Circos e palhaços brasileiros

Mario Fernando Bolognesi · Capítulo 10 de 40

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Circos e palhaços brasileiros

9 Circo Beto Carrero

 

O espetáculo em Assis

Primeira parte: Abertura; Arame alto; Chimpanzés; Paradas de mão; Reprise de "O apito", com o palhaço Nenê; Magia; Lira; Rola-rola; Globo da Morte.

Segunda parte: Cavalos amestrados; Nenê em "O caçador"; Corda indiana, Bicicleta; Saltos acrobáticos; Bambu; Nenê em "O futebol"; Trapézio Voador.

O espetáculo em Marília

Primeira parte: Palhaço se prepara; Apresentador; Leões. Cremoso e Charlequito em "O apito"; Cães amestrados; Número equestre; Força capilar; Número equestre; Equilíbrio de malabares.

Segunda parte: Báscula; Cremoso e Charlequito em "O atirador de facas"; Magia; Deslocação; Equilíbrio; Chimpanzés.

O Circo Beto Carrero foi visitado em duas oportunidades. A primeira, em 25 de abril de 1998, em Marília-SP; a segunda, na cidade de Assis-SP, em 29 de agosto de 1999. Tratava-se, contudo, de duas companhias distintas. Beto Carrero é a marca de seis companhias que viajam pelo Brasil.

Quanto à estrutura física, os dois circos visitados eram grandes, muito bem-arrumados e com muitos recursos sonoros e visuais. Os espetáculos ostentavam perfis de grandeza. Percebia-se que o empresário fazia uso da mesclagem entre números de primeira linha com outros de qualidade inferior. Contudo, para um espetáculo montado nos moldes tradicionais, não chegava a decepcionar. Por estes aspectos, a companhia vista em Marília era superior àquela que se apresentou em Assis. A estrutura de ambas era totalmente empresarial. Havia um rodízio de artistas entre as várias lonas do mesmo empresário, por todo o País.

A companhia que esteve em Marília tinha como palhaços os experientes Cremoso e Charlequito. Eles apresentaram reprises e entradas mais próximas do gestual, com poucas falas, o que denotava a sintonia dos artistas com o público, em decorrência, principalmente, das dimensões do circo. No espetáculo em Marília, pôde-se ver uma peculiaridade: antes do início, Cremoso, que até então era um vendedor de lembranças do circo, foi ao picadeiro (que estava com a jaula montada) e, diante de uma mesa e um espelho, terminou sua caracterização. O básico da maquiagem já estava pronto. Alguns retoques finalizaram a máscara da personagem. O acréscimo das roupas e da boina completaram essa sutil performance. Uma vez pronto, com um megafone, anunciou o espetáculo.

Além da performance inicial de Cremoso, os palhaços tiveram três participações no espetáculo. A primeira, com "O apito". Na segunda, os cômicos apresentaram uma versão muda de um número de malabarismo. Por fim, na segunda parte do espetáculo, eles encenaram "O atirador de facas", com participação da plateia.

 

Cremoso

Júlio César Medeiros, o Cremoso, nasceu em Maceió-AL. Em 1998, quando foi contatado, tinha 29 anos de idade, com dezoito de profissão. Atuou no Nordeste brasileiro, em circos pequenos e afirmou que a experiência é mais aconchegante, simples e "apimentada". O medo de altura fez que se dedicasse somente à arte do palhaço. Cremoso dominava a expressão gestual. A experiência em circos de vários portes, com espetáculos distintos, tinha propiciado o aprimoramento do gesto no grande picadeiro.

A vestimenta de Cremoso era composta por tonalidades suaves, predominando o amarelo, o vermelho e um tênue azul na camiseta. Uma calça não muito larga, com suspensórios, completava o figurino. A maquiagem cobria apenas a boca, com pequeno destaque em negro para as sobrancelhas. O nariz era preto.

 

Entrevista

Eu posso dizer que, em 92, eu tinha - eu trabalhava num circo pequeno - uma maquiagem superfeia, chamada de borboleta, porque cobre toda a face. Aí, eu fui aperfeiçoando, passei pra uma menor. Depois, eu cheguei até o Circo Garcia, aperfeiçoei mais a maquiagem e as roupas também. A gente vai tendo ideia, vai vendo fitas de circo lá fora e a gente vai tirando modelos e, assim, eu cheguei até aqui.

A maioria da minha vida foi em circo pequeno, sempre circo de 20 metros, redondo. Eu acho bem melhor que estar no circo grande, é uma coisa supergostosa. Você tá ali, superpertinho do público, cê pode brincar com o público. Aqui, você pode brincar, só que nem tanto, você tem um limite.

O circo fica todo claro e você nota, em todo público, a face, como é que ele tá reagindo, se tão rindo, se tão de cara fechada... Ontem mesmo, foi um dia maravilhoso: tinha uma senhora no camarote aqui, não parava de rir, não parava. Entre eu e o outro palhaço, Charlequito, uma festa. Pra gente, isso aí é uma alegria. É mais que um reconhecimento, um pagamento, é ver o sorriso do público.

O palhaço, digamos assim, é a alma do circo; quer dizer, a alma do circo é o público, só que, dentro do circo, a alma de um circo é o palhaço. Tudo sobra pro palhaço, não dá pra ir um número, estica, estica... o palhaço tá lá pra cobrir; faltou luz, põe os palhaços pra cobrir; ah! tá trocando de roupa, estica mais, o palhaço tá pra cobrir. Então, tudo se resume ao palhaço, e o palhaço não é reconhecido como deveria ser. Às vezes, eu me sinto chateado por isso. Mas não sou eu quem vou revolucionar isso aí; quem tem que ver são os empresários. Existem palhaços bons, existem ruins, eu sou o médio, nem bom e nem ruim.

