Com amor, Simon
Capítulo 3
(Sobrancelhas, boca de cu, tudo.)
Blue
<ENVIADO 19 OUT 8:01>
A PIOR COISA nessa história do Martin é que não posso contar para Blue. Não estou acostumado a guardar segredos dele.
Claro, tem um monte de coisas que não contamos um para o outro. Nós conversamos sobre todos os assuntos importantes, mas evitamos detalhes que possam revelar nossa identidade, como nomes de amigos e qualquer coisa específica demais sobre a escola. Todas as coisas que eu achava que me definiam. Mas não penso nelas como segredos. O que temos é mais uma espécie de acordo tácito.
Se Blue fosse mesmo um aluno do segundo ano da Creekwood, com armário, boletim e perfil no Facebook, tenho certeza de que eu não estaria contando nada para ele. Claro que ele é mesmo um aluno do segundo ano na Creekwood. Eu sei disso. Mas, de certa forma, ele mora no meu laptop. É difícil explicar.
Fui eu que o encontrei. Logo no Tumblr. Foi em agosto, bem quando as aulas estavam começando. Os alunos postavam confissões anônimas e pensamentos aleatórios secretos no creeksecrets, e as pessoas podiam comentar e tudo o mais, e ninguém julgava você.
Só que entrou em decadência: virou um buraco de fofocas e poesias ruins e citações bíblicas escritas errado. Mas é meio viciante mesmo assim.
Foi lá que encontrei a postagem de Blue. Acabei me identificando.
E acho que nem foi só a coisa de ser gay. Sei lá. Tinha umas cinco linhas, mas tudo escrito em uma gramática correta, além de estranhamente poético, e diferente de qualquer outra coisa que eu já tivesse lido.
Acho que foi a solidão. E é engraçado, porque não me vejo como uma pessoa solitária. Mas havia algo muito familiar no jeito como Blue descreveu o sentimento. Foi como se ele tivesse arrancado as ideias da minha cabeça.
Ele falou sobre como você pode decorar os gestos de uma pessoa, mas nunca saber o que se passa na cabeça dela. E ter a sensação de que todos somos como casas com aposentos enormes e janelas pequenininhas.
Sobre como você pode se sentir muito exposto, de uma forma ou de outra.
Sobre como ele se sente tão escondido e tão exposto, em relação a ser gay.
Senti um pânico e uma vergonha estranha quando li essa parte, mas também uma faísca de empolgação.
Ele falou sobre o oceano entre as pessoas. E que o objetivo de tudo é encontrar uma margem até a qual valha a pena nadar.
Eu precisava conhecer esse cara.
Demorei um pouco, mas reuni coragem para postar a única coisa em que consegui pensar, que foi: “É ISSO.” Em letras maiúsculas mesmo. E coloquei meu endereço de e-mail. Da minha conta secreta do Gmail.
Passei a semana seguinte obcecado, me perguntando se ele entraria ou não em contato. E ele entrou. Um pouco depois, me contou que meu comentário o tinha deixado meio nervoso. Ele é muito cuidadoso com as coisas. Bem mais cuidadoso do que eu, diga-se de passagem. Resumindo: se Blue descobrir que Martin Addison tem capturas de tela dos nossos e-mails, tenho certeza de que vai surtar. Mas de um jeito bem Blue.
Ou seja, vai parar de me escrever.
Eu me lembro exatamente da sensação de ver aquela primeira mensagem dele na caixa de entrada. Foi meio surreal. Ele queria saber mais sobre mim. Durante os dias seguintes na escola, me senti um personagem de filme. Quase conseguia imaginar um close do meu rosto projetado na telona.
É estranho, porque na realidade eu não sou o protagonista. Talvez o melhor amigo.
Acho que nunca me considerei interessante até me tornar interessante para Blue. Então, não posso contar para ele. Prefiro não perdê-lo.
* * *
Martin. Durante a semana inteira, na aula e no ensaio, percebo que ele tenta fazer contato visual comigo. Sei que é um pouco de covardia. Essa situação toda faz com que eu me sinta um covarde.
