Com amor, Simon

Becky Albertalli · Capítulo 7 de 38

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Com amor, Simon

Capítulo 7

QUARTA-FEIRA É DIA de Troca-Troca na escola, o que basicamente se resume a galera hétero fazendo crossdresser. Não é meu dia favorito.

Estamos assistindo a Noite de Reis no primeiro tempo, porque todo professor de literatura é também um comediante. A sala de aula do sr. Wise tem um sofá caindo aos pedaços e que fede a cerveja, e tenho certeza de que tem gente que entra na sala escondido para fazer sexo e esfregar seus fluidos nele. É esse tipo de sofá. O verdadeiro mistério é que todos nós lutamos até a morte para nos sentarmos nele a cada aula, porque tudo fica um milhão de vezes mais suportável quando você não está em uma carteira.

Hoje, o sofá foi ocupado por garotos do futebol com uniformes de líderes de torcida de Creekwood. Especificamente, Nick, Garrett e Bram. É o que os atletas costumam fazer no Troca-Troca. Só temos umas vinte líderes de torcida, então não faço ideia de como elas suprem a demanda dos garotos. Talvez cada uma tenha dez uniformes. Vai saber no que a escola gasta dinheiro...

Mas tenho que admitir que tem algo de incrível em panturrilhas de jogadores de futebol e tênis surrados aparecendo por baixo de saias pregueadas de líderes de torcida. Não consigo acreditar que Bram Greenfeld tenha se fantasiado. Bram, que senta na mesma mesa que eu no almoço. Ele é o garoto negro caladão que em teoria é muito inteligente, mas nunca o ouvi falando, só quando é obrigado. Ele está encostado no canto do sofá, empurrando um dedão do pé contra o outro, e eu nunca tinha reparado, mas ele até que é meio fofo.

O sr. Wise já colocou o filme quando Abby entra correndo na sala.

Somando a torcida, a peça e todos os comitês de que participa, ela sempre tem um motivo para chegar atrasada no primeiro tempo, sem nunca levar bronca. Leah sempre se irrita com isso, principalmente porque as pessoas do sofá sempre parecem dispostas a abrir espaço para Abby sentar.

Ela dá uma olhada nas pessoas do sofá e cai na gargalhada. E

Nick parece tão ridiculamente satisfeito. A expressão no rosto dele é a mesma do dia em que ele encontrou um osso de dinossauro enterrado no parquinho do fundamental.

No fim das contas era um osso de galinha, mas ainda assim.

— Que porcaria é essa? — pergunta Abby ao sentar atrás de mim. Ela está de terno e gravata e com uma barba comprida estilo Dumbledore. — Vocês não se fantasiaram!

— Estou com grampos no cabelo — observo.

— Ah, sei. Não dá nem pra ver. — Ela se vira para Leah. — E

você está de vestido?

Leah olha para ela e dá de ombros, sem se explicar. Usar uma roupa extremamente feminina no Troca-Troca é o tipo de coisa que Leah faz. É o jeito dela de ser subversiva.

A questão é a seguinte: eu teria deixado as porcarias dos grampos de cabelo na gaveta de Alice, onde os encontrei, se achasse que fosse passar despercebido. Mas todo mundo sabe que eu participo desse tipo de besteira. De forma irônica, é claro, mas participo. Seria estranhamente suspeito se eu não usasse nada do sexo oposto hoje. E o engraçado é que são os caras mais héteros, mais caretas e mais atléticos que acabam caprichando na caracterização. Acho que eles se sentem tão seguros quanto à masculinidade que nem ligam.

E eu odeio quando as pessoas dizem isso. Eu também me sinto seguro quanto à minha masculinidade. Sentir-se seguro quanto à masculinidade não é a mesma coisa que ser hétero.

Acho estranho me vestir de menina. O que ninguém sabe, nem Blue, é que me vestir de mulher tem todo um significado para mim.

Não sei como explicar nem aceitar isso, mas não esqueço a sensação da seda e do frescor nas pernas. Eu sempre soube que era garoto e nunca quis ser outra coisa, mas, quando era mais novo,

eu acordava à noite em abril já sonhando com o Halloween.

Experimentava minha fantasia umas dez vezes em outubro e, durante todo o mês de novembro, sonhava obsessivamente em tirá-la do armário mais uma vez. Só que nunca ultrapassei esse limite.

Não sei. Eu me lembro tão claramente desses sentimentos, e a intensidade deles me causa certa vergonha. Talvez seja por isso que não consigo aguentar a ideia de me vestir de mulher agora. Não gosto nem de pensar muito no assunto. Muitas vezes, não consigo acreditar que aquele era eu.

