A gente mira no amor e acerta na solidão
18 Como fazer dois virarem três? E cinco virarem seis?
Quando uma criança se sente responsável pela felicidade da mãe, pela felicidade do pai, ela se mantém sexualmente ligada a eles, às vezes pela vida toda, sem poder se afastar (no sentido emocional) para cuidar da sua vida. É apenas quando a criança (ou o adolescente, ou o adulto) descobre que não é responsabilidade dela tornar os pais felizes, porque eles têm a vida deles, que ela pode encontrar para a sua vida uma causa própria.
É claro que isso não acontece de modo simples, bonitinho e indolor. Cair do pedestal de que ocuparíamos o lugar mais precioso da vida do outro é uma tarefa árdua. Mas é o único caminho viável para que seja possível encontrarmos uma maneira mais autêntica de nos ligarmos à vida.
Até que possamos elaborar essa perda, o que acontece no final da primeira infância, vivemos uma intensa relação de rivalidade com aqueles que são nossos primeiros amores.
Casais que decidem ter o segundo filho para oferecer uma companhia para o primogênito brincar tendem a se espantar com a descoberta de que é muito comum precisar passar o dia mediando brigas. Quem ganhou o maior brinquedo? E o maior pedaço de bolo? Quem pode quebrar uma regra? Quem leva menos bronca? No fundo, a pergunta que sustenta todas essas disputas é: quem é o mais amado? Pergunta esta que carrega consigo uma outra: quem é o mais desamado?
No entanto, essa pergunta não se dá apenas entre irmãos, e sim entre toda a família – e, acreditem, essas angústias não vêm apenas das crianças, mas também de seus pais.
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COMO FAZER DOIS VIRAREM TRÊS? E CINCO VIRAREM
SEIS?
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.
Luís de Camões Quando um casal tem um filho, recebe a difícil tarefa de fazer dois virarem três e, com isso, fazer o par sexual/amoroso virar também um par parental. Alguns casais se apaixonam tanto por essa nova modalidade de laço que passam inclusive a se chamar de pai e de mãe. Há casais que até mesmo se separam quando os filhos saem de casa. Mas, voltando ao ponto, como fazer dois virarem três? Não se trata de uma questão biológica, porque a criança simplesmente chega; trata-se de uma questão simbólica, com cores afetivas.
Uma mulher se divide em mãe e mulher, um homem se divide em pai e homem quando uma criança chega. O pai e a mãe se encontrarão no casal parental, priorizando a criança.
Mas há um ponto da mãe como mulher e do pai como homem onde é melhor que a criança não entre. Será esse o ponto onde a criança ficará livre para viver a sua vida, não sem algum sofrimento.
Lembro-me de um homem que escutava há anos e que contava de sua dificuldade imensa de dizer não à filha, que aos 4 anos insistia que ele se casasse com ela. A princípio ele recusou, dizendo que já era casado com a mãe dela. Mas em seguida o casamento se desfez, e ele não encontrava meios para dizer não à filha, provocando muita angústia à menina, que seguia cada vez mais apaixonada pelo pai. É melhor para os filhos quando os pais podem lhes dizer “não” sem tanto sofrimento!
Tocamos num ponto relevante aqui, que era o que falávamos sobre a importância de, no complexo de Édipo, os números serem mais significativos do que os papéis. Se um pai não pode se casar com sua filha não é porque já é casado, mas porque a relação entre pai e filha está interditada. É este o ponto do complexo de Édipo: nossas modalidades amorosas nascem de um amor que fica interditado. Nosso objeto amoroso está para sempre perdido, e isso não é um pesar. Se não estivesse interditado é que seria uma tragédia, tal como aconteceu no mito de Édipo Rei. Ficar alienado a uma parceria sexual com os pais é que é uma tragédia.
Dois viram três, então, na medida que cada um dos dois se duplica para se relacionar com esse terceiro. Nesse sentido, é mais sobre fazer dois virarem cinco, em vez de três
(mulher+mãe+homem+pai+criança). À medida que essa criança for crescendo, também ela se duplicará para viver sua sexualidade na adolescência.
Vemos o desastre que é quando alguém não pode se duplicar também no filme Cisne negro, ao qual já nos referimos antes. Nina é filha de sua mãe. Em todos os lugares aonde ela vai, é a filhinha da mãe, é a “doce menina” da
mamãe. Como consequência, o acesso à sua própria sexualidade lhe é impedido. Assim, interpreta muito bem o cisne branco, que é a própria representação da doce menina.
Mas ao precisar interpretar o cisne negro não encontra recursos em si, pois nada da malícia, da sensualidade, da duplicação lhe habita. O jogo de sedução está justamente na possibilidade de alguém brincar com seu semblante, como aquilo que é-mas-não-é, fundamento próprio do brincar. Não se pode transar sendo filhinho ou filhinha da mamãe, é preciso tomar posse do próprio corpo.
Chegamos à vida pertencendo a um outro, somos o falo do outro. A moda infantil parece saber disso. Vemos nas roupinhas das crianças escritos como “sou da mamãe”, “sou do papai”, “sou da vovó”, “sou do dindo”… e por aí vai.
Somos pertencentes a um Outro. É à medida que vamos nos desenvolvendo que vamos nos apossando de nosso corpo como sendo mesmo “nosso”, tarefa esta que nunca se conclui completamente.
Marilyn Yalom, no livro Uma questão de vida e morte, publicado junto com seu marido, Irvin D. Yalom, escreve: “No fim das contas, cheguei à conclusão de que a pessoa permanece viva não apenas
para si mesma, mas também para os outros”. 22 Aponta, com isso, os limites de nossa tarefa de tomar posse do nosso corpo, de nos separar do Outro. O amor é justamente esse limite, isso que nos faz sentir de certo modo ligados a um Outro. Mesmo que seja, em alguma medida, um equívoco, trata-se de um equívoco necessário. O
amor é um equívoco que dá dignidade à vida.
A palavra “sexo” vem do latim secare, que significa
“dividir”, “cortar”. Eis porque é preciso que em certo ponto
nos separemos do Outro para ter acesso a uma vida sexual própria.
A adolescência, tempo esse da vida em que experimentamos nosso corpo como sendo sexuado, é um tempo de cortes e de intensidades. Testamos com unhas e dentes nosso corpo como um espaço de solidão. Não é nada raro que um adolescente faça uma tatuagem escondido, por exemplo, ainda que os pais não se oponham. Se na infância a criança testa se os pais leem seus pensamentos, na adolescência o sujeito novamente fará uma reivindicação ao olhar dos pais, ao mesmo tempo que o rejeitará. “Imaturo de um lado, muito maduro de outro”, escutamos os pais dizerem de seus filhos adolescentes.
É também nessa época da vida que costumamos viver nossas maiores dores de amor e desamor, ainda que depois, nos separando dessas experiências, tenhamos a tendência de menosprezar a violência com a qual somos invadidos por esses afetos.
Na adolescência revivemos nossa passagem pelo complexo de Édipo. A história de amor e paixão que uma criança vive com seus pais, a experiência de ficar de fora da relação que compõe um casal sexual, as dores de ficar de fora, para só então encontrar com um alívio por isso – é tudo isso que o adolescente revive, tanto no campo das amizades quanto no campo das parcerias sexuais propriamente ditas. Assim, talvez possamos dizer que na adolescência temos uma propensão maior a nos apaixonarmos e uma menor a amar, o que leva muitos adultos a destituírem os relacionamentos dos adolescentes, inclusive profetizando aos adolescentes que eles viverão muitos outros amores além daqueles pelos quais estão