A gente mira no amor e acerta na solidão

16 Como assim o amor acaba?

O ex-amante olha para o ex-amado e vê exatamente aquilo que o outro é. Uma pessoa cheia de furos, falhas, poros, dissimetrias, excessos narcísicos, que antes eram relevados, mas que agora são imperdoáveis. A partir desse ponto o ex-amante já não será mais o mesmo, estranha quem começa a ser e estranha a pessoa que era antes. Será preciso um trabalho de luto para elaborar a perda do amor e da imagem de si mesmo que se abalou.

 

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COMO ASSIM O AMOR ACABA?

de fato, não há qualquer

chance:

estamos todos presos a um destino

singular.

Charles Bukowski A gente se constitui a partir do olhar do outro, como vimos no capítulo 5. Assim, não somos sem outro, ou seja, não há uma essência puramente nossa, que seja absolutamente independente de quem é o outro. Com alguns grupos de amigos é uma característica nossa que se evidencia, com a família é outra, e, ainda que um mesmo traço nosso se acentue em diferentes grupos, ele não existe sem a presença de algum outro. Quando perdemos alguém, então, não perdemos bem esse alguém fora de nós, mas perdemos muito especialmente quem éramos para o outro – e, ainda, a imagem que tínhamos de quem éramos para esse outro.

Aqui não se trata apenas da perda por morte, que é a perda mais drástica e inegociável, mas da perda do amor. Perder alguém enquanto se ama esse alguém é perder um alguém, e não o amor que se tem. Aliás, quando alguém que amamos morre, tendemos a preservar esse amor, e daí advém o

sofrimento: de um afeto que se mantém sem destinatário. Por isso o luto vai acontecendo muito aos pouquinhos; o afeto se mantém ali presente, inalterado, às vezes até mais vivo do que antes.

Quando perdemos o amor por alguém vivo, entretanto, é uma perda dupla, porque perde-se o amor e perde-se, de certo modo, esse alguém. Digo de certo modo porque o alguém perdido é o alguém que foi idealizado por nós. O

alguém da realidade que fica costuma ser demasiadamente repulsivo no fim do amor.

Há, ainda, um outro problema, que é quando o amor acaba para o outro que está com a gente, mas não com a gente. E aí com frequência recaímos no campo do abandono, mesmo que não sejamos abandonados.

Não é que o amor acabe, mas é que o amor pode acabar, e então, muitas vezes, o amor acaba.

Paulo Mendes Campos, autor mineiro, tem uma crônica belíssima chamada “O amor acaba”, que, se você não leu, eu não apenas sugiro que leia, mas também lhe peço: faça isso por você, leia essa crônica (no Google você encontra vários sites que a contêm na íntegra) na qual ele escreve lindamente sobre esse sem sentido absurdo que é a morte de um amor.

Que um amor acabe, por si só, já é incompreensível, mas ainda mais é o fato de o amor muitas vezes acabar para um e não para o outro. É injusto que um queira insistir na relação que já não existe, porque algo do outro já não está mais ali.

Em 1907 uma pesquisa feita por um médico escocês chamado Duncan MacDougall foi publicada no Journal of the American Society for Psychical Research, organização norte-americana voltada ao estudo de fenômenos paranormais,

sustentando a hipótese de que uma alma pesaria 21 gramas.

Nessa pesquisa, o médico tentou comprovar que, ao morrermos, instantaneamente pesaríamos 21 gramas a menos, o que corresponderia ao peso de uma alma. Embora a pesquisa seja muito falível em seu método, essa ideia do peso da alma se difundiu.

Bom, isso tudo para dizer que, quando o amor morre em alguém, talvez essa pessoa pese até menos, no sentido de que o amante está morto. O que fica ali é outra pessoa, o amante morreu.

É muito injusto, mas é assim que acontece, e acontece muito, porque, com frequência, morre um amante (não no sentido literal), mas não morre o outro. Pode-se passar do amor à indiferença, uma morte pacífica, sem dor, quase como a realização do sonho neurótico que temos de “morrer dormindo”, de um belo dia apenas não acordar. O outro, porém, por vezes sente muita dor.

Sabemos, por exemplo, que a dor de amor é física. É claro, toda dor é física e não há dor que não seja psíquica, em algum nível. A clínica da dor necessariamente passa pela interpretação daquele que a sente. Um médico não tem como saber da nossa dor, mesmo que ela seja bastante palpável, como a dor de quebrar uma perna, a não ser pelo relato do seu paciente. Por isso os médicos costumam perguntar sobre a dor para ter notícias dela.

E como dói a dor de amor! Ou melhor, a dor de desamor, ou, ainda, a dor de ser desamado. Você se lembra da primeira vez que sentiu isso? Talvez tenha sido ali na adolescência.

Parece insuperável. Alguém precisa nos lembrar a famosa frase: “Ninguém morre de amor”. Mas e de desamor, será que

se morre? Bom, nos casos mais comuns, certamente não.