A porta da sala se abre, e ali está Martin Addison, emoldurado pela luz intensa do corredor. Ele conseguiu arrumar um uniforme de líder de torcida e até se deu ao trabalho de colocar seios bizarramente realistas. Martin é muito alto, então a quantidade de pele à mostra chega a ser bem obscena.

Alguém na fileira de trás assobia.

— Ficou gostosa, hein, Adderall.

— Está atrasado, sr. Addison. Vá à diretoria pegar uma autorização para assistir à aula — ordena o sr. Wise.

E talvez sejam apenas as palavras de Leah me contaminando, mas não consigo deixar de achar injusto Abby não receber a mesma punição.

Martin estica o braço até o batente da porta como se estivesse pendurado em uma barra, e a parte de cima do uniforme sobe ainda mais. Algumas garotas dão risadinhas, e Martin sorri e fica vermelho. Juro por Deus, aquele garoto faz qualquer coisa por uma gargalhada barata. Mas acho que isso faz dele uma pessoa meio genial, porque nunca conheci um nerd tão amado pelos populares.

Não vou mentir: eles adoram sacanear o cara. Mas ninguém o maltrata. É como se ele fosse a mascote da galera.

— Quando você quiser, sr. Addison — diz o sr. Wise.

Ele puxa a blusa para baixo, ajeita os peitos e sai da sala.

* * *

Na sexta-feira, o corredor em que ficam as salas de matemática e biologia está coberto de feno. Deve ter uma camada de uns oito

centímetros. Alguns fios se projetam da abertura de ventilação no meu armário e parece subir terra do chão. Até a luz está diferente.

O tema do evento é música, e, de todos os gêneros no mundo, o segundo ano foi escolher logo o country. Só na Georgia mesmo. E é por isso que estou de bandana e chapéu de caubói. Por causa do maldito espírito escolar.

Tudo bem. É verdade que os eventos de boas-vindas são um saco e a música country é constrangedora, mas estou apaixonado pelo feno. Apesar de isso significar que Anna e Taylor Metternich e todos os outros asmáticos vão ter que faltar às aulas de biologia e matemática hoje. Mas o feno muda tudo. O corredor parece outro universo.

Na hora do almoço, eu quase tenho um treco. O pessoal do primeiro ano. Eles são ridículos e fofos, e, ai, meu Deus. Não consigo parar de rir. O gênero musical deles é o emo, e o refeitório virou basicamente um mar de franjas, pulseiras e lágrimas. Ontem à noite, implorei para Nora colocar peruca preta e passar lápis no olho e, por favor, pelo menos uma blusa do My Chemical Romance. Nora olhou para mim como se eu tivesse sugerido que ela fosse pelada.

Avisto minha irmã do outro lado do refeitório. Seu cabelo louro cacheado é o oposto de emo, mas parece que ela aderiu ao lápis de olho estilo guaxinim. Provavelmente porque todo mundo está usando também. Ela é uma ótima camaleoa.

Difícil acreditar que essa é a mesma pessoa que uma vez insistiu em se fantasiar de lata de lixo.

Martin está na mesa bem em frente à nossa, usando um macacão jeans. Quem tem um macacão jeans? Ele tenta fazer contato visual comigo, mas eu desvio o olhar na mesma hora. Evitar Martin, a essa altura, virou uma reação involuntária.

Eu me sento perto de Leah e Garret, que estão discutindo, agora em cima de mim.

— Quem é esse? — pergunta Leah.

— É sério que você nunca ouviu falar de Jason Aldean? —

retruca Garrett.

— Não mesmo.

Garrett dá um tapa na mesa. Eu o imito, e ele dá um sorriso envergonhado para mim.

— Oi — diz Nick, sentando-se à minha frente e abrindo um saco de papel com seu almoço. — Andei pensando. Acho que devíamos ir ao jogo hoje.

— Você só pode estar de brincadeira — comenta Leah.

Nick olha para ela.

— E a WaHo? — insiste ela.

Sempre vamos à Waffle House durante os jogos de futebol americano.

— O que é que tem? — pergunta Nick.

A cabeça de Leah está levemente abaixada e os olhos estão um tanto assustadores; os lábios, repuxados em uma linha reta. Todo mundo fica em silêncio por um momento.

E talvez eu esteja sendo um pouco inconveniente, mas acho que não é exatamente em Leah que estou pensando quando digo:

— Eu topo ir ao jogo.

Porque sei que Blue vai estar lá. Gosto da ideia de estar na mesma arquibancada que ele.

— É sério isso? — pergunta Leah. Sinto o olhar dela em mim, mas faço questão de ficar virado para a frente e não fazer contato visual. — Até tu, Brutus?

