A gente mira no amor e acerta na solidão

12 O amor precisa de tempo

Eis uma bela explicação sobre o desejo. Lacan afirma que o desejo é desejo de desejo, colocação essa que parece enigmática, mas que Clarice faz um uso literal de seu nome e a clareia. Vemos no conto que, ao postergar a realização do desejo, que seria, finalmente, ler o livro, a menina encontra certa felicidade. Desejo é desejo de desejo na medida em que desejar nos satisfaz. O desejo é um buraco ao contrário, que, quanto mais tentamos tamponar, mais abrimos.

Você já deve ter ouvido falar que “o melhor de uma viagem é esperar por ela” ou que “o melhor de uma viagem é voltar para casa”. Tais frases apontam para a imensa satisfação que há em torno de uma realização propriamente dita. Quem não tem casa não viaja, e quem simplesmente viaja, sem espera, geralmente é por algum imprevisto indesejado.

 

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O AMOR PRECISA DE TEMPO

Alice suspirou cansada. “Acho que você poderia aproveitar melhor o seu tempo”, disse, “em vez de desperdiçá-lo propondo charadas que não têm resposta”.

“Se você conhecesse o Tempo como eu conheço”, disse o Chapeleiro,

“não falaria em desperdiçá-lo como se fosse uma coisa. É um senhor”.

Lewis Carroll Vivemos um tempo em que queremos tudo para antes de ontem, em que vivemos o período de espera como crise de ansiedade. Estamos entupidos de telas porque as usamos em todos os lugares. Três pessoas na fila da padaria? Dá-lhe rolar a tela no telefone. Sinal vermelho? Dá-lhe responder uma mensagenzinha. E, assim, sem deixar espaço entre uma atividade e outra, sem fazer nascer intervalos, tudo o que encontramos corre o risco de ser puro desencontro.

Geralmente, a paixão acontece primeiro, e só depois vem o amor – ou a coisa termina. A paixão combina com nosso ritmo frenético e ensimesmado de vida, porque é também frenética e narcísica. Na paixão a gente se sente identificado

com o outro, a gente se sente conectado. É frio na barriga, é borboleta no estômago, é vida com cores e purpurina. Na paixão somos crianças ganhando o presente que pedimos ao Papai Noel. Há coincidências e fogos de artifício. Com frequência também há tormentos, insônia, crise de ciúmes, insegurança – porque tudo é demais. Gostoso demais, intenso demais. E, como tudo o que é demais, não há força para durar tanto. Vinte e quatro meses, quarenta e oito, seja lá quanto tempo os especialistas afirmam que isso dura, tem um limite que não é tão longo assim. Paixão é gozo.

Talvez pudéssemos dizer que a paixão é o amor em seu estado máximo, o orgasmo do amor. Na língua francesa, a palavra orgasmo se diz petit-mort, pequena morte. Lacan afirma, no livro 10 de O

seminário:18 “O orgasmo, dentre todas as angústias, é a única que realmente acaba”. Paixão é coisa boa, mas precisa acabar. Ou melhor, paixão só é boa porque acaba. É só quando acaba que sabemos se a coisa vai ou não andar, se vai ou não se transformar em amor. Dizem que não sabemos se um casal ficará junto até que a primeira briga aconteça. É claro que isso é um baita clichê, mas acho que se examinarmos seu entorno com cuidado podemos extrair saberes interessantes dos clichês!

Se na paixão encontramos aquilo que supostamente queríamos, isso não acontece sem a nossa parte criativa bastante animada.