Com amor, Simon

Becky Albertalli · Capítulo 17 de 38

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Com amor, Simon

Capítulo 17

(Não estou brincando.)

Blue

<ENVIADO 14 DEZ 12:12>

 

TENHO QUE ME encontrar com ele.

Acho que não consigo continuar assim. Não me importo de estragar tudo. Estou quase agarrando a tela do laptop.

Blue Blue Blue Blue Blue Blue Blue.

Sério, parece que vou entrar em combustão.

Passo o dia todo na escola com um nó no estômago, o que não faz sentido, porque não há motivo para isso. Porque, na verdade, são só palavras em uma tela. Eu nem sei a porcaria do nome dele.

Acho que estou meio que me apaixonando.

Durante todo o ensaio, fico olhando para Cal Price na esperança de que ele faça alguma coisa que me dê uma dica. Qualquer coisa.

Ele pega um livro, e meus olhos vão direto para o nome do autor na capa. Porque talvez o livro seja o da bosta do Casanova, e só conheço uma pessoa que tem um livro escrito pela bosta do Casanova.

Mas é Fahrenheit 451. Provavelmente, para a aula de literatura.

Como deve ser uma pessoa quando os muros dela estão desabando?

Hoje ninguém está conseguindo se concentrar muito, tudo porque um aluno do primeiro ano entrou escondido no laboratório de química e ficou com o pinto preso em um béquer. Sei lá, sabe.

Parece que postaram no Tumblr. Mas acho que a sra. Albright está cansada de ouvir essa história, então nos deixa sair mais cedo.

Ainda está claro quando estaciono na porta de casa. Bieber quase explode de alegria quando me vê. Parece que sou o primeiro a chegar em casa. Fico curioso para saber onde Nora está. É bem esquisito que ela não esteja em casa, para falar a verdade.

Estou agitado demais. Nem tenho vontade de lanchar. Nem de comer Oreo. Não consigo ficar sentado. Mando uma mensagem para Nick perguntando o que ele está fazendo, embora eu já saiba que está jogando video game no porão, porque é isso que ele sempre faz nas tardes antes do início da temporada de futebol. Ele diz que Leah está indo para lá. Então, coloco a coleira em Bieber, saio e tranco a porta.

Leah está estacionando quando chegamos. Ela abre a janela e chama Bieber, que imediatamente me abandona para ir até ela.

— Oi, docinho.

Ele apoia as patas na porta do carro e dá uma lambida educada no rosto dela.

— Você só saiu agora do ensaio? — pergunta Leah enquanto andamos até o porão de Nick.

— Saí. — Giro a maçaneta e abro a porta. — Bieber. NÃO.

Venha.

Parece que ele nunca viu um esquilo na vida. Santo Deus.

— Nossa. Então são, tipo, duas horas por dia, três dias por semana?

— São quatro dias por semana agora. Menos na sexta. E

ensaiamos o dia inteiro no sábado.

— Uau.

Nick desliga a TV quando entramos.

— Assassin’s Creed? — pergunta Leah, apontando para a TV.

— É — responde Nick.

— Legal.

Eu apenas ignoro. Não dou a mínima para video games.

Eu me deito no chão ao lado de Bieber, que está de costas e com uma expressão absurda, os lábios repuxados, mostrando as gengivas. Nick e Leah começam a conversar sobre Doctor Who, e Leah se encolhe na poltrona e começa a puxar a barra desfiada da calça jeans. As bochechas estão meio rosadas embaixo das sardas, e ela está falando sobre algo que a deixa muito empolgada. Os dois estão completamente absortos na filosofia das viagens no tempo.

Enquanto isso, eu relaxo, fecho os olhos. E penso em Blue.

Está bem, estou apaixonadinho. Mas não é como ter uma paixonite por um músico qualquer ou por um ator ou pela droga do

Harry Potter. É de verdade. Tem que ser. É quase debilitante.

Estou deitado no porão de Nick, o local de tantas transformações de Power Rangers e batalhas de sabres de luz e copos de suco derramados, mas tudo que quero no mundo é que o próximo e-mail de Blue chegue. E Nick e Leah ainda estão conversando sobre a porcaria da TARDIS. Eles não fazem ideia do que está acontecendo comigo. Nem desconfiam de que sou gay.

E não sei como contar para eles. Depois que contei para Abby na sexta, pensei que seria mais fácil contar para Leah e Nick. Um pouco mais fácil, pelo menos, agora que minha boca se acostumou a dizer as palavras.