E um idiota, porque já decidi que vou ajudá-lo. Ou ceder à chantagem. Como você preferir chamar. Isso me deixa com o estômago embrulhado.
Passo o jantar inteiro distraído. Meus pais estão bem alegres, porque é noite de The Bachelorette. Estou falando muito sério. O reality show, sabe? Nós todos vimos o episódio de ontem, mas hoje nos reunimos por Skype com Alice, que está em Wesleyan, para comentar o que aconteceu. É a nova tradição da família Spier. Eu não poderia estar mais ciente do quão completamente ridículo é isso.
Mas sei lá. Minha família sempre foi assim.
— E como estão Leo e Nicole? — pergunta meu pai, mordendo o garfo.
Trocar o gênero de Leah e Nick é um clássico do humor do meu pai.
— Estão ótimos — digo.
— Risos, pai — comenta Nora, sem graça.
É minha irmã mais nova. Ultimamente, ela vem soltando expressões típicas da internet durante as conversas ao vivo, embora não as use na internet propriamente. Acho que está tentando ser irônica. Ela olha para mim e diz:
— Simon, você viu Nick tocando violão no pátio?
— Acho que Nick está tentando arrumar uma namorada — diz minha mãe.
Engraçado, mãe, porque, olha que coisa... eu estou tentando impedir Nick de ficar com a garota de quem ele gosta para que
Martin Addison não conte para a escola toda que eu sou gay. Por acaso já comentei que sou gay?
Por onde começar a contar uma coisa dessas?
Talvez fosse diferente se morássemos em Nova York, mas não sei ser gay na Georgia. Estamos perto de Atlanta, então podia ser pior. Mas Shady Creek não é exatamente um paraíso progressista. Na escola, tem só um ou dois caras assumidos, e as pessoas são muito cruéis com eles. Não chegam a ser violentas, mas a palavra “bicha”
é usada algumas vezes. E tem umas garotas lésbicas e bissexuais, mas acho que com garota é diferente. Talvez mais fácil. Se tem uma coisa que o Tumblr me ensinou é que um monte de caras acha o máximo quando uma garota é lésbica.
Se bem que o contrário também acontece. Tem garotas como Leah, que fazem desenhos yaoi a lápis de vários garotos e postam em sites.
E acho que não me incomodo com isso, pois os desenhos dela são incríveis.
E Leah também gosta de fanfiction slash, o que despertou em mim curiosidade suficiente para procurar algumas na internet no verão passado. Eram tantas opções que nem dava para acreditar: Harry Potter e Draco Malfoy se pegando de milhares de formas diferentes, em todos os armários de vassouras de Hogwarts. Escolhi as que tinham uma gramática decente e passei a noite toda lendo.
Foram semanas estranhas. Foi nessas férias que aprendi a lavar roupa. Certas meias que não devem ser lavadas pela sua mãe.
Depois do jantar, Nora configura o Skype no computador da sala.
Na imagem, Alice parece meio desgrenhada, mas deve ser por causa do cabelo, louro-escuro e bagunçado. Nós três temos cabelo ridículo. Ao fundo, a cama de Alice está desarrumada e coberta de travesseiros, e alguém comprou um tapete peludo e redondo para cobrir o pouco espaço livre do piso. Ainda é estranho imaginar Alice dividindo um quarto de alojamento com uma garota desconhecida de Minneapolis. Quem iria imaginar que um dia eu veria alguma coisa relacionada a esportes no quarto da minha irmã mais velha?
Minnesota Twins, isso aí.
— Vocês estão pixelados. Vou… Não, espera aí, ficou bom. Ai, meu Deus, pai, isso é uma rosa?
Nosso pai está segurando uma rosa vermelha e rindo para a webcam. Não estou brincando. Minha família é profissional quando o assunto é The Bachelorette.
— Simon, faz sua imitação do Chris Harrison.
Acredite: minha imitação do Harrison é completa e simplesmente genial. Pelo menos em circunstâncias normais. Mas não estou em um dos meus melhores dias.
