Com amor, Simon
Capítulo 19
É VÉSPERA DE Natal e alguma coisa está meio estranha.
Não ruim. Só estranha. Não sei como explicar. Estamos cumprindo todas as tradições dos Spier. Minha mãe fez cocô de rena, ou seja, trufas de Oreo. A árvore está acesa e toda decorada.
Cantamos as músicas dos Esquilos.
É meio-dia, e ainda estamos todos de pijama, e todo mundo está sentado na sala, cada um com seu laptop. Acho que é meio ruim termos cinco computadores — Shady Creek é esse tipo de subúrbio
—, mas mesmo assim. Estamos fazendo caça ao tesouro no Facebook.
— Diz aí, pai — pede Alice.
— Tudo bem — responde ele. — Alguém visitando um país tropical.
— Achei — diz minha mãe, virando o laptop para nos mostrar as fotos de alguém. — Essa é minha. Certo. Um fim de namoro.
Ficamos em silêncio por vários minutos, procurando nos feeds de notícias. Finalmente, Nora encontra um.
— Amber Wasserman — diz ela. — “Eu achava que conhecia você. Parece que me enganei. Um dia, você vai olhar para trás e ver o que jogou fora.”
— Está mais para um rompimento implícito — digo.
— É de verdade.
— Mas dá para interpretar literalmente — argumento. — Ela pode estar brigando com ele por ter jogado o iPhone dela fora.
— Isso é um caso clássico de lógica do Simon — diz Alice —, e não será tolerado. Vai, Boop. Sua vez.
Meu pai inventou o conceito de lógica do Simon, e não consigo me livrar disso. Significa uma vontade sustentada por evidências frágeis.
— Tudo bem — diz Nora. — Agora o contrário. Um casal meloso e nojento.
É uma escolha interessante, considerando que veio de Nora, que nunca fala nada relacionado a namoro ou ficantes.
— Ah, achei um — digo. — Carys Seward. “Estou tão agradecida por ter Jaxon Wildstein na minha vida. A noite de ontem foi perfeita.
Te amo tanto, gato.” Piscadela.
— Nojento — sentencia Nora.
— Essa é sua Carys, Bub?
— Não tenho uma Carys — respondo.
Mas sei o que Alice está perguntando. Namorei com Carys durante quase quatro meses na primavera. Se bem que nenhuma das nossas noites juntos foi perfeita assim.
Mas a maluquice é que, pela primeira vez na vida, eu quase entendo. É estranho, nojento, e aquela carinha piscando extrapola o conceito de excesso de informações. Mas é isso. Talvez eu esteja perdendo o controle, mas só consigo pensar em como Blue anda assinando os e-mails usando as palavras “com amor”.
Acho que às vezes consigo nos imaginar tendo a noite perfeita juntos. E acho que também vou sentir vontade de gritar para todo o mundo ouvir.
Eu atualizo a página.
— É minha vez — digo. — Certo. Um judeu com uma postagem sobre o Natal.
Meu namorado virtual judeu-anglicano. Queria saber o que ele está fazendo neste exato momento.
— Por que Nick nunca posta nada? — pergunta Nora.
Porque ele acha que o Facebook é o menor denominador comum do discurso social. Mas ele gosta de falar sobre as mídias sociais como um veículo para construir e manifestar a própria identidade.
Seja lá o que isso queira dizer.
— Encontrei. Jana Goldstein. “Com a lista dos filmes em exibição nos cinemas em uma das mãos e cardápios de delivery na outra.
Pronta para amanhã. Feliz Natal para os judeus!”
— Quem é Jana Goldstein? — pergunta minha mãe.
— Uma pessoa de Wesleyan — explica Alice. — Tudo bem.
Alguma coisa sobre advogados. — Ela se distrai com alguma coisa, e percebo que o celular está vibrando. — Opa. Já volto.
— Advogados? Qual é, Alice! — comenta Nora. — Isso favorece papai de uma forma absurda.
— Eu sei. É que fico com pena dele — diz Alice antes de subir a escada. — Alô — diz ela, atendendo o telefone.
Um instante depois, ouvimos a porta do quarto dela ser fechada.
— Achei! — Meu pai sorri. Ele é péssimo nesse jogo, porque só tem uns doze amigos no Facebook. — Bob Lepinski. “Boas festas para vocês e seus familiares, da Lepinski e Willis, P.C.”
— Boa, pai — diz Nora, e depois olha para mim. — Com quem ela está falando?
— Como é que eu vou saber?
* * *
Alice passa duas horas ao telefone. Isso nunca tinha acontecido antes.
