Com amor, Simon

Becky Albertalli · Capítulo 9 de 38

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Com amor, Simon

Capítulo 9

ELE GOSTA DE me imaginar fantasiando sobre sexo.

Definitivamente eu não deveria ter lido isso logo antes de ir para a cama. Estou deitado na escuridão total, lendo essa frase no celular repetidas vezes. Estou ansioso e elétrico e com o corpo todo tenso só por causa de um e-mail. E estou excitado. Isso é meio estranho.

E muito confuso. De um jeito bom. Blue normalmente é tão cuidadoso com o que escreve...

Ele gosta de me imaginar fantasiando sobre sexo!

Eu achava que só eu tinha esses pensamentos sobre nós dois.

Como seria encontrá-lo pessoalmente depois de todo esse tempo? Será que primeiro teríamos que conversar? Ou iríamos direto para a parte dos amassos? Já imaginei tudo. Ele no meu quarto, nós dois sozinhos. Ele senta ao meu lado na cama e se vira para me olhar com aqueles olhos azul-esverdeados. Os olhos de Cal Price. Aí, coloca as mãos no meu rosto e, de repente, está me beijando.

Levo as mãos ao rosto. Ou melhor: levo a mão esquerda ao rosto.

A direita está ocupada.

Eu me perco de novo em pensamentos. Ele me beija, e é algo totalmente diferente do que tive com Rachel, Anna ou Carys. Não dá nem para comparar. Não está nem na mesma camada da atmosfera. Uma vibração elétrica irradia por todo o meu corpo; meu cérebro está embaçado e acho que consigo ouvir meu coração batendo.

Tenho que ser extremamente silencioso. Nora está do outro lado da parede.

A língua dele está na minha boca. As mãos sobem por debaixo de minha camisa, e ele passa os dedos em meu peito. Estou quase lá.

Não consigo mais segurar. Ai, meu Deus. Blue.

Meu corpo todo vira gelatina.

* * *

Na segunda, Leah vem falar comigo assim que chego à escola.

— Oi — diz ela. — Nora, vou roubá-lo de você.

— E aí? — pergunto.

A rampa que leva ao portão principal tem uma beirada de concreto. Algumas partes são tão baixas que parecem uma espécie de prateleira para a bunda.

Leah evita meu olhar.

— Fiz uma mixtape para você — diz ela, me entregando um CD

em uma capa de plástico transparente. — Pode colocar no seu iPod quando chegar em casa. Como preferir.

Dou uma olhada no verso da capa. Em vez de colocar a lista das músicas, Leah montou o que parece ser um haicai.

Torto e grisalho

Desculpe dizer, Simon,

Você tá velho pra cacete.

— Leah, é tão lindo.

— É. Ok. — Ela se encosta na rampa e olha para mim. — Está tudo bem entre a gente?

Eu faço que sim.

— Você está falando sobre… — começo.

— Sobre vocês terem me largado no dia do jogo.

— Desculpe, Leah.

Os cantos dos lábios dela se erguem um pouco.

— Você tem tanta sorte por ser seu aniversário.

E então, ela tira um chapéu de festa da bolsa e coloca na minha cabeça.

— Desculpe se exagerei na reação — acrescenta.

* * *

No almoço, tem um bolo retangular enorme na mesa, e todo mundo está usando chapéu de festa. É a tradição. Só ganha bolo quem estiver com o chapéu. Garrett parece estar querendo dois pedaços, na verdade. Está com dois cones presos na cabeça, como se fossem chifres.

— Siiimon — diz Abby, só que ela canta meu nome com uma voz grave e rouca de ópera. — Estique as mãos e feche os olhos.

Sinto alguma coisa muito leve cair na palma da minha mão. Abro os olhos e vejo uma gravata-borboleta de papel colorida com lápis de cera dourado.

Pessoas das outras mesas olham para a gente, e sinto que estou sorrindo e ficando vermelho.

— Tenho que colocar?

— Hã, tem? — diz ela. — É claro que tem que colocar. É uma gravata-borboleta dourada para seu aniversário dourado.

