Circos e palhaços brasileiros
4 Circo Brother's
O espetáculo
Primeira parte: Trapézio em Balanço, Fogo; Chupetinha e Pintinho em "O ladrão"; Quadrante; Chupetinha e Pintinho em "O banco pegou fogo"; Chicote; Magia.
Segunda parte: Comédia "À sombra do papai"; Globo da Morte.
O Circo Brother's foi visitado em 12 de dezembro de 1997, na cidade de Uchôa-SP. A lona era de estrutura média, em torno de 30 metros x 40 metros. Em seu interior, o espaço de cena era composto por um palco de aproximadamente 8 metros de boca, por 6 metros de profundidade. Uma cortina vermelha, com estrelas brancas, servia de divisor entre os bastidores e a cena. O público acomodava-se em arquibancadas e algumas poucas cadeiras, separadas por uma pequena cerca. Do lado esquerdo do palco, ao final das arquibancadas, a companhia tinha instalado um Globo da Morte. A companhia não possuía recursos avançados de luz e som.
O espetáculo era voltado para a encenação de comédias, em sua segunda parte. Na primeira, houve alguns números circenses, momento em que os artistas demonstraram suas perícias e habilidades. Eles tinham um razoável domínio técnico dos seus aparelhos. Contudo, notava-se um descompasso entre a agilidade técnico-corporal, as coreografias e seus respectivos figurinos.
Os palhaços Chupetinha e Pintinho apresentaram duas entradas, "O banco pegou fogo" e "O ladrão". Chupetinha participou da comédia "À sombra do papai".
Pintinho
Pintinho era William Ayres, irmão de Sérgio. Ele tinha 17 anos de idade, em 1997, e assumiu a função de palhaço em 1995. Era parceiro do irmão, na primeira parte do espetáculo, como escada ou "crom".
No espetáculo visto em Uchôa, Pintinho (na foto ao lado) participou da comédia "À sombra do papai". O cenário era dos mais simples: Uma mesa, coberta por uma toalha, e duas cadeiras.
Sua roupa era composta de uma camisa vermelha, adornada de muitas margaridas e uma grande gola branca. A calça, igualmente colorida, era suportada por suspensórios e alcançava o meio da canela.
A maquiagem reforçava, de branco, um bigode, contornado de preto. William salientava a parte debaixo da boca com um detalhe branco, também contornado de preto. Três pintas negras realçavam as bochechas. Tal como o irmão, as pálpebras eram cobertas com tinta branca e o nariz era igualmente vermelho, porém o adorno era feito com maquiagem.
Chupetinha
Chupetinha foi interpretado por Sérgio Ayres, que contava com 24 anos de idade na época. Ele nasceu e sempre trabalhou em circo. Aos 4 anos ele começou a se apresentar como palhaço no Circo Brother's, de sua família. Além de palhaço, trabalhou também no Globo da Morte e em número de Trapézio em Balanço.
Sua vestimenta era bastante colorida, composta de uma grande camisola listrada que cobria as calças mais justas. Uma grande gravata, com detalhes do Mickey Mouse, e um boné coberto de lantejoulas completavam o figurino.
A maquiagem reforçava e ampliava a boca, na cor branca, com contornos pretos. Dois traços pretos verticais ligavam a parte superior da boca ao nariz vermelho e artificial. Os cantos da boca eram realçados com traços pretos, ligeiramente curvados. A parte inferior da boca recebia o adorno de outros dois traços vermelhos, um horizontal e outro vertical. As pálpebras apresentavam pequenas marcas brancas.
Entrevista
Pintinho: Cada palhaço tem seu estilo, né? O dele é redondo, põe nariz... porque não pode ter dois tipos de maquiagens iguais, porque cada palhaço é um estilo. O palhaço se pinta diferente, a roupa é diferente, a voz é diferente, o jeito de falar muda.
Chupetinha: Meu pai fazia assim. Eu aprendi desta forma e gostei. Tem outro tipo também, que o meu tio Pimentão, bom palhaço, fazia. Ele pegava óxido de zinco, vaselina, misturava e fazia o branco. Pegava o xadrez misturava com vaselina e fazia o preto. E esse tipo demora mais pra sair da pele. Porque do jeito que eu fico é só tirar meu bonezinho, passar um pano e pronto. É mais fácil a minâncora.
