A gente mira no amor e acerta na solidão
21 O perigo do ciúme
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O PERIGO DO CIÚME
Você diz que ama as flores e as corta.
Você diz que ama os peixes e os come.
Você diz que ama os pássaros e os prende em gaiola.
Quando você fala “eu te amo”, eu sinto medo…
Jacques Prévert Entre um e outro no amor, há sempre uma falta de encontro, o que chamamos aqui de solidão. Entre um e outro há, então, uma falta, e essa falta procuramos preservar, medir, para que não se torne excessiva e intoxique o relacionamento de modo que um já não queira mais que o outro siga em sua vida. Se essa falta nos interessa, ela também nos angustia. O modo como cada um de nós vai viver o amor tem relação com o modo como o vivemos em nossa infância, com o modo como entendemos que o vivemos na infância.
Uma das maneiras de ignorarmos a falta e a solidão presentes no campo do amor atende pelo nome de ciúme. É
importante começar dizendo que Freud nos adverte de que o ciúme é um estado emocional normal, tal como o luto. Assim como é esperado, então, que ao perdermos nosso objeto de amor nos entristeçamos e fiquemos ensimesmados por algum
tempo, também é esperado que sintamos ciúmes quando amamos alguém. É claro que nem todas as formas de sentir e demonstrar ciúmes são esperadas, e já falaremos disso. Mas achei importante começar esse papo dizendo para vocês que o ciúme é esperado quando se ama porque estamos em tempos de uma psicopatologização excessiva, em que qualquer mal-estar pode ser lido rápido demais como psicopatológico ou como “tóxico”, levando as pessoas às defesas e aos isolamentos.
Pois bem, para Freud o ciúme é algo tão comum que ele chega a dizer que, quando não aparece, é porque a pessoa o recalcou, ou seja: o enviou para debaixo do seu “tapete psíquico” para não saber dele.
Feita minha defesa do ciúme, esse mal-estar que em certa medida pode dar dignidade ao amor (fazendo brilhar algo da paixão) de tempos em tempos, mas também pode levar a assassinatos, em especial ao feminicídio, o que é certamente assustador (e que de modo algum defendo), vamos avançar para pensar nessas camadas do sentimento.
Há três formas de ciúme propostas pelo pai da psicanálise, sendo
elas: o ciúme normal, o projetado e o delirante. 27
21.1
O CIÚME NORMAL
Do normal já falamos quando nos referimos às situações edípicas em que a criança rivaliza com o irmão e com os pais em busca de ser o objeto que completaria o outro. Nos melhores casos, não completa, e a criança vai internalizando algo de uma falta em si e no outro, que ela tenderá a repetir nos relacionamentos da vida adulta, ora querendo preencher, ora querendo destacar. Assim, muitas vezes convoca a presença de um terceiro para sustentar o desejo pelo parceiro, reencenando a rivalidade edípica. Como vimos, no amor é de três que se trata. Portanto, como o intervalo que existe entre um e outro não costuma ser tão claro, a presença de um terceiro materializa isso: é de três que se trata no amor.
Vemos o quanto ver o objeto sendo desejado nos atiça a partir das crianças pequenas. Se há um grupo de crianças disputando a bola verde e chega uma terceira criança e começa a brincar com a bola amarela, a bola verde tenderá a ficar abandonada, enquanto a bola a ser disputada se tornará a amarela. Quando adolescente eu tinha uma amiga que ia para a balada com uma aliança no dedo porque dizia que assim apareciam mais pretendentes.
21.2
O CIÚME PROJETADO
Uma vez que o amor não deixa de lado nossa solidão, então, muito embora amemos alguém e sejamos amados por esse alguém, isso não nos exime de desejarmos sexualmente a quem não amamos. Como vimos no capítulo 8, esperamos demais do amor. Esperamos, inclusive, que ele nos livre de viver num corpo desejante. No entanto, como desejar sexualmente a quem não amamos pode trazer mal-estar, especialmente caso se trate de um relacionamento monogâmico, teremos que fazer renúncias ao nosso desejo ou pagar o preço de colocar algo em risco ou mesmo acabar com a confiança do outro –, há quem dê um modo de não saber disso. Assim, não apenas coloca seu desejo embaixo do tapetinho psíquico, como também o projeta no outro. Ou seja, uma pessoa ciumenta, nesse caso, por vezes é uma pessoa que deseja sexualmente muitas pessoas e não pode reconhecer esses desejos em si mesma. Aquilo que não suportamos ver em nós, com frequência, projetamos no outro, e reclamamos de boca cheia disso. Lembremos: as linhas que nos separam do outro não são assim tão evidentes. Por isso, quando a realidade dá notícias de sua existência, ela tende a furar esse tipo de ciúme. Contudo, é preciso destacar que esse ciúme é bastante ligado ao 1 da paixão, uma vez que o ciumento toma a si mesmo e ao outro como um só, sem perceber,
confundindo os seus desejos com os de seu parceiro ou parceira.
