Com amor, Simon
Capítulo 5
Aaaah, corretor de merda. BUNDA palpite.
<ENVIADO 31 OUT 8:26>
PARA: bluegreen181@gmail.com
DE: hourtohour.notetonote@gmail.com
ASSUNTO: Re: abobrinhas de Halloween
AAHHHH!!!!!!
BOM palpite. BOM. Céus. É por isso que nunca escrevo do celular.
Vou ali num cantinho morrer de vergonha e já volto.
J
<ENVIADO 31 OUT 8:28>
SINCERAMENTE, NÃO TEM nada melhor do que Halloween numa sexta-feira. O dia na escola é meio eletrizante, o que parece deixar as aulas menos chatas e os professores, mais engraçados. Estou com orelhinhas de gato de feltro presas com fita adesiva no capuz do casaco e um rabo preso na calça. Pessoas que nem conheço sorriem para mim nos corredores. Riem de um jeito legal. É um dia incrível.
Abby vai para casa comigo; vamos andando até a casa de Nick mais tarde, e Leah vai buscar todos nós lá. Leah já tem dezessete anos, o que faz diferença na Georgia. Eu também dirijo, mas só posso levar mais uma pessoa no carro além de Nora, sem discussão. Meus pais não são rigorosos com muitas coisas, mas são ditadores quando o assunto é direção.
Abby desaba no chão agarrada a Bieber assim que entramos na cozinha. Ela e Leah podem não ter muito em comum, mas as duas são obcecadas pelo meu cachorro. E Bieber está pateticamente deitado de costas, a barriga exposta, olhando para Abby com uma expressão sonhadora.
Bieber é um golden retriever de olhos grandes, castanhos e meio alucinados. Alice ficou muito satisfeita quando teve a ideia do nome, e não vou mentir: é perfeito.
— Onde vai ser? — pergunta Abby, olhando para mim.
Ela e Bieber estão entrelaçados em um abraço eterno, a tiara dela caindo sobre os olhos. Muitas pessoas usaram uma fantasia simples na escola, só orelhinhas de animais, máscaras e coisas assim. Abby resolveu aparecer com uma toda elaborada de Cleópatra.
— A casa do Garrett? Fica em algum lugar na Roswell Road, eu acho. Nick sabe.
— Então basicamente quem vai estar lá é o pessoal do futebol?
— É provável. Não sei.
Eu recebi uma mensagem do Martírio Abominável confirmando presença. Mas acho melhor não mencioná-lo nesta conversa.
— Ah, tudo bem. Vai ser legal.
Abby tenta se soltar de Bieber, e a fantasia sobe pelas coxas, deixando-as quase completamente expostas. Ela está de meia-calça, mas mesmo assim. Acho engraçado. Até onde sei, todo mundo pensa que sou hétero, mas Abby parece já ter percebido que não precisa ficar se policiando perto de mim. Ou talvez seja só o jeito dela.
— Ei, está com fome? — pergunta ela. E eu percebo que deveria ter oferecido alguma coisa.
Acabamos fazendo queijo quente na sanduicheira e levando para a sala, para comer em frente à TV. Nora está encolhida no canto do sofá lendo Macbeth. Acho que isso é bem Halloween. Nora nunca sai. Ela olha nossos sanduíches e, um minuto depois, levanta-se do sofá para fazer o dela. Se ela queria queijo quente, deveria ter dito para mim, ora. Nossa mãe enche o saco de Nora às vezes para que seja mais assertiva. Mas eu também podia ter perguntado se ela estava com fome. Acho que tenho dificuldade de me colocar no lugar dos outros às vezes. Acho que é meu maior defeito.
Vemos programas aleatórios, com Bieber estirado entre nós no sofá. Nora volta com o sanduíche e retoma sua leitura. Alice, Nora e eu costumamos estudar na frente da TV ou ouvindo música. E, mesmo assim, todos tiramos notas boas.
— Ei, é melhor a gente se arrumar, né? — diz Abby.
Ela levou uma fantasia completamente diferente para usar na festa, porque agora todo mundo já tinha visto a de Cleópatra.
— Só temos que chegar na casa de Nick às oito — explico.
— Mas você não quer se arrumar para dar doce para as crianças?
