A gente mira no amor e acerta na solidão

23 Um comentário sobre o amor transferencial

Uma vez, então, que no campo do amor temos uma baixa tendência a fazer 1, respeitando mais a solidão, ou seja, o 2 de cada um, por consequência é mais fácil fazermos um 3 que tende mais para o 2 do que para o 1 – ou seja, é mais fácil fazermos uma solidão que tenda mais para o amor e menos para a paixão.

Nesse sentido, podemos pensar que o estado mais digno do amor é a amizade. Por isso, talvez possamos considerar que um amor que se preze contém todas as características da amizade – mas não só, pois é preciso haver uma perturbação da paixão que tenda ao 1 para que exista certo tesão, química, encontro sexual.

No mais, cabe a nós cultivar nossas amizades, essas figuras que por vezes são as escadas de incêndio quando o prédio está pegando fogo e não é sinal de juízo usar os elevadores da paixão.

 

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UM COMENTÁRIO SOBRE O AMOR TRANSFERENCIAL

Quem faz um tratamento psicanalítico está falando consigo mesmo por meio de alguém que lhe empresta seu ouvido, que lhe dedica tempo, que é o camaleão de suas relações passadas.

Françoise Dolto Eu não poderia terminar os capítulos deste livro sem dedicar ao menos um deles ao amor de transferência, essa invenção genial de Freud.

Como este é um livro dedicado ao público amplo, e não apenas aos estudiosos da teoria psicanalítica, vou comentar um pouco sobre a transferência; com licença, ok?

Nos primórdios do nascimento da psicanálise, era muito comum que médicos se envolvessem com pacientes. Primeiro que não havia psicologia, código de ética ou mesmo a teoria psicanalítica em si. Freud não tinha a psicanálise com que contar. Freud estava descobrindo o inconsciente freudiano.

Pois bem, com uma frequência bastante alta as histéricas se apaixonavam por seus médicos, e os médicos, não sabendo o que fazer com o apaixonamento delas por eles, se apaixonavam também… por si mesmos. Sabemos que o apaixonamento tem esse efeito sobre o nosso narcisismo.

Quando um se apaixona pelo outro, diz para esse outro que ele é apaixonante. E a gente ama ser amado.

Mas por que era tão comum que essas histéricas se apaixonassem romanticamente por seus médicos naquela época e hoje em dia isso é tão menos frequente (embora aconteça muito)? Tendo a pensar que não era difícil que uma moça jovem, com idade perto dos vinte anos, muitas vezes até menos, que tinha desenhada para si uma vida de maternidade e casamento e nada mais (não que isso seja pouco, mas quando não se pode escolher qualquer coisa é pouco), que nada sabia de seu corpo, de seus desejos e de sua sexualidade, que adoecia de tanto não poder saber de sua condição desejante, se apaixonasse por um homem bem-visto socialmente, médico, dotado de um saber e interessado no que ela tinha a dizer.

Pois bem, uma vez que esses médicos, apaixonados por si mesmos, viam o apaixonamento de suas pacientes histéricas, acreditavam que o amor que elas tinham era mesmo por eles.

A grande sacada de Freud foi, então, retirar seu narcisismo de jogo. Freud foi um dos únicos de seu tempo que não acreditou que o amor das histéricas fosse direcionado a ele, entendendo que esse apaixonamento fazia parte do tratamento – e com isso pôde deslocar o amor que a histérica tinha pelo médico para o amor pelo saber (de si, de seu inconsciente). Com isso nasceu o conceito de transferência, um “erro de pessoa” (para usar o termo freudiano) que era também a mola propulsora do tratamento. E segue sendo ainda hoje.

Se você já buscou um psicanalista, um psicólogo ou mesmo um médico, bem sabe da importância que tem o famoso “ir com a cara” dele ou dela. Ainda mais se você for a um

profissional “psi”, com quem necessariamente terá de conversar por muitas horas, será de suma importância sentir vontade de seguir falando com ele ou ela, independentemente da linha teórica seguida.

Nesses meus quatorze anos de clínica aprendi que quem busca ajuda o faz porque está sofrendo e supõe que você pode ajudar (geralmente por recomendação de alguém que já se tratou com você), e nada ou quase nada sabe de teoria. Quem busca

especialmente

uma

análise,

uma

terapia

comportamental cognitiva, analítica, humanista existencial, ou seja lá o que for, é alguém que estuda a teoria ou que vem de uma série de fracassos psicoterapêuticos. Quero destacar com isso a importância do afeto para um tratamento do campo psi.