— Santa reação exagerada, Batman — começa Nick.

— Cala a boca — interrompe Leah.

Garrett dá uma gargalhada nervosa.

— Eu perdi alguma coisa? — Abby chega e nos encontra imersos em um silêncio denso e estranho. Ela se senta ao lado de Nick. — Está tudo bem?

— Sim, tudo bem.

Nick olha para ela e fica com as bochechas meio coradas.

— Tudo bem — diz ela, e sorri. Abby não está de chapéu de caubói. Está com uma pilha inteira de chapéus de caubói. — E aí, animados para o jogo de hoje?

Leah se levanta de repente, empurra a cadeira para trás e sai sem dizer uma palavra.

* * *

O jogo começa às sete, mas tem um desfile às seis. Vou até a casa de Nick depois da aula e vamos juntos de carro para a escola.

— Estamos mesmo na lista negra de Leah — digo, quando entramos na avenida que leva a Creekwood.

Já há carros estacionados dos dois lados da rua, o que indica que o estacionamento está cheio. Parece que muita gente gosta de futebol americano.

— Ela vai superar — diz ele. — Aquilo é uma vaga?

— Não, tem um hidrante.

— Merda. Tudo bem. Caramba, está lotado.

Acho que é a primeira vez que Nick vai a um jogo. Com certeza é o meu caso. Demoramos mais dez minutos para encontrar uma vaga onde ele possa estacionar de frente, já que ele odeia entrar de ré. No fim das contas, temos que andar um milhão de quilômetros na chuva para chegar à escola, mas descubro que os chapéus de caubói têm alguma utilidade, afinal.

É a primeira vez que reparo nas luzes do estádio. Elas sempre estiveram ali, e já devo tê-las visto acesas antes. Só nunca percebi o quanto são incrivelmente intensas. Blue adora. Será que ele já está no meio da multidão? Pagamos dois dólares por cada ingresso e entramos. A banda toca um medley surpreendentemente incrível de músicas da Beyoncé enquanto faz uma dancinha meio desajeitada. E acho que entendo por que Blue adora isso tudo. A sensação realmente é de que qualquer coisa pode acontecer.

— Aí estão vocês! — diz Abby, correndo na nossa direção. Ela dá um abraço apertado em cada um de nós. — Acabei de mandar mensagem. Querem participar do desfile?

Nick e eu nos entreolhamos.

— Tudo bem — respondo.

Ele dá de ombros.

Seguimos Abby até o estacionamento dos professores, onde um grupo de alunos do grêmio estudantil está reunido ao redor do carro alegórico dos calouros. Foi construído sobre uma caçamba de trailer e tem uma moldura atrás. Tem um ar country mesmo. Fardos de feno forram toda a superfície do trailer, em pilhas mais altas nos fundos, e tem bandanas vermelhas amarradas por toda a lateral.

Tudo coberto de piscas-piscas. Uma música country-pop anasalada explode pelas caixas de som de algum iPod.

Abby comanda tudo, claro. Ela está no carro com algumas outras líderes de torcida, usando saia curta de brim e camisa de flanela amarrada com a barriga à mostra. Tem uns caras de macacão jeans, inclusive um sentado em um fardo de feno fingindo tocar violão. Dou um sorrisinho para Nick, porque nada o deixa mais irritado do que alguém fingindo tocar violão. Ainda mais alguém que nem se dá ao trabalho de mexer os dedos.

Uma garota chamada Maddie, do grêmio, nos enfileira atrás do carro, e alguém nos dá pedaços de palha para ficarmos mordendo.

— Vocês têm que cantarolar também — diz Maddie, com uma expressão séria. — Seremos avaliados pelo conjunto.

— E gaí, gara? — murmuro para Nick, que solta uma risada debochada. Não dá para fazer muita coisa com um fiapo de palha entre os dentes.

Maddie parece em pânico.

— Ai, meu Deus. Pessoal, mudança de planos. Nada de palha.

Todos vocês, tirem a palha da boca. Está ótimo. Cantem alto. E

lembrem-se de sorrir.

De repente, o carro se desloca pelo estacionamento e para próximo a uma monstruosidade do rock‘n’roll que os alunos do segundo ano montaram. Vamos logo atrás, seguindo a orientação de Maddie, que grita palavras de apoio e berra uns “uhul” aleatórios quando as coisas ficam silenciosas demais. O desfile sai do terreno da escola e contorna um quarteirão antes de retornar à pista em volta do campo. As luzes estão brilhando, as pessoas estão gritando, e não consigo acreditar que Nick e eu viemos parar no meio disso aqui. É tão cafona. Sinto que preciso fazer algum comentário para deixar claro como tudo isso é ridículo. Mas, sabe?