— pergunta ela. — Eu sempre odiava quando as pessoas não estavam fantasiadas.
— Ah, se você faz questão. Mas juro que essas crianças só querem os doces e não estão nem aí para a procedência deles.
— Isso é meio preocupante — comenta Abby.
Dou uma risada.
— É mesmo.
— Tá, então vou tomar conta do banheiro agora. É hora da transformação — anuncia ela.
— Tudo bem. Vou me transformar aqui na sala mesmo.
Nora ergue o rosto do livro.
— Simon. Eca.
— Só vou jogar uma veste de dementador por cima da roupa.
Acho que você vai sobreviver.
— O que é um dementador?
Ah, não dá.
— Nora, você não é mais minha irmã.
— Então é alguma coisa de Harry Potter — deduz ela.
* * *
Garrett e Nick se cumprimentam com um soquinho quando chegamos.
— Eisner. E aí?
A música reverbera no lugar, e pessoas dão risadas e seguram latinhas que não são de Coca-Cola. Já estou me sentindo meio perdido. A questão é a seguinte: estou acostumado com outro tipo de festa. Do tipo em que você aparece na casa de alguém e a mãe mostra onde fica o porão, tem besteiras para comer e cartas para jogar e um bando de gente cantando aleatoriamente. Talvez até algumas pessoas jogando video games.
— O que vocês querem beber? — pergunta Garrett. — Tem cerveja e, hã, vodca e rum.
— Ah, obrigada, mas não quero — diz Leah. — Estou dirigindo.
— Ah, temos Coca-Cola e suco e umas coisas assim.
— Vou de vodca com suco de laranja — pede Abby.
Leah balança a cabeça.
— Saindo um screwdriver para a Mulher-Maravilha. Eisner?
Spier? Alguma coisa? Querem uma cerveja?
— Claro — respondo.
Meu coração está pulando de forma notável.
— Spier almeja uma cerveja — diz Garrett, e ri. Não sei qual é a graça.
Ele vai pegar as bebidas. Minha mãe diria que é um ótimo anfitrião. Não que haja alguma possibilidade de eu contar a parte das bebidas para meus pais. Eles achariam divertido demais.
Visto o capuz de dementador e me recosto na parede. Nick subiu para pegar o violão do pai de Garrett, então ficamos naquela tensão silenciosa e estranha de estar sozinho com Abby e Leah. Abby cantarola junto com a música e meio que balança os ombros.
Sinto que estou me encolhendo na direção de Leah. Às vezes, simplesmente sei que ela está sentindo o mesmo que eu.
Leah olha para o sofá.
— Uau, a Katniss está beijando o Yoda?
— Quem está beijando quem? — pergunta Abby.
Há um momento de silêncio.
— Ah… deixa pra lá — diz Leah.
Acho que Leah fica ainda mais sarcástica quando está nervosa.
Mas Abby parece nunca notar a exaltação na voz dela.
— Onde está Nick? — pergunta Abby.
Só de ouvir Abby mencionar o nome de Nick, Leah começa a morder o lábio.
— Tocando violão em algum lugar?
— Provavelmente — responde Leah. — Ele está sempre atracado com um violão.
Abby começa a rir, e Leah fica toda vermelha e orgulhosa.
É estranho. Em alguns momentos parece que Abby e Leah só ficam se exibindo uma para a outra.
Garrett volta carregando vários drinques, e Leah fica séria.
— Muito bem, screwdriver para as moças… — diz Garrett, entregando um para cada uma.
— Isso é… tá — diz Leah, revirando os olhos e deixando a bebida na mesa atrás dela.
— E uma cerveja para… sei lá que merda você é.
— Um dementador — digo.
— O que é isso, em nome de Deus?
— Um dementador? De Harry Potter?
— Ah, tire esse capuz, pelo amor de Deus. E do que você está fantasiada?
— De Kim Kardashian — responde Leah, na maior cara de pau.
Garrett parece confuso.
— Tohru, de Fruits Basket.
— Eu…
— É um mangá — explica ela.
— Ah.
Ouvimos notas desafinadas de piano no outro lado da sala, e Garrett passa por nós. Duas garotas estão sentadas em um banco de piano, e acho que uma delas bateu com o cotovelo nas teclas.
