Circos e palhaços brasileiros
1 Circo di Roma
O Circo di Roma foi visitado duas vezes. Na primeira, em agosto de 1997, na cidade de Marília-SP; a segunda, em Palmeira das Missões-RS, em 30 de janeiro de 1999.
O circo era grande, com boa estrutura física e muitos recursos sonoros e de iluminação. O primeiro espetáculo assistido foi de grande diversidade, com artistas que demonstraram perícia técnica, porém carentes de melhor acabamento nos números, tais como uma coreografia melhor trabalhada, um figurino de realce e melhor integração entre movimento e música.
Na segunda vez, no Sul do país, o encontro foi casual. Em Quilombo-SC, foi encontrado o Circo Xangai. Os contatos com as prefeituras da região indicavam que a viagem deveria prosseguir para a cidade de Coronel Martins, em busca do Circo Teatro Brasil e, depois, para Palmeira das Missões, ao encontro do Biriba. Nada ocorreu como planejado.
O caminho de Quilombo para Coronel Martins não era asfaltado, com aproximadamente 40 quilômetros de região serrana. O tempo estava chuvoso. O itinerário foi alterado e a viagem tomou o rumo de Palmeira das Missões, no Rio Grande do Sul, um percurso de 210 quilômetros. Pelas informações obtidas na prefeitura local, Biriba estaria em Palmeira das Missões. Porém, ali chegando, foi encontrado o Circo di Roma.
O Circo di Roma foi, então, visitado pela segunda vez. O contato com o Roma também elucidou o paradeiro do Biriba: estava em Redentora, uma pequena cidade a 40 quilômetros de Palmeira das Missões.
Primeiro espetáculo: Marília (SP)
Primeira parte: Pêndulo; Clowns musicais; Pombas amestradas; Acrobacia com facas e bolas; Chevrolé e Parafuso em "Os atiradores de facas"; Bicicleta; Equilibrismo de bolas; Urso amestrado; Chevrolé e Parafuso em "O salto mortal na escada com a lata na mão"; Malabares.
Segunda parte: Trapézio Voador, com a participação do palhaço Chevrolé; Chevrolé e Parafuso em "A magia com patos"; Rola-rola; Corda indiana; Volteio; Pôneis amestrados; Elefante; Globo da Morte; Apoteose.
Segundo espetáculo: Palmeira das Missões (RS)
Primeira parte: Trapézio Voador, com a participação do palhaço Chevrolé; Chevrolé e Parafuso em "O salto mortal na escada com a lata na mão"; Laços e chicotes; Chevrolé e Parafuso em "O namoro dos palhaços"; Bambolê; Malabares.
Segunda parte: Double trapézio; Cavalo amestrado; Chevrolé e Parafuso em "A magia com patos"; Pôneis amestrados; Trapézio em Balanço; Corda indiana; Elefantes.
Chevrolé
Os palhaços eram os mesmos nos dois espetáculos: Chevrolé e Parafuso. Chevrolé participou do trapézio. A trupe de voos era composta de três elementos apenas, o aparador, um volante e o palhaço. Na primeira iniciativa, Chevrolé preparou uma passagem para as mãos do aparador, o que não acontece. Na segunda vez, ele vacilou e o aparador arrancou-lhe as calças. Envergonhado, ele caiu na rede de proteção, procurando esconder suas "partes íntimas".
No picadeiro, os palhaços levaram as seguintes reprises: "O salto mortal na escada com a lata na mão", "Namoro dos palhaços" e "A magia com patos". A primeira e a última foram apresentadas em ambas as cidades. Coincidência? Repertório escasso? Ambas as alternativas. O repertório de entradas e reprises levado à cena, ao qual se pôde assistir, fotografar e registrar, não é, de fato, muito variado. No geral, as reprises resumem-se a roteiros e situações cômicas, quase sempre envolvendo números e personagens do próprio espetáculo circense. Exemplo: "O salto mortal" é uma paródia de uma evolução clássica no espetáculo circense: a maioria dos números envolvendo acrobacia, de um modo ou de outro, tem em seu repertório o salto mortal. A paródia recai unicamente sobre o palhaço e sua incapacidade de realizar uma proeza acrobática. O cômico, nesse caso, não remete ao exterior: ele se volta sobre si mesmo, ou melhor, tem como centro a performance do palhaço. De resto, o sucesso de uma entrada ou reprise depende diretamente da qualidade da interpretação. A seguir, Chevrolé em "A magia com patos" e "Namoro dos palhaços", encenadas em Palmeira das Missões-RS.
