A Metade Sombria

Stephen King · Capítulo 22 de 26 · parte 2/2

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A Metade Sombria

A caminho, Thad evitou a auto-estrada com…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Ao observar Stark a fazer cócegas ao bebé com a boca da .45, Alan interrogou-se sobre se quereria que isso acontecesse ou não, acabando por concluir que não.

- e agora? - perguntou ele a Stark.

Este suspirou fundo e olhou para fora, para os bosques banhados pelo sol, com um deleite claro no olhar.

- Vamos perguntar a Bethie se ela não nos pode arranjar um jantarzinho. Estou esfomeado. A vida no campo e maravilhosa, não e, xerife Alan? Caramba!

- Penso que sim - replicou Alan, que começou a dirigir-se para tr s em direcção … cozinha, sendo agarrado por Stark com uma só mão.

- Aquela piada sobre o fumo do carro - disse. - Não tinha nenhum significado especial, pois não?

- Não - respondeu Alan. - • apenas mais um caso de... como é que chamou? O toque final que d o sabor especial. No £ltimo ano, diversos dos nossos veiculos tiveram problemas com o carburador.

- • melhor que isso seja mesmo a verdade - disse Stark, fitando Alan com os seus olhos mortos. Uma espessa camada de pus gotejava dos cantos interiores, escorrendo pelos lados do nariz a descamar como l grimas pegajosas de crocodilo. - Seria uma pena ter de magoar um destes mi£dos porque o xerife não conseguiu deixar de se armar em engraçadinho. Thad não dar nem metade do rendimento se descobrir que tive de rebentar com um dos filhos dele para manter o xerife na linha. - Stark sorriu e apertou a boca da .45 contra a axila de William. Este riu-se e contorceu-se. - Ele é amoroso como um gatinho acabado de nascer, não é?

Alan engoliu em seco, em redor daquilo que Lhe pareceu ser uma grande bola de cotão presa na garganta.

- Meu caro, ao fazer isso põe-me nervoso como tudo.

- Siga em frente e continue nervoso - ordenou Stark, sorrindo para ele. - Eu sou aquele género de pessoa ao lado de quem um homem quer continuar nervoso. Vamos comer, xerife Alan. Est -me c a parecer que este aqui est a sentir-se sozinho sem a irmã.

No microndas, Liz aqueceu uma tigela de sopa para Stark. Começou por Lhe oferecer um jantar frio, mas Stark abanou a cabeça, a sorrir, levando de seguida a mão … boca, onde arrancou um dente. Ele caiu da gengiva com uma facilidade apodrecida.

Ao deitar o dente no cesto dos papeis, Liz virou a cara comprimindo ligeiramente os l bios um contra o outro, num rosto que era uma m scara tensa de nojo.

- Não te preocupes - disse ele serenamente. - Daqui a pouco estarão óptimos. Daqui a pouco, ficar tudo óptimo. O pap deve estar a chegar a qualquer momento.

Stark estava ainda a tomar a sopa quando, dez minutos mais tarde, Thad, sentado atr s do volante do VW de Rawlie, estacionou o carro.

Vinte e Cinco

A M QUINA DE AçO

1

A casa de Verão dos Beaumont estava situada em Lake Lane, a um quilómetro e meio da Estrada 5. Todavia, Thad parou o carro a menos de um décimo desse quilómetro, arregalando os olhos de incredulidade.

Havia pardais por todo o lado.

Todos os ramos estavam cobertos por pardais empoleirados.

O mundo que ele via era grotesco e alucinante: era como se esta região do Maine tivesse germinado penas. A estrada que se estirava … sua frente desaparecera totalmente.

Onde em tempos existira, via-se um caminho feito de pardais silênciosos e aos empurrões entre as rvores sobrecarregadas.

Algures, um ramo estalou. O £nico outro som audível era o VW de Rawlie. Quando Thad iníciara a sua corrida em direcção ao oeste, o amortecedor estava em muito mau estado" agora parecia nem sequer executar qualquer tipo de função. O motor roncou e arfou, dando algumas explosões pelo tubo de escape. Ora, este som deveria bastar para levar o bando monstruoso a levantar voo de imediato. No entanto, os p ssaros não se mexeram.

O bando começava a espraiar-se a menos de quatro metros do local onde Thad parara o VW e regulara a alavanca das mudanças para ponto morto. Havia uma linha de demarcação tão nitida que podia muito bem ter sido marcada com uma régua.

"H anos que ninguem vê um bando de p ssaros como este", pensou ele. "Não desde o exterminio dos pombos passageiros' no final do século passado... e mesmo nessa altura, tenho c as minhas d£vidas. Parece que saíram de uma das histórias de Daphne du Maurier."

Um pardal esvoaçou até ao capot do VW, parecendo estar a observ -lo. Thad sentiu uma curiosidade assustadora e fria nos olhinhos pretos do p ssaro.

"Até onde irão eles?" perguntou. "Até a casa? Nesse caso, George j os viu... e vai ser o cabo dos trabalhos, se é que ainda não foi. e mesmo que não vão até tão longe, como é que vou conseguir l chegar? Eles não estão apenas na estrada" eles SŽo a estrada."

Claro que, como é evidente, também para essa pergunta ele conhecia a resposta. Se queria chegar a casa, Thad teria de passar com o carro por cima deles.

"Não", replicou a voz dele, praticamente num lamento.

"Não, tu não podes fazer isso." A imaginação de Thad evocou imagens horriveis: os sons do esmagamento e despedaçamento de milhares de corpos min£sculos, os esguichos de sangue a espirrarem por debaixo das rodas, os grupos empapados de penas presas juntamente com os pneus.

- Mas é isso que vou ter de fazer - sussurrou ele.

- Vou ter de fazer porque tenho de fazê-lo. - Um sorriso trémulo começou a congelar o seu rosto num esgar de concentração feroz e semidemente. Naquele momento, Thad assemelhava-se peculiarmente a George Stark. Thad puxou a alavanca das mudanças para a primeira e começou a cantarolar baixinho John Wesley Harding. O VW de Rawlie moveu-se com barulho, quase foi abaixo e, de seguida, depois de três explosões ruidosas do tubo de escape, começou a rodar para a frente.