Por que temos vontade de estreitar o papo com alguém, contar nossa vida, nossos segredos e descobrir coisas que não sabemos sobre nós, e com outra pessoa temos muita vergonha, medo ou angústia de falar? Certamente não é porque uma estudou mais e outra menos, porque uma é mais bonita e a outra menos, porque uma é da teoria x e outra da teoria y. É por algum motivo que a gente não sabe localizar com precisão, exatamente como não sabemos explicar de maneira racional por que amamos uma pessoa e não outra, ainda que em teoria nossa “escolha amorosa” (uso aspas porque se trata de uma escolha que é inconsciente, então não é uma escolha tão escolhida assim) se dê por excelentes razões.

Pois bem, gente, o grande acerto de Freud, que lhe permitiu inventar esse tratamento que mudou o mundo, a psicanálise, foi, como já disse, retirar seu narcisismo de jogo.

Mas o que isso quer dizer? Quer dizer que, diferentemente de seus colegas contemporâneos, Freud não acreditava que o amor das histéricas era mesmo direcionado para ele, o que o levou a entender que fazia parte da neurose repetir aquilo que era oculto ao sujeito, que não havia sido elaborado por ele.

Assim, ele entendia que o amor de uma paciente pelo seu analista poderia, por exemplo, se tratar de uma repetição de um amor pelo pai, ou que a hostilidade em relação à pessoa do analista poderia ser a revivescência de um afeto negativo endereçado às primeiras figuras de amor.

E foi por não se colocar narcisicamente, como aquele que se restabelecia das perdas narcísicas que teve ao longo da vida na relação com suas pacientes, e sim como alguém que queria ouvir mais delas, apostando que elas é que sabiam de algo, que Freud pôde inventar a psicanálise, esse tratamento que acontece via transferência.

Vale destacar aqui, para a nossa conversa, que Freud não diferenciou o amor da vida normal do amor de transferência.

Não, ao menos, do lado do amante: um amante é aquele que ama e idealiza o amado. Mas a significativa diferença que ele incluiu está no lado do analista, que, advertido dessa equivocidade, não responde como na vida comum, pela vida da reciprocidade ou da rejeição, mas pela via de certo acolhimento da demanda de amor do analisante – sem, no entanto, respondê-la. Dito de outro modo, na vida comum acreditamos que somos mesmo apaixonantes, enquanto em uma análise o analista sabe que está ali representando outra coisa, outro afeto, outra pessoa.

Para Freud há três modalidades de amor de transferência: a

positiva, a negativa e a erótica. 29 A transferência boa,

amistosa para se trabalhar em uma análise, seria a transferência positiva, em que o analisante tem bons afetos em relação ao analista. A transferência negativa seria uma modalidade de resistência, em que um afeto negativo residual da vida infantil se repete na relação com o analista, dificultando o andamento da análise. Nesse caso o paciente pode ter raiva do analista, por exemplo. Por fim, a transferência erótica seria o apaixonamento do paciente pelo analista, que também andaria ao lado da transferência negativa, mas no sentido de ser excessivamente positiva.

Nesse caso, a transferência positiva, boa para o tratamento, não pode ser tão positiva assim, sob o perigo de se erotizar e, então, emperrar o tratamento.

Estou

me

atendo

ao

tema

da

transferência (superficialmente para o leitor estudioso da psicanálise e profundamente para os demais) para destacar que, em uma análise, na transferência, experienciamos um amor solitário.

O uso do divã, que retira o olhar dos encontros, atesta como falamos para nós mesmos. Mas não se trata de falar sozinho, não é o mesmo que falar com as paredes ou no chuveiro, como às vezes fazemos. Lacan dirá que a presença do analista tem o valor de uma manifestação do inconsciente. Assim, não se trata de confessar um segredo em análise, tal como se faz a um amigo ou a um padre; trata-se muito especialmente de descobrir algo.

Não é por acaso que uma das coisas que aprendemos a fazer em análise é o silêncio, o que deixa os analistas muito mal-afamados, aliás. Parafraseando Marguerite Duras, em uma análise faz-se silêncio e faz-se solidão, não sem amor…

de transferência!

A propósito, sabemos que temos intimidade com uma pessoa quando podemos fazer silêncio com ela. Ao recebermos alguém em nossa casa costumamos tagarelar, oferecendo vários itens para que a pessoa se sinta bem, repetindo nossa posição infantil de oferecer um objeto que complete o outro.

Quer um café, uma água, um chá, uma cerveja, um vinho?

Quer sentar? Uma bolachinha? Olha, a senha do Wi-Fi está aqui, o banheiro está ali, e assim vai. Após algum tempo, se certa intimidade começa a ser criada, destacamos que deixaremos o outro à vontade, parando de lhe oferecer coisas e apostando que, se ele quiser, saberá onde buscar. Por fim, quando recebemos amigos bastante próximos, nem sequer oferecemos algo, apostando que a pessoa já está “em casa”.

Em uma análise as coisas acontecem de um modo similar.