Com amor, Simon
Capítulo 35
Sinceramente,
Marty Addison
<ENVIADO 29 JAN 17:24>
O SHOW DE talentos começa às sete, e Nick e eu chegamos quando as luzes estão diminuindo. Bram e Garrett disseram que estavam sentados mais para trás, no meio, guardando dois lugares. Meus olhos o encontram imediatamente. Ele está de costas na cadeira, olhando a porta, e sorri quando me vê.
Nós nos esprememos entre as cadeiras, e eu me sento ao lado de Bram, e nós ficamos entre Nick e Garrett.
— Isso aí é um programa? — pergunta Nick, se inclinando por cima de mim.
— É. Quer? — pergunta Garrett, e passa o cilindro de papel já amassado.
Com certeza é o nome de Abby que ele está procurando.
— Aposto que ela é a primeira ou a última — digo.
Ele sorri.
— Penúltima.
E as luzes se apagam.
O burburinho da plateia morre quando as luzes do palco se acendem e Maddie, do grêmio estudantil, vai até o microfone.
Chego mais perto de Bram. E, como está muito escuro, coloco a mão no joelho dele. Sinto que ele se mexe sem fazer barulho, entrelaçando os dedos nos meus. Então ele levanta nossas mãos e beija a minha de leve.
Ele para e a mantém ali. E sinto uma fisgada latente debaixo do meu umbigo.
Bram deixa que nossas mãos entrelaçadas voltem para o colo dele. E, se ter um namorado é assim, não sei por que em nome de Deus esperei tanto tempo.
No palco, surge uma garota atrás da outra. Todas de vestidos curtos. Todas cantando músicas da Adele.
E então, chega a vez de Abby, e ela sai da coxia arrastando um púlpito fino e preto até a beirada do palco. Olho para Nick, mas ele não me vê. Está olhando hipnotizado para a frente, com a postura ereta e um sorriso surgindo nos lábios. Uma garota loura do primeiro ano aparece com um violino e uma partitura. Ela posiciona o violino debaixo do queixo e olha para Abby, que assente e inspira claramente. A violinista começa a tocar.
É uma versão estranha e quase triste de “Time After Time”. Os movimentos de Abby conduzem cada nota. Nunca vi ninguém dançar sozinho antes, fora a exibição constrangedora que acontece quando as pessoas formam o círculo em um Bar Mitzvah. E, no começo, não tenho ponto de referência. Em um grupo, dá para procurar sincronia. Mas Abby controla seus próprios movimentos; ainda assim, cada movimento parece intenso, deliberado e verdadeiro.
Não consigo não observar Nick enquanto ele assiste. Ele sorri silenciosamente com o punho apertado na boca durante todo o tempo.
Abby e a violinista terminam e recebem aplausos surpresos e satisfeitos, e as cortinas se fecham parcialmente enquanto o palco é preparado para o ato final. Pegam uma bateria, então acho que é algum tipo de banda. Maddie pega o microfone e faz alguns anúncios sobre várias oportunidades futuras de dar dinheiro ao grêmio. Há alguns sons experimentais vindo de trás da cortina, quando os instrumentos vão sendo ligados e testados.
— Quem é? — pergunto para Nick.
Ele olha o programa.
— O nome é Emoji.
— Fofo.
A cortina se abre e revela cinco garotas com instrumentos, e a primeira coisa que reparo é nas cores. Todas estão usando tecidos de estampas diferentes, e as cores são tão intensas que fica estranhamente punk rock. A baterista inicia uma batida rápida.
É nessa hora que percebo que a baterista é Leah.
Estou sem palavras. O cabelo dela está solto, na altura dos ombros, e as mãos se movem com uma rapidez impossível. Os outros instrumentos se juntam a ela, Morgan no teclado e Anna no baixo. Taylor nos vocais.
E minha irmã Nora na guitarra, tão relaxada e confiante que quase não a reconheço. Estou estupefato. Eu nem sabia que ela tinha voltado a tocar guitarra.
Bram olha para mim e ri.
— Simon, a sua cara.
Elas fazem um cover de “Billie Jean”, do Michael Jackson, e não é brincadeira. É simplesmente elétrico. Garotas estão se levantando e dançando pelos corredores. De repente, elas fazem uma transição direta para “Just Like Heaven”, do The Cure. A voz de Taylor é doce e aguda e sai sem esforço, e, de alguma forma, é perfeita. Mas ainda estou boquiaberto. É difícil entender o que está acontecendo.