O pardal pousado no capot voou e Thad susteve a respiração, esperando que todos eles levantassem voo, tal como faziam nas visões dos estados de transe: uma grande nuvem escura a subir para o céu, acompanhada por um som semelhante a um furacão numa garrafinha.

Em vez disso, a superfície da estrada diante da ponta do VW começou a contorcer-se e a mexer-se. Os pardais -pelo menos alguns entre eles - estavam a retroceder, revelando duas faixas nuas... faixas que condiziam exactamente com o trilho feito pelos pneus do VW.

- Meu Deus - sussurrou Thad.

De um momento para o outro, via-se no meio deles.

Repentinamente, passou do mundo que sempre conhecera para um mundo que Lhe era estranho, povoado apenas por estas sentinelas que guardavam a fronteira entre a terra dos vivos e a dos mortos.

"Que é onde estou agora", pensou ele ao conduzir lentamente ao longo dos dois trilhos idênticos que os p ssaros Lhe concediam. "Estou na terra dos mortos-vivos e que Deus me ajude."

O caminho continuou a abrir-se diante de si. Thad tinha sempre cerca de quatro metros de caminho a percorrer sem obst culos e, depois de coberta essa distƒncia, outros quatro metros abriam-se diante dele. Apesar de a parte inferior da carroçaria do VW passar por cima de pardais que estavam juntos entre os trilhos das rodas, Thad não tinha a sensação de os estar a matar" pelo menos, através do espelho retrovisor, não via quaisquer p ssaros mortos no caminho j percorrido. Mas era difícil ter a certeza absoluta porque, atr s de si, os pardais iam fechando o caminho, refazendo aquele tapete plano e pl£meo.

Thad conseguia sentir-lhes o cheiro - um cheiro leve e esfarelento que parecia cair sobre o peito como uma nuvem de pó de ossos. Uma vez, quando rapazinho, Thad enfiara o nariz num saco de chumbinhos para coelho e inalara profundamente. O cheiro de então era semelhante a este. Não era nauseabundo mas sim intenso. e era estranho. Thad começou a ficar perturbado pela ideia de que esta grande massa de p ssaros estivesse a roubar todo o oxigénio existente no ar, de que sufocaria antes de chegar onde queria.

Foi então que começou a ouvir, ao de leve, uns sons tac-tac-tac vindos de cima. Thad imaginou os pardais empoleirados no tejadilho do VW a com£nicarem de alguma forma com os seus companheiros, a guiarem-nos, a dizerem-lhes para se afastarem e deixarem espaço para os trilhos das rodas, a dizerem-lhes que não havia problema em irem para tr s.

Após chegar ao cume da primeira colina em Lake Drive, Thad olhou para o vale de pardais em baixo: pardais por todo o lado, pardais a cobrirem todos os objectos e a revestirem todas as rvores, transformando a paisagem num pesadelo saído de um mundo de p ssaros. Tudo isto excedia a sua capacidade de imaginação, bem como a sua capacidade de compreensão.

Thad sentiu que estava prestes a desmaiar e deu uma bofetada na própria face com violência. Comparado com o ronco dissonante do motor do VW, tratou-se de um som ligeiro - spat! - mas Thad viu uma grande onda varrer a extensão dos p ssaros amontoados... uma ondulação semeLhante a um arrepio.

"Não consigo ir até l . Não consigo."

"Tens de ir. Tu és aquele que sabe. Tu és aquele que traz. Tu es aquele que possui."

E, alem disso, para onde mais é que poderia ir?

Lembrou-se de Rawlie a dizer-lhe: "Tem muito cuidado, Thaddeus. Nenhum homem controla os agentes da vida depois da morte. Não por muito tempo." Suponhamos que ele fizesse marcha atr s e voltasse para a Estrada 5? Os p ssaros haviam aberto um caminho diante dele... mas Thad tinha a certeza que não abririam nenhum por detr s dele. Ele acreditava que, neste momento, as consequências de tentar mudar de ideias seriam impens veis.

Thad começou a deslizar lentamente pela colina abaixo...

e os pardais abriram um caminho diante de si.

Nunca se recordou com precisão do resto da viagem"

depois de terminada, a mente de Thad correu um cortinado misericordioso sobre ela. Lembrava-se de pensar vezes e vezes sem conta: "Pelo amor de Deus, eles são apenas PARDAIS... não são nem tigres nem crocodilos nem piranhas...

são apenas PARDAIS!"

E isso era totalmente verdade, mas, ao ver tantos de uma só vez, ao vê-los por todo o lado, amontoados em todos os ramos e acotovelando-se por um lugar em todos os troncos caídos por terra... isso transtornava o espirito de qualquer um. Isso feria o espirito de qualquer um.

Ao aproximar-se da curva apertada em Lake Lane, a cerca de novecentos metros para dentro, a escola Meadow surgia … esquerda... só que não estava l . A escola Meadow desaparecera. A escola Meadow estava coberta de pardais negros.

Feria o espirito de qualquer um. .

"Quantos? Quantos milhões? Ou seriam milhares de milhões?"

No bosque, um outro ramo estalou e cedeu, caindo com um som semelhante a um relƒmpago distante. Thad passou diante da casa dos William" no entanto, a estrutura em T não passava de uma protuberƒncia felpuda debaixo do peso dos p ssaros. Thad não imaginou que o carro-patrulha de Alan Pangborn estivesse estacionado na entrada dos William" só Lhe era dado ver uma colina pl£mea.

Passou a casa dos Saddler. A casa dos Massenburg. A casa dos Payne. De outros que não conhecia ou de quem não se lembrava. e de seguida, ainda a quatrocentos metros da sua casa, os p ssaros paravam. Havia um ponto onde o mundo inteiro era composto por pardais" a quinze centímetros de distƒncia desse ponto, não se via nem um £nico. Mais uma vez, parecia que alguem tinha marcado, com uma régua, uma linha ao longo da estrada. Os p ssaros saltaram e esvoaçaram para os lados, revelando trilhos de rodas que agora davam para o caminho nu e sujo de Lake Lane. Thad guiou até ao descampado, estacou subitamente o carro, abriu a porta e vomitou para o chão. Gemeu e, com o braço, limpou o suor que caía da testa. Diante de si, conseguia ver mato de ambos os lados e reflexos de um azul-claro da luz proveniente do lago … sua esquerda.

Olhou para tr s de si e viu um mundo negro, silêncioso e expectante.

