Com amor, Simon

Becky Albertalli · Capítulo 15 de 38

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Com amor, Simon

Capítulo 15

ACHO QUE ESTAMOS transformando isso num hábito só nosso. A leitura de Dickens na WaHo. Abby não está de carro hoje, então vai para casa comigo depois da aula na sexta e leva uma mochila com roupa. Sei que deve ser horrível para Abby morar tão longe, mas adoro quando ela dorme lá em casa.

Como era de se esperar, chegamos antes de Martin. Está mais cheio hoje. Pegamos uma mesa, mas fica perto da entrada, então parece que todo mundo está observando a gente. Abby se senta na minha frente e na mesma hora começa a construir uma casinha com embalagens de geleia e saquinhos de açúcar.

Martin entra e, em sessenta segundos, muda de ideia duas vezes sobre a bebida que vai pedir, arrota e derruba a casinha de açúcar de Abby com um movimento entusiasmado demais.

— Argh. Desculpa. Desculpa — pede ele.

Abby olha para mim e abre um sorrisinho.

— E esqueci meu roteiro — acrescenta Martin. — Merda.

Ele está inspirado hoje.

— Pode ler comigo — diz Abby, se aproximando dele.

A expressão de Martin. Eu quase caio na gargalhada.

Vamos direto para o segundo ato, e o resultado é um pouco menos desastroso do que na semana passada. Pelo menos, não tenho que dar a deixa para todas as falas. Eu começo a divagar.

Estou pensando em Blue, sempre Blue, porque minha mente só divaga em uma direção, na verdade. Recebi outro e-mail dele de manhã. Ultimamente, estamos trocando e-mails quase todos os dias, e é meio louco como ele toma conta dos meus pensamentos.

Quase fiz uma besteira no laboratório de química hoje porque

estava escrevendo mentalmente um e-mail para Blue e esqueci que estava manipulando ácido nítrico.

É estranho, porque os e-mails de Blue eram algo destacado da minha vida real. Mas, agora, talvez sejam minha vida. Em todos os outros momentos parece que estou me arrastando por um sonho.

— Ai, droga, Marty. Não! Para com isso — implora Abby.

De repente, Martin está ajoelhado na cadeira, com a cabeça inclinada para trás, a mão no peito, e cantando. Ele começa a entoar esse grande número musical do segundo ato da peça. Está usando sua voz de Fagin, grave, com vibrato e ligeiramente britânica. E está totalmente entregue ao momento.

As pessoas estão olhando para a gente. E estou sem palavras.

Abby e eu ficamos nos entreolhando no silêncio mais constrangedor que já aconteceu no planeta Terra.

Ele canta a música toda. Acho que andou ensaiando. E aí, não estou de brincadeira, ele se acomoda na cadeira como se nada tivesse acontecido e derrama calda no waffle.

— Nem sei o que dizer para você — comenta Abby.

Ela suspira e o abraça.

Sério, gente, ele parece um personagem de anime. Quase consigo ver corações saltando dos olhos dele. Martin olha para mim, e a grande boca de banana está escancarada em um sorriso. Não consigo evitar sorrir para ele também.

Talvez ele seja meu chantagista pessoal. Talvez também esteja se tornando um amigo. Vai saber se isso é permitido?

* * *

Ou talvez seja só o fato de eu estar me sentindo estranhamente empolgado. Não sei explicar. Tudo é engraçado. Martin é engraçado. Martin cantando na Waffle House é total e incompreensivelmente hilário.

Duas horas depois, damos tchau para ele no estacionamento, e Abby e eu entramos no meu carro e vamos para casa. O céu está escuro e limpo, e trememos de frio por um minuto até o aquecedor começar a funcionar. Dou a ré e pego a Roswell Road.

— Quem está cantando? — pergunta Abby.

— Rilo Kiley.

— Não conheço.

Ela boceja.