Não é mais fácil. É impossível. Porque, apesar de eu ter a sensação de que conheço Abby desde sempre, eu só a conheço faz quatro meses. E acho que não deu tempo de ela ter ideias predeterminadas a meu respeito. Mas sou amigo de Leah desde o sexto ano, e de Nick desde que tínhamos quatro anos. E essa coisa gay. Parece tão importante. É quase intransponível. Não sei como contar uma coisa assim para eles e continuar me sentindo o mesmo Simon. Porque, se Leah e Nick não me reconhecerem, eu também não vou mais me reconhecer.

Meu celular vibra. Mensagem do Martírio Abominável: ei que tal mais Waffle House qualquer dia desses?

Eu ignoro.

Odeio me sentir tão distante de Nick e Leah. A questão não é nem omitir uma paixonite normal, porque nunca falamos sobre essas coisas e isso sempre funcionou para a gente. Eu percebo e tenho certeza de que Nick percebe que Leah é a fim dele, mas há um pacto implícito estabelecendo que nunca falaremos a respeito disso.

Não sei por que não é assim com essa coisa toda de ser gay. Não sei por que sinto como se estivesse vivendo uma vida secreta ao esconder isso deles.

Meu celular vibra. É meu pai ligando. O que provavelmente significa que o jantar está na mesa.

Odeio me sentir tão aliviado.

Vou acabar contando para Nick e Leah mais cedo ou mais tarde.

* * *

Passo o primeiro sábado do recesso de Natal na escola. Todo mundo está sentado em um grande círculo no palco, vestindo pijama, comendo donuts e tomando café em copos de isopor. Eu, por outro lado, estou ao lado de Abby na beirada do palco, os pés pendendo acima do fosso da orquestra, as pernas dela no meu colo.

Meus dedos estão grudentos por causa do açúcar. Eu me sinto tão distante dali... Observo os tijolos. Alguns dos tijolos na parede de trás do auditório têm um tom mais escuro, quase marrom, e formam um desenho de dupla hélice de DNA. É tão aleatório. E ao mesmo tempo tão estranhamente deliberado.

Dupla

hélice

é

um

negócio

interessante.

Ácido

desoxirribonucleico. Vou pensar nisso.

Tentar não pensar em uma coisa é como brincar daquele jogo de martelar a toupeira. Cada vez que você bate em uma, outra surge na superfície.

No meu caso, são duas toupeiras. Uma é o fato de que já encontrei Nick e Leah depois do ensaio três dias nesta semana, o que significa que tive três chances de contar para eles que sou gay, mas amarelei nas três. E tem Blue, com sua gramática perfeita, que não tem ideia de quantas vezes eu reviso cada e-mail que mando para ele. Blue, que é tão contido, mas tão surpreendentemente galanteador às vezes. Que pensa em sexo e pensa em sexo comigo.

Mas, enfim: dupla hélice. Espirais tortas, curvas e duplas.

Martin entra pela porta dos fundos do auditório. Está usando uma camisola comprida e antiquada e bobes no cabelo.

— Ah. Uau. Ele está mesmo… Nossa.

Abby assente e sorri para Martin, que dá uma pirueta e acaba tropeçando na barra da camisola. Ele se segura no braço de uma cadeira e dá um sorriso triunfante. Esse é o Martin. Tudo é parte do show para ele.

A sra. Albright se junta ao círculo no palco e pede atenção. Abby e eu nos aproximamos também. Acabo sentado ao lado de Martin e sorrio para ele, que dá um soco de leve no meu braço, mas sempre

olhando para a frente, como um pai acompanhando o jogo de beisebol do filho. Um pai que se veste feito a minha avó.

— O plano é o seguinte, gangue do pijama — diz a sra. Albright.

— Hoje vamos dar os toques finais nos números musicais. Primeiro os números com elenco grande, depois vamos nos dividir em grupos menores. Paramos para uma pizza ao meio-dia e depois repassamos a peça toda.

Cal está sentado em uma plataforma, anotando alguma coisa na margem do roteiro.

— Alguma pergunta? — indaga ela.

— Quem já decorou tudo precisa ficar com os roteiros para fazer anotações? — pergunta Taylor, só para deixar claro para todo mundo que ela já decorou as falas.

— Hoje de manhã, sim. De tarde, não. Vamos falar das anotações quando terminarmos. Quero ensaiar os dois atos seguidos, em uma só tacada. Obviamente, vai ser meio confuso, mas tudo bem. — Ela boceja. — Certo. Vamos começar com “Food, Glorious Food” daqui a cinco minutos.

Antes que consiga me convencer do contrário, vou até Cal e me sento ao lado dele. Bato em seu joelho de leve.

