Circos e palhaços brasileiros
31 Circo Washington
O espetáculo
Primeira parte: Bailado; Cesto; Lira; Fuxico e Gostosinho em "Poroite"; Arame alto; Dublagem cômica - Pau de sebo e Risoleta; Balé Aéreo; Salsicha em "Sonâmbula"; Rola-rola; Dublagem cômica- Gostosinho; Cão amestrado; Salsicha e Sukita em "O filho pródigo"; Pêndulo.
Segunda parte: Trapézio Voador e Táxi Maluco.
São José da Coroa Grande é um município litorâneo, ao sul do Estado de Pernambuco, divisa com Alagoas. O Circo Washington estava montado no centro da cidade. A companhia foi visitada nos dias 13 e 14 de janeiro de 2000.
O circo era grande, de quatro mastros e cúpula, com aproximadamente 50 metros x 60 metros de área interna. A lona era azul e vermelha, com tempo razoável de vida. A frente do circo era fechada pelas carretas de transporte, com desenhos com temática circense. A entrada do público dava-se por uma escada, passando pelo interior de uma dessas carretas. Ao descer, o espectador encontrava uma praça de alimentação.
O espaço interno era composto por arquibancadas, setor de cadeiras e camarotes. Um grande palco abrigava os principais números do circo. Uma primeira cortina verde-escura, recoberta por um babado bordô, separava o espaço de cena dos fundos do circo. Quando ela se abriu, uma outra, amarela com muitas estrelas, amenizava o tom escuro do palco. À frente do palco, um grande espaço "vazio" (que coincidia com a cúpula da lona) estava a descoberto. Caberia um bom picadeiro, mas servia apenas como lugar de passagem aos artistas que tinham seus aparelhos e números montados sob a referida cúpula. Os palhaços, inclusive, pouco exploraram esse espaço, o que daria uma aproximação maior com o público. O circo não possuía recursos de efeitos luminosos, mas a luz geral branca era suficiente. A estrutura administrativa da companhia era predominantemente familiar. Programado para as 21 horas, o espetáculo atrasou 35 minutos.
Os palhaços do Circo Washington eram bastante versáteis. As reprises e entradas que levaram são conhecidas: "Poroite", "O filho pródigo" e "Sonâmbula". Foram, contudo, executadas com apuro. Os palhaços participaram em outros momentos do espetáculo, especialmente Gostosinho, em dublagens. Todos eles estavam envolvidos na apresentação do Táxi Maluco.
Todos os palhaços eram da mesma família: Gostosinho era Wilson Barros Silva; Fuxico, seu tio, Wilson Silva; Welington Barros Silva, o Salsicha, irmão de Gostosinho, tinha, na época, 36 anos de idade. Trabalhava como palhaço desde os 15 anos; Sukita, Washington Barros Silva, irmão de Wilson e Welington, seguia os passos estilísticos do irmão mais velho, Salsicha.
Salsicha
Salsicha (à esquerda) foi o palhaço da companhia que apresentou a melhor performance. Trabalhou a personagem de forma completa, procurando a devida adequação entre gesto, roupas e voz. Salsicha era um moleque abobalhado, de raciocínio lento, medroso e sem jeito. Foi, evidentemente, inspirado na personagem homônima televisiva que atua no desenho animado Scooby Doo. Em nenhum momento, ele se desfez da personagem. Ele trabalhou o repertório de acordo com sua caracterização. Para tanto, fez as devidas adaptações do roteiro ao tipo eleito.
O principal limite em sua atuação foi dado pela necessidade de uso do microfone, que terminou inibindo o desempenho corporal. Esse é, contudo, um costume nos circos nordestinos, mesmo nos pequenos. Salsicha tinham plena consciência disso. Em suas palavras, justificou o uso do aparelho tendo em vista a atitude ruidosa do público circense do Nordeste. O domínio do público por meio do microfone induziu a uma expectativa de silêncio da plateia. Isso, certamente, terminou constrangendo aquilo que, no circo, diferencia a relação da cena com o público, ou seja, o constante diálogo e interferência mútua de um com o outro. O público incentiva e abusa da atuação do palhaço. Ele cria situações a cada instante, o que estimula o desempenho descontraído e improvisado do palhaço. A participação da plateia na atuação do palhaço, que é apontada por muitos artistas como essencial à arte cômica do picadeiro, terminou intimidada pela força da reprodução eletrônica da voz. Nos circos do Nordeste, a voz se sobrepunha ao corpo, sendo o principal elemento da ação cômica.