Estou muito tenso. E não só por Martin ter registrado os e-mails. É
pelos e-mails em si. Estou me sentindo meio estranho desde que Blue perguntou sobre a história das namoradas. Será que ele acha que sou uma farsa? Tenho a impressão de que, depois que ele percebeu que era gay, não saiu mais com garotas e foi simples assim.
— Então Michael D. alega ter usado a suíte fantasia para conversar — diz Alice. — Nós acreditamos nisso?
— Nem por um minuto — responde papai.
— Eles sempre dizem isso — acrescenta Nora.
Ela inclina a cabeça, e só agora percebo que tem cinco piercings na orelha, de cima a baixo.
— Não é? — continua Alice. — Mas você não vai dizer o que acha, Bub?
— Nora, quando você fez isso? — pergunto, tocando o lóbulo de minha orelha.
Ela fica um pouco vermelha.
— Semana passada, acho.
— Deixa eu ver — exige Alice, e Nora vira o rosto. — Uau!
— Mas... por quê? — pergunto.
— Porque eu quis.
— Mas, tipo, por que tantos?
— Podemos voltar ao assunto “suíte fantasia”? — sugere ela.
Nora fica sem jeito quando é o centro das atenções.
— É a suíte fantasia — digo —, é claro que eles fizeram! Acho que a fantasia envolve mais do que conversar.
— Mas isso não quer dizer necessariamente cópula.
— MÃE. Pelo amor de Deus.
Acho que era fácil estar em relacionamentos em que eu não precisava pensar em todas as pequenas humilhações que decorrem
do fato de se estar atraído por alguém. Eu me dou bem com garotas. Beijá-las é tranquilo. Namorar era algo que eu conseguia fazer tranquilamente.
— E Daniel F.? — pergunta Nora, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Sério, esses piercings. Não entendo a Nora.
— Ele é o mais gato — comenta Alice.
Minha mãe e Alice vivem usando a expressão “colírio para os olhos” para se referir a essas pessoas.
— Você está falando sério? — questiona meu pai. — O gay?
— Daniel não é gay — protesta Nora.
— Garota, ele é uma parada gay de um homem só. Uma chama eterna.
Meu corpo todo se enrijece. Leah disse uma vez que preferia que as pessoas a chamassem logo de gorda a ficar ouvindo merda sobre o peso de alguma outra garota. E acho que concordo. Nada é pior do que a humilhação secreta de ser insultado por semelhança.
— Pai, para — pede Alice.
Então, do nada, ele começa a cantar aquela música, “Eternal Flame”, dos Bangles.
Nunca sei se meu pai está realmente falando sério quando diz esse tipo de coisa ou se só está tentando irritar Alice. Se ele pensa assim, acho que é melhor eu saber logo. Mesmo que eu não possa apagar essa informação depois.
* * *
A outra questão é a mesa no refeitório. Faz menos de uma semana que fui chantageado, mas sou abordado por Martin quando estou saindo da fila da comida com minha bandeja.
— O que você quer, Martin?
Ele olha para a minha mesa.
— Tem lugar para mais um?
— Humm. — Olho para baixo. — Na verdade, não.
Há um silêncio constrangedor.
— Já temos oito pessoas.
— Eu não sabia que os lugares eram marcados.
Não faço ideia do que dizer. As pessoas sempre se sentam nos mesmos lugares. Eu achava que fosse uma regra do universo.
Não se pode simplesmente mudar de mesa assim, do nada.
É um grupo estranho, mas funciona. Nick, Leah e eu. Os dois amigos de Leah, Morgan e Anna, que leem mangá, usam lápis de olho preto e são basicamente a mesma pessoa. Anna e eu namoramos no nono ano, mas ainda acho que ela e Morgan são a mesma pessoa.
Tem também a completa aleatoriedade dos amigos de futebol de Nick: Bram, que é estranho e fica calado a maior parte do tempo, e o semibabaca do Garrett. E Abby. Ela morava em Washington, mas se mudou para cá no começo do ano letivo, e a química foi instantânea. Foi uma mistura de destino e trabalhos em grupo organizados por ordem alfabética de sobrenome.