Há uma explosão de risadas selvagens e bêbadas.
Quase desejei estar com Nora, vendo TV, atendendo à porta e enchendo a cara de mini Kit Kats, que são bem menos legais do que Kit Kats extragrandes. Sei lá. Não é que eu esteja odiando. Mas me sinto deslocado.
Tomo um gole de cerveja e acho… Ah, é incrivelmente nojento.
Acho que eu não esperava que tivesse gosto de sorvete, mas pelo amor de Deus. As pessoas mentem e fazem identidade falsa e entram escondidas em bares para isso? Acho que eu prefiro dar uns amassos no Bieber. O cachorro. Ou o Justin.
Mas enfim, isso me deixa meio preocupado com toda a propaganda que fazem em torno do sexo.
Garrett deixa a bebida de Nick com a gente e se junta às garotas no piano. Acho que são do nono ano. As fantasias são surpreendentemente elaboradas. Nick vai gostar. Mas elas têm a idade de Nora. Não acredito que estão bebendo. Garrett corre para abaixar a tampa sobre as teclas do piano, e sua preocupação me faz criar certa afeição por ele.
— Aí está você — diz Abby.
Nick voltou, segurando um violão como se sua vida dependesse disso. Ele se senta no chão para afinar, as costas encostadas na lateral do sofá. Algumas pessoas olham para ele sem interromper a conversa. É estranho, porque praticamente todo mundo é familiar, mas são todas pessoas do time de futebol e outros atletas. É claro que isso não tem problema. Mas é que eu não as conheço direito.
Fica bem claro que não vou ver Cal Price nesse grupo, e nem sei se Martin veio.
Eu me sento, e Leah desliza pela parede perto de mim e acaba com as pernas viradas para o lado de uma forma desajeitada. Sua fantasia inclui uma saia, e percebo que ela está tentando não mostrar as coxas. O que é muito ridículo e ao mesmo tempo muito típico de Leah. Chego mais perto dela, que abre um pequeno sorriso sem olhar para mim. Abby se senta de pernas cruzadas de frente para nós, e isso é bem legal. Basicamente, temos nosso canto da sala.
Sinto-me meio feliz e meio confuso agora, e a cerveja já não é mais tão ruim depois dos primeiros goles. Garrett ou outra pessoa deve ter desligado o som, e algumas pessoas se aproximaram para ouvir Nick. Não sei se já falei isso, mas Nick tem a voz mais perfeitamente rouca do mundo quando canta. Claro que ele tem essa estranha obsessão de pai com rock clássico, mas nem sempre isso é ruim. Agora, por exemplo, ele está cantando “Wish You Were Here”, do Pink Floyd, e estou pensando em Blue. E em Cal Price.
A questão é que, lá no fundo, tenho a sensação de que Blue é Cal Price. Não tem explicação. Acho que são os olhos. Ele tem olhos da cor do oceano: ondas e mais ondas azul-esverdeadas. E às vezes, quando olho para Cal, sinto que nos entendemos, e ele entende, e é tudo perfeito e sem palavras.
— Simon, quantos copos você já bebeu? — pergunta Leah.
Estou girando as pontas do cabelo dela. O cabelo de Leah é lindo e cheira a canela. Na verdade, é Abby que cheira a canela. Leah tem cheiro de amêndoas.
— Um copo.
O mais excelente e delicioso copo de cerveja do mundo.
— Um copo. Não consigo nem expressar como você é ridículo.
Mas ela está quase sorrindo.
— Leah, sabia que você tem um rosto muito irlandês?
Ela olha para mim.
— O quê?
— Ah, você me entendeu. Um rosto irlandês. Você é irlandesa?
— Que eu saiba, não.
Abby ri.
— Meus ancestrais são escoceses — diz alguém.
Olho para cima e vejo Martin Addison com orelhas de coelho.
— É, isso aí — digo, enquanto Martin se senta ao lado de Abby, perto mas não muito. — É estranho, né? Porque temos ancestrais do mundo todo, mas estamos aqui, na sala de Garrett, e os ancestrais de Martin são da Escócia, e Leah, desculpa, mas você com certeza é da Irlanda.
