Circos e palhaços brasileiros
16 Circo Garcia
O espetáculo
Primeira parte: Desfile de apresentação; Paradas de mão e de cabeça; Macacos amestrados; Contorcionismo, com participação de Kuxixo; Cavalos em volteio; Dândis; Cães amestrados; Pôneis.
Segunda parte: Tigres; Palhaços em "Os cozinheiros"; Trapézio Voador; Palhaços em "O boxe"; Elefantes; Encontro dos Palhaços; Apoteose.
O Circo Garcia foi visitado na cidade de Osasco, em 31 de julho de 1998, e estava montado no estacionamento do Shopping Center Continental.
O Garcia era um circo grande, dos mais conhecidos do público brasileiro. A casa de espetáculo deixava transparecer uma organização cuidadosa, visível desde a arrumação interna até a apresentação dos barreiras em cena, todos eles bem-vestidos e de prontidão. O Circo Garcia contava com um picadeiro e um palco como espaços de apresentação. Em determinados momentos, o palco deslocava-se até o picadeiro, valorizando a apresentação e ao mesmo tempo aproximando o artista do público.
Os números circenses apresentados no espetáculo do Circo Garcia primaram pela elegância e por dificuldades técnicas das evoluções acrobáticas. Eram, no geral, números de grande impacto visual.
O espetáculo também revelou uma valorização do palhaço, pouco comum nos grandes circos. Geralmente, eles são postos no espetáculo com reprises cuja finalidade é preencher as lacunas enquanto se monta ou desmonta um grande aparelho. Não foi o caso do Garcia, cujo palhaço principal, o Kuxixo, teve papel de destaque, tanto valorizando o número de contorção, quanto com os outros palhaços.
Kuxixo Kuxixo é de família circense, de terceira geração, por parte do pai, e de quarta, pelo lado da mãe. Nasceu e aprendeu a profissão no ambiente e com as necessidades do pequeno circo, o que quer dizer, voltado para o circo-teatro, para os dramas, comédias e esquetes. No Garcia, um circo que se dedicava às atrações circenses, ele desenvolveu todo o seu aprendizado teatral e recebeu da direção do espetáculo o devido apoio para a sua performance.
A personagem foi inspirada, de um lado, na experiência do circo-teatro e, de outro, em Charlie Chaplin. A influência de Carlitos era visível no terno preto, com suspensórios, sobre uma camisa branca, com gravata. A maquiagem era extremamente sutil e apresentava uma síntese entre o Augusto (visível, por exemplo, no nariz vermelho) e o ator e diretor do cinema mudo, ao adotar um pequeno bigode e um chapéu-coco. A inspiração chapliniana evidenciava-se no modo de interpretar. No primeiro momento, com o número de contorcionismo, Kuxixo interpretou um bêbado e esteve o tempo todo imbuído de seu papel. Depois, contracenando com o palhaço Rói-Rói (Francisco Espinoza Saltos), interpretou um vagabundo que perambulava ao redor da cena, provocando um diálogo entre estilos distintos de interpretação. A disputa indicava a derrota de Kuxixo. Com o decorrer da entrada, no entanto, uma flor entregue por uma garota da plateia reanimou a personagem. A partir daí, com a flor em mãos, procurou seu adversário, propondo-lhe a paz. Ela foi aceita, pondo fim à disputa entre tipos distintos de comicidade.
O gestual minucioso de Kuxixo contrapunha-se aos gestos largos de Rói-Rói. A mímica prevaleceu em toda a interpretação, e os detalhes gestuais foram valorizados. A disputa entre os cômicos foi proposta e desenvolvida a partir da gestualidade.
Entrevista
Eu era de circo-teatro. Então, o meu negócio era mais voltado pro teatro mesmo, comédia, dramas, esquete cômica. O circo-teatro é mais baseado em cima da arte de representar. Já esse circo que eu tô trabalhando agora, não, ele é circo de variedades, ele é mais em cima de acrobacias, trapézio, malabarismo...
