A gente mira no amor e acerta na solidão
1 Amor contém solidão
Não me entendam mal quando falo de resto. A gente tende a pensar, nessa sociedade do consumo exacerbado, que resto é pejorativo, afinal de contas o que sobra vai para o lixo. A psicanálise, no entanto, é bastante avessa a essa lógica do
consumidor que trata estudo como conteúdo, troca como engajamento, saúde mental como produto, amor como objeto a ser consumido, resto como lixo. Em uma psicanálise, aliás, o que se aprende é a dar dignidade aos restos, afinal de contas, é deles que somos feitos.
Então, neste livro tomo o que ficou como resto em mim depois de vários anos de estudos na academia e me relanço na escrita a partir de outro lugar, muito a partir de mim mesma, aliás. Se na escrita acadêmica é preciso citar autores e ser muito cauteloso com o que se propõe, sustentando cada vírgula, aqui me autorizei a escrever mais livremente.
Neste livro, escrevo como converso. E converso com você.
Então, chegue mais, puxe uma cadeira, sente aqui ao meu lado, vamos papear. Porque é isto que pretendi fazer deste livro: um bate-papo.
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AMOR CONTÉM SOLIDÃO
Amor será dar de presente ao outro a própria solidão?
Clarice Lispector Todo mundo já se perguntou algo sobre o amor e todo mundo já se perguntou algo sobre a solidão. Amor e solidão são duas experiências que dizem respeito à nossa própria vida, muito antes de colocarmos esses temas em algum campo teórico.
Falar de amor e de solidão é falar da vida.
Amor e solidão rimam, embora a língua portuguesa não esteja de acordo, fazendo rimar de modo mais evidente
“amor” com “dor” – a música popular que o diga. É preciso que nos sintamos a sós com a gente mesmo para nos dirigirmos ao outro e amá-lo, e, inevitavelmente, mesmo em uma experiência bem-sucedida de um amor que, por sorte, encontre reciprocidade, não há amor que nos livre da solidão.
Sempre amamos sozinhos, pois cada um ama a seu próprio modo, cada um ama com sua história, com seu sintoma, com suas
perebas
psíquicas,
com
seus
perrengues
transgeracionais. No amor a gente sempre comparece com a gente mesmo.
O título deste capítulo, “Amor contém solidão”, é uma brincadeira com o duplo sentido que esse dito comporta.
Podemos ler que o amor contém a solidão em seu interior, pois no coração do amor está sempre a solidão, e por isso quem não suporta a solidão também não suporta o amor. Mas também podemos ler que amor contém solidão no sentido de que o amor faz uma contenção à solidão. O amor não nos livra de sermos sós, mas certamente torna a experiência de estar só algo muito interessante. Não fosse assim, não nos dirigiríamos a ele. Se não fosse o amor, não seria a solidão. Se não fosse a solidão, não seria o amor. Amor e solidão se fundem e se dependem.