Com amor, Simon
Capítulo 13
É verdade que você e eu não podemos nos encher de presentes na vida real, mas, se eu pudesse, compraria na internet milhares de camisetas de bandas para você. Mesmo que isso significasse perder o respeito dos músicos por toda a parte (porque é claro que as coisas funcionam assim, Jacques). Ou talvez a gente pudesse ir a um show. Eu não entendo muito de música, mas imagino que seria divertido se eu estivesse com você.
Talvez um dia.
Estou feliz por você me achar uma distração. Do contrário, não seria justo.
Blue
<ENVIADO 3 DEZ 17:20>
É QUINTA-FEIRA E estou na aula de história. Aparentemente, a sra.
Dillinger acabou de me fazer uma pergunta, porque todo mundo está olhando para mim como se eu devesse alguma coisa para a turma. Agora, estou vermelho e tentando pensar em alguma resposta, e, a julgar pela testa professoral franzida, acho que não estou indo muito bem.
Quando se pensa no assunto, é meio surreal os professores acharem que podem ditar o que você pensa. Não basta você ficar ali sentado em silêncio deixando que eles ensinem. É como se eles achassem que têm o direito de controlar sua mente.
Não quero pensar na guerra de 1812. Não quero saber o que havia de tão impressionante em um bando de marinheiros.
O que eu quero de verdade é ficar pensando em Blue. Acho que estou começando a ficar meio obcecado por ele. Por um lado, ele toma cuidado o tempo todo para não revelar muito sobre si mesmo, mas depois começa a contar um monte de coisas pessoais, o tipo de coisa que eu poderia usar para descobrir a identidade dele, se realmente quisesse. E quero. Mas também não quero. É tão confuso. Ele é confuso.
— Simon! — Abby me cutuca. — Preciso de uma caneta.
Dou uma caneta para ela, que agradece baixinho. Olho ao redor e percebo que todo mundo está escrevendo. A sra. Dillinger colocou um site no quadro. Não sei para que serve, mas provavelmente vou descobrir quando entrar nele. Copio o endereço na margem do caderno e faço um círculo em formato de zigue-zague, como um POW de histórias em quadrinhos.
Estou um pouco nervoso com o fato de os pais de Blue serem religiosos. Eu me sinto muito cretino, na verdade, porque não entendo nada de religião. Não sei nem como não usar o nome do Senhor em vão. Mas talvez ele não ligue. E com ele quero dizer Blue, não o Senhor. Afinal, Blue continua trocando e-mails comigo, então não deve ter se ofendido.
A sra. Dillinger faz um intervalo, mas não é o tipo de intervalo que podemos aproveitar para ir a algum lugar, então basicamente fico sentado olhando para o nada. Abby se aproxima, se ajoelha e apoia o queixo na minha mesa.
— Ei. Onde você está hoje?
— Como assim?
— Você está a um milhão de quilômetros daqui.
Com o canto do olho, vejo Martin se esticando todo por cima da cadeira de alguém para se juntar a nós. Toda santa vez. Juro por Deus.
— E aí, pessoal?
— Haha — diz Abby. — Sua camiseta é hilária.
Martin está usando uma camiseta em que se lê “Nerdlicious”.
— Vocês vão ao ensaio hoje?
— Ah, agora é opcional? — pergunto.
Em seguida, faço uma coisa que aprendi com Leah: olho de esguelha para o lado oposto ao da pessoa. É mais sutil do que revirar os olhos. Porém, muito mais eficiente.
Martin me encara.
— É, nós vamos — diz Abby, um instante depois.
— Spier — diz Martin de repente —, eu queria falar com você. —
As bochechas dele ficam rosadas e seu pescoço ganha uma mancha vermelha em volta da gola. — Andei pensando. Quero apresentar você para o meu irmão. Vocês têm muito em comum.
Meu rosto está queimando, e sinto aquela pontada familiar atrás dos olhos. Ele está me ameaçando.
— Que fofo — diz Abby.
Ela fica olhando de Martin para mim, de mim para Martin.
— Fofo mesmo — comento.
Eu lanço um olhar ameaçador para Martin, mas ele se vira na hora, arrasado. Ah, jura? Aquele babaca merece se sentir assim.
— É, pois é. — Martin se levanta e fica olhando para um ponto aleatório atrás de mim. — Eu vou…
Vou falar sobre sua orientação sexual como se fosse da minha conta, Simon. Vou contar para a porcaria da escola inteira bem aqui e agora, porque sou um babaca e é assim que as coisas vão ser.
— Ei, espera aí — digo. — Tive uma ideia. Vocês querem ir à Waffle House amanhã depois da aula? Podemos repassar o texto.
Eu me odeio. Eu me odeio.
