Circos e palhaços brasileiros
21 Teatro Serelepe
Em Rosário do Sul-RS, nos dias 6 e 7 de fevereiro de 1999, foi encontrado o Teatro Serelepe. Semelhante às companhias Biriba, Serelepe também se dedicava ao teatro sob a lona. O circo era pequeno, com cadeiras e arquibancadas, palco frontal, cortina até o limite do palco e boa iluminação. Igualmente aos outros que se dedicam ao teatro, a cena era composta por telão de fundo, bambolinas e saídas laterais.
Comédia do dia: "Essa velha tem fogo no fogo"
A comédia anunciada e encenada, "Esta velha tem fogo no fogo", era a mesma vista em Santa Rosa, no Circo Teatro Biriba. Lá, incluíram o nome do palhaço no título; aqui, enfatizaram a personagem da sogra. As personagens são as mesmas: Raul, o patrão recém-casado; Vitória, sua esposa; Violeta, uma mulher chantagista; Alfredo, o filho que Raul não quer revelar à atual esposa; Carola, a doméstica; Ambrosina, a sogra; Aparecido, o sogro desaparecido; Aparício, amigo de Raul, interpretado pelo palhaço Serelepe. O cenário, com telão ao fundo, representava uma sala de estar de uma casa de família de classe média.
Serelepe
Na peça, Serelepe se apresentou como um caipira, com chapéu de palha todo desfiado, um paletó xadrez e calça listrada, ambos nas cores preta, branca e cinza. A maquiagem evidenciava os traços caipiras: barbinha rala, por fazer, e bigode, com destaques para a pintura branca e um pouco de vermelho. Quanto à interpretação, Serelepe mostrou-se bastante preso ao texto, com poucas saídas improvisadas. Os ângulos da luz frontal e o chapéu utilizado faziam com que uma parte de seu rosto ficasse na penumbra, inibindo a visão do público. Serelepe entrou com um microfone na lapela, o que provocou um desnível entre sua voz e a das outras personagens.
Serelepe fez uso intenso da triangulação com o público para buscar o riso e a graça. Comentários, expressões idiomáticas, reações diretas com a plateia, gestos alusivos à sexualidade foram constantes. Outro recurso fartamente utilizado foi o da mecanização do corpo humano, enfatizando a repetitividade e a abobalhação do homem. Mas, no central, o grande recurso do riso, na peça, é a confusão do enredo e de papéis sociais que as personagens assumem, a cada momento, de acordo com a situação: pai à força, no caso do Serelepe; o casamento inesperado da velha com Alfredo, filho legítimo de Raul, genro da velha; e assim por diante.
O apontador do texto teve presença marcante na peça. Em vários momentos, os atores perderam-se em cena e o ponto recuperou o roteiro original, o que foi notado pela plateia. Pôde-se ouvir um espectador comentar com seu amigo: "Você está percebendo que tem duas vozes falando!?".
Na segunda parte, o Teatro Serelepe apresentou um show musical, com guitarra e bateria, alguns cantores e cantoras e um pequeno coro de vozes femininas.
Em seguida, para finalizar o espetáculo do dia, foi apresentado um esquete cômico com Serelepe. Desta feita, ele se apresentou com sua caracterização própria: macacão, paletó e gravata, todos muito folgados e grandes.
O esquete apresentado, "Trajes da mulher", faz referência a uma briga de casal, por conta de um vestido que a mulher deseja: negro, fechado até o pescoço, comprido até o calcanhar, porém, decotado atrás, até a altura das nádegas, e nas laterais com uma abertura que vai do calcanhar até a cintura. O marido se nega a dar o presente. Ambos pedem a opinião do Serelepe. Ele vai concordando com a mulher, até chegar na abertura lateral. Também não concorda com o modelo do vestido. O casal briga e a mulher volta à casa dos pais. O marido recorre ao amigo Serelepe para ajudá-lo a fazer com que a mulher retorne. Primeiro, tentam telefonar, ou melhor, Serelepe faz uma confusa ligação, quando termina falando apenas com a telefonista. A comicidade em torno do telefone e da telefonista passa a ocupar o enredo.