Bram estava certo: as pessoas são mesmo como casas de quartos grandes e janelas pequenas. E talvez seja mesmo uma coisa boa que a gente nunca pare de surpreender os outros.
— Nora não está nada mal, hein? — comenta Nick, se inclinando na minha direção.
— Você sabia disso?
— Estou trabalhando com ela há meses. Mas ela me pediu para não contar para você.
— É sério? Por quê?
— Porque ela sabia que você ia fazer um estardalhaço.
Afinal, minha família é assim. Tudo é segredo porque tudo é motivo para um estardalhaço. Tudo é como sair do armário.
— Meus pais vão surtar por estarem perdendo isso.
— Mas eles estão aqui — diz Nick, e aponta para o outro lado do corredor, onde consigo ver as nucas deles algumas fileiras à frente. Eles estão juntinhos, apoiando a cabeça um no outro. E então, reparo em um coque desgrenhado de cabelo louro-escuro ao lado da minha mãe. É engraçado, mas poderia ser a Alice.
Nora dá o sorrisinho dela, e o cabelo está solto e ondulado. Um nó na minha garganta.
— Você parece estar tão orgulhoso — sussurra Bram.
— É, é estranho — digo.
As mãos de Nora param na guitarra e Taylor para de cantar, e todo mundo para de tocar, menos Leah, que está com uma expressão determinada e enérgica. Ela dispara no solo de bateria mais incrível que já ouvi. Os olhos estão concentrados, e as bochechas estão vermelhas e ela está linda. Ela nunca acreditaria em mim se eu dissesse.
Eu me viro para olhar para Bram, mas ele está virado na outra direção olhando para Garrett, e consigo ver pelas bochechas dele que está sorrindo. E Garrett balança a cabeça, sorri e diz:
— Não quero ouvir, Greenfeld.
A música termina, e as pessoas gritam e aplaudem enquanto as luzes se acendem. Há uma movimentação a caminho do pátio, e esperamos as coisas se acalmarem um pouco. Abby sai e nos encontra na mesma hora. E aí, um cara de cabelo castanho e barba ruiva entra na fileira vazia na nossa frente e sorri.
— Está na cara que você é Simon — diz ele.
Eu faço que sim, confuso. Ele também é familiar, na verdade, mas não consigo identificá-lo.
— Oi. Sou Theo.
— Theo, tipo… o Theo da Alice?
— Mais ou menos isso — diz ele, sorrindo.
— Ela está aqui? O que você está fazendo aqui? — Desvio o olhar automaticamente para onde meus pais estavam sentados, mas a fileira deles já está vazia. — É um prazer conhecer você —
acrescento.
— Igualmente — responde ele. — Alice está no saguão, mas me mandou trazer um recado para você e, hã, Bram.
Bram e eu trocamos olhares enquanto Nick, Abby e Garrett olham com interesse.
— Então. Ela queria avisar que seus pais estão prestes a convidar vocês para um lugar chamado Varsity, e você deve dizer que não pode ir. E as palavras mágicas que você tem que dizer é dever de casa atrasado.
— O quê? Por quê?
— Porque — diz Theo, assentindo —, ao que parece, demora meia hora para chegar lá e meia hora para voltar, fora todo o tempo gasto pedindo e comendo.
— E vale cada segundo — digo para ele. — Você já tomou o smoothie de laranja de lá?
— Não — responde Theo. — Mas também só passei um total de cinco horas da minha vida em Atlanta. Até agora.
— Mas por que ela não me quer lá?
— Porque está tentando conseguir para vocês umas duas horas sem supervisão em casa.
— Ah.
Minhas bochechas estão queimando.
Nick dá uma risada de deboche.
— Pois é — diz Theo, dando um sorrisinho para Bram. — É, acho que vejo vocês lá fora.
Os olhos de Bram estão acesos de malícia. É tão atípico dele.
— Ah, você participou desse plano?
— Não — diz ele —, mas dou total apoio.
— É um pouco esquisito minha irmã ter organizado tudo.
Ele sorri, mordendo o lábio.
— Mas também é muito maneiro — admito.
Assim que chegamos ao pátio, vou direto na direção de Alice.
Bram fica para trás com Nick, Abby e Garrett.
— Não acredito que você está aqui.
— Ah — diz ela —, o pequeno Nick Eisner me deu a dica de que uma coisa importante aconteceria. Mas sinto muito por ter perdido a peça semana passada, Bub.
