Circos e palhaços brasileiros
3 Circo Real
Os espetáculos
Ariranha
Bochechinha em "O caçador e o piano"; Show musical, com paródias do palhaço Piquito; Drama, "O ébrio", com Piquito.
Embaúba
Monociclo; Adagas; Chicotes e laços; Show musical, com paródias do Piquito; Comédia, "O macumbeiro", com Piquito.
O Circo Real foi visitado em três oportunidades, nas cidades de Agulhas-SP, em 13 de fevereiro de 1998, Ariranha-SP, em 21 de março de 1998 e Embaúba-SP, em 3 de abril de 1998.
Na primeira vez, o Circo Real foi encontrado ao acaso, durante viagem até Pirangi-SP. A equipe de pesquisa parou, fez contato e esperou pela matinê, que acabou não acontecendo, por causa das fortes chuvas na cidade. Contudo, fez entrevista com o palhaço Bochechinha. Nas outras oportunidades, os espetáculos contaram também com a participação do palhaço Piquito.
O Circo Real era pequeno, com uma lona bastante surrada e com poucos recursos técnicos de som e luz. Ele tinha um espetáculo voltado para o circo-teatro, com variação diária de repertório, porém, com predomínio de comédias. Eram poucos os números circenses. Neste circo e neste tipo de espetáculo, o palhaço tem um papel de primeira grandeza e, antes de tudo, deve ser um exímio ator. Todos os momentos do espetáculo requerem uma performance convincente do palhaço. O público vai ao circo, exclusivamente, para vê-lo.
O Circo Real foi um bom exemplo da versatilidade dos pequenos circos e do papel de destaque de seus palhaços. Em Ariranha, o espetáculo foi totalmente montado em função deles. A primeira parte contou com Bochechinha, que se aproveitou do circo lotado e teve a oportunidade de demonstrar toda a sua capacidade para a improvisação. Depois, ocorreu um show musical, com músicos da própria companhia, destacando-se as paródias cantadas ao violão por Piquito. Em seguida, foi encenado o drama "O ébrio", que se transformou em uma hilariante comédia. Em Embaúba, o espetáculo, alguns números circenses, com artistas da própria família. Depois, o show musical e, na sequência, a comédia "O macumbeiro", com Piquito.
Bochechinha
Rodrigo Maciel Camargo, o Bochechinha, em 1998 tinha 19 anos de idade. Ele era da família proprietária do Circo Real e desde criança atuava no picadeiro como palhaço. Além de palhaço, Rodrigo era músico e participava do show do circo. Ele fez proveito de seu conhecimento musical em entradas com xilofones improvisados de garrafas. Apresentou-se, também, em número de monociclo.
Sua maquiagem era bastante despojada. O branco estava presente de forma sutil nas duas pálpebras (cortadas por um pequeno risco preto) e no bigode. Este último recebia um contorno preto, que tinha continuidade no lábio inferior, pintado de vermelho, porém sem que a pintura se estendesse para além do limite da boca. O nariz era vermelho. Uma pequena pincelada, também de vermelho, se fazia presente nas bochechas. Alguns pontos pretos realçavam o queixo.
Bochechinha se dedicava a todas as possibilidades artísticas da profissão. Tanto se voltava para reprises, em momentos de paródia de números tradicionais circenses, que frequentemente compõe o repertório das companhias, como para entradas, quando não necessariamente o enredo se volta para temas do próprio circo e que têm no elemento linguístico seu principal apoio, como para esquetes e peças teatrais, especialmente comédias.
A eficácia de uma entrada, por exemplo, é determinada pela estreita relação que o artista estabelece com o público. Quando há essa ligação, o artista pode perfeitamente propor, durante a representação, a junção de outras entradas. Bochechinha, baseando-se na improvisação e na empatia com a plateia, provocou a junção de duas entradas: "O caçador e o piano".
Bochechinha contou uma história de caçada. Listou vários bichos que caçou e comeu, até que chegou a vez do veado. Então, afirmava categoricamente que não comeu o veado. O parceiro duvidou. Dizia, entretanto, que nessa caçada aconteceu algo inusitado, que encontrou um bicho estranho, peludo, sem olhos, sem nariz, só boca e vermelho (e fazia gesto associando ao órgão genital feminino). O parceiro perguntou o que ele fez. Bochechinha disse que correu e quanto mais corria, o bicho estranho e peludo continuava atrás dele... Resolveu se esconder embaixo da saia de uma velha, o que, segundo ele, foi ainda pior, pois enfiou o nariz dentro da boca do bicho cabeludo da velha. O parceiro disse que ele era mentiroso e o chamou para brigar.