"Os psicopompos", pensou ele. "Que Deus me ajude se isto correr mal, se, de alguma forma, ele conseguir controlar estes pardais. Que Deus nos ajude a todos."

Thad fechou a porta com força e fechou os olhos. X "Thad, tens de dominar-te. Não passaste por tudo isto para, agora, deitar tudo a perder. Domina-te. Esquece os pardais." - "Não consigo esquecê-los!", lamentava-se uma parte do seu espirito, num tom apavorado, sentido e vacilante, a beira da loucura. "Não consigo. Não CONSIGO!"

Mas ele podia. e iria. Os pardais estavam … espera.

Também ele esperaria. Esperaria até a chegada do momento exacto. Confiaria em si próprio para saber quando é que esse momento chegar . Se não conseguisse esperar por ele próprio, que o fizesse por Liz e pelos gémeos.

"Finge que e uma história. Apenas uma história que est s a escrever. Uma história sem quaisquer p ssaros.>, - Muito bem - murmurou. - Muito bem, vou tentar.

Thad p“s de novo o carro em movimento. Nessa altura, começou a cantar baixinho John Wesley Harding.

2

Thad parou o VW - este estancou com uma £ltima explosão triunfante do tubo de escape - e, lentamente, saiu de dentro do carro pequeno. Thad esticou-se. George Stark saiu da porta, desta vez a segurar em Wendy, e avançou para o alpendre, de frente para Thad.

Também Stark se esticou.

Liz, postada ao lado de Alan, sentiu um grito a crescer, não na garganta mas por detr s da testa. Tudo o que desejava fazer era desviar o olhar dos dois homens, mas verificou que não conseguia fazer isso.

Vê-los era como observar um homem a fazer exercícios de alongamento num espelho.

Não eram nada parecidos um com o outro - mesmo depois de a decadência acelerada de Stark ser subtraída do quadro. Thad era franzino e moreno, Stark de ombros largos e claro, apesar do bronzeado (o pouco que ainda restava dele). No entanto, apesar de tudo, eram imagens reflectidas um do outro. A semelhança era peculiarmente precisa porque não havia nada que um olhar aterrorizado e desaprovador pudesse apontar. Tratava-se de algo sub rosa, enterrado bem no fundo entre as linhas, mas tão real que dava arrepios: aquele tique de cruzar os pés enquanto se esticavam, de abrirem os dedos das mãos e mantê-los rijos ao lado de cada coxa, a rugazinha apertada dos olhos.

Os dois descontraíram-se exactamente ao mesmo tempo.

- Ol , Thad. - Stark parecia quase tímido.

- Ol , George - respondeu Thad de modo inexpressivo. - A família?

- Ÿptima, obrigado. Vamos p“r mãos … obra? Est s preparado?

- Sim.

Por detr s deles, na direcção da Estrada 5, um ramo partiu-se. Os olhos de Stark saltaram nessa mesma direcção.

- Que foi aquilo?

- O ramo de uma rvore - replicou Thad. - h cerca de quatro anos atr s, houve um tornado por aqui, George. A madeira morta ainda est a cair. Tu sabes isso.

Stark acenou a cabeça.

- Como é que est s, velha carcaça?

- Estou bem.

- Estas com um ar um pouco adoentado. - Os olhos de Stark dardejavam o rosto de Thad, este conseguia senti-los a tentarem espreitar os pensamentos escondidos por detr s do rosto.

- Tu também não estas nos teus melhores dias.

Stark riu-se com isto, embora não houvesse qualquer tom de boa disposição na sua gargalhada.

- Parece que não.

- Vais deix -los em paz? - perguntou Thad. - Se eu fizer aquilo que tu queres, vais mesmo deix -los em paz?

- Sim - D -me a tua palavra.

- Muito bem - disse Stark. - Tens a minha palavra.

A palavra de um sulista, que não é uma coisa que se dê do pé para a mão. - A sua pron£ncia falsa, quase burlesca, de pacóvio do sul desaparecera por completo. Stark falava com uma dignidade simples e aterrorizante. Os dois homens olhavam um para o outro … luz do sol do final da tarde, tão cintilante que parecia irreal.

- Muito bem - disse Thad após um longo momento, pensando: "Ele não sabe. Ele não sabe mesmo. Os pardais...

estão ainda a esconder-se dele. Esse é o meu segredo." - Muito bem, vamos l então.

3

Enquanto os dois homens se encontravam … porta, Liz apercebeu-se de que tinha tido uma oportunidade perfeita para contar a Alan que colocara uma faca debaixo do sof ... e que a tinha deixado passar.

Ou ser que realmente a tivera?

Liz virou-se para ele e, nesse momento, Thad chamou-a.

- Liz?

A voz estava severa. Continha um tom de ordem que ele raramente utilizava, dando praticamente a impressão de que sabia o que é que ela andava a preparar... e não queria que o fizesse. Isso era impossivel, est claro. Ou não? Liz não sabia. Nesta altura, ela não tinha a certeza de mais nada.

Liz olhou para ele e viu Stark passar o bebé para as mãos de Thad, que a segurou com força contra si. Wendy p“s os braços em redor do pescoço do pai, com tanta intimidade como os tinha colocado em redor do pescoço de Stark.

"Agora!", gritava a mente de Liz. "Diz-lhe agora! Diz-Lhe para fugir! Agora que temos os gémeos!"

Contudo, como era evidente, Stark tinha uma arma e Liz estava convencida que nenhum dos dois era suficientemente r pido para conseguir escapar a uma bala. e ela conhecia Thad muito bem" embora nunca o fosse dizer em voz alta, ocorreu-lhe subitamente que ele poderia muito bem tropeçar nos próprios pés.

Nesta altura, Thad j se encontrava muito próximo dela e Liz nem podia fingir que não percebia a mensagem que bailava nos olhos dele.

"Deixa l , Liz", diziam eles. "Agora é a minha vez de jogar."

De seguida, colocou o braço livre … volta dela e toda a familia pareceu ficar unida num abraço desajeitado, mas ardente, a quatro braços.

- Liz - disse Thad, beijando os seus l bios frios.

- Liz, Liz, desculpa-me, desculpa-me por tudo isto. Nunca quis que nada disto acontecesse. Não sabia. Sempre pensei que fosse... inofensivo. Uma piada.

