A gente mira no amor e acerta na solidão
2 No início era o amor?
Neste livro rimamos amor com solidão, e não amor com dor, rima própria da sofrência da vida humana. Penso que estar sozinho não necessariamente é um sofrimento, mas, para além disso, é um grande alívio, um belo convite ao exercício do amor, essa experiência tão interessante que cada um vive sozinho junto a alguns outros ao longo da nossa passagem pelo mundo.
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NO INÍCIO ERA O AMOR?
Se começo pelo amor,
é que o amor é, para todos
– por mais que o neguem –
a grande coisa da vida.
Charles Baudelaire
Diferentemente dos animais, que nascem prontos para viver, os seres humanos nascem à mercê da morte. Essa é a teoria de Freud,
sobre a pulsão,1 que aponta sempre para uma satisfação a mais. Não sou bióloga e por isso não me atreverei a me aprofundar no funcionamento animal, mas é certo que a natureza se organiza por conta própria. Se o ser humano não mete o dedo estragando o planeta, fazendo a temperatura da Terra aumentar e causando o derretimento das geleiras, além de vários outros desastres ambientais, a natureza simplesmente se vira e continua.
Na vida humana é diferente. Há uma desnaturalização que nos é própria, efeito do fato de sermos seres de linguagem.
Falar nos torna radicalmente diferentes dos outros animais. O
que gostaria de destacar aqui é que ser recebido na vida com
amor é uma questão de vida ou morte para o ser humano. É
claro que o amor não garante a vida. Há bebês que são recebidos com amor e por alguma desordem não sobrevivem.
Mas é fato que sem acolhimento humano não há chance para nós. O amor de alguém nos funda na vida. É sempre por amor que vivemos, mesmo que seja um amor meio torto, e com frequência o é. Portanto, no início era o amor… e depois também.
Há quem se defenda da experiência amorosa, dizendo que não quer saber do amor, que quer se bastar. Em minha experiência clínica, que tem cerca de quatorze anos, nunca encontrei alguém assim, o que não quer dizer que essas pessoas não existam, mas talvez não se interessem por mim, ou talvez não se interessem por pessoas. A maioria de nós se interessa muito pelo tema do amor, seja estudando, seja amando. Dificilmente encontramos uma história na literatura, a letra de uma música, um poema que não seja sobre o amor.
Histórias de amor nos fascinam! Mas é preciso destacar dois 1.pontos: Nosso fascínio pelas histórias de amor não costuma ser apenas pelas histórias que continuam – às vezes é a vertente sofrida do amor que nos captura.
2. Quando falamos de amor, nem sempre estamos falando de um casal, de um par amoroso no sentido sexual. A amizade, por exemplo, é uma modalidade amorosa que costuma trazer muitas alegrias e salvar muitas vidas. Voltaremos a esse ponto no final deste livro.