Em seguida, os dois tentam escrever uma carta à mulher. Serelepe vai ditando. Primeiro, uma carta com palavras duras: "pauladas", "porradas" etc. Depois, com palavras doces: "meu docinho de coco... minha bananada (indica o pênis) não pode viver sem a sua marmelada" etc. Finalmente, com palavras carinhosas e amorosas, que saem de dentro: "fígado", "coração", "tripas" etc. Para finalizar, forjam uma doença do marido: ele engoliu a língua e está mudo. Ensaiam a farsa e a cada momento um detalhe prejudica o desfecho feliz. Por fim a mulher retorna, encontra o marido e o Serelepe mudos. Ela anuncia que ganhou na loteria e ambos gritam eufóricos. Cortina.
Entrevista
Marcelo Benegoto de Almeida, o Serelepe, nasceu em Santana do Livramento-RS, em 29 de junho de 1969. Atua como palhaço da companhia desde 1994.
Fui escolhido pelo pai e tô aí há quatro anos. Eu herdei o nome dele. Eu uso microfone porque eu perdi a minha voz quando eu tinha 12 anos. Eu trabalhava num grupo de teatro em Curitiba e fazia três espetáculos por dia. Terminava o espetáculo, eu molhava a cabeça com água gelada e, naquela época, na mudança de voz, eu forçava muito a garganta e fui perdendo a voz e fiquei rouco. Trabalhei no Teatro Guaíra seis meses. Me serviu muito. O diretor era uma pessoa bacana e eu aprendi muito... aquele negócio que você ensaia três meses. Não é como a gente que ensaia duas vezes e já tá levando. Lá é um teatro muito elitizado. Eu gosto mais do povão, gosto da risada alta, do pessoal aplaudir, tem que pedir silêncio. Lá não, o pessoal entra, fica quieto, assiste o espetáculo e vai embora. Não existe esse calor. Em Curitiba, nós trabalhamos com as quatro paredes. Aqui não: nós trabalhamos com três paredes. A quarta parede não existe para nós, porque o trabalho é interativo com o público.
Eles querem uma coisa mais obscena. Eles querem um gesto mais forte, eles querem um palavrão no meio da piada. Mesmo as crianças que frequentam o teatro, mesmo porque, na televisão eles mostram coisa muito pior. Eu me considero um tipo de palhaço meio bagaceiro, como dizem. No dia da estreia, eu não faço muito gesto, não digo palavrão, pra testar a plateia. Largo uma de vez em quando, pra ver como que é o público, se o público vai aceitar ou não. Tem público que não aceita, logicamente. Aí, tem que se controlar, não pode fazer gesto, não pode dizer palavrão, mas se tu ver que o público aceitou, chegou a bater palma em cena, tu pode falar o que quiser.
Porque a comédia, ela vem num pique assim, subindo, o pessoal vem dando risada, dando risada, depois para! Aí cai. Depois, pra levantar aquele pessoal de novo é a coisa mais difícil do mundo. Tem que ter um certo pique no palco.
A maioria das comédias nossas é na base do improviso, o conteúdo, o roteiro é só mesmo pra gente acompanhar. Quem puxa a graça é o escada, o palhaço só dá o desfecho da piada. Tem peça aí que precisa ser atualizada, com texto muito antigo. Escritores do tempo em que o arco-íris era preto e branco. A gente vai atualizando o texto dele pra modernizar um pouco mais, pra ficar de fácil entendimento do público.
No circo, o que mais aparece são aqueles números aéreos, de magia. O palhaço aparece só pra completar. Aqui não, o palhaço é o espetáculo, essa é a diferença.
Mas o povo não quer saber de chorar, ele já levanta de manhã chorando.