Liz abraçou-o com força, beijou-o e deixou que os l bios dele aquecessem os dela.

- est tudo bem - replicou. - Vai ficar tudo bem, não vai Thad?

- Sim - respondeu ele, afastando-se dela de forma a poder olhar-lhe nos olhos. - Vai ficar tudo bem. - Depois de a beijar de novo, Thad dirigiu o olhar para Alan:

- Ol , Alan - disse, esboçando um ligeiro sorriso. - Mudou de opinião quanto a alguma coisa?

- Sim. Quanto a bastantes coisas. Hoje, falei com um velho conhecido seu. - Olhou para Stark. - e seu tambem.

Stark arqueou aquilo que ainda sobrava das suas sobrancelhas.

- Não sabia que eu e Thad tínhamos amigos em comum, xerife Alan.

- Ah sim, você teve uma relação muito intima com este tipo - replicou Alan. - Na verdade, ele j chegou a mat -lo uma vez.

- De que é que est a falar? - perguntou Thad bruscamente.

- Foi com o doutor Pritchard que eu falei. Ele lembra-se muito bem de vocês os dois. Sabe, foi um género de operação bastante invulgar. Aquilo que ele tirou de dentro da cabeça de Thad foi ele. - Alan acenou com a cabeça em direcção a Stark.

- De que é que est a falar? - perguntou Liz, tendo a voz ido abaixo na £ltima palavra.

Assim, Alan contou-lhes aquilo que Pritchard Lhe dissera... mas, no £ltimo momento, omitiu a parte sobre os pardais que bombardearam o hospital. Fê-lo porque Thad nada dissera sobre os pardais... e Thad tivera de guiar pela casa dos William para chegar aqui. Ora, esse facto sugeria duas possibilidades: ou que os pardais j se tinham ido embora quando Thad chegara, ou que Thad não queria que Stark soubesse que eles l estavam.

Alan perscrutou os olhos de Thad. "Alguma coisa est -se a passar por ali. Alguma ideia. Deus queira que seja uma ideia boa."

Quando Alan terminou, Liz pareceu atordoada. Thad acenava com a cabeça. Stark - que era de quem Alan esperava a reacção mais forte de todas - não pareceu ter ficado muito afectado, quer de um modo quer de outro. Divertimento era a £nica expressão que Alan conseguia ler naquele rosto em decomposição.

- Isso explica muita coisa - disse Thad. - Muito obrigado, Alan.

- Quanto a mim, não explica o raio de uma só coisa! - exclamou Liz de um modo tão esganiçado que os gémeos começaram a choramingar.

Thad olhou para George Stark.

- •s um fantasma - disse. - Um tipo esquisito de fantasma. Estamos todos aqui a olhar para um fantasma.

Não é espantoso? Isto não é apenas um incidente psíquico"

isto é épico!

- Não me parece que isto tenha alguma importƒncia - replicou Stark sem hesitar. - Conta-lhes a história de William BurroughsX, Thad. Recordo-me muito bem dela. Eu estava dentro de ti, est claro... mas estava a escutar.

Liz e Alan olharam de modo interrogativo para Thad.

- Sabes de que é que ele est a falar? - perguntou Liz.

- Claro que sei - respondeu Thad. - Não te esqueças, as duas metades da mesma laranja.

Stark lançou a cabeça para tr s e soltou uma gargalhada.

Os gémeos pararam de choramingar e riram-se com Stark.

- Essa é boa, velha carcaça! Essa é muito boa!

- Em mil novecentos e oitenta e um estive, ou talvez deva dizer, estivemos, num encontro com Burroughs. Na New sãhool, em Nova Iorque. Durante a altura das perguntas e respostas, um mi£do perguntou a Burroughs se ele acreditava na vida depois da morte. Burroughs disse que sim, ele achava que nós todos est vamos a viver a vida depois da morte.

- e é um homem esperto - disse Stark a sorrir. - Não diz nada de jeito, mas é esperto. Agora, j percebem? J percebem como nada disto interessa?

"Mas interessa", pensou Alan, estudando cuidadosamente o rosto de Thad. "Interessa e muito. O rosto de Thad assim o diz... e os pardais, de que não sabes nada, também assim o dizem."

Alan suspeitava que o conhecimento de Thad fosse ainda mais perigoso do que ele próprio se apercebia. Mas podia ser apenas aquilo que tinham. Nessa altura, chegou … conclusão de que fizera bem em manter para si só o final da história de Pritchard... mas, ainda assim, sentia-se como um homem … beira de um precipício a tentar fazer malabarismos com demasiadas tochas em chamas.

- Basta de tagarelice, Thad - ordenou Stark.

Thad acenou a cabeça.

- Sim. j falamos o sufíciente. - Thad olhou para Liz e para Alan: - Não quero que nenhum de vocês tente alguma coisa... bem... fora de ordem. Vou fazer aquilo que ele quer que eu faça.

- Thad! Não! Não podes fazer isso!

- Chiu! - p“s um dedo sobre os l bios dela. - Posso e vou fazer. Sem truques, sem efeitos especiais. Foram as palavras no papel que o criaram e são as palavras no papel as £nicas coisas que nos vão livrar dele. - Thad empertigou a cabeça em direcção a Stark. - Achas que ele sabe se isto vai resultar? Não sabe. Ele espera que resulte.

- Exactamente - replicou Stark. - A esperança é a £ltima coisa a morrer. - Riu-se. Era um som louco e bizarro, e Alan apercebeu-se de que também Stark estava a fazer malabarismos com tochas a arder † beira de um precipício.

O canto do olho foi atraído por um movimento repentino.

Alan virou ligeiramente a cabeça e viu um pardal a poisar no parapeito que dava para a extensão de relva que delimitava a parede ocidental da sala de estar. A ele reuniu-se um segundo e um terceiro. Alan olhou para tr s, para Thad, e viu os olhos do escritor mexerem-se ligeiramente.

Ser que também ele os vira? Alan tinha a impressão que sim. Nesse caso, procedera bem. Thad sabia... mas não queria que Stark soubesse.

- Nós os dois vamos só escrever um pouco e depois despedimo-nos - disse Thad, cujos olhos se deslocaram para o rosto em decomposição de Stark. - • isso que nós vamos fazer, não e, George?!