Nesse momento, entrou o Mestre de Pista e tentou apaziguar os ânimos, sem muito sucesso. O Mestre fixou, imaginariamente, um território circular e o palhaço, fazendo gracinhas sobre o tamanho do buraco do parceiro, queria brigar. O Mestre de Pista despediu o parceiro. Bochechinha se intrometeu e perguntou se o Mestre mandou seu parceiro embora. A resposta foi afirmativa e o palhaço agradeceu. Sentindo-se objeto de gozação, o Mestre de Pista se desentendeu com o palhaço. Em solidariedade ao parceiro, Bochechinha resolveu ir embora também. Imediatamente, o Mestre aceitou e despediu os dois. Os dois, despedidos, reclamaram por suas coisas e o único objeto que lhes pertencia - e que lhes foi entregue - era um lençol.
O palhaço e seu parceiro resolveram ter alguma ideia para ganhar dinheiro. Bochechinha queria vender sorvete, mas o parceiro queria uma banda. Os dois resolveram trabalhar como músicos. O parceiro convenceu o Mestre de Pista: eles eram bons músicos e Bochechinha era um grande pianista. O palhaço, não entendendo nada do que se passava, apenas confirmou. Ambos estavam contratados novamente. O Mestre pediu para buscarem um piano. Depois de muitas desculpas, eles disseram que tinham seu próprio piano e que iriam buscá-lo. O Mestre de Pista saiu e eles começaram a se desesperar, porque não existia piano, muito menos pianista... O palhaço entrou em pânico. Contudo, acharam uma solução: o palhaço seria o piano, coberto com o lençol, e o parceiro, o pianista. Combinaram o engodo: quando o parceiro tossisse, o palhaço, coberto pelo lençol, começava a tocar; quando ele batesse o pé no chão, o palhaço pararia. Eles fizeram um ensaio e o palhaço fez tudo errado. Resolveram, então, inverter os papéis, porém mantendo a combinação para iniciar e terminar a música. Bochechinha chamou o Mestre de Pista e mostrou-lhe o piano. O Mestre pediu duas músicas. Obedecendo ao combinado, o parceiro, agora na função de piano, tocou com um apito de sorveteiro, enquanto o palhaço fazia das suas: tocou com o pé, com as nádegas, sem as mãos etc. Batia o pé e o outro, embaixo do lençol, parava de tocar. De repente, o Mestre tossiu, por causa das batidas do grande sapato do palhaço, que estavam levantando poeira. O piano começava a tocar sozinho e o palhaço corria ao piano para cumprir o seu papel. Isso se repetiu por duas vezes, até que o Mestre de Pista descobriu a malandragem. Os dois saíram de cena apanhando.
Entrevista
Hoje em dia, pra ser um circo grande tem que ter muita potência, muito dinheiro. E o circo pequeno não, você tem o palco, tem as luzes... A maioria dos circos pequenos que tinha teatro tá acabando, uns pararam, outros foram pra circo grande. Por causa disso, agora a gente optou por isso, porque a gente gosta, a gente nunca trabalhou em circo grande, sempre foi isso e a gente acostumou com o teatro. Então, a gente leva o teatro.
O palhaço gosta de trabalhar com o circo cheio, né! igual um jogador de futebol, gosta dos estádio lotado, né! agrada mais, lógico, né! Agrada mais e outra: muitos palhaços não brincam com a plateia e a gente aqui de circo pequeno, o palhaço trabalha mais com o público, ele chama um pra dançar, brinca com o outro da bancada... Então, o palhaço de circo pequeno é essa relação, ele faz do público o personagem também, ele chama, trabalha com o povão da cidade.
"Ei, cê é palhaço, rapaz?" E a gente ser de circo também é isso! A gente vai jogar bola aqui, a gente vai no campo: "É palhacinho de circo, né!" Deixa ele pra lá! Tem uns que é assim, mas a maioria não, a maioria vem, pergunta: "Oi, como que é o circo? Como que é isso, tal...", e o palhaço sempre é a atração do circo, pelo menos circo pequeno! Eu gosto de ser palhaço. Mas tem as horas boas e as horas ruins... mas é gostoso sim. A gente tá triste, alguma coisa que aconteceu, a gente tem que entrar do mesmo jeito, e trabalhar, e fazer o povo rir do mesmo jeito, não pode entrar e ficar morto lá. É isso aí, é só alegria...
Piquito
Osmar dos Santos, o Piquito, nasceu em 1934. Estreou no circo-teatro com 5 anos de idade. Até os 15, trabalhou também como trapezista. Quando seu pai resolveu montar seu circo próprio e precisando de um palhaço, resolveu dar oportunidade ao filho e provocar o nascimento do palhaço Piquito, nome que se originou do apelido que o menino tinha desde criança. Além de palhaço, Osmar dos Santos também é autor de dramas e comédias.
