Com amor, Simon
Capítulo 28
MAIS TARDE, NO camarim, a ficha cai.
Martin van Buren. Nosso oitavo presidente.
Mas não tem como. Não é possível.
A toalha que estava usando para tirar a maquiagem cai no chão.
Ao meu redor, garotas tiram chapéus e soltam os cabelos e passam sabonete no rosto e fecham as mochilas. Uma porta se abre de repente em algum lugar, e há uma explosão de gargalhadas.
Minha mente está fervilhando. O que sei sobre Martin? O que sei de verdade sobre Blue?
Martin é inteligente, obviamente. Seria inteligente o bastante para ser Blue? Não faço ideia se Martin é metade judeu. Poderia ser.
Talvez seja. Não é filho único, mas pode ter mentido sobre isso. Não sei. Não sei. Não faz sentido nenhum. Porque Martin não é gay.
Mas, pensando bem, alguém acha que ele é. Se bem que eu não devia acreditar em algum babaca anônimo que me chamou de veado.
— Simon, não! — diz Abby, na porta.
— O quê?
— Você tirou! — Ela olha para o meu rosto por um minuto. —
Acho que ainda dá para ver.
— Você está falando da beleza absurda? — pergunto, e ela ri.
— Escuta só. Acabei de receber uma mensagem de Nick, ele está esperando a gente no estacionamento. Vamos levar você para sair hoje.
— O quê? Para onde?
— Ainda não sei. Mas minha mãe está em Washington este fim de semana, ou seja: a casa e o carro são todos meus. Então, você vai
passar a noite em território Suso.
— Vamos dormir na sua casa?
— Vamos — diz ela, e reparo que está sem maquiagem e novamente de calça skinny. — Vá levar sua irmã em casa. Ou fazer o que você tiver que fazer.
Olho no espelho e tento domar meu cabelo.
— Nora já voltou de ônibus — digo, lentamente. É estranho. O
Simon do espelho ainda está de lentes de contato. Ainda está quase irreconhecível. — Por que vamos fazer isso mesmo?
— Porque não temos ensaio — explica ela, cutucando minha bochecha —, e porque você teve um dia de merda.
Eu quase dou uma gargalhada. Ela nem faz ideia.
No caminho para o estacionamento, ela fala dos planos para mais tarde, e deixo que as palavras dela meio que passem direto por mim. Estou encucado demais com a história do Martin. É quase incompreensível.
Significaria que Martin escreveu aquela postagem no Tumblr sobre homossexualidade em agosto. E é com Martin que venho trocando e-mails diariamente nos últimos cinco meses. Quase dá para acreditar nessa parte, mas não consigo encontrar explicação para a chantagem. Se Martin é mesmo gay, por que colocar Abby no meio disso?
— Acho que devíamos passar a tarde em Little Five Points — diz Abby —, depois vamos para Midtown.
— Parece ótimo.
Não faz sentido.
Mas, então, penso nas tardes na Waffle House e nos ensaios até tarde da noite, e de como eu estava começando a gostar dele antes de tudo desmoronar. Chantagem com uma amizade de brinde.
Talvez essa tenha sido a razão de tudo.
Só que nunca senti que ele gostava de mim. Nem uma vez.
Então, não pode ser isso. Martin não pode ser Blue.
A não ser que seja. Mas não.
Porque não pode ser uma brincadeira. Blue não pode ser uma brincadeira. Isso não é nem uma possibilidade. Ninguém poderia ser tão cruel assim. Nem mesmo Martin.
Estou tendo dificuldade para respirar.
Não pode ser uma brincadeira porque não sei o que eu faria se fosse.
Não consigo pensar nisso. Meu Deus. Não consigo.
Não vou pensar.
* * *
Nick está esperando em frente à escola, e ele e Abby se cumprimentam com um soquinho quando se veem.
— Estamos com ele — diz ela.
— E agora? — pergunta Nick. — Vamos de carro para casa pegar nossas coisas e você vai nos buscar?
— Esse é o plano — diz Abby. Ela pega a chave do carro na mochila e pergunta: — Vocês falaram com a Leah?
Nick e eu trocamos olhares.
— Ainda não — diz Nick.
Ele parece murchar. É complicado, porque, embora eu ame a Leah, a presença dela muda tudo. Ela vai ficar mal-humorada e resmungona por causa de Nick e Abby, vai reclamar de Midtown. E
juro que não sei como descrever, mas a insegurança dela às vezes pode ser contagiosa.
Mas Leah odeia ser excluída.
— Talvez só nós três hoje — diz Nick com cuidado, olhando para o chão.
Dá para ver que ele se sente mal por isso.
— Tudo bem — respondo.
— Tudo bem — diz Abby. — Vamos.
