A gente mira no amor e acerta na solidão
9 O amor como elaboração de luto pelo que se pensava que era amor
Eis que, amando, ou interpretamos a experiência desencontrada do amor como um erro, como no enunciado
“não era amor”, ou tratamos de elaborar o luto por aquilo que pensávamos que era amor.
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O AMOR COMO ELABORAÇÃO DE LUTO PELO QUE SE
PENSAVA QUE ERA AMOR
Amar é ver.
Marguerite Duras
No conto “O ovo e a galinha”, Clarice Lispector escreve:9
Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor. Porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor.
Longe de encontrar glamour no amor, o que encontramos são faltas. Para Freud, amar é perder narcisismo, uma vez que o amante se coloca no lugar daquele que não tem algo, como condição para poder encontrar algo que o interesse no outro.
O famoso mito de Narciso, personagem da mitologia grega, conta a história (em uma de suas versões) de um homem que
era apaixonado demais por si para amar outra pessoa, o que o levou a se afogar em sua própria imagem. Para Freud, não temos
opção: amamos ou adoecemos. 10 Não se trata aqui do amor romântico, longe disso, mas especialmente do quanto é o outro quem nos salva de nossa voracidade com a própria imagem.
Certa vez eu estava sentada em um avião e havia uma pequena criança com cerca de 2 anos de idade que chorava muito. A mãe, encabulada no avião fazia estripulias para acalmar a filha, mas a pequena seguia chorando, incansável.
Em certo momento, quando se fez silêncio, a menina via algo no telefone da mãe. Ao investigar do que se tratava, vi que a menina assistia a vídeos de si mesma. Nossa imagem, ora nos perturba, ora nos acalma. Mas nunca ficamos insensíveis a ela.
É interessante ressaltar que isso não vem “de fábrica” com a gente, um bebê não nasce sabendo se reconhecer no espelho. O psicanalista Jacques Lacan, em seu artigo “O
estádio do espelho”, 11 apontou três fases para a constituição do eu, que se encarna nessa metáfora de nos reconhecermos 1.no objeto espelho: Num primeiro tempo, há um estado de indiferenciação do Eu em relação ao mundo. O bebê não sabe o que é ele e o que é o seio da mãe, o que é ele e o que é a chupeta, o que é ele e o que é a roupa, o que é ele e o que é o outro. Ele e o mundo, de início, são o mesmo caos.
2. Num segundo tempo, há o reconhecimento de que há alguém ali no espelho, alguém que é tomado como rival.
Nesse estágio vemos também alguns animais, que rosnam para a imagem no espelho, que buscam atrás do
espelho o igual que os ameaça.
3. É apenas num terceiro momento que podemos olhar nossa imagem no espelho e reconhecê-la como tal: como imagem. A criança só é capaz de chegar a esse estágio porque não trabalhou em torno da sua imagem sozinha, mas o fez apoiada pela figura da mãe. Esta atesta que a imagem ali refletida pertence à criança, que percebe que a mãe está em carne e osso fora do espelho, mas que tem um pedaço da imagem ali, refletida no espelho plano. Há que se ter um refinamento do psiquismo para se chegar a esse terceiro tempo. Clarice Lispector tem um escrito que enuncia bem esse
momento:12
Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser.
Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo.
Encontrarmos nossa imagem inteira traz um baita alívio, e é assim que a gente se posiciona no mundo, buscando a imagem de alguém a quem nada falta. Ao depararmos com alguma fotografia em que sabemos estar presentes, primeiramente procuramos ali nossa própria imagem, para só depois olhar as demais pessoas ou a paisagem. Ao nos olharmos no espelho estamos corrigindo nossa imagem e, com frequência, criticando-a.
Com o crescimento da nossa presença nas redes sociais, em especial mais recentemente, com a pandemia, que transferiu muitas atividades presenciais para o modo on-line, somos o tempo todo convocados a encarar a nossa imagem.
Não por acaso se amplia de maneira exponencial o sucesso que fazem os filtros nas redes sociais, bem como os procedimentos estéticos. Estamos sempre tentando nos identificar com a nossa imagem. E aí não se trata de uma imagem meramente visual, mas de uma imagem no sentido de responder à pergunta: quem sou eu para o outro?
Como vimos anteriormente, o outro nos antecipa. Antes de falarmos, somos falados. Assim, com frequência estamos querendo saber de nós pelas palavras do outro. Quando esse outro nos retorna algo de nossa imagem como sendo completa, essa imagem nos apazigua, tal como à menininha no avião. Por vezes, buscamos um pouco dessa pacificação da nossa imagem no campo do amor. No entanto, ainda que se experimente algo disso nas relações amorosas, há um revés.
