Circos e palhaços brasileiros
6 Circo Vostok
O espetáculo
Primeira parte: Acrobacia; Força Dental; Acrobacias e paradas; Palhaços; Cães amestrados; Lira.
Segunda parte: Volteio equestre; Palhaços; Leões; Palhaços; Gatos amestrados; Palhaços; Trapézio Voador; Apoteose.
O Circo Vostok, que encerrou suas atividades, foi visitado em Barra Bonita-SP, em 30 de janeiro de 1998. Era um circo grande, com recursos de som e luz suficientes para um espetáculo grandioso. O espaço cênico era composto de um picadeiro de 13 metros. O público acomodava-se em cadeiras e camarotes. Não havia arquibancadas. As cadeiras ocupavam um plano inclinado, de forma a dar uma boa visibilidade ao espectador.
O espetáculo assistido foi ritmicamente cadenciado, com muita leveza e graça por parte dos artistas acrobatas. Os artistas demonstravam um bom domínio técnico. Alguns deles eram russos, que vieram ao Brasil após a Queda do Muro, em busca de realização profissional. O figurino era bastante trabalhado, com cores vibrantes e muito brilho.
Em todos os momentos, os palhaços apresentaram-se durante a preparação do picadeiro para outros números, como jaulas para os leões e a montagem do trapézio voador. O repertório constou de reprises tradicionais, como "O caveirão", Telepatia, Boxe e "Salto mortal com a lata na mão". A performance dos palhaços precisava adaptar-se às dimensões do espaço. Nas reprises que contavam com falas, os palhaços entravam com microfones de lapela, o que terminava provocando uma poluição sonora. Isso, por certo, prejudicou o desempenho dos cômicos. Circos grandes exigem do palhaço um repertório apropriado, puramente gestual.
Gori-Gori
Gori-Gori (na foto, Gori-Gori à direita e Salsicha, à esquerda) foi criado por Fernando Guimarães Brandão. Em 1998, ele tinha 17 anos de idade e trabalhava com seu pai. Além de palhaço, também era trapezista. Porém, no Vostok ele não estava desempenhando essa função.
Gori-Gori almejava, como principal característica de sua personagem, ser alegre, agitado e brincalhão. Ele não fazia uso de palavrões ou mesmo de piadas fortes. Ele já trabalhou no Nordeste, em pequenos circos, em bairros e pequenos lugarejos. Segundo ele, lá o público não deixa o palhaço quieto e este termina respondendo com piadas de apelo sexual.
Entrevista
O circo, hoje em dia, não se valoriza muito. Os russos que vêm pro Brasil trabalham mais barato. Uma dupla de palhaço ganha seiscentos reais, oitocentos reais por semana. E eles não. Trabalham por cem reais por semana. Aí o dono do circo fala: "Por que eu vou pagar seiscentos reais pra um cara se o outro trabalha por cem?". Aí pega e manda embora. Aí começa a desvalorização do artista. Mas, daí ele vai e compra uma calça que custa oitenta reais. Daí ele pede aumento, que não aguenta. Daí, pede um aumento, aumento, e chega uma hora que eles ganham mais que nós. Daí eles querem contratar nós e pagar uma merreca. "Ah... pra vocês, uma dupla de palhaço, eu pago trezentos reais". Não, não, assim não dá. Depois, ele começa a se desesperar e procura a gente, porque não tem outro. É muito difícil hoje, um brasileiro, se valorizar. Tem muito palhaço bom, mas tá tudo escondido no circo pequeno. Porque, hoje em dia, é melhor você trabalhá em circo pequeno que em circo grande. No circo pequeno, o povo é mais brincalhão, o dono do circo também. Lá no nordeste, tem circo pequeno, chega um circo grande lindo na cidade, o povo vai no pequeno mas não vai no grande. Porque esse grande quer humilhá o pequeno. Daí o pequeno lota, mas não lota o grande. O povo fala assim: "Pô...eu vou no circo pequeno. O pequeno é mais divertido". Porque o jeito de trabalhar é diferente. No grande, eles não brincam, sempre sério. No pequeno, eles bolem com o povo, brinca. Ai o povo já participa, fala com os palhaços.
Palhaço não é uma profissão ruim. "Ah, palhaço é fácil!", dizem; "É fácil! Então entra lá!", eu falo. Daí, ele entra e fica olhando o público: "Que que eu faço? Que eu faço?". Tem que prender a atenção do público. Tem que saber o que você vai falar lá dentro, pra não falar besteira, porque circo grande vai muita pessoa, de elite. Vai pessoa rica, vai família média, e não são zoeiras. Gostam de ri, não de ouvir 'putaria': "Pô, aqueles palhaços são muito pornográficos." É muito difícil ser palhaço.
O povo fala que o circo tá acabando. Pra mim o circo nunca acaba. Pode ser grande, pequeno, feio, pra mim o circo nunca vai acabar. Circo grande, bonito, de bicho tá fechando porque não tão conseguindo pagar artista. Mas eu não pretendo sair do circo. Um dia, meu pai falou: "Estuda, que o circo vai acabar!". Eu não vou parar com o circo.