— Se você diz.
— E os de Nick são de Israel.
— De Israel? — questiona Nick, ainda com os dedos nas cordas do violão. — Eles são da Rússia.
Acho que se aprende uma coisa nova a cada dia, porque eu achava mesmo que os judeus vinham de Israel.
— Ah, eu sou inglês e alemão, e Abby é, você sabe…
Ah, meu Deus, não sei nada sobre a África e não sei se isso me torna racista.
— Do oeste da África. Eu acho.
— Exatamente. É tudo tão aleatório. Como viemos parar aqui?
— Escravidão, no meu caso — diz Abby.
Merda. Eu tenho que calar a boca. Tinha que ter calado a boca cinco minutos atrás.
O som volta a tocar.
— Ei, acho que vou pegar uma bebida — diz Martin, pulando daquele jeito espasmódico dele. — Alguém quer alguma coisa?
— Obrigada, mas estou dirigindo — diz Leah.
Mas ela não beberia mesmo se não estivesse dirigindo. Sei disso. Porque existe uma linha invisível, e de um lado ficam as pessoas como Garrett e Abby e Nick e todos os músicos do mundo. Gente que vai a festas e bebe e não fica bêbada com uma cerveja. Gente que faz sexo e não acha isso nada de mais.
Do outro lado da linha estão as pessoas como Leah e eu.
Mas o que torna tudo estranhamente melhor é saber que Blue é como nós. Pode ser a minha interpretação das coisas, mas acho mesmo que Blue nunca beijou ninguém. É engraçado, nem sei se as vezes que beijei contam.
Nunca beijei um garoto. Penso nisso o tempo todo.
— Spier? — chama Martin.
— O quê?
— Alguma coisa para beber?
— Ah, não, obrigado. Estou bem.
Leah faz um barulhinho, tipo um ronco de deboche.
— Eu também estou bem. Mas obrigada. — Abby chuta meu pé.
— Lá em casa, eu pegava o metrô e entrava escondida, então não importava. — Quando Abby diz “lá em casa”, ainda está se referindo a Washington. — Mas acho que os pais de Simon não precisam me ver bêbada.
— Acho que eles nem ligariam.
Abby puxa a franja para o lado e olha para mim.
— Ah, não é bem assim.
— Eles deixaram minha irmã fazer um milhão de furos na orelha, então...
— Uau. A Nora é tão maneira! — exclama Leah.
— A Nora é o oposto de maneira. Sou muito mais maneiro que ela.
— E nunca deixe ninguém dizer o contrário — aconselha Martin, sentando-se ao lado de Abby com a cerveja na mão.
Abby se estica e se levanta, segurando meu capuz.
— Vamos lá. As pessoas estão dançando.
— Que bom para elas — responde Nick.
— Nós vamos dançar — acrescenta Abby, esticando os braços para ele.
— Nããããoooo.
Mas Nick coloca o violão num canto e deixa Abby puxá-lo.
— Hum, mas você já viu meus passos encantadores? — pergunta Martin.
— Vamos ver!
Ele faz aqueles movimentos estranhos no ritmo da música, como se estivesse nadando, seguido do combo “guinada com os ombros de um lado para o outro mais uma reboladinha”.
— Sim, demais! — diz Abby. — Vamos. — Ela puxa as mãos dele, que a acompanha, radiante.
Abby leva seu pequeno harém para perto do som, onde as pessoas estão bebendo e se esfregando ao som de Kanye West.
Mas ela entra em seu próprio universo quando começa a dançar,
então Nick e Martin acabam dançando, meio sem jeito, tentando não olhar um para o outro.
— Ai, meu Deus — diz Leah. — Está acontecendo. Estamos testemunhando algo mais sofrível do que o Bar Mitzvah do Nick.
— Missão constrangimento cumprida.
— Deveríamos estar filmando isso?
— Vamos apenas apreciar o momento. — Passo o braço ao redor dos ombros dela, puxando-a para perto.
Às vezes abraços deixam Leah desconfortável, mas hoje ela enterra o rosto no meu ombro e murmura algo na minha roupa.
— O quê? — pergunto, cutucando-a.
Mas ela só balança a cabeça e suspira.