É o fim da caça ao tesouro. Nora se encolhe com o laptop no sofá, e nossos pais desaparecem no quarto deles. Não quero nem pensar no que estão fazendo lá. Não depois do que o pai e a madrasta de Blue fizeram. Bieber choraminga na entrada da casa.
Meu celular vibra com uma mensagem de Leah. Estamos na sua porta. Leah não gosta de bater ou tocar a campanhia. Acho que tem vergonha de pais.
Eu vou até lá e encontro Bieber de pé apoiado no parapeito, tentando chegar até ela pela janela.
— Desça — ordeno. — Venha, Bieb.
Eu o seguro pela coleira e abro a porta. Está frio, mas o dia está ensolarado, e Leah está usando um gorro de lã com orelhas de gatinho. Nick está atrás dela, meio constrangido.
— Oi — digo, puxando Bieber para eles entrarem.
— Estávamos pensando em dar uma volta — diz Leah.
Eu olho para ela. Tem alguma coisa meio estranha em seu tom de voz.
— Tudo bem — respondo. — Vou só trocar de roupa.
Ainda estou com a calça do pijama com estampa de golden retrievers.
Cinco minutos depois, estou de calça jeans e moletom. Coloco a guia em Bieber e saímos.
— Vocês só queriam dar uma volta mesmo ou aconteceu alguma coisa? — pergunto.
Eles se entreolham.
— É... — diz Nick.
Eu arqueio a sobrancelha para ele e espero para ver se vai me dar alguma explicação, mas ele só desvia o olhar.
— Como estão as coisas, Simon? — pergunta Leah, com uma voz estranha e delicada.
Eu paro na mesma hora. Ainda estamos na entrada da minha casa.
— O que está acontecendo?
— Nada. — Ela mexe nos pompons do gorro. Nick olha para a rua. — Só viemos ver se você queria conversar.
— Sobre o quê?
Bieber vai até Leah e se senta, olhando para ela daquele seu jeito suplicante.
— Por que você está me olhando assim, docinho? — pergunta ela, mexendo nas orelhas dele. — Não tenho biscoitos.
— Sobre o que vocês querem conversar? — pergunto de novo.
Paramos no meio-fio, e eu me mexo, desconfortável.
Leah e Nick se entreolham de novo, e eu me dou conta.
— Ah, merda. Vocês ficaram.
— O quê? — pergunta Leah, corando. — Não!
Eu olho para Leah, depois para Nick e novamente para Leah.
— Vocês não…?
— Simon. Não. Pare.
Leah não está olhando para Nick. Na verdade, está abaixada, o rosto enfiado no focinho de Bieber.
— Certo, então do que estamos falando? — pergunto. — O que está acontecendo?
— Hã... — diz Nick.
Leah se levanta de repente.
— Bom, tá. Vou embora. Feliz Natal, pessoal. Feliz Chanucá. Sei lá.
Ela dá um aceno rápido e se abaixa mais uma vez para meu cachorro falar com ela. E vai embora.
Nick e eu ficamos ali em silêncio por um momento. Ele toca a ponta de cada dedo com o polegar.
— O Chanucá acabou — comenta, por fim.
— O que está acontecendo, Nick?
— Ah, não esquenta. — Ele suspira e olha para a rua, para Leah, cada vez mais distante. — Ela estacionou lá em casa. Vou ter que esperar um minuto, para não parecer que estou indo atrás dela.
— Você pode entrar. Meus pais não se importam. Alice está em casa.
— É? — diz ele, olhando para minha casa. — Não sei. Acho que vou…
Ele se vira para mim com uma expressão diferente. Conheço Nick desde que tínhamos quatro anos. Nunca vi essa cara antes.
— Olha. — Ele toca meu braço. Eu olho para a mão dele. Não consigo evitar. Nick nunca toca em mim. — Feliz Natal, Simon. De verdade.
Ele retira a mão e acena, depois sai andando pela rua atrás de Leah.
* * *
A tradição da família Spier pede que o jantar de véspera de Natal inclua rabanadas feitas de acordo com a técnica da minha avó: com pedaços grandes de pão do dia anterior, para uma absorção máxima do ovo, fritos em toneladas de manteiga, em uma frigideira parcialmente tampada. Quando minha avó faz, fica abrindo a tampa e virando o pão, e meio que estraga tudo (ela é uma avó meio radical). Nunca fica tão crocante quanto as que meu pai faz, mas é gostoso demais mesmo assim.
Comemos à mesa de jantar com a louça de casamento dos meus pais, e minha mãe coloca o enfeite de manjedoura que gira feito um ventilador quando se acende uma vela embaixo. É um tanto hipnótico. Alice diminui a luz no aposento, e minha mãe pega guardanapos de pano. Tudo fica com uma cara bem elegante.