- Acertaste, amigo.

- Portanto, tens de me dizer - pediu Thad a Liz. - Est s a esconder alguma coisa? Tens alguma coisa na cabeça?

Algum plano?

Liz fitou desesperadamente os olhos do marido, sem notar que entre eles os dois William e Wendy estavam de mãos dadas e a olharem um para o outro encantados, como familiares num encontro-surpresa que h muito não se viam.

"Não est s a falar a sério, pois não, Thad?" perguntavam os olhos dela. "• um truque, não é? Um truque para o sossegar, para deitar as suspeitas por terra?"

"Não", respondeu o olhar cinzento de Thad. "Não quero enganos de espécie alguma. é isto que quero."

Mas não havia também mais qualquer coisa? Algo tão fundo e tão escondido que, provavelmente, só ela é que conseguiria ver?

"Vou tratar da sa£de dele, amor. j sei a forma de fazê-lo. Vou conseguir."

"Oh, Thad, espero que não estejas enganado."

- h uma faca debaixo do sof - disse ela lentamente, a olhar para o rosto dele. - Trouxe-a da cozinha enquanto Alan e... e ele... estavam no vestíbulo, a utilizar o telefone.

- Pelo amor de Deus, Liz! - quase gritou Alan, fazendo os bebés saltar. De facto, Alan não estava assim tão aborrecido como esperava ter soado. Chegara … conclusão que se tudo isto tinha de acabar de uma forma que não fosse sinónimo de terror total para todos eles, então teria de ser Thad a levar isso a cabo. Fora ele que criara Stark" teria de ser ele a destruir Stark.

Liz virou o olhar na direcção de Stark e viu aquele sorriso odioso a bailar naquilo que ainda restava do seu rosto.

- Eu sei o que é que estou a fazer - disse Thad.

- Confie em mim, Alan. Liz, vai buscar a faca e deita-a l para fora, na varanda.

"Tenho um papel a desempenhar aqui", pensou Alan.

"• um papel pequeno, mas lembra-te do que o tipo costumava dizer nas aulas de teatro do colégio: não h papeis pequenos mas apenas actores pequenos."

- Est s … espera que ele nos deixe ir embora assim sem mais nem menos? - perguntou Alan de modo incrédulo.

- Que desapareça de cena, colina afora, com a cauda a abanar como o cordeirinho da Mary? Não deves estar bom da cabeça.

- Claro, não estou bom da cabeça - respondeu Thad, lançando uma gargalhada, peculiarmente parecida ao som produzido por Stark: a gargalhada de um homem que est a dançar … beira da inconsciência. - Ele existe e ele veio de mim, não foi? Como um diabo reles, criado a partir da sobrancelha de um Zeus de terceira categoria. Mas eu sei como as coisas tem de se passar. - Virou-se e, pela primeira vez, fitou Alan de forma séria e intensa: - Eu sei como as coisas tem de se passar - repetiu lentamente e dando uma grande ênfase. - Vai … frente, Liz.

Alan soltou um som de desagrado e repugnƒncia e virou-se de costas, como que a distanciar-se de todos os outros.

Sentindo-se como uma mulher num sonho, Liz atravessou a sala de estar e tirou a faca de debaixo do sof .

- Tem cuidado com essa coisa - disse Stark, soando muito alerta e muito sério. - Se os teus filhos pudessem falar, diriam exactamente o mesmo.

Liz olhou … sua volta, afastou o cabelo do rosto e viu que ele estava a apontar a pistola a Thad e William.

- Eu estou a ser muito cuidadosa! - exclamou numa voz trémula e fria, … beira das l grimas. Liz fez deslizar a porta de vidro na parede para tr s, sobre as calhas, e saiu para fora, para a varanda. Agora, podia ver-se cerca de meia d£zia de pardais empoleirados na balaustrada. Quando Liz se aproximou da balaustrada e da encosta ingreme para l da varanda, os pardais afastaram-se para os lados em grupos de três, embora não tivessem levantado voo.

Alan viu que, por um instante, ela estacou, ficando a observ -los, com o cabo da faca preso entre os dedos e a ponta da lƒmina a apontar para baixo, para a varanda, como um fio-de-prumo. Alan olhou de soslaio para Thad e viu que este estava a olhar para Liz de forma tensa. Por ultimo, olhou de soslaio para Stark. Este observava cuidadosamente Liz, mas o seu rosto não apresentava nenhum olhar de surpresa ou suspeita. De s£bito, um pensamento totalmente louco atravessou o espírito de Alan Pangborn: "Ele não os vê! Ele não se lembra do que escreveu nas paredes do apartamento e, neste momento, ele não os est a ver! Ele não sabe que eles estão ali!"

Foi então que, repentinamente, Alan se apercebeu de que Stark estava a olhar para ele, perscrutando-o com aquele olhar inexpressivo e esfarelado.

- Porque é que est a olhar para mim? - perguntou Stark.

- Quero certificar-me de que não me esqueço de quão realmente feio e - retorquiu Alan. - Talvez, mais tarde, queira contar aos meus netos.

- Se não tem cuidado com o raio dessa sua lingua, não ter de se preocupar com os seus netos - replicou Stark.

- Nem um bocadinho. • melhor parar de vez com esse olhar, xerife Alan. Não é l muito sensato.

Liz atirou a faca sobre a balaustrada da varanda. Foi quando Liz ouviu a faca cair nos arbustos sete metros mais abaixo que começou realmente a chorar.

4

- Vamos l para cima - ordenou Stark. - • aí que Thad tem o escritório. Imagino que vais querer a tua m quina de escrever, não vais, velha carcaça?

- Não para este - replicou Thad. - Sabes bem.

Um sorriso aflorou os l bios gretados de Stark.

- ai sei?

Thad apontou para os l pis alinhados no bolso do casaco.

- Quando quero voltar a entrar em contacto com Alesis Machine e Jack Rangely, são estes que eu uso.

Stark parecia estar incongruentemente satisfeito.

- Sim, é verdade, não é? Acho que pensei que, desta vez, ias querer fazer de maneira diferente.

- Sem diferença nenhuma, George.

- Trouxe os meus próprios - afirmou ele. - Três caixas deles. Xerife Alan, importa-se de ser um lindo menino e ir l fora, ao meu carro, busc -los? Estão no compartimento das luvas. Nós ficaremos aqui a tomar conta dos bebés. - Stark olhou para Thad, lançou a sua gargalhada irracional e abanou a cabeça: - Seu cão!