Enfim, somos nós oito. Está fechado. Já tivemos que colocar duas cadeiras extras na mesa de seis lugares.
— Bem... — Martin se inclina para trás e olha o teto. — Acabou de me ocorrer que estamos na mesma sobre aquela questão da Abby, mas...
Ele ergue uma das sobrancelhas e olha para mim com uma expressão séria.
Martin não especificou as condições da chantagem, mas claramente é algo como: ele pode pedir o que quiser. E eu tenho que fazer.
Que coisa maravilhosa.
— Olha, eu quero ajudar.
— Como você preferir, Spier.
— Escuta. — Abaixo o tom de voz; estou quase sussurrando: —
Vou falar com ela, está bem? Mas você tem que me deixar resolver isso sozinho.
Ele dá de ombros.
Sinto seu olhar enfezado me acompanhar até a mesa.
Tenho que agir naturalmente, não posso comentar nada. Ou melhor, agora tenho que dizer alguma coisa sobre ele para Abby.
Mas vai ter que ser o contrário do que eu realmente gostaria de dizer.
Talvez seja um pouco difícil fazer Abby gostar desse garoto.
Porque eu mesmo não o suporto.
Mas acho que isso já não vem mais ao caso.
* * *
Só que os dias se passam, e eu ainda não encarei a situação de frente. Não falei com Abby nem chamei Martin para ficar com a gente ou tranquei os dois sozinhos numa sala de aula vazia. Não sei nem o que ele quer, para ser sincero.
Espero continuar sem saber disso pelo tempo que for humanamente possível. Só sei que tenho andado bem sumido. E
fico grudado em Nick e Leah, para que Martin não venha falar comigo. Na terça, paro no estacionamento e Nora sai do carro, mas eu continuo lá. Ela enfia a cabeça pela janela, perguntando:
— Ei, você não vem?
— Depois.
— Ok. — Ela hesita, e depois acrescenta: — Está tudo bem?
— Quê? Está.
Ela olha para mim.
— Nora, eu estou bem.
— Então tá.
Ela fecha a porta devagar e se encaminha para a entrada. Não sei. Nora é estranhamente observadora às vezes, mas me abrir com ela pode ser um pouco constrangedor. Eu nunca tinha percebido isso até Alice ir para a faculdade.
Fico mexendo no celular: vejo meu e-mail e uns vídeos no YouTube. Quando escuto uma batida na janela do carona, quase dou um pulo. Estou esperando ver Martin em qualquer lugar. Mas é só o Nick. Faço sinal para que ele entre.
Ele se senta ao meu lado e pergunta:
— O que está fazendo?
Evitando Martin.
— Vendo uns vídeos.
— Ah, cara. Perfeito. Estou com uma música na cabeça.
— Se for The Who — digo a ele —, Def Skynyrd ou qualquer coisa do tipo, sem chance!
— Vou fingir que você não acabou de dizer Def Skynyrd.
Adoro sacanear o Nick.
Acabamos vendo parte de um episódio de Hora de Aventura, só por ver, e acaba sendo a distração perfeita. Fico de olho no relógio, porque não quero perder a aula de literatura. Eu só não quero ficar de bobeira nesses minutos antes da aula, porque Martin poderia aparecer e puxar papo.
É engraçado. Sei que Nick percebe que tem alguma coisa errada, mas ele não pergunta nada. Com a gente é assim. Conheço seu tom de voz, suas expressões e seus hábitos mais simples. Seus monólogos existenciais aleatórios. A mania de bater o dedão na ponta dos dedos quando está nervoso. E acho que ele também sabe os mesmos tipos de coisa sobre mim. Nos conhecemos desde os quatro anos. Mas, sério, na maior parte do tempo não faço ideia do que se passa na cabeça dele.
Isso me faz lembrar um monte de coisas que Blue postou no Tumblr.
Nick pega meu celular e começa a olhar os vídeos.
— Se a gente achar um episódio com falas em versos alexandrinos, podemos matar a aula de literatura sem problemas.