A gente raramente ensaia. Mesmo que chegue palhaço novo, se diz: "Ah! eu levo tal coisa, assim, assim". Então, aquilo ali a gente dá só umas duas passadas; não é preciso ensaiar. Quando tem alguma coisa nova, uma reprise nova, então aí a gente ensaia um mês, dois meses, pra que saia perfeita, né!

Eu só queria agradecer por esta oportunidade, um trabalho superbonito que você tá fazendo com os circos e espero que continue fazendo isso por muito tempo, e deixar meu abraço pra todos. Espero que voltem e continuem, pra gente ser reconhecido e deixar alguma coisa pra mais tarde. Muito obrigado a todos vocês!

 

Charlequito

Manoel Naum Savala Monteiro, o Charlequito, nasceu no Chile. Atuava como palhaço desde 1952. Trabalhou em vários países da América Latina, em diferentes circos. Falava um português que trazia consigo as marcas de sua língua natal. Atuando no Brasil, viu-se impelido a explorar a mímica e a expressão corporal, o que, aliás, fazia com esmero. Quando participava de uma reprise e não era a personagem central da trama, em seu canto, com gestos sutis, chamava a atenção da plateia. A prática da profissão trouxe a necessária compreensão e o devido domínio do tempo do picadeiro.

Entrevista

 

Tenho, atualmente, 63 anos. Ainda continuo trabalhando com entusiasmo, especialmente quando chego em um circo pela primeira vez, como acabo de chegar a este circo. O bonito disto é que, chegando aqui, encontro com um colega brasileiro, meu parceiro, e nos damos muito bem, vamos desenrolando nossas palhaçadas, nossas aventuras cômicas e, afortunadamente, o público retribui com aplausos, especialmente as crianças.

Trabalhei no teatro; alguns filmes também, em meu país. Na Argentina, também. Então, eu utilizo dentro do meu palhaço, utilizo muito a expressão, a mímica.

Os palhaços, a maioria, é uma personalidade: cada palhaço tem sua personalidade. Eu elegi este tipo de personalidade que é um garoto, digamos assim, de mais ou menos 13, 14 anos, meio bobo e, digamos, essa é minha personalidade.

O palhaço tem que ter um pouco de psicologia, experiência de público para dar ao público o que o público necessita, o que quer.

A palavra bem brasileira não é muito domada. Então, por isso, utilizo muito a mímica porque a palavra me atrapalha muito falar.

Os gestos, no picadeiro, são mais exagerados do que no teatro. Tem que exagerar um pouco mais, porque o público está bastante distante de mim. No teatro, a figura está sempre de frente, aqui é no solo, para trás, para diante, para frente, enfim... Então, as expressões têm que ser mais ridículas, mais exageradas que no teatro.

O essencial é ter o circo lotado e que agrade. Colocar a alma pra fazer isso aí. Me desculpa, que deu a hora. Vai começar o show.

 

Nenê

Nenê participou três vezes do espetáculo. A primeira, em "O apito". Na segunda, com uma versão da entrada do "caçador", adaptando o roteiro para o personagem Indiana Jones. Por fim, ele levou a brincadeira do futebol, com intensa participação da plateia, momento em que o picadeiro era preparado para o trapézio voador.

Nenê tinha, na época, apenas 17 anos de idade e estava há pouco tempo na atividade cômica, embora tenha nascido em circo. Apesar da pouca experiência, o artista já demonstrava seu talento ao recriar roteiros, a partir de temas e imagens contemporâneas, a exemplo do Indiana Jones.

 

O nome de sua personagem era derivado do apelido de criança, dado pelo pai. A maquiagem foi inspirada em um outro palhaço, Xupetin, que também influenciou o modo performático do Nenê. Simples, ela apresentava uma mesclagem entre os tipos do clown Branco e o Augusto. Mantinha, do primeiro, a cobertura branca quase que total do rosto, com um longo traço negro que acentuava as sobrancelhas. O lábio superior era vermelho e o inferior, preto. Duas bolas vermelhas nas bochechas e o nariz preto achatado eram as principais evidências do Augusto.

Nenê reconhecia a importância do público para o momento do picadeiro. Havia, na atuação do artista, um chamar constante da plateia para participar com palmas e alaridos diversos, muitas vezes para denunciar a presença em cena de seu antagonista. Notava-se, também, a preocupação de adequar o figurino à natureza da reprise. Assim, três figurinos foram apresentados pelo artista. Em "O apito" ele entrou com uma camiseta verde e amarela, de listras largas, embaixo de um macacão branco, com pequenas estrelas amarelas, laranjas e vermelhas. No "Futebol", a cada momento ele apresentou o uniforme de um clube, do Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Santos e, finalmente, da Seleção Brasileira. No Indiana Jones, ele se apresentou com um chapéu de feltro, uma jaqueta verde-escuro, calças brancas e cinturão, devidamente provido de faca e revólver de tamanho descomunal. Este vestuário "a caráter" foi aos poucos se desfazendo, trazendo à tona o palhaço maltrapilho, o caçador desastrado, de trajes surrados e rasgados. Para cada performance, o artista procurava gestos e atitudes características. Seus recursos gestuais, apesar de quantitativamente diminutos, foram explorados com rigor.