A gente mira no amor e acerta na solidão
Apresentação
Talvez este texto de início seja uma espécie de licença que peço para escrever algumas das coisas que extraí da minha experiência e, por meio dessa aposta que marca um início, descobrir algo com vocês. Fico pensando… Quão neurótica precisa ser uma escritora para pedir licença para escrever?
No fim das contas, acho que eu só queria dizer que: isto não é um manual. Pegue as coisas que servirem para você e deixe cair as demais. Não existe receita pronta para ser a gente mesmo. Só a gente é o que é. Somos sozinhos nesse sentido. Por consequência, não existe um caminho trilhado pelo outro que vá nos dar acesso ao amor. Amor é um misto de bancar a solidão com ter sorte, atravessado por um encanto com um outro que insiste.
Acho que agora podemos começar.
APRESENTAÇÃO
Pela estrada afora eu vou bem sozinha
Levar esses doces para a vovozinha.
Braguinha/João de Barro
Este livro é um bem bolado das minhas pesquisas teóricas, do que aprendi com minha própria análise pessoal, do que aprendi com os analisantes que escuto, de conversas com amigos, das minhas trocas com um monte de gente pelas redes sociais e, muito especialmente, do que aprendi dando aulas na graduação de psicologia por mais de dez anos.
Há toda uma questão nos debates psicanalíticos sobre o “ensino” da psicanálise, sobre ser ou não possível… e há todo um debate sobre o ensino da psicanálise nas universidades.
Não pretendo me adentrar nessa temática complexa de aonde é possível levar a psicanálise ou não, mas queria destacar que, comunicativa que sou, há duas coisas que me interessam muito na psicanálise: poder falar e poder escrever algo dela.
Isso porque eu aprendo muitíssimo com meus interlocutores. Nas redes sociais e nas salas de aula me direciono a uma causa impossível: me fazer ser entendida.
Tento achar meus próprios modos de abordar conceitos de psicanálise sem recitar meros jargões, como se eles dissessem
algo por si. É verdade que às vezes escorrego e faço isso, sim, por isso sou muito grata quando alguém me atenta a isso.
O amor é meu tema de pesquisa no mestrado e no doutorado na academia. Mas, para além disso, é meu tema de análise e de tantas escritas. Volta e meia alguém me pergunta por que eu escolhi estudar o tema do amor, e essa pergunta absolutamente não me faz sentido, porque, afinal, que outro tema estudaria? É claro que há tantos outros temas a serem trabalhados, mas eu leio tudo a partir do amor e fico sempre surpresa com o quanto é possível que outras pessoas vejam a vida de outros modos.
Uma vez que o amor não resolve os impasses da vida, já que a gente sempre vai ao encontro com o outro levando nós mesmos, cheguei ao tema da solidão. Trabalhei esse assunto de modo bastante teórico em minha tese de doutorado, que se chamou “Amor, feminino e solidão: um estudo psicanalítico sobre invenções da existência”, orientada pela doutora Rita Maria Manso de Barros, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Como as teses de doutorado costumam ter uma linguagem bastante específica e eu gostaria de falar com muitas pessoas, aceitei o convite da Editora Planeta para escrever este livro de um modo que todos possam encontrar uma linguagem acessível. Não se trata de uma “tradução” da minha tese de doutorado, do lacanês ao português, mas de outro trabalho; do trabalho de fazer algo com o que ficou para mim como resto da tese que escrevi.