Circos e palhaços brasileiros

Mario Fernando Bolognesi · Capítulo 3 de 40

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Circos e palhaços brasileiros

2 Circo Astley

 

O espetáculo

Primeira parte: Arame bambo; Faísca em "O caveirão"; Corda indiana; Equilibrismo cômico.

Segunda parte: Show dos anões Irmãos Vieira.

O Circo Astley, cujo nome lembra o criador do circo moderno, Philip Astley, era pequeno. Sua lona principal, de 22 metros x 28 metros, era suportada por dois mastros. Internamente, um palco e um picadeiro, ambos reduzidos, serviam de espaço cênico. O público acomodava-se em arquibancadas, bancos e cadeiras. Os equipamentos de sonorização e iluminação eram bastante precários.

O espetáculo do Circo Astley, visitado em 11 de dezembro de 1997, na cidade de Nova Aliança-SP, foi bastante reduzido, na primeira parte. Poucos números foram apresentados. Na segunda parte, ocorreu o show musical com os Irmãos Vieira, dois anões, que cantaram, dançaram, brincaram com a plateia e desafiaram os homens para uma medição de forças.

 

Faísca

Abílio da Silva Júnior, o palhaço Faísca, nasceu em 18 de agosto de 1953, em um circo. A família dedicava-se ao circo-teatro, desde a década de 1920. Assim, frequentou o palco desde pequeno. Sua estreia no ofício cômico se deu aos 16 anos de idade.

O nome da personagem sugere velocidade e rapidez. Sua maquiagem era bastante simples, com pequenos traços brancos nos lábios e nos olhos e uma grande mancha vermelha que cobria as duas bochechas. O nariz era igualmente vermelho e exuberante. Uma peruca prolongava a testa branca, fazendo com que o rosto ganhasse proporções inusitadas.

Embora tenha participado de quase todo o espetáculo, em apenas uma oportunidade pôde-se apreciar as destrezas cênicas do artista, na entrada "O caveirão". Esta entrada não deposita a graça no recurso linguístico. Antes, requer um razoável desempenho interpretativo para atingir seu intento. Há, de fato, uma contraposição entre a história que o palhaço "corajoso" relata e seu desmentido a partir das reações corporais, diante de um fantasma que entra em cena. Faísca optou por uma trucagem da peruca para salientar seu espanto diante do monstro.

Além de palhaço, Faísca também era o apresentador do espetáculo. Ou seja, esteve em cena praticamente todo o tempo. Na segunda parte, reservada aos Irmãos Vieira, ele também participou ativamente da performance dos anões.

 

Entrevista Hoje, infelizmente, eu não posso levar uma entradinha que não é picante na matinê, que a molecada não ri. Você tem que apelar. A criançada já vê, já vem sabendo mais que a gente. Antigamente, todas as entradas de matinê eram bem levinhas. Hoje, não: você tem que pôr, tem que atacar eles um pouco, porque senão...

Sou palhaço sem querer... O Pouca Roupa, o mais velho, o João, ia estrear o circo. Então, ele fazia passeio, facas, fazia quatro, cinco números, aí ele falou: "Mas eu preciso de um intervalo, alguma coisa". E eu sempre gostei de teatro, eu só trabalhei em teatro, num queria pôr eu no picadeiro, que eu fugia, eu fugia mesmo, me escondia. Apanhava do meu tio. Aí o João falou: "Cê vai fazer palhaço, pra me dar um intervalo!" Eu falei: "Não sei fazer isso não". Aí, chegou de noite, ele mesmo arrumou uma roupa, pintou minha cara, e falou: "Olha, enquanto eu termino o passeio pra depois fazer as facas, você vai fazer..., e leva a entrada de palhaço". E ele me empurrou e eu fui mesmo. Aí, eu tive que fazer, e depois eu gostei, e até hoje eu gosto, é uma das coisas que eu adoro fazer, não tanto de picadeiro, mas de palco eu gosto. Quando eu faço palhaço de palco eu me sinto mais à vontade.

Eu apelo muito pra política. Porque o palhaço é isso: ele não pode viver apenas do passado. Você tem que usar coisas que o povo fala na rua, coisas de televisão, livro, jornal... O palhaço tem que ler, ser informado, ele tem que ter uma relação pública com o povo, tem que saber dos acontecimentos da cidade. Em Fernando Prestes, aconteceu um caso meio gozado. Um senhor, João Camargo, que foi prefeito várias vezes, presidente da Câmara, ele tinha um peru de estimação. A turma foi lá, fez uma batucada na porta da casa dele, pra chamar a atenção, e foram pelo fundo e roubaram o peru. Levaram o peru pro rio e deram um fogo no peru; tomaram um fogo e deram um fogo no peru; o peru bêbado e eles bêbados. Depenaram o peru vivo e enfeitaram a caminhonete com pena e foram buscar mais pinga na cidade. Isso já eram 6 horas da manhã, e o João Camargo andando na cidade atrás do peru. Ele viu as penas do peru na caminhonete e achou o peru. Foi todo mundo na delegacia, todo mundo preso, virou um rebu na cidade. E eu, quando cheguei, me contaram. O circo cheio, aí meu irmão falou: "Oh, graças a Deus que ele morreu! Esse é ladrão de galinha!". Aí, eu falei: "Pode parar. Ladrão de galinha não: eu roubo peru do João Camargo!". O circo detonou: o povo ficou rindo quase vinte minutos. A gente usa o que acontece na cidade, eu gosto de ficar me informando na cidade de uma coisa e de outra. Eu vivo pra cidade, no bar, nas lanchonetes, em todo lugar, pra saber o que acontece.