21.3
O CIÚME DELIRANTE
Aí estamos no terreno, ou pertinho do terreno, da paranoia, que é uma das modalidades de psicose, de acordo com a teoria psicanalítica. Diferentemente dos neuróticos (aos quais estamos nos referindo amplamente neste livro), que amam a falta, que se separaram (ao menos parcialmente) do Outro, que podem acessar algo de sua solidão, nas psicoses falamos de alguém que não se separou psiquicamente do Outro, que faz 1 em seu psiquismo com esse Outro. Quando eu me referia à vozinha que fica na nossa cabeça, chamada Supereu, por exemplo, falava dos neuróticos, que sabem que essa vozinha é resultado de seus próprios pensamentos, que inclusive duvida dela. Já na psicose o sujeito pode escutar as vozes como vindas de fora, uma vez que entre ele e o Outro não há separação psíquica.
Aqui vou citar mais uma vez o filme Cisne negro, em que a personagem Nina, encantada com sua amiga Lilly, não consegue reconhecer que é ela quem está apaixonada pela amiga, faz 1 com ela e entende que é a amiga quem a está perseguindo. Nas cenas finais do filme (contém spoiler), em que supostamente aniquila Lilly, o que Nina acaba por fazer é aniquilar a si mesma. Não por acaso o faz com um pedaço de espelho. Nas psicoses, o sujeito não chega ao refinamento de se diferenciar de sua imagem. Enquanto nas neuroses as
pessoas sabem que suas imagens não são tudo sobre elas (ainda que o império das imagens que a gente viva atualmente dificulte que saibamos disso), nas psicoses o sujeito não costuma chegar a essa sofisticação. (Aqui abro um parêntese para dizer que há muitas maneiras de psicose, que falamos em “psicoses” no plural porque há vários modos de um psicótico se organizar psiquicamente e nunca vir a desencadear sua psicose, mas não entraremos na complexidade desse tema neste momento.) Em uma cena desse filme, Nina tem uma relação sexual com Lilly, adormece, acorda atrasada para o balé e, ao chegar ao ensaio, pergunta à amiga por que ela não a acordou. Rindo, Lilly insinua que Nina tinha sonhado com ela, demonstrando que não havia estado na realidade com Nina. Essa divisão entre o mundo onírico e o da realidade vai se
dissolvendo no desencadeamento psicótico. Lacan28 ensina isso ao afirmar que “o inconsciente é muito exatamente a hipótese de que não sonhamos apenas quando dormimos”.
Se quisermos saber como funciona a psicose, basta pensarmos em como são os nossos sonhos: neles tudo pode acontecer e, embora sejam uma criação nossa, não são feitos pela parte do Eu que consegue controlar algumas coisas. O
autor dos roteiros de nossos sonhos é o inconsciente, esse estrangeiro que ocupa tanto espaço em nós.
Embora Freud tenha proposto um tratamento apenas para neuróticos, e não para psicóticos (foram os pós-freudianos e os lacanianos quem propuseram tratamentos para psicóticos), se ele estudou com tanta profundidade e cuidado as psicoses, foi porque a partir delas podia entender o funcionamento neurótico. Dito de outro modo: aquilo que o neurótico envia
para debaixo do seu tapetinho psíquico, não quer saber e chega mesmo a acreditar que não sabe, os psicóticos denunciam: falam aos quatro ventos, postam, denunciam.
Assim, o ciúme delirante nos ensina também sobre o ciúme normal. Até porque, para Freud, no caso do ciúme delirante podemos encontrar as três modalidades de ciúme.
Lembro-me de um homem paranoico que conheci em uma instituição de saúde mental e que, quando se desorganizava, saía andando de bicicleta por aí, ficava horas, dias, semanas ou meses sem voltar para casa, preocupando seus familiares.