Mas é estranho. Não traz a sensação de véspera de Natal. Falta certo brilho, mas não sei o que é.
Eu me senti assim a semana toda, sem entender o motivo. Não sei por que tudo parece tão diferente este ano. Talvez seja porque Alice estava longe. Ou talvez porque passo cada minuto pensando em um garoto que não quer me conhecer pessoalmente. Ou que
“não está pronto” para me conhecer pessoalmente. Mas ao mesmo tempo é um garoto que escreve “com amor” no fim dos e-mails. Não sei. Não sei.
No momento, só quero voltar a sentir que hoje é Natal. Quero que seja como antes.
Depois do jantar, meus pais colocam Simplesmente Amor e se sentam no sofá de dois lugares, com Bieber espremido entre eles.
Alice desaparece de novo para falar ao celular. Nora e eu passamos um tempo sentados em cantos opostos do sofá maior. Fico olhando para as luzes da árvore. Se eu apertar os olhos, tudo fica brilhante e enevoado, e quase consigo ter de volta aquela sensação que não esqueço. Mas é inútil. Então, vou para o meu quarto, me deito na cama e escuto músicas no modo aleatório.
Três músicas depois, ouço uma batida na porta.
— Simon.
É Nora.
— Que foi?
Ugh.
— Vou entrar.
Eu me apoio no travesseiro e olho para ela um pouco enfezado.
Mas ela entra mesmo assim; tira minha mochila da cadeira da escrivaninha e se senta, com as pernas dobradas e os braços ao redor dos joelhos.
— Oi — diz ela.
— O que você quer?
Ela está usando os óculos novamente, já tirou as lentes de contato. O cabelo está preso em um rabo de cavalo meio despenteado, e ela colocou uma camiseta de Wesleyan. É incrível como ela está ficando parecida com Alice.
— Preciso mostrar uma coisa — diz ela.
Nora vira a cadeira para a escrivaninha e começa a abrir meu laptop.
— Você pirou?
Dou um pulo. Sério. Ela acha mesmo que vai usar meu laptop assim, livremente?
— Tá, tudo bem. Você faz, então.
Ela tira o laptop da tomada e vai com a cadeira para perto da cama, para que eu o pegue.
— O que tenho que fazer?
Nora aperta os lábios e olha para mim de novo.
— Abra o Tumblr.
— O… creeksecrets?
Ela assente.
Está nos meus favoritos.
— Está carregando — digo. — Pronto. Abri. E agora?
— Posso sentar do seu lado? — pergunta.
Eu olho para ela.
— Na cama?
— É.
— Hã, tá.
Ela senta ao meu lado e olha para a tela.
— Mais pra baixo.
Desço a barra de rolagem. E paro.
Ela se vira e olha para mim.
Merda. Não estou acreditando.
— Está tudo bem? — pergunta ela, baixinho. — Sinto muito, Simon. Mas achei que você fosse querer saber. Supondo que não tenha sido você quem escreveu.
Eu balanço a cabeça lentamente.
— Não, não fui eu.
24 de dezembro, 10:15
CONVITE ABERTO DE SIMON SPIER A TODOS OS GAROTOS
Queridos rapazes de Creekwood, Com esta missiva, declaro que sou completamente gay e estou aberto para negócios. Os interessados podem fazer contato direto comigo para discutir planos de sexo anal pelo cu. Ou bluequete.
Mas não me façam ter dor nos ovos. Garotas não precisam se candidatar. Isso é tudo.
— Já denunciei — disse Nora. — Vão retirar.
— Mas as pessoas já viram.
— Não sei. — Ela fica em silêncio por um tempo. — Quem postaria uma coisa dessas?
— Uma pessoa que não sabe que “sexo anal pelo cu” é redundância.
— Isso é tão ridículo... — diz ela.
É claro que eu sei quem postou. E acho que devia agradecer por ele não ter postado uma das malditas capturas de tela. Mas, sinceramente: aquela referência imbecil a Blue faz dele o maior babaca sobre a face da Terra.
Meu Deus, e se Blue ler?
Fecho o laptop e o jogo na cadeira. Eu recosto a cabeça na cabeceira, e Nora senta na cama. Os minutos passam.
— Sabe, é verdade — digo, enfim. Não olho para ela. Nós dois ficamos encarando o teto. — Eu sou gay.
— Eu imaginei.
Eu olho para ela.
— Sério?
— Pela sua reação. Sei lá. — Ela pisca. — O que você vai fazer agora?
— Esperar que retirem o post. O que mais eu posso fazer?