- • verdade, George - respondeu Thad, com um ligeiro sorriso. - Sou um cão. e cão velho não aprende truques novos.

- Est s desejoso de meter mãos … obra, não est s, veLha carcaça? Por muito que digas, uma parte de ti est desejoso de começar. Vejo nos teus olhos. Tu queres fazer.

- Sim - respondeu Thad simplesmente, e Alan teve a impressão de que ele não estava a mentir.

- Alexis Machine - disse Stark, com os olhos amarelos a brilharem.

- Exactamente - retorquiu Thad, agora com os próprios olhos também a brilharem. - "Corta-o enquanto fico aqui e observo".

- Nem mais! - exclamou Stark, começando a rir-se …s gargalhadas. - "Quero ver correr sangue. Não me obrigues a dizer-te duas vezes."

Neste momento, começaram os dois a rir …s gargalhadas.

Liz passou o olhar de Thad para Stark e depois de novo para o seu marido, tendo ficado p lida como a cal da parede porque não conseguia apontar qualquer diferença.

De repente, † beira do precipício pareceu estar mais próxima do que nunca.

5

Alan saiu para ir buscar os l pis. A sua cabeça esteve no interior do carro apenas por um breve instante, mas esse instante pareceu-lhe muito mais longo do que isso. Assim, ficou muito satisfeito por sair de l de dentro. O carro tinha um cheiro sombrio e desagrad vel que fê-lo sentir-se ligeiramente tonto. Remexer no Toronado de Stark … procura de uma coisa era como enfiar a cabeça num sótão onde alguem despejara uma garrafa de clorofórmio.

"Se é este o odor dos sonhos", pensou Alan, "nunca mais quero ter nenhum."

Por um instante, Alan permaneceu postado ao lado do carro preto, com as caixas de l pis Berol nas mãos, a olhar para a entrada.

Os pardais tinham chegado.

A entrada estava a desaparecer por debaixo de um tapete de pardais. Enquanto observava, outros p ssaros foram poisando. e os bosques estavam cobertos deles. Os p ssaros limitavam-se a pousar e a fitarem-no, num silêncio sinistro, como um autêntico enigma vivo.

"Eles vem † tua procura, George", pensou, começando a dirigir-se de novo para a casa. A meio caminho, estacou repentinamente quando uma ideia desagrad vel Lhe ocorreu: "Ou ser que vem † nossa procura?"

Durante um longo momento, Alan ficou a olhar os p ssaros.

porém, estes não contaram segredos, e Alan entrou em casa.

- L para cima - ordenou Stark. - V … frente, xerife Alan. V até ao fundo do quarto dos hóspedes. Aí, encontrar encostado † parede um arm rio de vidro repleto de fotografias e pisa-papeis de vidro e lembrançazinhas.

Quando fizer força contra o lado esquerdo do arm rio, este rodara para dentro sobre um eixo central. O escritório de Thad e por detr s dessa parede.

Alan olhou para Thad, que acenou a cabeça.

- Para um homem que nunca aqui esteve - retorquiu Alan - sabe muita coisa sobre esta casa.

- Mas eu j c estive - respondeu Stark num tom sério. - J aqui estive muitas vezes, nos meus sonhos.

7

Dois minutos depois, todos eles estavam reunidos no exterior da porta invulgar do pequeno escritório de Thad.

O arm rio de vidro foi empurrado para dentro, criando duas entradas para o gabinete, separadas pela espessura do arm rio. Aqui não havia janelas" "d -me uma janela aqui com vista para o lago", explicara uma vez Thad a Liz, "e não escreverei mais do que duas palavras pois passarei as outras duas horas a contemplar esta vista maravilhosa e a ver os barcos a passar."

Um candeeiro flexível e uma lƒmpada brilhante de halogenio de quartzo lançavam um círculo de luz branca sobre a secret ria. Uma cadeira de escritório e uma outra de campismo desdobr vel estavam colocadas por detr s da secret ria, lado a lado, diante de dois blocos de notas em branco que tinham também sido colocados lado a lado no círculo de luz. Sobre cada um dos blocos de notas, viam-se dois l pis afiados Berol Black Beauty. A m quina de escrever eléctrica IBM que, por vezes, Thad aqui utilizara fora desligada da corrente e enfiada a um canto.

O próprio Thad trouxera a cadeira desdobr vel do arm rio do vestíbulo. Neste momento, a sala deixava transparecer uma dualidade que Liz considerava aterradora e extremamente desagrad vel. De certo modo, tratava-se de uma outra versão da criatura do espelho que ela imaginara ter visto quando, por fim, Thad chegara. Aqui estavam duas cadeiras onde sempre tinha existido apenas uma, aqui estavam dois sitios para escrever, também lado a lado, onde só deveria existir um. O instrumento de escrita que Liz associava ao ("melhor") eu normal de Thad fora posto de lado e, quando os dois se sentaram, Stark na cadeira de escritório de Thad e Thad na cadeira desdobr vel, a desorientação foi total. Liz quase sentiu n useas.

Cada um segurava um gémeo no colo.

- Quanto tempo é que ainda temos antes de alguem começar a suspeitar e decidir vir dar uma espreitadela a casa?

- perguntou Thad a Alan, que se encontrava postado junto … porta, juntamente com Liz. - Sê honesto e sê o mais exacto possível. Tem de acreditar em mim quando vos digo que est e a £nica oportunidade que temos.

- Thad, olha para ele! - explodiu Liz. - Não consegues ver o que se est a passar com ele? Ele não quer apenas ajuda para escrever um livro! Ele quer roubar-te a vida!

Não consegues ver isso?

- Chiu - respondeu. - Eu sei aquilo que ele quer.

Creio que o sei desde o início. est e a £nica forma. Eu sei aquilo que estou a fazer. Quanto tempo, Alan?

Alan reflectiu com cuidado. Dissera a Sheila que ia tomar um lanchezinho e, como j tinha telefonado, ia levar mais algum tempo até ela começar a ficar nervosa. As coisas talvez tivessem acontecido mais depressa se Norris Ridgewick estivesse por perto.