O palhaço, ele não é um personagem, ele é uma pessoa normal. Cada um de nós tem um palhaço dentro, cabe a você desenvolver ele. Como eu já disse, eu era de circo-teatro. Tinha uma peça, um drama, se chamava "Rosas para Nossa Senhora". Nessa peça tinha um moleque. E quem fazia esse moleque era meu avô, quer dizer, não era bem o meu avô, mas chamava ele de vô, porque o meu vô já era falecido, então como ele conheceu a minha mãe quando criança, minha mãe se criou no circo desse senhor. É o palhaço Pirulito, é Antonio Malhione. Ele fazia um garoto de fazenda, que tomava conta de um burro e esse burro que chamava Kuxixo. Mas era fictício esse burro, entendeu, ele nunca aparecia. Ele entrava com uma peruca, o cabelo da peruca era todinho em pé, todo arrepiado. Quando eu nasci, que minha mãe me viu pela primeira vez, quando ela bateu o olho em mim, eu tinha o cabelo igual à peruca do meu vô Pirulito. Então, quando ela viu o meu cabelo em pé, ela olhou pra mim e falou: Ô Kuxixo! Então, eu tive o apelido primeiro que o nome. Toni de Soirée é o palhaço que tem que saber um pouquinho de tudo, entendeu? Então, vamos dizer assim, chega um trapezista, faz um número de trapézio, hora que ele sai eu tenho que entrar e fazer o que ele faz, embora tenha dificuldade, eu tenho que passar pra plateia que é fácil. Eu tenho que saber um pouquinho de cada coisa e essa já é uma tradição da minha família. Os artistas de circo-teatro eram mais completos, tinham que cantar, dançar, sapatear, tinham que ser acrobatas, trapezistas, saltadores, e tinham que atuar, por serem de circo-teatro.
Eu tenho muita sorte de ser de circo-teatro. Tem muita coisa que eu não vi, que a minha mãe lembra. Ela me fala alguma coisa. Aí, em cima disso eu faço alguma criação. Dou uma modelada pra mim, pro meu estilo de trabalhar.
Um dos setores que tá dando mais retorno é o de palhaço. Houve uma época - que eu não sei por quê - os palhaços que estavam aparecendo não eram... não que não fossem bons, mas tava havendo uma falta de, vamos dizer assim, de criatividade, espontaneidade, alguma coisa assim. Então, teve um longo tempo que, até mesmo os donos de circo, começaram dar preferência pra outras coisas, como trapézio, feras, entendeu? Aí, de repente, começou uma safra nova, começaram a aparecer palhaços bons. Porque, vamos falar, a alma do circo é o palhaço, tem trapézio, tem tudo, mas se não tiver palhaço não é circo, entendeu? Essa nova geração está se dedicando a fazer graça não só pra criança. E o palhaço, ele tem a chance de fazer o público pensar, porque o palhaço é o único artista no circo que tem a oportunidade de passar uma mensagem, entendeu? O cara que vai fazer um trapézio, ele vai fazer uma exibição de trapézio, o malabarista vai fazer uma exibição de malabarismo, ele não pode passar uma mensagem, uma história, alguma coisa. O palhaço, ele já pode, então pensando um pouquinho, com um pouquinho de criatividade, você consegue passar uma mensagem, ou então uma ideia, alguma coisa de bom pra quem tá assistindo. E aí você não vai atingir só a criança, vai atingir a criança e os adultos.
O circo é a forma de expressão mais antiga que existe. Ele consegue fazer até uma criança de rua, que é triste por causa das marcas da violência, uma criança de rua consegue sorrir. Então, vamos prestigiar qualquer circo, todo tamanho, se ele é pequeno, médio ou grande, o estilo de espetáculo, tanto faz, negócio é prestigiar. O Brasil, agora, parece que tá dando um incentivo pra cultura. Então, vamos; vamos todo mundo pro circo, que até mesmo pra quem é de circo - que o artista brasileiro, ele mesmo não sabe muito bem das suas raízes, não sabe como surgiu o circo, como surgiu o palhaço. Só você sabendo a sua origem, que você vai ter orgulho do que você é.