— Hum, se a gente achar, vou usar Hora de Aventura na minha redação de tema livre.
Ele olha para mim e começa a rir.
O caso é que não me sinto sozinho com Nick. É tranquilo. Então talvez seja uma coisa boa.
* * *
Chego cedo para o ensaio na quinta-feira. Saio pela porta lateral do auditório e vou até os fundos da escola. Está bem frio para a Georgia, e parece que choveu em algum momento depois do almoço. Mas aqui só há dois tipos de tempo, na verdade: um clima que pede casaco e outro em que você acaba usando casaco de qualquer jeito.
Devo ter deixado meus fones de ouvido na mochila, que ficou no auditório. Odeio usar o alto-falante do celular, mas ouvir música é sempre melhor do que não ouvir música. Eu me recosto na parede atrás do refeitório e busco na minha lista um EP da banda Leda.
Ainda não escutei, mas Leah e Anna estão obcecadas por esse EP, o que só pode ser um bom sinal.
De repente, não estou mais sozinho.
— Beleza, Spier. Qual é a sua? — pergunta Martin, se recostando ao meu lado na parede.
— A minha?
— Acho que você está me evitando.
Nós dois estamos de All Star preto, e não consigo identificar se meus pés são pequenos ou se os dele é que são enormes. Martin deve ser quinze centímetros mais alto do que eu. Nossas sombras ficam ridículas lado a lado.
— Não estou evitando você — digo.
Eu saio andando na direção do auditório. Afinal, não quero irritar a sra. Albright.
Martin me alcança.
— Sério — diz ele —, não vou mostrar os e-mails para ninguém, tá? Para de surtar.
Mas acho que vou encarar isso com um milhão de pés atrás.
Porque ele não falou que vai apagá-los.
Martin olha para mim, e não consigo interpretar sua expressão. É
curioso. Há tantos anos eu estudo com esse garoto, dou risada das asneiras aleatórias que ele diz. Eu já o vi em várias peças na escola. Até nos sentamos um do lado do outro no coral durante um ano. Mas eu não o conheço direito. Na verdade, acho que não o conheço nem um pouco.
Nunca subestimei tanto uma pessoa.
— Eu já disse que vou falar com ela.
Já estou com as mãos na porta do auditório.
— Espere! — pede Martin. Eu olho para ele, que está segurando o celular. — Não seria mais fácil se a gente pegasse o número de telefone um do outro?
— Eu tenho escolha?
— Ah...
Ele dá de ombros.
— Meu Deus, Martin!
Pego o celular dele e digito meu número esmagando as teclas, as mãos tremendo de tanta raiva.
— Legal! Vou ligar para você gravar o meu também.
— Você que sabe.
Maldito Martin Addison. Vou salvar o número dele como “Martírio Abominável”.
Entro no auditório, e a sra. Albright está no palco.
— Muito bem. Preciso de Fagin, Dodger, Oliver e os garotos.
Primeiro ato, cena seis. Vamos.
— Simon! — Abby me abraça e cutuca minhas bochechas. — Nunca mais me abandone.
— O que eu perdi? — Abro um sorriso forçado.
— Nada — diz ela, baixinho —, mas estou no Inferno de Taylor aqui.
— O círculo mais louro do inferno.
Taylor Metternich. Ela é o pior tipo de pessoa perfeita. Como se a perfeição tivesse um lado negro. Não sei de que outra forma explicar. Sempre a imagino sentada em frente a um espelho à noite, contando escovadas de cabelo. Também é o tipo que posta no Facebook perguntando como você foi na prova de história. Não para dar força. Para saber sua nota.
— Tudo bem, rapazes — diz a sra. Albright. O que é hilário, porque Martin, Cal Price e eu somos os únicos no palco que tecnicamente se qualificam no comentário. — Prestem atenção, porque vamos fazer algumas marcações.
Ela afasta a franja dos olhos e a coloca atrás da orelha. A sra.
Albright é bem jovem para ser professora, e seu cabelo é de um tom de ruivo intenso. Tipo, ruivo elétrico.
