Circos e palhaços brasileiros

Mario Fernando Bolognesi · Capítulo 18 de 40

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Circos e palhaços brasileiros

17 Circo Xangai

 

O espetáculo

Primeira parte: Arame alto; Equilíbrio; Tiririca em "O padre e as compras"; Facas, com participação do Tiririca; Cães; Tiririca em "Poroite"; Magia; Double trapézio.

Segunda parte: Jegue e búfalo, para montaria da plateia.

Terceira parte: Tourada.

O Circo Xangai, visitado em Quilombo-SC, em 28 de janeiro de 1999, era pequeno e com a lona bastante surrada, com vários remendos, de cores ao sabor dos retalhos disponíveis. A precariedade do circo se fazia presente desde a entrada. A placa anunciando o espetáculo, rudimentarmente escrita, continha palavras que oscilavam entre o português e o espanhol. Era uma casa de espetáculos que se dedicava às touradas, variando os animais a cada noite. Os animais eram emprestados de criadores da localidade, que tinham seus nomes veiculados durante o espetáculo. A precariedade material externa também tinha seu equivalente no interior do circo, que contava com poucas cadeiras plásticas e uma arquibancada. Os recursos de iluminação eram reduzidos.

 

Para a abertura do espetáculo, uma gravação dava as boas-vindas ao público, permeada de mensagens do tipo: "enquanto houver uma criança no mundo, o circo não morrerá". Uma pequena e surrada cortina trazia os seguintes dizeres: "Circo e cultura diga não as drogas", assim mesmo, sem acento no "e" e sem pontuação. O picadeiro não tinha a demarcação de tapetes. Os artistas trabalhavam sobre a serragem.

 

Tiririca

Tiririca vestia uma calça xadrez, não muito larga, com predomínio do vermelho. Um camisolão estampado, de cores que não apresentam contraste com a calça, completava o vestuário. Ele usava uma peruca, de meia feminina, com fios longos e brancos. Como bengala, ele carregava um pedaço de pau, tortuoso como um parafuso, também branco.

A performance do Tiririca não trazia muita improvisação. Na apresentação assistida, em sua primeira participação, Tiririca encenou "O padre e as compras", baseada exclusivamente em piadas. O riso advinha do jogo associativo entre palavras e situações aludidas. No caso em questão, a graça firmava-se a partir do jogo rápido, que induzia à seguinte situação: na correria, ao invés de levar aos fiéis, na missa, a Bíblia, Tiririca, um suposto ajudante do padre, carregava o livro de compras da paróquia, que passou a ler. Mecanicamente, sem se dar conta do ocorrido, o padre conduziu um "Ora pro nobis", induzindo os fiéis nas respostas conhecidas da reza.

A segunda participação do palhaço deu-se no número de adagas, explorando o temor de ser atingido. Depois, Tiririca retornou à cena com a reprise do "Poroite".

Quanto à exploração de fatos, coisas e costumes locais, Tiririca fez pouco uso desse recurso: na primeira participação, uma pequena referência à carne assada e vinho, um costume alimentar local; na participação do número de facas, ele associou o sangue ao chouriço, também comum no Sul.

Henrique Graziani, na época, um garoto de 11 anos, criou o Tiririca, do Xangai. Ele nasceu no circo e iniciou na arte do palhaço com 3 anos de idade. Impressionou o vigor e brilho dos olhos do artista, que falava do circo e da profissão com entusiasmo, sempre se apoiando no conhecimento e no constante relacionamento com o pai e o avô. Tudo foi herdado deles: nome, maquiagem, estilo da roupa, modo de interpretação etc.

O aprendizado mesclou-se com aquilo que captou com a família, mais a observação e imitação de outros palhaços. Tiririca tinha consciência de que seu papel no picadeiro era o de um animador. Assim, tentava imprimir este ritmo nas entradas e reprises, nas participações em outros números, como no caso das adagas ou mesmo da tourada. Mas, acima de tudo, encarava a profissão como um destino inevitável, associado à consciência de que deveria estudar "para ser alguém na vida".

 

Entrevista

Gosto muito de palhaço, tudo, na mais perfeita diversão.

Gosto mais da noite [referindo-se ao espetáculo noturno] é mais maior, mais tempo, mais variedade; gosto por causa das touradas também.

O que meu pai não ensina, eu procuro ver pra eu aprender mais.

[Sobre a maquiagem] É branco do lado, branco do outro, essa maior que essa, aí faz o queixo vermelho e a lágrima e o bigode.

Você vai na escola?

Vou, toda cidade.

Em que classe você está?

Quinta série. Passo agora.

Você gosta de escola?

Gosto. Não é tanto, tanto, mas passa. Estudo. Precisa, porque palhaço vai ser meu futuro e preciso saber ler e escrever. Gosto, não troco a profissão por nada.

[Sobre A bomba] Chegam dois palhaços lendo jornal, ou brincando. Se pega um no outro. Cai e um desmaia. Aí, vai lá coloca a bomba na boca. Bomba de encher, e enche ele. Daí vai saindo de novo. No que vai saindo, desmaia de novo. Ah 'tá furada, tem que tampar os buracos deles'. Tampa a orelha, tampa o nariz, tampa a boca. Enche de novo e sai andando: 'ah, tem mais um furo'. Aí ele pega o jornal, enrola o jornal - é uma banana. Aí ele vai atrás do palhaço, coloca a mão na mangueira, coloca a banana na boca e sai correndo.