O palhaço tem que conversar com o público, animar o povo. Cada cidade é um povo diferente, tem um povo mais quieto, que é o povo mais difícil do palhaço agradar, e tem o povo mais alegre. Até em Marília mesmo - a gente percebe, porque tá desde pequeno trabalhando - lá na Vila Jardim Califórnia, o pessoal é mais alegre... qualquer coisa que o palhaço falava eles riam. Depois, mudamos para Nova Marília, o povo era mais quieto. Quando é a juventude, eles riem bastante. Quando fomos no Palmital [bairro de Marília-SP] era muita juventude, eles riam bastante. E o palhaço ali no picadeiro tem que fazer o povo rir sem ficar nervoso, tem que se soltar, tem que ser natural. O palhaço, por incrível que pareça, não pode fazer uma gracinha a mais, não adianta ficar uma coisa enjoativa. A pior profissão que tem no circo é o palhaço, não é qualquer um que faz. Você coloca um cara no globo e daqui a dois meses ele faz de bicicleta, e mais dois meses ele tá fazendo de moto. Agora, se coloca um cara pra fazer palhaço não adianta, é um dom que nasce com a pessoa, entendeu? Não é qualquer um. Assim, na atualidade, o melhor palhaço brasileiro não tá aqui, tá na Bahia, é o Xupetin, ele tá trabalhando com o Circo Popular Brasileiro... até me arrepia em falar nele: aquele cara é fantástico, é argentino. O cara é fantástico. Eu, que sou palhaço, rio dele. Um palhaço não ri do outro - é muito difícil. Mas eu sou palhaço e rio dele, mais pelo que ele faz, a mímica dele é diferente. Quando estou com uma dor de cabeça, se entra no picadeiro parece que passa a dor, se transforma ali dentro, é outra pessoa, você esquece de tudo. Lá tem que ser alegre, conversar, fazer dar risada. Você pode estar triste, ruim pra caramba... Tem que entrar e brincar com o povo, ser um palhaço.
Já faço isso há muito tempo, e não é automático. Entro no palco já é outra pessoa. Quando veio uma professora, ela tava aqui no fundo do circo, e o palhaço brincando. Quando deu uma explosão ele saiu, ela falou: "Eu percebi como mudou a expressão da pessoa. O palhaço estava brincando. Quando veio pra cá ele mudou". É uma química: quando você sobe no picadeiro os problemas somem.
O palhaço é uma profissão bonita, só que tem uma coisa. O circo tá acabando. A minha maior tristeza é ver que o circo tá acabando. O circo não tem apoio do governo. Não é só o circo, no Brasil, a cultura não tem apoio. O povo não quer mais saber de teatro. Isso me arrepia, eu falo e me arrepio. O povo não quer mais saber de teatro de circo? A juventude, a cabeça deles não evoluiu com o tempo. Vinte por cento da juventude só pensa em droga. O que passa na televisão é violência, filme de violência, um dando tiro no outro. O circo é o palhaço, um negócio bonito, isso tá acabando, isso é minha maior tristeza. A gente vê em outros países, nos Estados Unidos, na Europa, eles têm apoio. Lá na Rússia, lá o circo Moscou eles dão o maior apoio para os artistas. Lá ganha do governo um salário todo mês, e eu não trabalho por dinheiro, trabalho por amor, que minha família tem mais de 120 anos de tradição de circo. Agora, você imagina, a gente não é bem de vida, a gente está trabalhando aqui, suando, a gente ama isso aqui desde criança, trabalhando. Agora se a gente tivesse uma condição financeira melhor, a gente poderia aumentar isso, podia comprar mais coisas. Um circo maior, contratar mais artistas para trabalhar. E cada vez que passa, o circo está pior. Meu pai já parou três vezes o circo. Ele fica uns cinco meses parado e não aguenta, já começa a dor, agonia, saudade do circo. A gente tá acostumado e é nômade. Meus parentes estão parando todos. O Rogério já parou. O Nei tá querendo parar, não tá mais aguentando. É o que eu falei, não é o problema do dinheiro, é que não tem apoio.