— Meu o quê?

— Seu aniversário dourado. Dezessete anos no dia dezessete —

explica Abby. Ela inclina o queixo para cima de forma dramática e estica uma das mãos. — Nicholas, a fita.

Nick está com três pedaços de fita adesiva nas pontas dos dedos, sabe-se lá há quanto tempo. Francamente. Ele parece o macaquinho adestrado dela.

Abby coloca a gravata em mim e cutuca minhas bochechas, que é uma coisa que ela faz com uma frequência bizarra, mas, aparentemente, minhas bochechas são fofas. Seja lá o que isso signifique.

— Então, quando você estiver pronto... — diz Leah.

Ela está segurando uma faca de plástico e uma pilha de pratos, e parece fazer questão de não olhar para Nick nem para Abby.

— Estou superpronto.

Leah corta quadradinhos perfeitos, e, sério, parece que ondas de uma substância magicamente deliciosa surgiram na minha boca.

Adivinhe que mesa de nerds de repente virou a mais popular da escola.

— Sem chapéu, sem bolo.

Do outro lado da mesa, Morgan e Anna decretam a lei. Alguns garotos transformam folhas de papel em chapéus de festa, e um cara acaba enfiando o saco de papel pardo onde estava seu almoço na cabeça, feito um chef de cozinha. As pessoas perdem a dignidade quando o assunto é bolo. É uma coisa linda de se ver.

O bolo está tão perfeito que sei que foi Leah quem escolheu: metade chocolate, metade baunilha, porque nunca consigo escolher um sabor só, e com aquela cobertura estranhamente deliciosa que eles fazem no supermercado. E nada de cobertura vermelha. Leah sabe que eu acho o gosto vermelho demais.

Leah é mesmo incrível em aniversários.

Levo o que sobrou para o ensaio, e a sra. Albright nos deixa fazer um piquenique no palco. E, quando falo piquenique, estou me referindo aos alunos do grupo do teatro em cima da caixa como abutres, enfiando pedaços de bolo na boca.

— Aimeudeus, acho que ganhei uns três quilos — comenta Amy Everett.

— Ai, eu tenho sorte de ter um metabolismo tão acelerado —

comenta Taylor.

Sério, essa é a Taylor. Até eu sei que pessoas podem ser mortas, com razão, por dizerem uma coisa dessas.

E por falar em vítimas de bolos: Martin Addison está estirado no palco com o rosto enfiado na caixa vazia.

A sra. Albright pula o corpo estendido no chão.

— Tudo bem, pessoal. Vamos lá. Peguem os lápis. Quero vocês fazendo anotações nos seus roteiros.

Não me importo de escrever. Essa cena acontece em uma taverna, e minhas anotações são basicamente para eu me lembrar de atuar como se estivesse bêbado. É uma pena que essas anotações não sejam avaliadas nas provas finais. Melhoraria a nota de muita gente.

Seguimos sem intervalos hoje, mas não participo de todas as cenas, então fico um tempo à toa. Há plataformas com degraus em ambas as laterais do palco, deixadas ali depois de um show do coral. Eu me sento quase na base e apoio os cotovelos nos joelhos.

Às vezes esqueço como é legal ficar de fora olhando as coisas acontecerem.

Martin está à esquerda do palco, na fileira da frente, contando uma história para Abby com vários gestos exagerados. Ela está balançando a cabeça e rindo. Talvez Martin não tenha desistido, afinal.

De repente, Cal Price aparece na minha frente e bate em meu pé de leve com a ponta do tênis.

— Oi — diz ele. — Feliz aniversário.

Agora sim, um aniversário bem feliz.

Ele senta ao meu lado, a uns trinta centímetros de distância.

— Vai ter alguma comemoração mais tarde?

Ah.

Não quero mentir. Mas também não quero que ele saiba que meu plano se resume a ficar com minha família e ler mensagens de aniversário no Facebook. É segunda-feira, né? Ninguém faz nada legal numa segunda.

— Ah, acho que sim. Acho que vamos comer bolo de sorvete. De Oreo.