A gente mira no amor e acerta na solidão
22 O amor amizade
Ao contar de um de seus passeios de bicicleta para mim, que era a “psicóloga” da instituição, ele disse que seus familiares e os profissionais que cuidavam dele não deveriam se preocupar, uma vez que estava “bem cuidado”. Dizia não ter preocupações de se perder no caminho, uma vez que todos os carros da rua o ajudavam, pois, se um carro ligava a seta para a direita, isso queria dizer que era para ele virar à direita, e se um carro piscava à esquerda, então era uma indicação de que seu caminho era por ali. O paranoico é uma máquina de produzir sentidos para aquilo que não tem sentido, qualquer mera contingência se torna confirmação de sua hipótese. No delírio de ciúme, então, qualquer olhar é signo de traição, qualquer piscada é feita para seduzir, e assim vai, num ritmo freneticamente desconectado da realidade.
22
O AMOR AMIZADE
Descobrimos que amizade
é como a gente chama o amor que deu certo.
Chegamos, enfim, à modalidade amorosa que mais salva pessoas e que, no entanto, costuma ficar em segundo plano quando falamos de amor. Lembro que, quando engravidei, ouvi de muita gente que finalmente eu descobriria o que é o amor verdadeiro. Uma vez que o amor já era meu tema de pesquisa e de escrita, muita gente ficou genuinamente feliz porque eu poderia, então, escrever sobre o amor de verdade, o de uma mãe por um filho. Sempre escuto com imensa estranheza a expressão “amor de verdade”, que soa como um pleonasmo para mim, tal como “descer para baixo” ou “subir para cima”.
Várias vezes escutei em minha clínica pessoas se queixarem da clara preferência amorosa das pessoas, de uma maneira geral, pelo par romântico, em relação à parceria que se pode fazer com os amigos. Entretanto, costumam ser essas as pessoas que mais querem uma parceria romântica para si,
alguém para o qual elas terão garantia de ser prioridade.
Não é raro que, quando alguém começa um novo relacionamento/namoro/casamento, esse alguém se ausente em alguma medida do campo das amizades e retorne assim que o relacionamento fracassa ou esfria. Quantas vidas não foram salvas por amigos? Tendo a pensar que nossos amigos são aquelas pessoas que conhecem partes nossas que, por vezes, ficam de fora da parceria romântica. Nossos namoros, noivados e casamentos são como tinta de carimbo, tentam encharcar tudo o que ali está escrito. Mas, se vocês já tiveram a experiência de usar um carimbo velho, sabem que a tinta não chega a todos os cantos dele (gente, quem usa carimbo nos dias de hoje, né? Mas sigo com meu exemplo por não ter encontrado outro melhor). Essas partes do carimbo que ficam sem a marca da tinta são nossos pontos de solidão, são as nossas partes que não são alcançadas pelo outro, não por defesa, não por um esforço em não se deixar atingir pela tinta do outro, mas por um impossível. Há tintas que não pegam em determinadas superfícies. Nossos amigos são as pessoas que nos darão notícias de que nem tudo está perdido (manchado), de que há partes nossas que ficam com a gente –
e vez ou outra com eles. As amizades costumam ser uma espécie de backup do sujeito antes de seu apaixonamento.
Não é por acaso que um indício fortíssimo de que um relacionamento possa ser “abusivo” se dá quando um vai minando as amizades do outro. Se alguém tem medo ou tenta impedir/atrapalhar a análise do parceiro ou suas amizades, provavelmente é porque essa pessoa deve ter razão ao se sentir ameaçada por outros laços amorosos que não os que são vividos com ela!
Enquanto no amor sexual temos a tendência a querer ser o único objeto de amor do outro e a demandar que ele também seja único para nós, curando nossas feridas narcísicas infantis, no campo da amizade temos muito menos perturbações. É verdade que há pessoas tão narcisicamente inseguras que têm ciúmes até dos amigos – isso não é nada incomum, aliás –, mas a tendência da amizade é poder, mais do que dividir, espalhar o amor.