* * *
Vinte minutos depois, estou no banco de trás do carro da mãe de Abby com uma pilha de livros nos pés.
— Deixe em qualquer lugar — diz Abby, me olhando pelo retrovisor. — Ela lê enquanto me espera. Ou quando estou dirigindo.
— Nossa, eu fico enjoado só de ler o celular no carro — diz Nick.
— Nauseado — digo, e meu coração dá um nó.
— Vejam só quem apareceu: o sr. Pai dos Burros. — Nick se vira e sorri para mim.
Abby pega a rodovia 285 e entra no trânsito sem dificuldade nenhuma. Ela nem parece tensa. Eu me dou conta de que ela é a melhor motorista do grupo.
— Você sabe para onde estamos indo? — pergunto.
— Sei — diz Abby.
Vinte minutos depois, paramos no estacionamento do Zesto. Eu nunca venho aqui. Na verdade, mal vou a Atlanta. Está quente e barulhento lá dentro, cheio de gente comendo cachorro-quente com queijo, hambúrguer e coisas do tipo. Mas não estou nem aí por estarmos no inverno. Peço sorvete de chocolate com pedaços de Oreo mesmo assim e, durante os dez minutos que levo para comer, quase me sinto normal de novo. Quando voltamos para o carro, o sol está começando a se pôr.
Em seguida, vamos ao Junkman’s Daughter, que fica ao lado do Aurora Café.
Mas não estou pensando em Blue.
Passamos alguns minutos olhando as coisas lá de dentro. Eu adoro o Junkman’s Daughter. Nick fica absorto em uma estante de livros sobre filosofia oriental, e Abby compra uma meia-calça. Acabo vagando pelos corredores, tentando não fazer contato visual com garotas de aparência assustadora, com moicanos cor-de-rosa.
Não estou pensando no Aurora Café e não estou pensando em Blue.
Não posso pensar em Blue.
Não posso pensar na possibilidade de Blue ser Martin.
Está escuro, mas não está tão tarde, e Abby e Nick querem me levar a uma livraria feminista que obviamente está repleta de material gay. Olhamos as prateleiras, e Abby pega um livro de fotos LGBT para me mostrar; Nick fica perto, meio constrangido. Abby compra para mim um livro sobre pinguins gays, e nós saímos para andar mais um pouco pela rua. Mas está ficando frio e estamos ficando com fome de novo, então voltamos para o carro e seguimos para Midtown.
Abby parece saber exatamente aonde vamos. Ela para em uma rua lateral e estaciona sem dificuldade. Andamos rapidamente até a esquina e vamos para a rua principal. Nick está tremendo, pois está só com uma jaqueta, e Abby revira os olhos dizendo:
— Garoto da Georgia.
Em seguida, passa o braço ao redor dele e esfrega seu braço para aquecê-lo.
— Chegamos — diz ela quando nos deparamos com um lugar na Juniper chamado Webster’s.
Tem um pátio grande cheio de luzes de Natal e faixas de arco-íris, e, embora o pátio esteja vazio, o estacionamento está lotado.
— Isso é tipo um bar gay? — pergunto.
Abby e Nick sorriem.
— Tudo bem — digo —, mas como vamos entrar?
Eu tenho 1,70 de altura, Nick não pode fazer crescer uma barba de repente, e Abby está usando um monte de pulseiras da amizade.
Não há a menor chance de nos passarmos por pessoas de vinte e um anos.
— É um restaurante — diz Abby. — Nós só vamos jantar.
Lá dentro, o ambiente está abarrotado de caras com cachecol, jaqueta e calça skinny. E todos são fofos e impressionantes. A maioria tem piercing. Tem um bar atrás, com hip-hop tocando e garçons se contorcendo para passar no meio da multidão com chopes e cestos com asinhas de frango.
— Só vocês três? — pergunta o recepcionista, apoiando a mão no meu ombro por um segundo, mas é o bastante para fazer meu estômago dar um nó. — Só deve demorar um minuto, querido.
Chegamos um pouco para o lado, e Nick pega um cardápio. Tudo que servem ali é sugestivo: linguiça, bruschettas. Abby não consegue parar de rir. Tenho que ficar lembrando a mim mesmo que é só um restaurante. Faço contato visual sem querer com um cara lindo usando uma camiseta apertada com gola V e desvio o olhar na mesma hora, mas meu coração dispara.
— Vou ao banheiro — digo, porque tenho certeza de que vou entrar em combustão se ficar ali.
Os banheiros ficam no final de um pequeno corredor depois do bar, e tenho que passar por um monte de gente para chegar lá.
Quando saio, o lugar está ainda mais cheio. Tem duas garotas segurando cervejas e meio que dançando, e um grupo de caras rindo, e muita gente segurando bebidas ou de mãos dadas.