— Você vai contar para as pessoas?
— Acho que Nick e Leah já leram — respondo, hesitante.
Nora dá de ombros.
— Você pode negar.
— Ah, não vou negar. Não tenho vergonha.
— Tudo bem, é que eu não sabia. Você não tinha dito nada até agora.
Ai, meu Deus. É sério?
Eu sento.
— É, você não tem a menor ideia da merda que está falando.
— Me desculpa! Caramba, Simon. Só estou tentando… — Ela olha para mim. — É claro que não é motivo para se envergonhar.
Você sabe disso, né? E acho que a maioria das pessoas vai levar numa boa.
— Não sei o que as pessoas acham disso.
Ela hesita.
— Você vai contar para mamãe e papai? E para Alice?
— Não sei. — Eu dou um suspiro. — Não sei.
— Seu celular não para de vibrar — diz Nora.
Ela o entrega para mim. Tem cinco mensagens de Abby.
Simon, vc tá bem?
Me liga quando puder, tá?
Não sei como dizer isso, mas vc devia olhar o Tumblr. Te amo.
Eu não contei pra ninguém. Eu jamais contaria nada pra ninguém.
Te amo, tá?
Me liga?
* * *
E então, é Natal. Eu acordava às quatro da manhã todos os anos, em um frenesi desesperado. Não importava quanto eu me empenhava na busca de pistas, e, acredite, eu me empenhava. Mas Papai Noel era ninja. Ele sempre conseguia me surpreender.
Ao que parece, ganhei um presentão neste Natal. Boas vibrações para você também, Martin.
Às sete e meia, eu desço as escadas, e tudo dentro de mim se contorce e se contrai. As luzes ainda estão apagadas, mas o sol da manhã brilha pelas janelas da sala, e a árvore está toda apagada.
Há cinco meias abarrotadas encostadas nas almofadas do sofá, pesadas demais para serem penduradas. O único acordado é Bieber. Eu o levo lá fora para um xixi rápido e dou o café da manhã dele, e ficamos deitados no sofá.
Sei que Blue está agora na igreja com a mãe, o tio e os primos, e todos foram na noite de ontem também. Ele está passando mais tempo na igreja nesses dois dias do que eu em toda a minha vida.
É engraçado. Não achei que fosse ser nada de mais. Mas acho que eu preferia estar na igreja agora, porque assim não teria que fazer o que estou planejando.
Às nove, todo mundo está acordado e o café está pronto, e estamos comendo biscoitos. Alice e Nora leem coisas nos celulares.
Eu me sirvo de uma caneca de café e acrescento uma quantidade extra de creme e açúcar. Minha mãe fica observando enquanto eu mexo a bebida.
— Eu não sabia que você tomava café.
Isso, por exemplo. Ela faz isso toda hora. Os dois fazem. Eles me colocam em uma caixa, e toda vez que tento abrir a tampa, eles a fecham de volta. É como se nada em mim pudesse mudar.
— É, eu tomo.
— Tudo bem — diz ela, levantando as mãos como quem diz Ei, calma. — Tudo bem, filho. Mas é uma coisa diferente. Só estou tentando acompanhar você.
Se ela acha o fato de eu tomar café uma grande novidade, vai ser uma manhã de merda mesmo.
Vamos até a pilha de presentes. Blue me contou que na família dele os presentes são abertos um de cada vez, e todo mundo espera sua vez. E, depois de algumas rodadas, eles fazem uma pausa e almoçam. É tão civilizado. Eles demoram a tarde inteira para esvaziar a árvore de Natal.
Não é bem assim com os Spier. Alice vai agachada até a árvore e começa a passar sacos e caixas para todo mundo, e todos nós falamos ao mesmo tempo.
— Uma capinha para o Kindle? Eu não tenho…
— Abra o outro, querida…
— Ei, café Aurora!
— Não, coloque do outro jeito, Boop. Todo mundo usa em Wesleyan.
Em vinte minutos, parece que uma fábrica de papel explodiu na sala. Estou no chão, deitado na frente do sofá, enrolando o fio do meu novo fone de ouvido nos dedos. Bieber está segurando um laço
com as patas, puxando e mordendo, e todo mundo está jogado na sala.
É a minha deixa.
Se bem que, se esse momento realmente pertencesse a mim, não estaria acontecendo. Não agora. Ainda não.
— Ei. Quero falar uma coisa com vocês.
Tento parecer tranquilo, mas minha voz sai rouca. Quando Nora olha para mim e abre um sorriso de leve, meu estômago dá um nó.
— O que foi? — pergunta minha mãe, e se senta.