— Se vocês não quiserem, tudo bem…
— Ai, meu Deus. É sério, Simon? Seria incrível. Amanhã depois da aula, né? Acho que consigo pegar o carro da minha mãe emprestado. — Abby sorri e me cutuca na bochecha.
— Legal. Obrigado, Simon — diz Martin. — Seria ótimo.
— Que bom — respondo.
Embarquei nessa oficialmente. Estou deixando que Martin Addison me chantageie. Não sei como me sentir. Estou com nojo de mim mesmo. Estou aliviado.
— Você é sensacional, Simon — diz Abby.
Não sou, não. Nem um pouco.
* * *
Na sexta à noite, estou comendo meu segundo prato de batata frita, e Martin não para de fazer perguntas a Abby. Acho que é o jeito dele de flertar.
— Você gosta de waffle?
— Gosto — responde ela. — Foi por isso que pedi.
— Ah — diz ele, e assente com um vigor exagerado e desnecessário. Ele é basicamente um Muppet.
Eles estão um ao lado do outro, e eu estou em frente. Consegui uma mesa nos fundos, perto dos banheiros, onde não tem ninguém para incomodar. Não está tão cheio para uma noite de sexta. Tem um casal de meia-idade que parece bem irritado com alguma coisa, dois caras hipsters no balcão e duas garotas com uniforme de escola particular comendo torradas.
— Você é de Washington, né?
— Sou.
— Legal. De que parte?
— Takoma Park. Você conhece Washington?
— Não exatamente. Meu irmão está no segundo ano em Georgetown — diz Martin.
Ele e aquela droga de irmão.
— Você está bem, Simon? — pergunta Abby. — Beba um pouco de água!
Não consigo parar de tossir. E agora Martin está me oferecendo a água dele. Empurrando o copo para mim. Martin que vá se ferrar. Sério. Até parece que ele é assim tão calmo e controlado.
Ele se vira para Abby.
— Então você mora com a sua mãe?
Ela assente.
— E seu pai?
— Ficou em Washington.
— Ah. Que pena.
— Na verdade, não — diz Abby, com uma gargalhada curta. — Se ele morasse em Atlanta, eu não estaria com vocês agora.
— Ah, ele é muito severo? — pergunta Martin.
— É — responde ela. E olha para mim. — E aí, vamos começar o segundo ato?
Martin se espreguiça e boceja de um jeito meio estranho, aproveitando para encostar no braço de Abby. Abby se afasta na mesma hora e coça o ombro.
Nossa, é horrível assistir a isso. Horrível e fascinante.
Nós repassamos a cena. Também é um desastre. Não tenho falas, então quem sou eu para julgar? E sei que eles estão se esforçando. Mas temos que parar a cada fala, e está ficando meio ridículo.
— Ele foi levado... — diz Abby, tapando o roteiro com uma das mãos.
Eu faço que sim para ela.
— Foi levado em uma…
Ela estreita os olhos.
— Em uma… carruagem?
— Isso aí.
Ela abre os olhos, e vejo os lábios dela se movendo em silêncio.
Carruagem. Carruagem. Carruagem.
Martin olha para o nada, pressionando o nó do dedo na bochecha.
Ele tem nós dos dedos muito proeminentes. Martin tem tudo proeminente: olhos enormes, nariz grande, lábios carnudos. Olhar para ele é exaustivo.
— Martin.
— Foi mal. Minha fala?
— Dodger acabou de dizer que foi levado em uma carruagem.
— Carruagem? Que carruagem? Carruagem para onde?
Quase. Nunca é perfeito. É sempre quase. Começamos a cena de novo. E eu penso: é sexta à noite. Em teoria, eu poderia estar enchendo a cara. Poderia estar em um show.
Poderia estar em um show com Blue.
Mas o que tenho é Oliver sendo levado em uma carruagem.
Infinitas vezes.
— Nunca vou decorar isso — diz Abby.
— A gente não tem até o final do recesso de Natal? — pergunta Martin.
— Aham. Se bem que a Taylor já decorou tudo.
Abby e Martin têm papéis importantes na peça, mas o de Taylor é o principal. Principal no sentido de que a peça se chama Oliver! e Taylor interpreta o Oliver.
— Mas Taylor tem memória fotográfica — diz Martin. — Ou diz que tem.
Abby dá um sorrisinho.
— E metabolismo muito acelerado — acrescento.
— E é naturalmente bronzeada — diz Martin. — Ela nunca toma sol. Nasceu bronzeada.
— É, Taylor e aquele seu bronzeado — diz Abby. — Tenho tanta inveja!
Martin e eu caímos na gargalhada, porque Abby vence de longe no quesito melanina.
— Seria estranho se eu pedisse mais um waffle? — pergunta Martin.
— Seria estranho se você não pedisse — digo.
Eu não entendo. Parece que estou começando a gostar dele.