- Talvez até a minha mulher telefonar a perguntar por mim - respondeu. - Talvez mais. h muito tempo que ela é mulher de um polícia. est habituada a esperar durante horas e noites a fio. - Alan não gostou de ouvir-se a si próprio a dizer aquilo. Não era esta a suposta maneira de jogar o jogo, era exactamente da forma oposta.

Os olhos de Thad forçavam-no a isso. Stark não parecia sequer estar a ouvir, pegara no pisa-papeis de ardósia colocado sobre uma pilha desordenada de antigas folhas manuscritas no canto da secret ria e estava a brincar com ele.

- Penso que temos ainda umas quatro horas. - De seguida, de modo relutante, acrescentou: - Talvez até toda a noite. Deixei Andy Clutterbuck a secret ria e Clut não e própriamente um menino sobredotado. Se alguem desconfiar de alguma coisa, talvez seja aquele Harrison, aquele que o Thad despistou, ou uma outra pessoa que conheço na Esquadra da Polícia Estadual em Oxford. Um tipo chamado Henry Payton.

Thad olhou para Stark.

- ser suficiente?

Os olhos de Stark, jóias cintilantes no cen rio em ruínas do seu rosto, estavam distantes, toldados. A mão ligada brincava de forma ausente com o pisa-papeis. Stark p“-lo de volta no lugar e sorriu para Thad.

- O que é que tu achas? Sabes tanto sobre isto quanto eu.

Thad reflectiu: "Tanto eu como ele sabemos do que e que estamos a tratar, mas penso que nenhum de nós conseguiria p“r isso em palavras. Escrever não é exactamente aquilo que estamos a fazer aqui. Escrever é apenas um ritual.

Estamos aqui a tratar da passagem de uma espécie de testemunho. Uma troca de poder. Ou, mais adequadamente, um negócio: a vida de Liz e dos gémeos em troca... de quê? De quê, exactamente?"

Todavia, ele sabia de quê, est claro. Seria muito estranho se não soubesse, pois Thad andara a meditar exactamente sobre este assunto h não muitos dias atr s. Era o olho dele que Stark queria - não, exigia. Aquele terceiro olho invulgar que, estando enterrado no seu cérebro, só podia olhar para dentro.

Thad começou a sentir de novo aquela sensação de formigueiro e tentou afast -la. "Não vale espreitar, George.

Tu tens o poder nas mãos, eu só tenho um bando de p ssaros magricelas. Portanto, não vale espreitar."

- Penso que talvez seja - retorquiu Thad. - Só o saberemos quando acontecer, não e?

- Sim.

- Como um sobe-e-desce, quando uma das extremidades da t bua vai para cima... e a outra extremidade vai para baixo - Thad, o que é que est s a esconder? O que é que est s a esconder de mim?

Seguiu-se um momento de silêncio eléctrico na sala, uma sala que, subitamente, pareceu demasiado pequena para as emoções que giravam dentro dela.

- Posso fazer-te a mesma pergunta - respondeu Thad por fim.

- Não - retorquiu Stark lentamente. - Tenho todas as minhas cartas na mesa. Por isso, diz-me, Thad. - A sua mão fria e apodrecida enroscou-se † volta do pulso de Thad com a força inexor vel de uma man pula de aço. - O que é que est s a esconder?

Thad obrigou-se a virar a cabeça e a olhar para dentro dos olhos de Stark. Neste momento, aquela sensação de formigueiro estava espalhada por todo o corpo, embora se mantivesse centrada no buraco na mão.

- Queres fazer este livro ou não? - inquiriu.

Pela primeira vez, Liz viu a expressão subjacente do rosto de Stark - não no rosto mas dentro do rosto - alterar-se. Subitamente, era possível ler-se uma certa incerteza.

E medo? Talvez sim, talvez não. Mas, neste £ltimo caso, o medo estava muito próximo, prestes a surgir.

- Não vim até aqui para brincar …s casinhas contigo, Thad.

- Então, imagina l tu - replicou Thad. Liz ouviu um grito sufocado e apercebeu-se de que fora ela própria quem o soltara.

Stark olhou de relance para Liz, virando-se de seguida de novo para Thad.

- Não me provoques, Thad - disse ele severamente.

- Não queres de certeza provocar-me, velha carcaça.

Thad soltou uma gargalhada. Era um som frio e desesperado... mas não totalmente desprovido de boa disposição. e isso era o pior de tudo. Não se tratava de um som totalmente desprovido de boa disposição e, nessa gargalhada, Liz ouviu George Stark, tal como vira Thad Beaumont nos olhos de Stark quando este estava a brincar com os bebés.

- Porque não, George? Eu sei aquilo que tenho a perder.

Também tudo isso est na mesa. Agora, queres escrever ou queres falar?

Stark reflectiu por um longo instante, com o seu olhar inexpressivo e maligno a cobrir o rosto de Thad. De seguida, disse:

- Ah, que se lixe. Vamos l .

Thad sorriu.

- Porque não?

- Tu e o polícia saiam - ordenou Stark a Liz. - Agora é só entre rapazes. Estamos bastante empenhados.

- Eu levo os bebés - ouviu-se Liz a si própria dizer, tendo Stark rido.

- Isso é muito engraçado, Beth. Sim, sim. Os bebés são o seguro. Como a patilha de protecção numa disquete, não é assim, Thad?

- Mas... - começou Liz.

- est tudo bem - respondeu Thad. - Eles vão ficar bem. O George toma conta deles enquanto eu começo com isto. Eles gostam dele. Ainda não reparaste?

- Claro que j reparei - respondeu ela numa voz baixa e a transbordar de ódio.

- Não se esqueça de que eles estão aqui connosco - disse Stark para Alan. - Não tire isto da cabeça, xerife Alan. Não se ponha para aí a inventar. Se tentar alguma gracinha, vai ser tal e qual como Jonestown. Vão ter de nos tirar daqui pelos pés. Percebeu?

- Entendido - respondeu Alan.

- E, quando saírem, fechem a porta - Stark virou-se para Thad. - est na hora.

- Exactamente - disse Thad, que agarrou num l pis.

Virou-se para Liz e para Alan e, do rosto de Thad Beaumont, os olhos de George Stark fitaram-nos. - v l , vão-se l embora.