— Tudo bem. Conheci Theo — digo, baixando a voz. — Ele é legal.
— É, é. — Ela dá um sorriso tímido. — Qual é o seu?
— Suéter cinza de zíper, ao lado do Nick.
— Estou mentindo. Eu já estava acompanhando a vida dele pelo Facebook — diz ela, me abraçando. — Ele é um fofo.
— Eu sei.
E então, a porta lateral se abre, e as garotas do Emoji saem. Nora dá um gritinho quando nos vê.
— Allie! — diz ela. E corre em sua direção. — O que você está fazendo aqui? Por que não está em Connecticut?
— Porque você é uma estrela do rock — diz Alice.
— Não sou nada — retruca Nora, sorrindo.
Meus pais estão com um buquê gigantesco no melhor estilo Dr.
Seuss para entregar a ela e passam uns cinco minutos elogiando seu talento com a guitarra. Depois, eles querem elogiar o resto da banda e Abby, então viramos um grupo grande. E Nora está conversando com Theo, e meus pais estão apertando a mão de Bram, e Taylor e Abby estão se abraçando aleatoriamente. É uma cena surreal e maravilhosa.
Vou até Leah, e ela sorri e dá de ombros. Dou um abraço esmagador nela.
— Você é o máximo — digo para ela. — Eu não fazia ideia.
— Me deixaram pegar uma bateria da escola emprestada.
Comecei a estudar sozinha.
— Há quanto tempo?
— Uns dois anos.
Ela morde o lábio.
— Então eu sou o máximo, é isso? — pergunta ela.
— É, SIM — digo.
Eu lamento, Leah, mas preciso abraçá-la de novo.
— Já está bom — diz ela, se contorcendo um pouco. Mas consigo ver que está sorrindo.
Dou um beijo na testa dela, e ela fica inacreditavelmente vermelha. Quando Leah cora, é tão radical.
Meus pais se aproximam para propor uma ida comemorativa a Varsity.
— Eu tenho dever atrasado para fazer — digo para eles.
— Tem certeza, garoto? — pergunta meu pai. — Quer que eu traga um smoothie de laranja?
— Ou dois — diz Alice. E sorri.
Alice me diz para deixar o celular ligado, para que ela possa me mandar uma mensagem quando estiverem voltando para casa.
— E não vai esquecer os smoothies.
— Simon, dizem que na vida não se pode ter tudo.
— Grandes. Com copo especial.
Deve haver umas cem pessoas ainda a caminho do estacionamento. Estou voltando com Bram. A situação é pública demais para nos darmos as mãos. Temos que considerar que estamos na Georgia. Assim, ando ao lado dele e deixo um espaço
entre nós. Somos só dois caras em uma noite de sexta. Só que o ar ao nosso redor parece estalar de eletricidade.
Bram parou no topo do edifício-garagem. Ele destranca o carro do alto da escada, e vou para o lado do passageiro. O carro ao meu lado liga de repente e me assusta. Espero que ele saia antes de eu abrir a porta, mas o motorista não se mexe. Olho pela janela e vejo que é Martin.
Nossos olhares se cruzam. Estou surpreso por ele estar aqui, pois não estava na escola hoje. O que quer dizer que não o vejo desde que ele me mandou aquele e-mail.
Martin passa a mão pelo cabelo e retorce a boca.
E eu só olho para ele.
Não respondi o e-mail. Ainda não.
Sei lá.
Mas está frio do lado de fora, então eu entro no carro e vejo pela janela enquanto Martin sai de ré.
— Você está aquecido? — pergunta Bram.
Eu faço que sim.
— Então acho que vamos para a sua casa.
Ele parece nervoso, e isso me deixa nervoso.
— Tudo bem pra você?
— Sim — diz ele, olhando para mim. — Quer dizer, claro.
— Certo. Claro.
E meu coração dispara.
* * *
Entrar em casa com Bram é como ver tudo pela primeira vez. A cômoda de madeira pintada junto à parede, lotada de catálogos e correspondência. Um desenho pavoroso emoldurado de Alvin e os Esquilos que Nora fez no jardim de infância. Tem um baque abafado de Bieber pulando do sofá, seguido pelo estalar dele correndo na nossa direção.
— Ah, oi — diz Bram, quase se agachando. — Eu sei quem você é.
Bieber o cumprimenta com paixão, todo língua, e Bram ri de surpresa.
— Você tem esse efeito na gente — explico.
Ele dá um beijo no focinho de Bieber e me segue até a sala.