Os palhaços Chevrolé e Parafuso, com roupas bastante folgadas e coloridas, apresentaram-se nos intervalos de preparação da pista para novos números. Por exemplo, na primeira parte do espetáculo visto em Marília-SP, na reprise "Os atiradores de facas", enquanto eles se apresentavam a pista era preparada para o número de bicicletas, que necessitava de um grande tablado de madeira para a evolução do artista. Na segunda parte, enquanto se desmontava a rede do trapézio voador, Chevrolé e Parafuso, com a participação do apresentador, encenavam "A magia com patos". Apenas com "O salto mortal na escada com a lata na mão", os palhaços não se sobrepuseram à movimentação dos preparadores de pista e aparelhos.
A outra entrada apresentada por Chevrolé e Parafuso, em Palmeira das Missões-RS, "O namoro dos palhaços", uma adaptação de "O namoro dos pássaros", ficou muito conhecida na interpretação de Piolim. Dois palhaços fantasiados de pássaros, com um pequeno instrumento na boca, simulam uma cena de conquista amorosa em que o macho, insistentemente, tenta conquistar a fêmea. Sem uma única palavra, ela é permeada de gestos com referências ao ato sexual ou mesmo aos órgãos genitais. Chevrolé e Parafuso adaptaram a situação para os próprios palhaços. Parafuso estava travestido de mulher, com saiote e sutiã.
A movimentação cênica e a expressão corporal vêm a ser as características básicas desse tipo de entrada. A precisão gestual se faz necessária e, na apresentação de Chevrolé e Parafuso, não houve recorrência a uma ação interiorizada, de ordem psicológica. Ao contrário, a ação física era propositalmente trabalhada em sua forma grandiosa, dando realce e graça à interpretação. Os gestos eram preparados aos poucos, em um crescendo, até culminar em um instante de congelamento, espécie de síntese do enredo, ou de parte dele ao menos.
As fotos de Kiko Roselli exemplificam a interpretação exteriorizada, que sintetiza boa parte do trabalho dos palhaços brasileiros.
Entrevista
Chevrolé é criação de Sidney Kikuchi. O nome da personagem advém de sua paixão por carros. Quando entrevistado, em 1997, ele tinha 40 anos de idade e dezoito como palhaço. Nasceu em Sertanópolis-PR, no Circo Windsor, onde sua mãe trabalhava. Atuou em circos grandes, médios e pequenos, no Brasil e no exterior.
Eu fazia trapézio - ainda continuo fazendo. Antigamente, eu fazia vários números. Como a minha família já vem de tradição, então você aprende muito, de tudo o que tem dentro de um circo. Fiz um número de cesto do abismo, fiz o pêndulo, número de equilíbrio de cinco rolos, já fiz perna-de-pau... Você tem que ser como um curinga dentro do circo.
