A gente mira no amor e acerta na solidão
11 A caixa de Pandora da linguagem
Quer motivo maior para falarmos do que amor e solidão?
Falamos porque somos sós e precisamos proferir palavras para dar notícias de nós e receber algo do outro – e também falamos justamente porque nos somos insuficientes a nós e queremos nos dirigir ao outro. Então, falar é isso, usar o vazio da boca para pedir algo que não se sabe bem o que é. Quando pedimos alguma coisa, nunca conseguimos alcançar exatamente o que desejamos, porque aquilo que coincidiria exatamente com o buraco do desejo – pasmem! – não existe.
Por isso aprendemos em psicanálise que o desejo é sempre insatisfeito, na medida em que satisfazê-lo inteiramente está fora do plano da criação humana. Nesse sentido, o desejo é indestrutível. O objeto que viria a realizá-lo existe apenas no campo da fantasia.
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A CAIXA DE PANDORA DA LINGUAGEM
Cada palavra poética é assim um objeto inesperado, uma caixa de Pandora donde saem todas as virtualidades da linguagem; portanto, é produzido e consumido com uma curiosidade particular, uma espécie de guloseima sagrada.
Roland Barthes Até os 2 anos de idade, minha filha dormia no escuro total, um breu, daqueles que a gente chega até a colar fita crepe nas bordas do blecaute, na tentativa de prolongar o sono do bebê (mães e pais me entenderão). Um dia, de repente, depois da história, do beijo de boa-noite, do durma-bem-você-também-até-amanhã, do nada, ela me pede: “Mamãe, você faz uma luz para mim?”.
Questiono: “Ué, por quê?”.
E ela me responde: “É pra eu não ver a bruxa”.
Vejam que ela pede a luz para que não veja, e não para que veja. É claro! A linguagem faz existir aquilo que não existe.
Sem o aparelho da linguagem, o escuro seria apenas a ausência de luz (na verdade o escuro nem sequer existiria, já que a noção de escuro já é efeito da linguagem). Mas, com o refinamento da linguagem, o escuro é terreno fértil para a
imaginação. Nele pode ter bruxa, lobo, fantasma… e nada disso. Por isso ela pede uma luz para não ver o que não tem.
Não é paradoxal isso? Que a gente queira a luz para não ver, e não para ver?
A partir da inscrição na linguagem, então, não ficamos mais sozinhos, uma vez que estamos sempre com nós mesmos. Pensando, fantasiando, imaginando, calculando, matutando. Às vezes, quando há silêncio entre duas pessoas, uma pergunta à outra: “O que você tá pensando?”. Ao que a outra responde, com frequência: “Nada”. É certo que ou não quer dizer o que está pensando ou tem preguiça de dizer o que está pensando, porque estamos sempre pensando em alguma coisa. Há quem eleve esse pensamento incessante ao nível do sofrimento e não consiga parar de pensar em coisas específicas, há quem fique imaginando coisas que poderiam acontecer, respostas que poderia ter dado em discussões que, por vezes, nem sequer ocorreram. Nossos pensamentos nos seduzem, nos absorvem, e, de vez em quando, se colocam como uma barreira na relação com outras pessoas.
“O pensamento é o ensaio da ação”, escreveu Freud. É
comum que a gente primeiro planeje, imagine, deseje. Gosto muito de um termo contemporâneo para isso, que é “fanfic”.
Trata-se, se entendi bem o conceito, da capacidade que temos de encontrar satisfações criando historinhas em nossa cabeça, que às vezes podem até mesmo ser compartilhadas nas redes sociais. Um devaneio, nos termos de Freud. Esses devaneios, essas coisas que a gente imagina e cria na mente, são infinitos. Se tenho uma festa programada, posso imaginar que vou sozinha ao evento e será divertido porque vou conhecer muita gente e fazer novos amigos, posso imaginar que vou
encontrar o grande amor da minha vida e não vamos nos desencontrar a noite toda, posso imaginar que depararei com uma inimizade antiga e lavaremos roupa suja… Enfim, são inúmeras as possibilidades de acontecimentos que a linguagem nos permite inventar. Mas, de todas as possibilidades, são pouquissississíssimas as que acontecem.
Todo o resto fica de fora. Assim, por mais que eu tenha uma ótima experiência na festa, no fim das contas, deparo com certo vazio, que aponta para o impossível de satisfazer plenamente o desejo. No fim da festa estamos sempre com nós mesmos e os nossos vazios, por mais incrível que o evento tenha sido. E sabemos que nem toda festa é incrível, além de que nem tudo é festa…
Por isso a linguagem é uma caixa de Pandora. Na mitologia grega conta-se que Pandora era uma mulher criada por Hefesto para Zeus se vingar da humanidade (isso porque o titã Prometeu tinha revelado aos homens o segredo do fogo).