Piquito era bastante hábil na mímica, nas expressões vocal, facial e corporal. Atuava em entradas, reprises, como humorista, cantava paródias, contava piadas, mas não escondia sua predileção pelos papéis cômicos das comédias e dramas.
Ele foi visitado no Circo Real em duas oportunidades, nas cidades de Ariranha, quando encenou "O ébrio", e Embaúba, com a comédia "O macumbeiro". Em ambas as cidades ele participou do show musical, tocando violão e interpretando paródias. Piquito foi descrito e analisado minuciosamente no Capítulo 5, O Corpo faz a diferença, do livro Palhaços (São Paulo: Editora Unesp, 2003, p.103-162).
Entrevista
Eu me dediquei mais ao circo-teatro. Existiam três classes de circo: o circo de primeira classe, a gente falava circo de tiro. Circo de tiro, por quê? Porque chegava o circo com bicho, com toda aquela coisa, propaganda e tal, e dava o tiro! Pegava a estreia, no segundo espetáculo era o mesmo (como até hoje). O povo ia por que pensava que ia assistir outra coisa. Então, dava aqueles três espetáculos, ou quatro, e se a praça não é muito boa, ia embora senão...
A outra, era o circo de teatro. Ele tinha também a variedade no picadeiro. Era o circo de segunda parte, que a gente falava. Por que segunda parte? Segunda parte era o teatro. Primeira parte era o picadeiro, segunda parte era o teatro. Naquele tempo não tinha show. E, depois, passou a ser três partes: picadeiro, o show e, depois, a peça.
A terceira era o mambembe. Não tinha palco: ele apresentava os dramas no picadeiro. As pecinhas que passava eram no picadeiro, comédia, essa coisa e tal. Não tinha ponto. Eles levavam tudo decorado.
Eu trabalhei mesmo, mesmo, na segunda. Trabalhei também nessa primeira e no mambembe... pequeno, meu pai, minha mãe... Depois, a gente passou pra outra, porque naquele tempo tinha muito artista e pouco circo. Então, pra gente conseguir um emprego num circo de segunda, era difícil, porque tinha muito artista, e artistas bons, de segunda parte, dos dramas, artistas de dramas, com o guarda-roupa deles mesmo, assim, guarda-roupa normal, não o guarda-roupa de... vamos dizer, assim, uma peça Luís XV, como a Tosca, como os Irmãos Corsos.
É muito difícil, o palhaço no circo. Por quê? Geralmente o sujeito que vai fazer o palhaço... a primeira vez que ele vai fazer ele lembra de um outro palhaço que fez aquilo, uma certa parte cômica que faz lá, entrada cômica - que a gente fala - então, ele faz uma que ele lembra, a primeira noite. A segunda noite ele lembra de outra, e faz aquilo que ele viu fazer. A terceira noite ele lembra de outra e faz aquilo ali. A quarta noite ele já lembra de alguma bem ruinzinha. Geralmente, então, na quarta ou quinta noite, ele já toma vaia: "palhaço ruim". Eu prefiro mil vezes uma plateia de teatro do que uma plateia de circo, porque o circo não perdoa.
A boca contornada maior, ela dá mais condição de você fazer uma careta e ela obedecer. Conforme mexe com a boca ela abre, ela fecha, ela vai... essa foi uma das coisas que eu descobri fazendo palhaço.
A música fez sucesso eu faço a paródia dela. Tenho facilidade pra isso. Mesmo sem estar no circo eu faço elas.
Eu adoro duplo sentido. Justamente por isso eu gosto da plateia do teatro: plateia fina, é bom trabalhar. Mas, tudo bem... eu consegui um nível que atinge os dois, atinge a alta e atinge a média e atinge a baixa também! Inclusive até criança também entende...
Não, eu acho que isso é um recurso muito baixo. Inclusive na comédia de ontem, no fim da comédia, aquele que faz aquela bichinha, ele fazendo gesto feio, eu falei pra ele: "Não faz mais aquilo ali não, aquilo ali não tem graça, pejorativo, não fica bom aquilo ali... não precisa disso".
Ele falou pra mim: "Escuta Piquito, me conta qual é o segredo da arte de fazer rir, qual é o segredo do domínio da plateia?". Eu falei pra ele: "Olha professor, você tá me perguntando pra te ensinar uma coisa, em 5 minutos, que eu levei 40 anos pra aprender!" É a própria convivência com a plateia, e com as piadas que dão esse motivo pra gente, que dão essa condição... isso vai tempo, pra ele ter essa certeza de parar e esperar o povo, na pura mímica, o gesto facial.