Eu nunca tinha pensado em ser palhaço, foi uma casualidade. Nós íamos estrear em Belo Horizonte, no circo de um tio meu, que chama hoje Circo Italiano. No dia da estreia, tinha dois anõezinhos no circo (os dois palhaços eram dois anões) e um deles discutiu com meu tio. Meu tio mandou ele embora, e ia pintar o rosto pra trabalhar de palhaço. Nós éramos quatro primos no circo. Meu tio fez uma aposta: qual de nós quatro queria trabalhar de palhaço à noite, entendeu?!... Com ele e com o anão. E meu tio ainda falou: "Qualquer um dos quatro que fizer isso eu vou pagar a semana todinha e vou levar no melhor clube e deixar vocês dançarem e eu pago toda a despesa". E, como éramos muito bagunceiros, todos nós aceitamos a proposta. Aí, eu me pintei à noite pra trabalhar e os outros meus primos de vergonha não pintaram. Eu pintei e fiquei esperando meu tio chegar. Quando meu tio chegou, ele falou: "Eu vou fazer isso, isso..." Como a gente já conhecia todas as entradas de circo, desde pequeno, a gente já sabia mais ou menos o que tinha que fazer lá dentro. Quer dizer, a gente não ia fazer vexame. O vexame meu maior foi quando eu perdi a voz. A minha vergonha foi tão grande no impacto, que eu perdi a voz, mas mesmo tendo perdido a voz eu trabalhei mais com a fisionomia, com caricaturas, com gestos, com a mímica do corpo. Então, foi onde eu me saí bem, foi onde meu tio gostou, meus parentes todos que tinham assistido gostaram e eles acharam que no lugar de eu fazer os números, que eu tinha que optar por palhaço, que eu tinha todo o dom pra aquilo, mesmo sem falar.
Meu personagem... eu vou explicar pra você. Eu, na época que eu comecei a trabalhar de palhaço, eu tinha vergonha. Eu era um moleque novo e, sabe como é, toda a vaidade de moleque novo... Você não quer aparecer pra moça com a caricatura de palhaço que a pessoa vai te reconhecer na rua, dentro de um clube, de um bar... tinha vergonha disso. Então, procurei fazer uma caricatura (pintura) no meu rosto, grande, para que ninguém me reconhecesse. Tirei um pouco de um palhaço antigo, de outro... Então, fiz a minha maquiagem grande no rosto e usava peruca, só que atualmente eu não uso mais peruca porque acabou a vergonha... Hoje em dia, já não requer mais o estilo, por causa do trapézio, então não dá mais pra usar peruca. E as roupas minhas, eu bolei um estilo que me deixasse menor no picadeiro, quer dizer, eu tenho uma estatura de quase 1,75 m, então bolei um estilo de roupa que, no palco, dá a impressão que eu sou um pouco mais baixo. Sempre um pouco mais justa pra dar a impressão que eu sou menor.
Eu tento transmitir para o público alegria, nunca tristeza, entendeu?! Porque o palhaço quando é triste, transmite tristeza e se você é um palhaço alegre, logicamente você vai transmitir alegria. O palhaço, sempre que leva um tapa, tem que cair, rir, levantar e rir outra vez. Não existe palhaço que tem lágrima, fisionomia de choro, expressão de tristeza. Eu acho que isso não atrai, o que atrai é a imagem do palhaço fazer sorrir, nunca tristeza.
Quando eu entro pra trabalhar eu olho todo o público. Porque tem público que você usa coisas picantes, piadas picantes, gestos picantes. Outros, não gostam, já acham vulgar. Então, você tem que trabalhar nos dois termos: você tem que trabalhar no termo limpo, como a gente diz, e no termo sujo, porque existe um nível de público pra tudo, entendeu? O público de elite já não gosta de gesto pornográfico, agora o público de vilas já gosta. Você sabe que é o circo o único que junta toda a sociedade, classe baixa, média, alta... é a única diversão que junta todos ao mesmo tempo.
O melhor improviso é aquele que você tira de última hora, sabia?
O palhaço, atualmente, é difícil se criar: se copia, mas cada um copia num estilo diferente um do outro. Eu procurei copiar todas as cenas minhas de coisas antigas, de coisas de palhaços antigos, eu procurei copiar para mim no meu estilo de trabalho, que combinasse com meu jeito de ser também no picadeiro, porque tem muitas cenas de palhaço que eu tenho guardado, mas não faço porque para mim não orna, eu guardo, mas eu guardo com todo o carinho, porque eu sei que uma hora eu vou precisar, não é mesmo? Antigamente, existia o palhaço clown, que é aquele palhaço que fazia aquela caricatura toda branca no rosto e atendia o outro palhaço que vinha com a maquiagem normal de palhaço. Hoje em dia não tem: é muito raro você ver isso.