A gente mira no amor e acerta na solidão
20 O amor é um bem bolado de paixão e solidão
Supereu
vimos,
inclusive,
o
quanto
internalizamos o que é dito pelo Outro, para o bem e para o
mal.
Então, viver em um mundo que nos convida a existir de modo independente, autônomo, também não é sem consequência. Convivemos, então, com ao menos dois (muito mais!) imperativos: “viva um amor!” e “seja independente!”.
Como ser independente amando, se no amor entregamos nossas fragilidades ao outro? Impossível.
Vemos, então, que jamais ficamos sozinhos de fato, pois estamos entranhados de Outro.
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O AMOR É UM BEM BOLADO DE PAIXÃO E SOLIDÃO
Eu… eu… no momento não sei, minha senhora… pelo menos sei quem eu era quando me levantei hoje de manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então.
Lewis Carroll Voltemos à gangorra que propusemos na página 112, ao final do capítulo 19.
Sugiro pensar essa lógica amorosa como uma gangorra, e não como uma linha do tempo, na medida em que as três possibilidades
(paixão,
amor,
solidão)
se
tocam
constantemente. Em cinco minutos esse movimento todo pode acontecer. Da paixão ao amor, do amor à solidão, da solidão ao amor, do amor à paixão. E não necessariamente nessa ordem, pode ser: da paixão à solidão, da solidão ao amor, do amor à paixão. Aqui todas as variáveis são possíveis.
Mas essa brincadeira está sempre à espreita de um último fim, que acabaria com ela. Me refiro a um “último fim”, apostando que pode haver muitos, que um fim começa a acontecer quando algo começa a acontecer.
Tudo o que existe tem um fim. Só vivemos porque em algum momento vamos morrer. As coisas podem começar
porque em algum momento elas terminam. Inclusive, nossos desejos de que as coisas não terminem só existem porque sabemos que elas terminam. Por isso, quando nos apaixonamos por um parceiro sexual ou por um filho, quando estamos em uma viagem deliciosa, ou seja lá qual for o instante que estejamos curtindo, podemos desejar que o tempo pare: é só porque nosso desejo está protegido da realidade que podemos nos dar ao luxo de desejá-lo e dizê-lo.
Não fosse isso, seria um inferno. Não há momento maravilhoso na vida que valha a eternidade.
No clássico filme Entrevista com o vampiro (baseado no livro de Anne Rice), vemos que o maior castigo possível para alguém é menos condená-lo à morte e mais condená-lo à vida eterna. Aquele que não morre também não pode viver, ainda que vejamos os personagens do filme existindo. Como já escrevi no capítulo 12, Lacan, em um seminário intitulado
“A angústia”, afirma que, de todas as angústias, a única que termina é o orgasmo. É um alívio que as coisas possam terminar. Mas qual é o momento de terminar? Qual é o melhor ponto para a coisa terminar? Em que fase a fruta já está madura e então começa a apodrecer? Eis as perguntas para as quais procuramos resposta, como se elas existissem.
Não temos inscrição psíquica para o instante em que uma coisa vira outra.
No filme O mínimo para viver (dirigido por Marti Noxon), vemos a personagem principal, Ellen (interpretada por Lily Collins), sofrendo com um terrível quadro de anorexia. Em certo momento, ao ser incentivada a comer por colegas em uma casa de recuperação, ela faz uma pergunta muito interessante sobre como saber a hora de parar de comer,
confessando não poder começar a se alimentar por medo de não conseguir parar. A pergunta de Ellen é a pergunta que interessa a todos nós: qual é o momento de parar? Como reconhecer que a fome está saciada, que o que haveria para viver de fértil em um relacionamento já se esgotou e a partir dali tudo o que se produzirá é dor? Como saber a hora de parar de comer, de beber, de amar, de sofrer, de viver?
Marilyn Yalom escreve sobre isso em Uma questão de vida e morte, que já citei anteriormente, ao contar do seu mal-estar de, aos 87 anos de idade, submeter-se a uma quimioterapia para tratar um câncer nas células plasmáticas. Sem muitas possibilidades de melhora e diante do imenso incômodo causado pelo tratamento, ela se questiona sobre qual é a melhor hora para morrer. Várias vezes os autores citam Nietzsche, que escreveu: “Morra na hora certa”. Qual é a hora certa de cada coisa?
Na entrevista que Freud concedeu ao jornalista George Sylvester Viereck, intitulada “O valor da vida”, ele disse:
“Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos
parece menos intolerável do que os fardos que carregamos”. 26
E mais para a frente: “O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo”.
A questão é que parece que estamos sempre tentando prolongar algo em demasia e, com isso, acabamos justamente com a própria vida, uma vez que as coisas vivas encontram seu limite no fim.
Assim, em certa medida, tal como começamos a morrer quando nascemos, o amor também começa a morrer assim
que inicia. Tanto sabemos disso que há quem prefira jamais se envolver com a pessoa pela qual se apaixonou. Nesse ponto acho que já podemos pressupor que entre amor e paixão não haja tanta diferença assim, né? Amor que se preze precisa visitar a paixão de vez em quando, e paixão que não seja delírio (porque no delírio há a exclusão da realidade) precisa passar por algo do amor. Vamos voltar a isso no próximo capítulo. O que eu gostaria de destacar aqui é que, na ânsia de manter o amor supostamente vivo, há quem mantenha o objeto amoroso distante, única maneira de preservá-lo, já que as coisas se gastam.
Sabe aquela louça chique que fica guardada para a ocasião especial que não chega? Há quem trate amor como coisa e, assim, não viva a experiência amorosa no laço com o outro propriamente dito, mas sozinho, em fantasia. É o que chamamos de amor platônico. Uma fantasia amorosa que se preserva por uma distância. Talvez esse modo de viver o amor tenha alguma relação com o isolamento. Talvez esse modo de amar, por outro lado, preserve o que mais nos encanta no amor: a falta.