8

Liz parou a meio das escadas e Alan quase esbarrou com ela. O olhar de Liz atravessava a sala de estar e fixava-se para l da vidraça na parede.

O mundo era constituido por p ssaros. A varanda estava soterrada sob eles, a encosta que descia para o lago tornara-se negra … luz do p“r do Sol, acima do lago, o ceu estava escuro, j que mais p ssaros se dirigiam em bandos para a casa do lago dos Beaumont, vindos do ocidente.

- Ah, meu Deus - disse Liz.

Alan segurou o braço dela.

- Esteja calada - pediu. - Ele não a pode ouvir.

- Mas o que é...

Alan conduziu-a pelo resto das escadas abaixo, continuando a agarrar com força o braço dela. Quando entraram na cozinha, Alan contou-lhe o resto que o Dr. Pritchard Lhe dissera nessa tarde, um pouco mais cedo, h mil anos atr s.

- O que quer isso dizer? - sussurrou ela, com o rosto branco como a cal da parede. - Alan, estou tão assustada.

Pangborn colocou os braços a volta dela e apercebeu-se de que, apesar de ele próprio estar também profundamente assustado, era uma mulher e tanto.

- Não sei - respondeu - mas sei que eles estão aqui ou porque Thad ou porque Stark os chamaram. Tenho a certeza de que foi Thad. Porque ele viu-os de certeza quando aqui chegou. Ele viu-os mas não fez qualquer referência a eles.

- Alan, ele não é o mesmo.

- Eu sei.

- Uma parte dele adora Stark. Uma parte dele adora o lado sombrio de Stark... dele.

- Eu sei.

Juntos, dirigiram-se para a janela junto … mesinha do telefone no vestíbulo e olharam para fora. A entrada estava repleta de pardais, bem como os bosques e o pequeno caminho em redor do barracão onde a .22 continuava trancada. O VW de Rawlie desaparecera debaixo dos p ssaros.

No entanto, sobre o Toronado de George Stark, não se via pardal algum. E, em seu redor, havia um círculo nítido de espaço vazio na entrada, como se esta zona estivesse de quarentena.

Com uma pancada suave, um p ssaro voou e esbarrou contra a janela. Liz soltou um gritinho. Os outros p ssaros mexeram-se com irrequietude - um grande movimento semelhante a uma onda que subiu por toda a colina acima - e, de seguida, ficaram de novo imobilizados.

- Mesmo que eles sejam de Thad - disse ela - ele pode não os utilizar contra Stark. Alan, uma parte de Thad é louca. Uma parte dele sempre foi louca. Ele... ele gosta disso.

Alan nada respondeu, mas também ele estava ciente desse facto. Ele pressentira isso.

- Tudo isto é tal e qual um pesadelo - continuou Liz.

- Gostava de poder despertar. Gostava de poder despertar e que as coisas continuassem a ser como eram. Não como eram antes de Clawson" como eram antes de Stark.

Alan acenou a cabeça.

Liz olhou para cima, em direcção a ele.

- Então, o que é que fazemos agora?

- Fazemos a parte mais difícil - respondeu. - Esperamos.

9

A tarde pareceu durar para sempre, com a luz a escoar-se lentamente do céu … medida que o Sol se despedia por detr s das montanhas no lado ocidental do lago, as montanhas que se afastavam para ir ao encontro da cordilheira Presidêncial da fenda de New Hampshire.

L fora, os £ltimos bandos de pardais chegavam e juntavam-se ao bando principal. Alan e Liz conseguiam sentir a sua presença sobre o telhado, um tumulo de pardais, embora eles se mantivessem silênciosos. Estavam … espera.

Quando se deslocavam pela sala, as suas cabeças viravam-se … medida que eles andavam, viravam-se como antenas de radar a seguir um sinal. Era ao escritório que eles estavam a prestar atenção e a coisa mais enlouquecedora de todas era que não se ouvia um £nico som por detr s da porta especial que dava para esse compartimento. Liz não conseguia sequer ouvir os bebés a palrarem e balbuciarem um com o outro. Era sua esperança que eles tivessem adormecido"

contudo, não era possível calar a voz que insistia que Stark tinha morto ambos, e Thad também.

Silenciosamente.

Com a navalha que transportava consigo.

Liz disse para si mesma que, se algo semelhante a isso acontecesse, os pardais saberiam, os pardais fariam alguma coisa, e isso ajudava, mas só um pouco. Os pardais eram enigma desconhecido a rodear a casa. Só Deus sabia o que eles fariam... ou quando.

Lentamente, o lusco-fusco deu lugar … escuridão total, e foi nessa altura que Alan afirmou, de forma brusca:

- Se isto demorar muito tempo, eles vão trocar de posição, não e? Thad começar a ficar doente... e Stark começar a ficar bem.

Liz ficou tão perplexa que quase deixou cair a ch vena de café sem aç£car que estava a segurar.

- Sim, penso que sim.

Um mergulhão chamou desde o lago: um som isolado, dorido e solit rio. Alan pensou nos dois no andar de cima, os dois pares de gémeos, um par descansado, o outro empenhado numa qualquer luta terrível no crep£sculo fundido da sua imaginação una.

L fora, os p ssaros observavam e esperavam … medida que o crep£sculo avançava.

"A conversa j começou", pensou Alan. "O fim de Thad est a subir e o fim de Stark est a descer." l em cima, por detr s da porta que criava duas entradas quando estava aberta, a transformação começara.

"Est quase no fim", pensou Liz. "De uma forma ou de outra."

E, como se este pensamento tivesse causado o fim, Liz ouviu o vento começar a soprar - um vento estranho e Sibilante. Só que o lago permaneceu raso como um prato.

Liz levantou-se, com os olhos arregalados, as mãos a dirigirem-se para a garganta. Fitou os olhos através da vidraça da parede. "Alan", tentou ela dizer, mas a voz faltou-Lhe. Não importava.

No andar de cima, ouviu-se um som estranho e peculiarmente sibilante, como uma nota soprada de uma flauta torta. S£bita e estridentemente, Stark gritou:

- Thad? O que é que est s a fazer? O que e que est s a fazer?

Seguiu-se um som curto, semelhante a uma pancada, como a detonação de uma pistola. Um instante depois, Wendy começou a chorar.

E, l fora, na escuridão profunda, um milhão de pardais começou a agitar as asas, preparando-se para voar.