Até que é bom não ter que ser tão crítico, pelo menos uma vez na vida.

Acho que sinto como se fizesse parte de alguma coisa.

Assim que o desfile termina, Abby e as outras líderes de torcida correm para o banheiro para vestir os uniformes, e Nick e eu damos uma olhada na arquibancada. Os rostos se misturam em um borrão, e é difícil reconhecer alguém. Chega a ser sufocante.

— O time de futebol está ali — diz Nick, apontando para a esquerda, algumas fileiras abaixo do topo.

Eu o sigo pela escada de concreto, e acabamos tendo que nos espremer entre algumas pessoas para chegarmos a eles. Meu Deus. Quando você pensa que já vivenciou todo tipo de constrangimento que existe... Aí vem o desafio de encontrar um assento livre. Garrett se espreme ao lado de Bram para abrir espaço, mas ainda estou praticamente sentado no colo de Nick, e tenho certeza absoluta de que isso não vai dar certo. Eu me levanto na mesma hora, me sentindo incomodado e envergonhado.

— Tudo bem — digo. — Vou me sentar com o pessoal do grupo de teatro.

Vejo o cabelo platinado e superescovado de Taylor duas fileiras à frente, próximo à escada, e ao lado dela estão Emily Goff e mais algumas pessoas do grupo. Uma delas é Cal Price. Meu coração dispara na mesma hora. Eu sabia que Cal estaria aqui.

Desço a escada, sentindo todos os olhares do estádio em cima de mim, e me estico todo para cutucar o ombro de Cal por baixo do corrimão.

— E aí, Simon? — diz ele.

Gosto que ele me chame de Simon. Muita gente me chama de Spier. Eu não me importo, mas sei lá. Sinceramente, acho que Cal Price poderia me chamar de qualquer coisa.

— Oi. Posso me sentar com vocês?

— Claro. — Ele chega um pouco para o lado. — Tem bastante espaço.

Pronto. Não vou precisar sentar no colo dele. Fico até um pouco decepcionado.

Passo um minuto inteiro tentando pensar em alguma coisa para dizer. Meu cérebro parece embaçado.

— Acho que nunca vi você por aqui — comenta Cal, afastando a franja dos olhos.

Sério, eu não aguento. A franja de Cal. Os olhos de Cal. O fato de que ele aparentemente repara em mim o bastante para saber que não vou aos jogos de futebol.

— É minha primeira vez — digo.

Porque sempre tenho que dizer a coisa mais virgem possível.

— Que legal. — E ele está tão calmo. Não está nem olhando para mim, porque consegue falar e assistir ao jogo ao mesmo tempo. —

Gosto de vir sempre que posso. Pelo menos no jogo de boas-vindas.

Procuro pensar em uma forma de perguntar aquilo que não posso perguntar. Talvez, se eu mencionasse algo sobre o cheiro no ar, só para ver como ele reagiria... Mas se eu disser isso e Cal for mesmo Blue, ele saberia na hora que eu sou Jacques. E acho que não estou pronto para isso.

Mas estou absurdamente, ridiculamente, loucamente curioso.

— Ei.

De repente, uma pessoa se senta ao meu lado na arquibancada.

É Martin. Eu deslizo para o lado automaticamente, para abrir espaço.

— Adderall — grunhe um cara atrás de nós, bagunçando o cabelo de Martin.

Martin sorri para ele e ajeita o cabelo, ou tenta, e aperta os lábios.

— Qual é a boa, Spier?

— Nenhuma — respondo, e meu coração despenca.

Ele se vira para mim, e está claramente a fim de conversar. Já era a interação com Cal. Já era o ar com cheiro de possibilidades.

— Então, aquele lance da Abby...

— O que é que tem?

— Eu a convidei para o baile — diz ele, superbaixo —, mas ela não aceitou.

— Ah, sei. Foi mal. Que saco.

— Você sabia que ela já tinha companhia?

— Hã, é, acho que sim. Foi mal — repito.

Eu deveria ter avisado Martin.

— Tem como me avisar da próxima vez, só para eu evitar o constrangimento?

Ele parece arrasado. E fico me sentindo estranhamente culpado.

Apesar de ele estar me chantageando, eu me sinto culpado. Tem algo muito errado aí.

— Acho que eles não estão saindo nem nada — digo.

— Tanto faz.

Não sei se está desistindo de Abby ou o quê. Se ele desistir, o que acontece com meus e-mails? Talvez ele fique jogando esses e-mails na minha cara para sempre.

Não consigo pensar em nada pior.