Estamos escutando o CD que Leah fez para mim, que tem três músicas da Rilo Kiley. Leah tem uma paixonite pela Jenny Lewis.

Não dá para não ter uma paixonite pela Jenny Lewis, vocalista da banda. Sou vinte anos mais novo do que ela e inquestionavelmente gay, mas, sim, eu daria uns beijos nela.

— O Martin hoje, gente... — diz Abby, balançando a cabeça.

— Que esquisitão.

— Um esquisitão meio fofo.

Viro na Shady Creek Circle. O carro está quentinho agora, e as ruas, quase vazias, e tudo está silencioso, aconchegante e seguro.

— Definitivamente fofo — conclui ela —, mas infelizmente não é o meu tipo.

— Nem o meu — digo, e Abby ri.

Sinto uma pontada no peito. Eu devia contar para ela logo.

Blue vai abrir o jogo para a mãe hoje, ou pelo menos esse é o plano. Eles vão jantar em casa, e ele vai oferecer um pouco de vinho para ela. E aí, vai respirar fundo e contar. Estou nervoso por ele. Talvez com um pouco de inveja. E com uma estranha sensação de perda. Eu meio que gostava de ser o único a saber do segredo dele.

— Abby. Posso te contar uma coisa?

— Claro, o que foi?

A música parece sumir. Paramos em um sinal vermelho, estou esperando para virar à esquerda e só consigo ouvir o estalo frenético da seta piscando.

Acho que meu coração está batendo no mesmo ritmo.

— Você não pode contar para ninguém — acrescento. —

Ninguém sabe.

Ela não fala nada, mas percebo que está se virando para mim. As pernas estão dobradas no banco. Ela espera.

Eu não planejava fazer isso hoje.

— Então. É o seguinte. Eu sou gay.

É a primeira vez que digo isso em voz alta. Hesito, com as mãos no volante, e espero sentir alguma coisa extraordinária. O sinal fica verde.

— Ah — diz Abby.

E, em seguida, há uma pausa densa, carregada.

Faço uma curva à esquerda.

— Simon, pare o carro.

Há uma pequena padaria à direita, e eu paro na entrada. Está fechada agora. Eu coloco o carro em ponto morto.

— Suas mãos estão tremendo — diz Abby, baixinho.

Ela puxa meu braço, levanta a manga do meu casaco e coloca a mão sobre a minha. Sentada de pernas cruzadas no banco, Abby se vira de lado e fica de frente para mim. Mal olho para ela.

— É a primeira vez que você conta para alguém? — pergunta ela, um instante depois.

Faço que sim.

— Uau. — Ela respira fundo. — Simon, eu me sinto honrada.

Eu me recosto no banco, suspiro e me viro para ela. O cinto de segurança me incomoda. Puxo a mão, fazendo Abby soltá-la. Então, seguro de novo a mão dela, que entrelaça os dedos nos meus.

— Você está surpresa? — pergunto.

— Não.

Ela me olha intensamente. Iluminados apenas pela luz dos postes, os olhos de Abby são quase só as pupilas, com um contorno castanho e fino.

— Você sabia?

— Não, nem desconfiava.

— Mas não está surpresa.

— Você quer que eu fique surpresa?

Ela parece nervosa.

— Não sei — respondo.

Ela aperta minha mão.

Eu queria saber como estão indo as coisas com Blue. Queria saber se Blue, assim como eu, está sentindo o estômago dar cambalhotas. Na verdade, ele deve estar sentindo bem mais do que isso. Deve estar tão nauseado que quase não consegue colocar as palavras para fora. Meu Blue.

É estranho. De certa forma, sinto como se eu tivesse feito isso por ele.

— O que você vai fazer? — pergunta Abby. — Vai contar para as pessoas?

Eu hesito.

— Não sei. — Nunca pensei nisso. — Mas acho que vou acabar contando, sim.

— Tudo bem. Olha, eu amo você — diz ela.

Ela me cutuca na bochecha. E vamos para casa.