Alguém bate no meu ombro.
— Alex.
Eu me viro.
— Eu não sou…
— Você não é Alex — diz o cara —, mas tem cabelo de Alex.
Ele ergue a mão e passa os dedos pelo meu cabelo.
Está sentado em um banco do bar e não parece muito mais velho do que eu. Tem cabelo louro bem mais claro que o meu. É um louro estilo Draco. Está usando camisa polo e calça jeans e é muito bonito. Acho que talvez esteja bêbado.
— Qual é seu nome, Alex? — pergunta ele, descendo do banco.
Quando fica de pé, é quase uma cabeça mais alto do que eu e tem cheiro de desodorante. Tem dentes extremamente brancos.
— Simon.
— Simon, de Alvin e os Esquilos! — Ele ri.
Está mesmo bêbado.
— Eu sou Peter. Pan — diz ele. — Não saia daí. Vou comprar uma bebida para você.
Ele coloca a mão em meu cotovelo e se vira para o bar, e de repente estou segurando um copo de martíni cheio de uma coisa verde.
— Parece maçã — diz Peter.
Tomo um gole e não acho horrível.
— Obrigado — digo, e a sensação de nó no estômago se apossa de mim.
Estou meio perdido. Isso é tão diferente do meu normal.
— Você tem olhos incríveis — diz Peter, sorrindo para mim.
A música muda para algum ritmo com batida forte. Ele abre a boca para dizer mais alguma coisa, mas as palavras são engolidas.
— O quê?
Ele dá um passo mais para perto de mim.
— Você é estudante?
— Ah. Sou.
Meu coração dispara. Ele está tão perto que nossas bebidas estão encostando uma na outra.
— Eu também. Estou na Emory. Sou do terceiro ano. Espera.
Ele esvazia o copo em um grande gole e se vira para o bar. Eu olho por cima da multidão e procuro Nick e Abby. Eles estão sentados a uma mesa do outro lado e estão me olhando, parecendo desconfortáveis. Abby me vê e acena, desesperada. Dou um sorriso e aceno para ela de volta.
De repente, sinto a mão de Peter no meu braço de novo, e ele me entrega um copo pequeno cheio de um líquido laranja, como aquele remédio para resfriado. Efervescente. Mas ainda estou na metade do meu drinque de maçã, então viro tudo e devolvo o copo vazio para ele. Brindamos com nossas bebidas de remédio, e a dele logo desaparece.
Eu tomo um gole da minha, e tem gosto de refrigerante de laranja.
Peter ri e toca nas pontas dos meus dedos.
— Simon, você já tomou alguma dose antes?
Eu faço que não.
— Own, tudo bem. Incline a cabeça e só… — Ele demonstra com o copo vazio. — Pronto?
— Pronto — respondo, e aquela sensação quente e feliz começa a surgir.
Tomo a dose em dois goles e consigo não colocar nada para fora.
Dou um sorriso para Peter, e ele pega meu copo, segura minha outra mão e entrelaça os dedos nos meus.
— Simon fofo. De onde você é?
— De Shady Creek.
— Sei — diz ele, e percebo que nunca ouviu falar de lá, mas ele sorri e se senta no banco e me puxa para perto.
Os olhos dele são meio cor de mel, e eu gosto disso. Agora está mais fácil falar, está mais fácil do que não falar, e só digo a coisa certa, e ele assente e ri e aperta as palmas das minhas mãos. Conto para ele sobre Abby e Nick, para quem estou tentando não olhar, porque, toda vez que olho, os olhares deles começam a me repreender. E Peter me conta sobre os amigos e diz:
— Ah, minha nossa, você tem que conhecer meus amigos. Você tem que conhecer Alex.
Ele pede mais uma dose de remédio para cada um, depois me pega pela mão e me leva até uma mesa grande e redonda no canto.
Ali está um grupo só de garotos, praticamente, e são todos fofos, e tudo está girando.
— Este é o Simon — diz Peter, passando o braço pelo meu ombro e me abraçando de lado. Ele me apresenta a todo mundo, e eu esqueço todos os nomes na mesma hora, exceto Alex, a quem Peter apresenta dizendo: — Conheça seu sósia.
Mas é meio desconcertante, porque Alex não é nada parecido comigo. Nós dois somos brancos, claro. Mas até nosso cabelo, famoso por ser parecido, é totalmente diferente. O dele é bagunçado de propósito. O meu é só bagunçado. Mas Peter fica olhando para mim e para ele, rindo, e alguém se senta no colo de outra pessoa para liberar uma cadeira para mim, e alguém me dá uma cerveja. Tem bebidas para todo o lado.