— Está com fome? — pergunto. — Ou com sede?
— Estou bem — diz ele.
— Acho que temos Coca-Cola. — Quero muito beijá-lo e não sei por que estou enrolando. — Quer ver alguma coisa?
— Claro.
Eu olho para ele.
— Eu não.
Ele ri.
— Então não vamos ver nada.
— Quer ver meu quarto?
Ele dá aquele sorriso malicioso de novo. Talvez seja algo típico dele, sim. Talvez eu ainda o esteja conhecendo.
Fotos emolduradas cobrem a parede da escada, e Bram para e olha cada uma.
— A famosa fantasia de lata de lixo — diz ele.
— O auge de Nora. Eu esqueci que você sabia disso.
— E aqui é você com o peixe, certo? Está na cara que está empolgado.
Na foto, estou com seis ou sete anos, queimado de sol, o braço esticado o mais longe possível do corpo, segurando um peixe por uma linha de pesca. Pareço prestes a explodir em lágrimas horrorizadas.
— Eu sempre adorei pescar — digo.
— Não acredito que você era assim, tão louro.
Quando chegamos no topo da escada, ele segura minha mão e a aperta.
— Você está aqui mesmo — comento, balançando a cabeça. — É
de verdade.
Eu abro a porta e tento chutar algumas roupas para o lado quando entramos.
— Me desculpe por… isso tudo aqui.
Tem uma pilha de roupas sujas ao lado do cesto vazio e uma pilha de roupas limpas ao lado da cômoda vazia. Livros e papéis para
todo lado. Um saco vazio de biscoitos Goldfish na escrivaninha, ao lado de um despertador quebrado de George, o Curioso, meu laptop e um braço robótico de plástico. A mochila está na escrivaninha.
Capas emolduradas de discos de vinil estão tortas nas paredes.
Mas minha cama está feita. É lá que nos sentamos, encostados na parede com as pernas esticadas.
— Quando você me manda e-mails — pergunta ele —, onde fica?
— Normalmente, aqui. Às vezes, em frente à escrivaninha.
— Ah — diz ele, assentindo.
Eu me inclino e dou um beijo delicado no pescoço dele, abaixo do maxilar. Ele se vira para mim e engole em seco.
— Oi — digo.
Ele sorri.
— Oi.
E então, eu o beijo de verdade, e ele corresponde o beijo e enfia as mãos no meu cabelo. Começamos a nos beijar como se precisássemos disso tanto quanto precisamos respirar. Meu estômago se revira intensamente. E, de alguma forma, acabamos na horizontal, as mãos dele nas minhas costas.
— Gosto disso — digo, e minha voz sai sem fôlego. — Devíamos fazer isso. Todos os dias.
— Tudo bem.
— Não vamos fazer mais nada nunca mais. Não vamos para a escola. Não vamos comer. Nem fazer dever de casa.
— Eu ia convidar você para ver um filme — diz ele, sorrindo.
Quando ele sorri, eu sorrio.
— Nada de filmes. Odeio filmes.
— É mesmo?
— É mesmo. Por que eu ia querer ver outras pessoas se beijando, se posso beijar você?
Acho que ele não tem argumentos contra isso, porque me puxa mais para perto e me beija com urgência. De repente, estou duro, e sei que ele também está. É emocionante e estranho e totalmente apavorante.
— Em que você está pensando? — pergunta Bram.
— Na sua mãe.
— Nãããão — diz ele, rindo.
Mas estou mesmo. Especificamente, na regra dela de Sempre, Inclusive o Oral. Porque só agora me ocorre que a regra deve se aplicar a mim. Em algum momento. Em alguma hora.
Eu o beijo de leve nos lábios.
— Eu quero mesmo levar você para sair — diz ele. — Se você não odiasse todos os filmes, o que gostaria de ver?
— Qualquer coisa.
— Mas com final feliz, né? Algo bem Simon, com final feliz.
— Por que ninguém nunca acredita que sou cínico?
— Certo. — Ele ri.
Relaxo o corpo em cima do dele, a cabeça apoiada no vão do pescoço.
— Gosto do que não tem fim — digo. — Gosto de coisas que não terminam.
Ele me aperta e beija minha cabeça, e ficamos deitados ali.
Meu celular vibra no bolso de trás da calça. Alice. Saindo da rodovia. Se prepara.
Entendido. Obrigada, Paul Revere. Apoio o celular no peito de Bram enquanto digito.