* * *
Leah nos deixa na casa de Nick à meia-noite, e, de lá, é uma caminhada de sete minutos até minha casa. Todas as residências em nosso percurso estão apagadas, mas o bairro ainda está sob uma luz laranja. Tem algumas abóboras esmagadas aqui e ali e papel higiênico pendurado nos galhos. Shady Creek pode ser um subúrbio de conto de fadas na maior parte do tempo, mas, quando os doces acabam, a escuridão toma conta. Pelo menos no meu bairro.
Está frio e estranhamente silencioso. Se Abby não estivesse comigo, eu teria que quebrar o silêncio com música. Parece que somos os últimos sobreviventes de um apocalipse zumbi. Uma Mulher-Maravilha e um dementador gay. Não é um bom presságio para a sobrevivência da espécie.
Viramos no fim da rua de Nick. Eu poderia continuar o caminho de olhos fechados.
— Tudo bem, tenho uma coisa para perguntar — diz Abby.
— Ah, é?
— Martin conversou comigo quando você estava no banheiro.
Sinto algo dentro de mim congelar.
— Aham — digo.
— É, e isso é… Pode ser que eu tenha entendido errado, mas ele começou a falar do baile e tocou no assunto umas três vezes.
— Ele convidou você?
— Não. Assim, acho que talvez ele estivesse tentando, sabe?
O idiota do Martin Addison. Tudo menos sutil.
Mas, nossa, estou tão aliviado por ele não ter contado nada para ela.
— Imagino que ele não tenha chegado a lugar nenhum com isso.
Abby morde o lábio e sorri.
— Ele é um cara legal.
— É, sim.
— Mas é que já vou com o Ty Allen. Ele me convidou duas semanas atrás.
— É mesmo? E como eu não sabia disso?
— Me desculpe. Eu devia ter anunciado no Tumblr? — Ela sorri.
— De qualquer modo, pensei que você talvez pudesse mencionar isso para o Martin. Você é amigo dele, não é? É que prefiro não ter que lidar com um possível convite dele, se puder evitar.
— Vou ver o que posso fazer.
— E você? Ainda vai boicotar o baile? — pergunta Abby.
— Claro.
Leah, Nick e eu achamos o baile terrivelmente brega e nunca vamos.
— Você podia convidar Leah — diz Abby.
Ela olha para mim de lado, com uma expressão estranha e desconfiada.
Sinto uma tempestade de gargalhadas nascendo.
— Você acha que eu gosto da Leah.
— Não sei — diz ela, sorrindo e dando de ombros. — Vocês estavam tão fofos juntos hoje.
— Eu e Leah?
Mas eu sou gay. Gay. Gaaaaaaayyyyyy. Meu Deus, eu devia contar logo para Abby. Consigo visualizar a reação dela. Olhos arregalados. Queixo caído.
É, talvez não esta noite.
— Ei — digo, sem encará-la. — Você acha que algum dia ficaria a fim do Martin?
— Martin Addison? Por que você está perguntando?
— Nada. Sei lá. Ele é ok. — Minha voz sai esganiçada. Parece a do Voldemort. Não acredito que estou fazendo isso.
— Ah, é fofo vocês serem amigos.
Não faço ideia do que responder.
Minha mãe está nos esperando na cozinha quando chegamos, e já começo a me preparar. O problema da minha mãe é que ela é psicóloga infantil. E dá para perceber.
— Me contem sobre a festa, pessoal!
Lá vamos nós. Foi incrível, mãe. O melhor foi o tanto de bebida que tinha na casa do Garrett. Sério, não dá.
Abby é melhor nisso do que eu. Ela inicia uma descrição muito detalhada das fantasias de todo mundo enquanto minha mãe pega um prato enorme de petiscos na bancada. Normalmente às dez horas meus pais já estão dormindo, e minha mãe está visivelmente exausta. Mas eu sabia que ela estaria acordada quando chegássemos. Ela trocaria qualquer coisa por essas oportunidades de ser o tipo de mãe ei, pessoal, eu sou muito legal.
— E Nick tocou violão — conta Abby.
— Nick é tão talentoso — comenta minha mãe.
— É mesmo — responde Abby. — As garotas estavam babando por ele.
