Circos e palhaços brasileiros

Mario Fernando Bolognesi · Capítulo 27 de 40

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Circos e palhaços brasileiros

26 Garden Circo

 

O espetáculo

Primeira parte: Giro; Dublagem da Tiazinha; Motoca em "A coisa mais forte do mundo"; Contorção; Dublagem; Babalu em "Poroite"; Corda indiana; Dublagem.

 

Segunda parte: Comédia, "O casamento do palhaço Babalu".

O Garden Circo foi visitado na cidade de Bayeux-PB, em 29 de dezembro de 1999. O Garden era pequeno, com dois mastros e aproximadamente 18 metros x 22 metros, nas cores vermelha e azul. Um conjunto de arquibancada, dupla na parte central e simples nas laterais, compunham o principal acomodamento da plateia. Uma pequena cerca de madeira separava a arquibancada das poucas cadeiras. No picadeiro, uma pequena esteira indicava a parte central onde se desenrolou o espetáculo. Uma cortina nova, de lona plástica, na mesma cor da lona de cobertura, com grandes listras, completava o cenário da casa de espetáculo. As luzes internas eram precárias.

 

Motoca

Acompanhando a tônica do espetáculo, o palhaço Motoca não apresentou uma performance que pudesse segurar o ímpeto do público. Aliás, com participação ruidosa, às vezes ofensiva aos artistas, certos setores da plateia se sobressaíam ao espetáculo. O ruído intenso do público teve como resposta o uso do microfone, por parte dos cômicos, mesmo sendo um circo pequeno. Houve uma "competição" de ruídos, o que comprometeu bastante o espetáculo apresentado. Motoca não apresentou uma personagem característica. Fez do roteiro das entradas e de suas piadas a âncora necessária para o riso. Contudo, este aporte foi insuficiente, uma vez que a maioria deles e suas respectivas piadas são de conhecimento do público. Se o texto falado não vem acompanhado de uma performance convincente, não ocorre o efeito cômico. Motoca não conseguiu superar esse impasse.

Babalu

Babalu, por sua vez, apresentou um maior traquejo de picadeiro. Inicialmente alvoroçado, o público foi aos poucos sendo conquistado pelo palhaço. Sua performance foi bastante "apimentada", como ele mesmo afirmou, com alusões fálicas, tendo como suporte a gravata, o cabo de uma vassoura e até mesmo os dedos das mãos. A roupa vermelha e verde-escura não se destacava diante do predomínio vermelho/azul da cortina e da lona do circo.

Quando chegou o momento da comédia, o público estava um pouco mais contido, mas jamais quieto: a todo instante ocorriam intervenções variadas, às vezes dando motivo à improvisação, outras, querendo competir com os artistas. Babalu demonstrou dominar aquela prontidão necessária para manter a atenção do espectador.

 

O casamento do Babalu

Babalu, pai rigoroso e enérgico, tem uma filha. Um pretendente vai visitá-la. O pai faz tanto alarde antes de entrar em casa, que provoca pânico na filha e no namorado. Na primeira entrada, o moço se esconde sob a mesa e a filha diz ser o cachorro (improvisação em torno do cachorro). Na segunda, o moço transforma-se em santo, sendo coberto com a toalha da mesa. Novamente, improvisação em torno do santo, que se movia e provocava a desconfiança do pai. Depois, o namorado transforma-se em um rádio, coberto com o mesmo pano, cantando algumas canções e imitando a transmissão de um jogo de futebol. No quarto momento, o pretendente transforma-se em sombra do palhaço. Cena hilariante com uma refeição de farinha de mandioca. Finalmente, o moço acaba com todos os disfarces e revela suas intenções. O pai nega o casamento. Como Babalu é viúvo, o moço oferece-lhe a irmã em casamento: vão fazer um casamento coletivo. A irmã entra em cena, plenamente tipificada: velha, feia, debochada, desdentada, enfim, ridícula. A partir de então, a cena direciona-se ao convencimento para que Babalu se case com a irmã, composto de várias improvisações. Uma em particular chamou a atenção: Babalu interpreta um típico político populista, prometendo absurdos ao povo sofrido do lugar, como, por exemplo, acabar com o sol e com isso com o sofrimento do calor e da seca.

 

Ao final do espetáculo houve uma tentativa de conversa com Babalu. Seu nome: Marcos Miguel do Nascimento. Vinha da Bahia, juntamente com o circo. Homem fechado, de poucas palavras, completamente distante daquela espontaneidade apresentada no picadeiro. Não houve entrevista produtiva.

O primeiro espetáculo visto no Nordeste já expôs uma característica dos circos da região: geralmente as companhias são compostas de mais de um palhaço. Raríssimas vezes eles trabalham em conjunto. Como há uma preferência por entradas faladas, os palhaços apresentam-se com um mestre de pista. Além disso, os primeiros palhaços que se apresentam são, em geral, os mais fracos. O palhaço principal da companhia tem sua aparição na parte final do espetáculo.