A gente mira no amor e acerta na solidão

6 Como habitar um corpo sozinho

momento “Sua majestade, o bebê” ,5 logo descobrirá que é apenas mais um ser no mundo, e terá de parar de “reinar”, aceitando sua condição de faltante. Podemos chamar esse momento de “castração”, para fazer referência ao conceito psicanalítico, que aponta o impossível de alguém viver sem falta. Paradoxalmente, é justamente a castração que liberta a criança para olhar para o mundo, para olhar para o outro, para poder viver sem se fixar em seu próprio umbigo.

É a noção de falta, a noção de que estamos sozinhos em nosso corpo, sem nossa suposta outra metade, que nos impulsionará a amar as pessoas e a vida para além de nós mesmos. No entanto, longe disso ser vivido como sofrimento, é, no fim das contas, um grande alívio. Quem não tem noção de que está sozinho no próprio corpo pode adoecer psiquicamente, sentindo que seu corpo é invadido pelo outro, que seus pensamentos podem ser alcançados por outra pessoa.

Um homem que conheci em uma instituição de saúde mental na qual trabalhei há alguns anos estava certo de que seus pensamentos eram não apenas lidos por seres de outro planeta, mas também projetados lá no céu para toda a população alienígena ver. Uma baita angústia ser invadido assim pelo outro. Se temos verdadeiro pavor de entrar em reuniões on-line com câmera e áudio ligados quando pensamos tê-los fechado, é porque prezamos pelas fronteiras entre nós e outros, porque prezamos por nossa solidão, que atende também pelo nome de privacidade. É um luxo poder ficar a sós com os próprios pensamentos sem ser ameaçado por uma invasão.

 

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COMO HABITAR UM CORPO SOZINHO

E ninguém é eu.

Ninguém é você.

Esta é a solidão.

Clarice Lispector

Que estamos sozinhos debaixo de nossa pele é um fato. Que soframos por causa disso é outra coisa. Nossa cultura tende a colocar a solidão como uma patologia, na medida em que junta solidão e sentimento de solidão em uma mesma ideia. É

fato que nascemos e morremos sozinhos, mas entre uma ponta e outra, nossa vida se dá na relação com várias pessoas.

Quem não pode assumir psiquicamente que está só em seu corpo tende a adoecer, como o homem a que me referi no capítulo anterior. Se considerar minha experiência com pacientes com esquizofrenias e paranoias, certamente discorrerei sobre inúmeros sujeitos que sofrem por não terem dimensão do alívio que pode vir a ser a solidão.

No filme Cisne negro 6 vemos a personagem Nina sofrer justamente da falta de solidão que vive. Trata-se de um filme amplamente difundido, que aposto que boa parte dos leitores

já assistiu. A película mostra a história de uma moça que quer ser a primeira bailarina da companhia de balé onde dança e de uma mãe que quer muito que a filha seja o que ela mesma não pôde ser: primeira bailarina. O que está em jogo na trama do filme é que o coreógrafo está em busca de uma mesma bailarina que possa dançar como cisne branco e como cisne negro também. Nina é muito habilidosa como cisne branco, mas como cisne negro ela não se dá bem. O cisne branco encarna a pureza da filhinha da mamãe, obediente e doce, como ela é. O cisne negro precisaria encarnar um lugar de agressividade e sexualidade, coisas que Nina não viveu.

Assim, o coreógrafo de Nina incentiva que ela investigue sua sexualidade, que ela se explore, se desenvolva para além daquilo que sua mãe lhe demandou. É certo que ele o faz de maneira muito duvidosa, mas convoca a personagem a isso.

Em uma cena em que começa a tocar seu corpo para se masturbar sozinha em uma banheira, Nina vê sua mãe entrando repentinamente no banheiro. Em outra cena, ela tenta se livrar da presença materna fechando a porta do quarto, que ficava sempre aberta, mesmo ela tendo 27 anos de idade. O filme vai demonstrando, aos poucos, que a realidade psíquica demonstrada ali é a de Nina. Então, não sabemos se a mãe de fato entra no banheiro ou no quarto, mas psiquicamente é como se ela estivesse sempre lá, um efeito da psicose de Nina. Poder ficar sozinho é sinal de boa saúde mental.

Em um texto belíssimo, Winnicott7 desenvolve sua tese de que poder ficar só na presença de um outro é o estágio mais sofisticado do psiquismo humano. Nesse texto ele exemplifica a possibilidade de a criança estar na presença da mãe, cada

uma fazendo suas coisas sem demandar algo do outro. Não se trata, portanto, da capacidade de ficar só sem a presença física do outro, mas sim, sobretudo, de ficar só na presença de um outro. Nesse sentido podemos pensar que se trata de um modo de inventar uma solidão, de criar um espaço em si que o outro não alcança.

Um dos sinais de bom desenvolvimento psíquico da criança é quando ela se torna capaz de contar mentiras. É claro que não a incentivamos a fazer isso de modo deliberado, damos bronca, contamos a história do Pinóquio etc. Mas é um bom sinal na medida em que a criança demonstra com isso a possibilidade que tem de apostar em seu lugar de solidão, o qual sabe que o outro não alcança. É preciso que ela acredite que os pais não leem seus pensamentos, que não estão dentro da sua cabeça, para que possa mentir. Por isso, com frequência, os próprios pais “deixam passar” uma mentira ou outra, deixam que a criança pense que os “engana”. Quando crianças pequenas, com cerca de 2 anos, começam a ir para a escola, os pais pedem que elas contem a eles como foi o dia e elas costumam ter dificuldades. Muitas vezes, psiquicamente ainda estão misturadas com os pais, então é surpreendente (e importante) que descubram que aquilo que vivem sem a presença dos pais é só delas. Transformar sua experiência em palavras passa a ter, então, o valor de um dom de amor. Os pais demandam que seus filhos lhes contem como foi a escola, o que fizeram lá, na posição de amantes. Os amantes estão com frequência a pedir palavras uns dos outros. Porque são as palavras que fazem ponte entre a solidão de um e a solidão do outro no amor.