— É por isso que vivo falando para o Simon aprender a tocar violão. A irmã dele tocava.
— Eu vou dormir — digo. — Abby, precisa de alguma coisa?
Minha mãe coloca Abby para dormir no quarto de Alice, o que é hilário, considerando que Nick passa noites e mais noites no chão do meu quarto há uns dez anos.
Só consigo relaxar quando chego ao quarto. Bieber já está dormindo ao pé da minha cama, em um ninho de calças jeans e moletons. Minha roupa de dementador acaba em uma pilha no chão. Eu cheguei a mirar no cesto. Mas sou comicamente desajeitado.
Deito na cama sem entrar debaixo das cobertas. Odeio bagunçar o lençol sem necessidade. Sei que é estranho, mas faço a cama todos os dias, embora o resto do quarto seja um elo perdido de
papéis e roupas sujas e livros e amontoados de coisas. Às vezes, sinto como se minha cama fosse um bote salva-vidas.
Coloco os fones de ouvido. Nora e eu dividimos uma parede, então depois que ela vai dormir, eu não escuto mais nada por causa do fone.
Preciso de alguma coisa familiar. Elliott Smith.
Estou desperto e ainda meio elétrico por causa da festa. Acho que foi boa. Não tenho muito com o que comparar. É meio louco pensar que bebi. Sei que é totalmente ridículo me sentir assim só por ter tomado uma única cerveja. Garrett e todos os caras do futebol devem achar loucura parar na primeira. Mas eu não sou eles.
Acho que não vou contar para os meus pais. Tenho quase certeza de que eu não levaria uma bronca se contasse. Não sei. Preciso passar mais tempo na minha cabeça com esse novo Simon. Meus pais têm um talento nato para estragar coisas assim. Eles ficam muito curiosos. Parece que têm uma ideia de mim, e sempre que eu me afasto dessa ideia, eles ficam perdidos. É tão constrangedor que não consigo nem descrever.
Contar para os meus pais foi a parte mais esquisita e horrível de ter uma namorada. Todas as três vezes. Foi pior do que qualquer um dos rompimentos. Nunca vou esquecer o dia em que contei para eles sobre minha namorada do oitavo ano, Rachel Thomas. Meu Deus. Primeiro, eles quiseram ver a foto dela no anuário. Meu pai levou o anuário para a cozinha, onde a iluminação é melhor, e ficou em silêncio absoluto por um minuto inteiro. Em seguida, disse: “Que sobrancelhas, hein?”
Eu não tinha reparado, mas depois disso era a única coisa em que eu conseguia pensar.
Minha mãe ficou obcecada com a ideia de eu ter uma namorada, já que nunca tinha namorado antes. Não sei por que foi uma surpresa tão grande para ela; tenho certeza de que a maioria das pessoas nunca tinha namorado antes de começar a namorar. Ela queria saber como nos conhecemos, o que eu sentia por ela e se precisávamos que ela nos levasse a algum lugar. Ela ficou bizarramente interessada em tudo. E o fato de minhas irmãs nunca terem namorado ou mencionado algum garoto não ajudou nem um pouco, porque parecia que tinha um holofote sobre mim.
Sinceramente, o mais estranho foi como eles fizeram parecer que eu estava saindo do armário. E isso não pode ser normal. Até onde sei, sair do armário não é uma preocupação comum na vida dos garotos héteros.
É isso que as pessoas não entendem. Essa coisa de sair do armário. Não é nem por eu ser gay, porque lá no fundo sei que minha família levaria numa boa. Não somos religiosos. Meus pais são democratas. Meu pai gosta de fazer piadas, e seria constrangedor, sem dúvida, mas acho que tenho sorte. Sei que eles não vão me deserdar nem nada. E tenho certeza de que algumas pessoas da escola pegariam no meu pé, mas meus amigos não se importariam. Leah adora caras gays, então acho que ficaria empolgadíssima.
Mas estou cansado de sair do armário. Tudo que eu faço é sair do armário. Tento não mudar, mas estou sempre vivendo essas pequenas mudanças. Arrumo uma namorada. Tomo uma cerveja. E, todas as vezes, preciso me reapresentar para o universo.