— Bolinhas legais — comento, referindo-me à estampa de sua camiseta.

Ele sorri.

— Labradores legais — retruca ele, referindo-se à estampa de minha calça.

Sabe, ele é tão fofo que vou deixar passar, mas os cachorros na minha calça são claramente golden retrievers.

Dou uma espiada no roteiro dele.

— O que você está desenhando?

— Ah, isso aqui? Sei lá.

Ele tira a franja da testa e fica vermelho, e, pelo meu bom Deus, como ele é lindo.

— Eu não sabia que você desenhava.

— Um pouco.

Ele dá de ombros e vira o fichário para mim.

Cal tem um estilo de desenho cheio de movimento, ângulos e traços espessos. Não é ruim. Os desenhos de Leah são melhores.

Mas isso não tem importância — o que realmente chamou minha atenção foi o fato de ele ter desenhado um super-herói.

Um super-herói. Acho que meu coração chega a parar um pouco.

Blue adora super-heróis.

Blue.

Chego um pouco mais perto, e nossas pernas se tocam de leve.

Não sei se ele repara.

Não sei por que estou sendo tão corajoso hoje.

Tenho 99,9% de certeza de que Cal é Blue. Mas tem uma fração de chance de não ser. Por algum motivo, não consigo abrir o jogo e perguntar para ele de uma vez.

Então me limito a dizer:

— Como está o café?

— Bem gostoso, Simon. Bem gostoso.

Levanto o rosto de repente e percebo que Abby está muito interessada na minha conversa com Cal. Faço uma cara feia para ela, que desvia o olhar, mas está com um sorrisinho desconfiado que acaba comigo.

* * *

A sra. Albright manda uma parte do grupo para a sala de música e coloca Cal no comando. É a situação perfeita.

Para chegar lá, temos que passar pelas salas de matemática e de biologia e descer as escadas dos fundos. Tudo fica escuro e apavorante e incrível aos sábados. A escola está totalmente vazia.

A sala de música fica em um cantinho no final do corredor do andar de baixo. Eu era do coral e passei um tempo indo lá. Nada mudou.

Tenho a impressão de que não muda há vinte anos.

Três fileiras de cadeiras em plataformas embutidas contornam as laterais da sala, como a metade de um hexágono. No centro, há um grande piano vertical de madeira. Há um cartaz plastificado preso na frente, nos lembrando de manter a postura ereta. Cal se senta na ponta do banco do piano e alonga os braços.

— Então, hã, talvez a gente possa começar com “Consider Yourself” ou “Pick a Pocket or Two” — sugere, esfregando o pé na

perna do banco.

Ele parece um tanto perdido. Martin tenta colocar os bobes no rabo de cavalo de Abby, mas ela cutuca a barriga dele com uma baqueta, e algumas pessoas pegaram violões e começaram a tocar músicas pop aleatórias.

Ninguém está prestando atenção em Cal além de mim. Ah, e Taylor.

— Você quer que a gente tire esses púlpitos? — pergunto.

— Hã, quero. Seria ótimo — diz ele. — Obrigado, pessoal.

Tem uma folha de papel em um deles que chama minha atenção; é laranja neon e tem as palavras SET LIST escritas em preto.

Embaixo, há uma lista de músicas, todas clássicas e incríveis, como “Somebody to Love” e “Billy Jean”.

— O que é isso? — pergunta Taylor.

Eu dou de ombros e entrego o papel a ela.

— Acho que não era para isso estar aqui — diz ela, e joga fora.

É claro que ela acha isso. Taylor é inimiga de tudo que é legal.

Cal está com o laptop da sra. Albright, que tem gravações do piano de acompanhamento de todas as músicas. Todo mundo colabora e repassa todas as canções, e nem é desastroso. Por mais que eu odeie admitir, talvez Taylor seja a melhor voz de toda a escola, tirando Nick, e Abby dança tão bem que consegue levar o grupo todo nas costas. E qualquer coisa que Martin faça é estranho, absurdo e hilário. Ainda mais se ele estiver de camisola.

Falta quase uma hora para nos reunirmos novamente no auditório, e deveríamos repassar tudo mais uma vez, mas fala sério.

É sábado, estamos em uma escola vazia e escura e somos um bando de alunos de teatro de pijama e entupidos de donuts.

Acabamos cantando músicas da Disney na escada. Abby sabe a letra inteira de todas as músicas de Pocahontas, e todo mundo sabe as de O Rei Leão, Aladdin e A Bela e a Fera. Taylor consegue improvisar as harmonias, e acho que estamos tão aquecidos de tanto cantar as músicas de Oliver! que o resultado é incrível. E a acústica da escada é demais.

