Circos e palhaços brasileiros

Mario Fernando Bolognesi · Capítulo 23 de 40

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Circos e palhaços brasileiros

22 Teatro Bebé

 

O circo do Teatro Bebé era de lona nova, de sistema tensionado, tipo castelo, e quadrada (21metros x 21metros). A plateia era composta apenas de cadeiras, e o chão era recoberto por um tablado. O palco era frontal e tinha uma cortina arredondada e dourada. A companhia dedicava-se exclusivamente ao circo-teatro, com predomínio das comédias. Foram vistos dois espetáculos do Bebé, em Restinga Seca-RS. No primeiro dia, a companhia apresentou a comédia "Bebé e o soldado recruta". No segundo, 8 de fevereiro de 1999, foi apresentado um melodrama, "O padre e o assassino", seguido de um esquete, "Bebé, o empregado do barulho", o mesmo visto no Teatro do Serelepe. Tanto a comédia como o drama e o esquete estão detalhados e analisados no Capítulo 6, "O palhaço e o grotesco", no livro Palhaços, São Paulo: Ed. Unesp, 2003, p.163-84.

Entrevista

José Ricardo de Almeida, o Bebé, nasceu em Ponta Grossa-PR, em 1955. Trabalha como palhaço desde os 15 anos. Levando um estilo apimentado, Bebé consegue dosar as brincadeiras com o público. Considera importante a maquiagem adequar-se ao rosto do artista. Segundo ele, sua personagem representa suas frustrações. Bebé, embora esteja satisfeito com sua profissão, reclama muito das condições hostis dos circos pequenos.

Bebé

O público gaúcho, se não tem o palhaço, para eles, não tem graça, tem que estar com a cara pintada. Eu não achava que dava pra isso, mas a sobrevivência, aquele negócio de ter que sobreviver já com filhos, porque eu casei com 15 anos. Eu trabalho com a mulher e os filhos.

Tínhamos pavilhão até 1987. Aí eu vi o circo e pensei comigo: "puxa vida, eu com um cirquinho desses trabalhando, só eu e minha família, o que desse na bilheteria, pipoca, maçã, ficaria tudo para a família, poderíamos sobreviver até tranquilamente!" Fizemos um nome e estamos sobrevivendo deste nome até hoje. Mas apoio mesmo, só o público.

Eu acho que o governo deveria dar mais incentivo pra gente. A gente é muito marginalizado. Eles não sabem o bem que a gente traz pra cidade. Às vezes, eu chego na cidade, pergunto pro vizinho se pode ceder uma água. Água, meu Deus do céu!! Vai na Corsan, aqui no Rio Grande do Sul, e os caras não querem ligar. A gente fica sem água.

Eu casei muito cedo. Meus irmãos, parentes, disseram que eu ia ser o corno mais novo da família. Quer dizer, com 15 anos eu já ia ser corno. Touro eu não podia ser. Eu tinha que ser uma coisa pequena, um cabrito. Quando eu entrei com a minha esposa na igreja, na hora da marcha nupcial, eles faziam assim: Bé Bé Bébébé (no ritmo da música). Eu ficava bravo, xingava, mandava eles pr'aquele lugar. E ficou, porque todo apelido que a gente não gosta, fica.

Eu posso não ter a roupa toda, mas o meu chapéu eu tenho que ter. Cada um tem uma loucura. Tem que ter o meu chapeuzinho vermelho. Eu sou do estilo que palhaço tem que ser "chinelão". A roupa bem limpinha, mas não pode ser muito afrescalhada.

Fui mudando a maquiagem. Eu tenho um primo, em Garopaba, que foi um grande cômico, Tareco. Aposentado, agora. Quando eu decidi ser palhaço, eu me baseei nele. Até fico com tristeza, ele tá com 68 e não tem nada, uma gaita só. Às vezes, eu encontro ele na frente do espelho sentado, chorando. Minha pintura é praticamente baseada na dele. Essa pintura se assimilou muito com o meu rosto. Meus olhos realçam muito, dá um brilho incrível. O palhaço é uma coisa alegre, sorridente. A própria pintura, a boca pra cima, é sinal de alegria.

Como que você define o perfil do Bebé? Ele é malicioso, carente, espontâneo. Ele é alegre, sobretudo muito alegre. Quando a pessoa casa muito cedo é privado de muitas coisas. Então, eu acho que no Bebé eu ponho tudo pra fora. O personagem supre minhas deficiências. Às vezes falo coisas que na minha vida atual eu não falo. Quando eu tô revoltado com alguma coisa, eu aproveito o Bebé pra falar. Ele é minha válvula de escape.

Tu fala uma coisa, plateia dá risada. De repente, surge uma outra coisa, plateia dá risada. Aí, você volta no texto, e assim você vai explorando. A hora que dá aquela parada, tu entra no texto de novo. Na hora que surge uma nova gafe, você aproveita pra fazer. Eu privilegio os chavões.

Eu fiz uma apresentação em circo de picadeiro. Pra mim foi chocante. Picadeiro é muito diferente, é mais mímica, elasticidade. Mas eu não servia pra isso. Eu, se um dia tivesse um circo grande, eu faria um palco em cima de rodas. Tem que dar valor ao palhaço. Se me dissessem, "você vai ter que fazer o picadeiro", eu acho que mandaria fazer um palco.

A alta comédia tem um centro só: um velho caçador, o velho cômico, uma caricata. Uma alta comédia não pode ter palhaço. A comédia com palhaço tem o script. A chanchada tem o palhaço, mas não tem o script.