Como já apontei, no amor não nos interessa meramente nossa própria imagem refletida no outro, mas saber que não somos tudo nesse mundo. É por isso que só se ama a partir de uma condição de sujeito faltante. Se eu tenho tudo, nada no outro, seja uma pessoa ou o mundo, me interessa. É preciso que alguma coisa nos falte para que possamos direcionar o olhar para além de nossa imagem. Se isso não acontece, tal como Narciso, nos afogamos em nosso próprio reflexo, por vezes, fundidos com o outro. Inclusive, como também já indiquei, tomando a outridade do outro como rejeição à nossa imagem, como desamor. Como se, tal como na infância, fôssemos tudo para o outro. A verdade é que nunca fomos tudo para o outro,
mesmo na infância um bebê não é exatamente tudo para a sua mãe. Mas faz parte da nossa constituição psíquica pensar que sim, que somos a coisa maior, ou melhor, a coisa única, da vida do outro. Essa imagem preciosa de quem nós fomos para o outro, ou pensávamos que éramos, nos salva a vida em certa medida, mas também pode levar a um intenso sofrimento se não conseguimos perder essa imagem inteira, para ter acesso a uma imagem nossa que é furada.
É com essa imagem furada, então, que nos encontramos no amor. O outro está sempre em certa medida nos decepcionando narcisicamente, dando notícias de que não funciona em espelho conosco. É como o exemplo da minha amiga que se apaixonou pelo homem que palitava os dentes.
Naquela cena, emblemática para ela, ela cai de seu pedestal narcísico e passa a ter acesso a algum lugar em si com o qual não está familiarizada. A gente não ama sem certa estranheza.
Ainda nesse tema de imagens e espelhos, volto a citar Freud. Em um texto que se chama “O infamiliar”, ele conta em nota de rodapé um episódio em que, durante uma viagem de trem, deparou-se com um senhor vestindo pijamas e boné na porta do banheiro, percebendo em seguida que se tratava de seu encontro com sua própria imagem no espelho. Nunca nos identificamos completamente com nossa própria imagem.
Talvez até pelo fato de que estamos sempre mudando, uma vez que crescemos e envelhecemos, sendo constantemente necessária a reelaboração que Lacan aponta no estádio do espelho.
Vale ainda destacar que Freud escreveu em alemão, e, no original, esse texto se chama “Das Unheimliche”, termo traduzido várias vezes como “estranho”, “inquietante”. Na
tradução mais recente (até a publicação deste livro), feita pela Editora Autêntica, os editores Gilson Iannini e Pedro Tavares explicam a escolha por “infamiliar” porque “infamiliar”
contém a palavra “familiar”. Heimlich, em alemão, é uma palavra que se fundiu com seu oposto, Unheimliche. Desse modo, infamiliar
é algo que é, ao mesmo tempo, também familiar.13
Você já se pegou estranhando uma palavra? Me lembro de brincar disso quando era criança, de repetir uma palavra tantas vezes até estranhá-la. Me lembro, ainda, de uma fantasia infantil que eu tinha de olhar para os meus pais e pensar: “E se eles não forem os meus pais?”. Quem passou anos assistindo a O show de Truman na Sessão da tarde talvez se identifique com o traço paranoico de cada um que se familiariza com a infamiliaridade do personagem Truman, que descobre que toda a sua vida é forjada e mesmo as pessoas de sua família são atores que participam da dramatização de sua existência, um mero programa de televisão.
Talvez o amor seja algo dessa surpresa da infamiliaridade com o familiar. Não é apenas familiaridade ou assombro, narcisismo ou furo, mas especialmente a combinação das coisas. É principalmente a experiência de que uma coisa carrega em si mesma o seu oposto. Há que se ter narcisismo para que ele seja furado, há que se ter o registro de uma familiaridade para encontrar a estranheza, assim como há que se estar vivo para correr o risco de morrer, e há que se correr o risco de morrer para que se possa estar vivo.
A falta de consistência da vida e do amor nos horroriza, não queremos saber dela, e nessa, tentamos entender e
interpretar
tudo
apressadamente,
cada
vez
mais
apressadamente. Para ontem. Em outubro de 2021, houve uma falha nas redes sociais, que pararam de funcionar por várias horas. Antes que elas retornassem, recebi pelo menos duas ligações no meu telefone (que não tocava há semanas, embora receba dezenas ou centenas de mensagens de textos e áudios diariamente) com pedidos de jornalistas para comentar em algum veículo a ansiedade das pessoas diante da falha nas redes.
Também recentemente fui contatada por um veículo de comunicação para dar uma entrevista sobre burnout que aconteceria em uma sexta-feira às 11 horas da noite! É certo que precisei recusar o convite. Não foi por acaso que Alexandre Coimbra Amaral, meu colega de editora, escreveu um livro chamado A
exaustão no topo da montanha,14 que teve excelente repercussão, aliás. Estamos exaustos de produzir, de engajar, de entregar. Nossa relação com o tempo está seriamente adoecida pelo impacto da tecnologia, e desaprendemos (ou as crianças nem sequer estão podendo aprender) a esperar.