Depois disso, subimos a escada, e Mila Odom e Eve Miller pegam umas cadeiras com rodinhas da sala de informática. É bem

conveniente que Creekwood tenha corredores tão compridos e retos.

Eis a felicidade completa: segurar a base de uma cadeira de rodinhas com as duas mãos enquanto Cal me empurra pelo corredor a toda velocidade. Competimos contra duas alunas do primeiro ano que fazem parte do elenco. Cal é uma pessoa meio lenta, então elas acabam levando vantagem na corrida, mas não me importo. As mãos dele seguram meus ombros, e nós estamos rindo; as fileiras de armários se tornam uma mancha azul, feito pasta de dente. Estico as pernas, e paramos. E acho que tenho que me levantar. Levanto a mão para bater na de Cal, mas ele entrelaça os dedos nos meus por um segundo. Em seguida, olha para baixo e sorri, e os olhos estão escondidos pela franja. Soltamos as mãos, e meu coração está disparado. Preciso olhar para outra coisa.

Em seguida, Taylor, logo Taylor, se senta em uma das cadeiras. O

cabelo louro voa enquanto Abby a empurra, e elas são as campeãs indiscutíveis. Abby e seus músculos das pernas, eu acho. Eu não fazia ideia de que ela era tão rápida.

Abby desaba em cima de mim, rindo e ofegando, e escorregamos até o chão, recostados nos armários. Ela apoia a cabeça no meu ombro, e passo o braço por suas costas. Leah tem certa repulsa a contato físico, e há um acordo silencioso entre mim e Nick, então nós simplesmente não nos tocamos muito. Mas Abby gosta de abraçar; eu também sou um pouco assim, e isso é legal. Tudo foi muito natural e confortável entre nós desde aquela noite no carro depois da Waffle House. É gostoso me sentar ao lado de Abby e sentir o aroma mágico de canela que ela emana enquanto vemos os mais novos se revezarem correndo nas cadeiras.

Abby e eu ficamos assim por tanto tempo que meu braço começa a ficar dormente. Mas só quando estamos prestes a voltar para o auditório é que percebo que duas pessoas estavam nos olhando.

A primeira é Cal.

A segunda é Martin, e ele parece bastante transtornado.

* * *

— Spier. Precisamos conversar — diz Martin, me puxando para uma escadaria.

— Agora? Porque a sra. Albright quer que…

— É, a sra. Albright pode esperar um pouco.

— Tudo bem. O que foi?

Eu me encosto no corrimão e olho para ele. A escada está escura, mas meus olhos estão acostumados, e percebo a tensão no maxilar de Martin. Ele para e espera até os outros se afastarem e não conseguirem mais ouvir.

— Você deve estar achando isso tudo uma piada das boas — diz ele, baixinho.

— Como assim? — pergunto.

Ele não desenvolve o raciocínio.

— Não faço a mínima ideia do que você está falando — digo.

— Ah, claro que não.

Martin cruza os braços e segura os cotovelos. Está com uma expressão de ódio no rosto.

— Marty, sério. Não sei por que você está tão chateado. Se quiser me contar, ótimo. Se não quiser, não tenho nada para dizer.

Ele bufa bem alto e se encosta no corrimão.

— Você está tentando me humilhar. E, acredite, eu entendo. Sei que você não estava cem por cento comprometido com nosso acordo…

— Nosso acordo? Você está falando da sua chantagem? É, não estou comprometido com a sua chantagem, se é o que você quer saber.

— Você acha que estou chantageando você?

— Como é que você chamaria o que está acontecendo?

Mas é engraçado. Não estou com raiva dele de verdade. Um pouco perplexo no momento, mas não com raiva.

— Olha. Acabou. Aquela história da Abby acabou, tá? Pode esquecer essa merda toda.

— Aconteceu alguma coisa com a Abby? — pergunto, hesitante.

— É, aconteceu alguma coisa com a Abby. Ela me rejeitou.

— O quê? Quando?

Martin se levanta de repente, com o rosto vermelho.

— Uns cinco minutos antes de ela se jogar em cima de você —

diz ele.

— O quê? Olha, não é o que…

— Quer saber? Deixa pra lá, Spier. Na verdade, sabe o que você pode fazer? Dizer para a sra. Albright que eu a vejo em janeiro.

— Você vai embora? — pergunto.

Eu realmente não sei o que está acontecendo. Ele mostra o dedo do meio enquanto se afasta. Nem se vira para olhar para mim.

— Martin, você…

— Feliz Natal de merda, Simon — diz ele. — Espero que esteja feliz.