Não sei como as pessoas fazem isso. Como Blue fez. Três palavras. Só três palavrinhas e não vou ser mais o mesmo Simon.
Estou com a mão tapando a boca, olhando para a frente.
Não sei por que achei que seria fácil.
— Sei o que é — diz meu pai. — Vou tentar adivinhar. Você é gay.
Você engravidou alguém. Você está grávido.
— Pai, para — diz Alice.
Eu fecho os olhos.
— Estou grávido — digo.
— Foi o que pensei, filho — responde meu pai. — Você está brilhando.
Olho nos olhos dele.
— Falando sério agora. Eu sou gay.
Três palavras.
Todo mundo fica em silêncio por um momento.
E então, minha mãe diz:
— Querido… Isso é… Meu Deus, é… Obrigada por contar.
E então, Alice diz:
— Uau, Bub. Que legal.
E meu pai diz:
— Gay, é?
E minha mãe diz:
— Fale mais sobre isso.
É uma de suas falas favoritas de psicóloga. Eu olho para ela e dou de ombros.
— Estamos orgulhosos de você — acrescenta ela.
E aí, meu pai sorri e diz:
— E então, qual delas fez isso?
— Fez o quê?
— Fez você deixar de se interessar por mulheres. Foi a das sobrancelhas, a da maquiagem nos olhos ou a dentuça?
— Pai, isso é tão ofensivo — observa Alice.
— O quê? Só estou tentando descontrair. Simon sabe que nós o amamos.
— Seus comentários heteronormativos não aliviam o clima.
Acho que as coisas acontecem mais ou menos como eu esperava. Minha mãe perguntando sobre meus sentimentos, papai fazendo piada, Alice agindo de forma politicamente correta e Nora de bico calado. Daria para dizer que a previsibilidade oferece certo consolo, e minha família é bem previsível.
Mas estou exausto e infeliz agora. Pensei que fosse me sentir como se estivesse tirando um peso dos ombros. Mas está sendo como todo o resto dessa semana. Estranho e surreal.
* * *
— É uma notícia e tanto, Bub — comenta Alice, indo atrás de mim quando vou para o quarto.
Ela fecha a porta e senta de pernas cruzadas na ponta da minha cama.
— Ugh — respondo.
Eu desabo de cara no travesseiro.
— Ei. — Ela inclina o corpo para o lado, até ficar bem perto de mim. — Está tudo bem. Não precisa ficar chateado.
Eu a ignoro.
— Não vou sair, Bub. Porque você vai ficar aí sofrendo. Vai colocar aquela playlist. Como se chama?
— A Grande Depressão — murmuro.
É cheia de Elliott Smith e Nick Drake e The Smiths. Já está pronta, é só apertar o play.
— Certo — diz ela. — A Grande Depressão. Tão alegre. De jeito nenhum.
— Por que você está aqui?
— Porque sou sua irmã mais velha, e você está precisando de mim.
— Eu preciso ficar sozinho.
— De jeito nenhum. Conversa comigo, Bub! — diz ela. Alice desliza na minha direção. — Isso é demais. Podemos conversar sobre garotos.
— Tudo bem — digo, me apoiando nos braços e sentando. —
Então me conte sobre seu namorado.
Hã?
Eu olho para ela.
— Os telefonemas. Você fica horas no quarto. Fala sério.
— Pensei que estivéssemos falando da sua vida amorosa.
Ela fica vermelha.
— Quer dizer que eu faço uma cena e saio do armário, e todo mundo debate a situação bem na minha frente em pleno maldito Natal. E você não vai nem me contar que tem namorado?
Alice fica em silêncio por um instante, e sei que está sem argumentos. Ela suspira.
— Como você sabe que não é namorada?
— É namorada?
— Não — diz ela, finalmente se encostando na cabeceira. —
Namorado.
— Qual é o nome dele?
— Theo.
— Ele tem Facebook?
— Tem.
Eu abro o aplicativo no celular e saio olhando a lista de amigos dela.
— Ai, meus Deus. Para — diz ela. — Sério, Simon. Para.
— Por quê?
— Porque foi exatamente por isso que eu não quis contar para vocês. Eu sabia que fariam isso.
— Faríamos o quê?
— Um monte de perguntas. Fofocariam na internet. Reclamariam por ele gostar de torta, ou por ter barba, ou alguma coisa assim.
— Ele tem barba?
— Simon.
— Desculpa — digo, e coloco o celular na mesa de cabeceira.
Eu entendo. Na verdade, entendo mesmo.
Ficamos em silêncio por um momento.
— Eu vou contar para eles — diz ela.
— Você que decide o que fazer.