— A cena seis do primeiro ato é a do batedor de carteira, não é?
— pergunta Taylor, porque ela é o tipo de pessoa que finge fazer uma pergunta só para mostrar o que já sabe.
— Isso — responde a sra. Albright. — Pode ir, Cal.
Cal é o diretor de palco. Ele é do segundo ano, assim como eu, e carrega um fichário azul gigantesco com uma cópia do roteiro, com espaçamento duplo e cheia de anotações. É engraçado que o
trabalho dele seja basicamente dar ordens na gente e se estressar, porque ele é a pessoa menos autoritária que já conheci. Ele é meio delicado e tem sotaque sulista, coisa que, na verdade, quase não se vê em Atlanta.
Ele também tem o tipo de franja castanha desgrenhada que eu curto e olhos azul-escuros como o oceano. Nunca ouvi nada sobre ele ser gay, mas tem uma vibe.
— Certo — diz a sra. Albright. — Dodger acabou de fazer amizade com Oliver e está levando o garoto para o esconderijo pela primeira vez, para conhecer Fagin e os outros. Então. Qual é o objetivo de vocês?
— Mostrar a ele quem manda — diz Emily Goff.
— Talvez infernizar um pouco a vida deles? — sugere Mila Odom.
— Isso aí. Ele é o cara novo, e vocês não vão facilitar as coisas.
Ele é um nerd. Vocês querem intimidá-lo e fazer a limpa nele.
Isso faz algumas pessoas rirem. Para uma professora, a sra.
Albright é moderadamente incrível.
Ela e Cal nos colocam em posição; a sra. Albright chama isso de
“arrumar a cena”. Eles querem que eu fique deitado em uma plataforma, apoiado nos cotovelos, jogando para cima uma bolsinha de moedas. Quando Dodger e Oliver entram, todos nós temos que dar um pulo e tentar pegar a sacola de Oliver. Tenho a ideia de enfiá-la debaixo da camisa e andar pelo palco com a mão na lombar, como se estivesse grávido.
A sra. Albright adora.
Todo mundo ri, e, sinceramente, esse é o melhor momento. Todas as luzes do auditório estão apagadas, menos as do palco, e estamos todos com os olhos brilhando e rindo como bêbados. Eu me apaixono um pouquinho por todo mundo. Até por Taylor.
Até por Martin. Ele sorri para mim quando nossos olhares se encontram, e tenho que abrir um sorriso para ele também. Martin é um merdinha puxa-saco, verdade seja dita, mas é tão desengonçado e inquieto e ridículo... Isso tira um pouco da paixão por odiá-lo.
É isso. Não vou escrever um poema em homenagem a ele. E não sei o que ele espera que eu diga para Abby. Não faço a menor ideia.
Mas acho que vou pensar em alguma coisa.
O ensaio termina. Abby e eu nos sentamos na beirada do palco e ficamos balançando os pés, vendo a sra. Albright e Cal fazerem anotações no grande fichário azul. O último ônibus para o sul do condado só sai em quinze minutos, e Abby leva uma hora para chegar em casa. O tempo que ela e a maioria dos alunos negros levam indo e voltando da escola todo dia é maior do que o tempo que eu levo em uma semana inteira. Atlanta é uma cidade tão segregada, mas ninguém nunca fala sobre isso.
Ela boceja e se deita no palco, colocando um dos braços embaixo da cabeça. Está usando uma meia-calça e um vestidinho estampado. O pulso esquerdo está cheio de pulseiras da amizade trançadas.
Martin está sentado do outro lado do palco, não muito longe, fechando a mochila tão devagar que só pode ser de propósito.
Parece estar fazendo questão de não olhar para nós.
Abby está de olhos fechados. Ela tem o tipo de boca que sempre sustenta um sorriso leve, e tem um cheirinho de canela. Se eu fosse hétero... entenderia o charme de Abby.
— Ei, Martin — digo, e minha voz soa estranha. Ele olha para mim. — Você vai à casa do Garrett amanhã?
— Eu, hã… Vai ter festa?