A gente mira no amor e acerta na solidão

17 O medo do abandono

Fazemos um trabalho de luto e depois nos lembramos da experiência de dor como se ela tivesse sido um verdadeiro exagero. Claro, depois que já passou, sabemos que passa. Mas, até isso acontecer, só acreditamos que passa, ainda não sabemos que vai passar.

Em seu romance Dias de abandono, Elena Ferrante conta da absurda dor de uma mulher que foi deixada pelo marido. O

marido não foi apenas embora, o que já seria imenso, mas foi embora para ficar com outra mulher. Essa talvez seja uma das maiores tragédias na fantasia das mulheres: ser trocada por outra. Vamos falar primeiramente do medo do abandono, que chega à vida junto com a gente.

 

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O MEDO DO ABANDONO

E a minha mãe ria amargamente dos amargores daquela história e de outras, todas iguais, que ela conhecia. As mulheres sem amor dissipavam a luz dos olhos, as mulheres sem amor morriam vivendo.

Dizia assim enquanto costurava por horas e ao mesmo tempo cortava os tecidos sobre os corpos de suas clientes que no final dos anos sessenta ainda encomendavam roupas sob medida. Relato e difamação e costura: eu escutava. A necessidade de escrever histórias eu descobri ali, embaixo da mesa, enquanto brincava.

Olga, personagem de Elena Ferrante Como conversamos ali nos primeiros capítulos, chegamos à vida cedo demais, e por isso imaturos. O bebê humano nasce pronto para morrer. Nasceu?

Deixa ali que já morre. Uma mãe aparece sendo uma pessoa (que não necessariamente é a mãe biológica nem mesmo uma mulher) que acolhe esse bebê, o toma para si e decide que, no que depender dela, vai morrer, sim, já que somos todos mortais, mas vai demorar o máximo de tempo possível. Para o bebê recém-nascido não há opção: ou ele é cuidado e acalentado por alguém, ou não há vida. A vida é tão frágil, aliás, que, mesmo quando há mãe, amor e tudo o mais, ainda assim, segue frágil. Aos poucos a criança vai se ancorando na vida, vai “vingando”, como diziam antigamente, e se tornando mais forte. No entanto, nossa chegada ao mundo tem essa premissa: somos seres radicalmente desamparados. É o outro, com seu amor, seu leite, sua decisão, que

faz furo nesse desamparo e assim nos liga à vida, a nós mesmos, ao resto das pessoas.

A experiência psicanalítica nos ensina que aquilo que vivemos não vai embora de nós. Altera-se, é claro, com as novidades que nos chegam, mas ao mesmo tempo segue nos habitando. Assim, podemos dizer que essa vivência de desamparo está sempre conosco, ainda que a gente consiga não olhar de frente para ela. Talvez nada seja mais humano do que o medo de perder o outro, ou melhor, o medo de se perder perdendo o outro.

Por isso será de grande valor que a criança vá, aos poucos, suportando perder sua mãe, porque é assim que a gente descobre que, quando o outro vai, a gente fica com a gente. É

a essa noção de solidão que me refiro neste livro, não a solidão do abandono do outro e muito menos a solidão do abandono de si mesmo, mas muito especialmente a solidão de estar com a gente mesmo.

Outra fantasia que nos aterroriza é a fantasia de sermos trocados. O que está na base disso chamamos de inveja. Na inveja não queremos apenas aquilo que é do outro, aliás, às vezes nem queremos – o que está verdadeiramente em jogo é o desejo de que o outro não tenha determinada coisa.

Costumamos viver essas experiências na relação infantil com os irmãos, mas não só com eles, também com amigos.

Diz-se da criança que é filha única que ela terá dificuldades de aprender a dividir as coisas, ao contrário da criança que tem

irmãos, que obrigatoriamente terá que dividir.

Quando falamos de dividir as coisas, não falamos necessariamente de objetos, tais como a bicicleta, o carrinho, o bichinho de pelúcia, mas de afetos. Dividir mãe e pai, por exemplo, que dureza.

Não foi por acaso que, quando Freud apresentou sua famosa teoria do complexo de Édipo, propôs que fosse uma vivência a três. Mais do que se tratar de mãe, pai e filho – o que leva a alguns equívocos graves, como achar que o Édipo não se produziria com um casal homoafetivo –, longe de se tratar do estereótipo da família “tradicional”, trata-se substancialmente do número três, de uma triangulação.

Essa situação do complexo de Édipo Freud retirou da peça de teatro Édipo Rei, de Sófocles. Trata-se de uma tragédia grega escrita mais de quatrocentos anos antes de Cristo, onde a história que se conta é que havia uma profecia de que Édipo iria matar seu pai e se casar com sua mãe, o que levou Édipo, desconhecendo essa profecia, a ir embora de seu reino. Sem saber que sua mãe já havia sabido da profecia antes e já tinha se ocupado de tentar evitar que a tragédia se concretizasse, tentando também evitá-la, Édipo vai embora de seu reino. No caminho, entretanto, envolve-se em uma briga que acaba por levá-lo, sem saber, a matar seu pai e por consequência se casar com a esposa dele, que era sua própria mãe.

Nesses séculos todos houve muitos estudos sobre essa tragédia e inúmeras articulações com a teoria freudiana, de modo que me sinto leviana fazendo uma passagem tão breve por uma história que mereceria uma discussão tão mais aprofundada. No entanto, espero que meus colegas filósofos e psicanalistas possam me perdoar, pois ainda assim decidi passar rapidamente pela peça em nome dessa conversa que estou tendo com o leitor, que talvez não conheça o mito.

Freud se baseia nesse mito de Édipo para pensar o complexo de Édipo, que seria, então, o modo como nossas relações de amor e ódio são vividas em nossa primeira infância, na relação com nossos pais. Ele dividirá o complexo de Édipo em três etapas e se aterá a dizer das descobertas sexuais que cada criança faz a partir de sua diferença sexual em relação ao outro. Nesse tempo as noções de identificação com um e com outro genitor acontecem, levando a criança, ao final da passagem pelo complexo de Édipo a se identificar mais ou menos com um dos genitores, situando-se como menino ou como menina. É uma teoria falocêntrica, que orbita em torno de ter ou não ter um pênis, o que é cada vez mais criticável. No entanto, a meu ver, o desenvolvimento de sua teoria do complexo de Édipo não seu deu porque Freud era por si só um homem machista, mas porque era um homem de seu tempo, numa sociedade machista, ainda que um homem absurdamente genial. Contudo, o que me interessa pensar aqui com vocês a partir da teoria do complexo de Édipo freudiano não é como se dá a identificação sexual, mas muito especialmente o fato de ela acontecer a partir da existência de três pessoas.

Quando estamos em dupla, ficamos muito mais sobrecarregados no laço do que quando estamos em trio, não?

E em quarteto nós tendemos a fazer duas duplas. Tentem se lembrar de como era quando estavam na escola, no colégio ou na faculdade fazendo algum trabalho. Só conseguimos olhar atentamente para uma pessoa de cada vez. Então, quando estamos em trio, tem sempre alguém que fica de fora. É isso

que acho genial na teoria de Freud do complexo de Édipo. É

um tempo tão importante porque se trata substancialmente de uma relação em que a gente aprende a perder.