
Foi muito pouco ou quase nada
E o que eu deixei?
Algumas roupas penduradas
Será que eu sei
Que você é mesmo tudo aquilo que me faltava?
Nando Reis A fantasia popular sobre o amor encontra inspiração na
fábula de Aristófanes, narrada por Platão em seu livro O banquete. 2
Nela, conta-se que antigamente éramos seres duplicados: tínhamos quatro pernas, quatro braços, duas cabeças e dois sexos.
Havia os seres que tinham dois sexos femininos, os que tinham dois sexos masculinos e os que tinham um sexo feminino e um sexo masculino. Assim, éramos seres muito fortes. Preocupado com a possibilidade de que tirássemos o lugar dos deuses, a fim de nos enfraquecer e garantir a soberania deles, Zeus teria nos cortado pela metade, costurando cada parte na região do umbigo e voltando nossa cabeça para ele, de forma que sempre nos lembrássemos do resultado da vaidade. Para, além disso, teria nos espalhado pelo planeta, afastando as metades. Desde então, cada um de nós viveria se sentindo com falta de algo, supostamente a
outra metade de si mesmo.
Trata-se de uma fantasia amorosa bastante comum, a de que encontrar nosso grande amor nos livraria de nós mesmos.
Assim, não conseguimos parar de olhar para o que nos falta, para o nosso próprio umbigo – e, em contrapartida, não podemos olhar para o mundo, hipnotizados por nós mesmos e tentando buscar no outro algo que diga respeito a nós.
Vale destacar que nessa fábula encontramos a possibilidade do amor heterossexual, já que havia seres que tinham um sexo feminino e um masculino, mas também encontramos a possibilidade do amor homossexual feminino e masculino, uma vez que haveria os seres com dois sexos iguais. A fantasia amorosa trata sempre de uma completude fictícia, seja ela qual for.
Com frequência, pensamos que, no amor, encontraríamos a parte que supostamente nos falta, a parte que nos livraria da nossa própria falta, a parte que nos preencheria. No entanto, no amor, o que se experiencia é o contrário. Quando amamos alguém, nossa falta tende a ser duplicada. Ao encontrar um amor, a gente não encontra a parte que nos faltava até então.
A gente encontra a metade que fará falta a partir dali. Mira-se no amor, acerta-se na solidão!
Amar é se haver com a insuficiência do outro, que denuncia a insuficiência de cada um. Isso que estou chamando de insuficiência não precisa ser da ordem de um sofrimento, mas pode ser justamente aquilo que nos anima na vida.
Somos seres faltantes e isso não é um problema. Aliás, está mais ao lado da solução poder fazer parceria com essa condição, inclusive porque livra o outro de ocupar um lugar daquele que nos salvará, o que certamente cai como um peso.
Ninguém salva ninguém no campo do amor, e assumir essa posição pode ser libertador. Inconscientemente, sabemos disso. Por isso é comum que a gente inclua alguma falta nas relações. Quando o outro está perto demais, sua presença excessiva nos angustia. Aí sentimos saudade de sentir saudade. Sentimos falta de sentir falta. “Vamos dar um tempo? Preciso sentir sua falta”, os amantes costumam dizer, ou pensar. Será que ele/ela vai sentir minha falta se eu não ligar hoje, se eu não enviar mensagem de bom-dia? Não queremos ser amados apenas pela presença, mas queremos ser amados especialmente pela nossa falta. Será que alguém sentiu minha falta? É a pergunta que nos fazemos quando não vamos a um encontro. E a fantasia que cada um de nós faz a respeito de sua própria morte? De imaginar o sofrimento dos que nos são caros, quem irá ao velório, como elaborarão seus lutos. Nos satisfazemos por imaginar (ou saber) que podemos fazer falta.