Pandora carregava consigo uma caixa que jamais deveria ser aberta, ordem a que ela, curiosa, desobedece. Assim, liberta da caixa males desconhecidos pelos seres humanos, tais como mentira, discórdia, guerra, ódio. Percebendo o erro, ela fecha a caixa, mas deixa ali dentro a esperança, o que pode indicar que a esperança está guardada, sempre à disposição – ou que a esperança ficou trancada, e que a humanidade carece dela.
É interessante destacar que a palavra esperança é uma tradução possível de elpis, do grego, que também pode ser traduzida como “expectativa”, uma palavra que tem sido amaldiçoada atualmente. As sugestões de felicidade contemporânea nos insinuam que não devemos criar expectativas, uma vez que seriam elas as responsáveis pelas nossas frustrações. Nesse sentido, o ideal seria que vivêssemos sem imaginar, sem criar fanfics, sem esperança –
e o que viesse da vida, então, poderia ser mais bem aproveitado, uma vez que a realidade não seria decepcionante.
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Daí vale depreender dois pontos: Com raras exceções que devem ser comemoradas, a realidade é decepcionante! Uma vez que o vazio do desejo nos leva a uma fértil criação, a realidade, limitada, não pode dar conta de nos satisfazer tanto assim. Por isso, nossas experiências com a vida deixam sempre um resto que não se satisfaz, um tom a menos de satisfação do que gostaríamos. A pegada da vida é justamente essa, poder fazer disso causa de desejo, e não de sofrimento.
Explico: ao encontrarmos uma frustração, em vez de lamentar a realidade, é mais interessante quando podemos endereçar essa energia para a próxima atividade. No entanto, no funcionamento neurótico, nos fixamos na frustração, que é um lugar quentinho e conhecido (o que costuma parecer mais seguro do que o desconhecido risco de encontrar outra coisa).
2. A gente não vive sem criar expectativas. Sem expectativas não há motivos para sair de casa, não escovamos nem os dentes, nem sequer abrimos os olhos. É disso que se faz a vida, de expectativas – um nome para a fantasia, talvez! A gente vive porque espera algo da vida. Ama porque espera algo do ser amado.
Trabalha porque espera algo do nosso esforço.
Expectativa e esperança têm uma relação etimológica com espera, que é bem o que se aprende a fazer nos caminhos do que chamamos de desejo, em psicanálise.
É de aprender a esperar que se faz uma infância, que se faz uma vida. Mas não um aprender a esperar no sentido de ficar paralisado, mas no sentido de poder gozar desse tempo de espera. No fim das contas, a vida nada mais é do que o tempo que a gente tem enquanto espera a morte. É melhor que possamos fazer bom uso desse tempo de espera.
Gosto muito do termo “felicidade clandestina”, que Clarice Lispector utiliza em seu conto de mesmo nome. Nesse texto, Clarice se torna uma menina que, ansiando pelo amanhã, quando poderá ler um livro muito desejado, escreve: “Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar
num mar suave, as ondas me levavam e me traziam”. 17 O conto (que é lindíssimo, eu sugiro que leiam se ainda não o fizeram e que releiam já o leram) segue com a menina, que não consegue o livro, então volta no dia seguinte à casa da menina que iria lhe emprestar o livro, mas não empresta – e no outro e no outro, aos poucos transformando seu entusiasmo da espera em angústia. É que convém pôr um limite no desejo, que, sem encontrar satisfação, mesmo parcial (a única possível), avinagra o vinho. Quem nunca viu uma criança que espera, espera, espera, até que, diante da demora excessiva, se põe a chorar?
Ou mesmo um adulto, que, com uma e outra e mais uma e mais outra frustração, “de repente” se fez o copo que transborda? Quem vê de fora alguém se descontrolar com determinada situação pensa que é desproporcional uma reação de agressividade ou de choro, mas quem a vive, por vezes, só não aguentou mais ali naquele momento uma série de frustrações anteriores. Precisamos de algum tipo de satisfação. Aquilo que não encontramos pela via do prazer,
encontramos pela via do sofrimento.
Bom, mas o conto segue com a pequena menina, finalmente, conseguindo o livro desejado, o que a leva a uma tentativa de postergação da imensa alegria que sente ao ter em mãos o objeto. Então, Clarice escreve: Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardava o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.