Os amigos de Peter são barulhentos e engraçados, e estou rindo tanto que fico com soluço, mas nem consigo me lembrar do que estou rindo. E o braço de Peter está apertando meus ombros, e em determinado momento, do nada, ele se inclina para me dar um beijo na bochecha. É um outro universo completamente diferente. É como ter um namorado. E, de alguma forma, eu começo a contar para eles sobre Martin e os e-mails e a chantagem, e, parando para pensar, até que é uma história hilária. E todo mundo está gargalhando, e uma garota diz:
— Ai, meu Deus, Peter, ai, meu Deus. Ele é um amorzinho.
E a sensação é incrível.
De repente, Peter se inclina para perto de mim. Os lábios dele estão perto do meu ouvido, e ele pergunta:
— Você está no ensino médio?
— Estou no segundo ano — digo.
— Do ensino médio — repete ele. O braço ainda está ao redor do meu corpo. — Quantos anos você tem?
— Dezessete — sussurro, me sentindo envergonhado.
Ele olha para mim e balança a cabeça.
— Ah, querido — diz ele, sorrindo com tristeza. — Não. Não.
— Não? — pergunto.
— Com quem você veio? Onde estão seus amigos, Simon fofo?
Eu aponto na direção de Nick e Abby.
— Ah — diz ele.
Ele me ajuda a levantar e segura minha mão, e o salão fica girando, mas acabo em uma cadeira. Ao lado de Abby e em frente a Nick, com um cheesebúrguer intocado na mesa. Frio, mas simples e perfeito, sem nada verde e com muita batata.
— Tchau, Simon fofo — diz Peter, me abraçando e dando um beijo na minha testa. — Viva seus dezessete anos.
Ele sai cambaleando, e Abby e Nick parecem não saber se gargalham ou se entram em pânico. Ai, meu Deus. Eu amo meus amigos. Amo de verdade. Mas sinto tudo girando por dentro.
— Quanto foi que você bebeu? — pergunta Nick.
Tento contar nos dedos.
— Deixa. Não quero saber. Só coma alguma coisa.
— Adorei aqui — digo.
— Estou vendo — comenta Abby, enfiando uma batata frita na minha boca.
* * *
— Mas vocês viram os dentes dele? — pergunto. — Ele tinha os dentes mais brancos que eu já vi. Aposto que usa aquelas coisas.
Aqueles produtos.
— Whitestrips — diz Abby.
Ela está com o braço ao redor da minha cintura, e Nick está com o braço ao redor da minha outra cintura. Quer dizer, a mesma cintura. E meus braços estão ao redor dos ombros deles, porque eu amo MUITO esses dois.
— Sem a menor dúvida — digo, com um suspiro. — Ele está na faculdade.
— Foi o que você disse — diz Abby.
É uma noite perfeita. Tudo está perfeito. Nem está mais frio lá fora. É noite de sexta, e não estamos na Waffle House, nem jogando Assassin’s Creed no porão de Nick, e também não estamos pensando em Blue. Estamos aqui e estamos vivos, e todo mundo do universo está aqui agora.
— Oi — digo para alguém.
Sorrio para todas as pessoas que cruzam nosso caminho.
— Simon. Meu Deus — diz Abby.
— Tudo bem — diz Nick. — Você vai no banco da frente, Spier.
— O quê? Por quê?
— Porque acho que Abby não precisa do seu vômito no estofamento da mãe dela.
— Eu não vou vomitar — digo, mas, assim que as palavras saem da minha boca, sinto uma reviravolta suspeita na barriga.
Por isso, vou na frente e abro a janela, e o ar frio é intenso e refrescante. Fecho os olhos e encosto a cabeça no banco, mas de repente me lembro de uma coisa.
— Esperem, aonde estamos indo? — pergunto.
Abby reduz e deixa um carro entrar na frente.
— Para a minha casa — responde ela. — Em College Park.
— Mas esqueci minha camiseta. Podemos passar na minha casa?
— É do outro lado — diz Abby.
— Merda — digo. Merda merda merda.
— Posso emprestar uma camiseta — insiste Abby. — Tenho certeza de que algumas das roupas do meu irmão estão aqui.
— E você já está de camiseta — diz Nick.
— Nããão. Não. Não é para vestir — respondo.
— Então é para quê? — pergunta Abby.
— Não posso vestir — explico. — Seria estranho. Tenho que botar debaixo do meu travesseiro.
— Ah, porque isso não é nem um pouco estranho — diz Nick.
— É uma camiseta do Elliott Smith. Você sabia que ele se esfaqueou quando tínhamos cinco anos? Foi por isso que nunca fui a um show dele. — Eu fecho os olhos. — Você acredita em vida após a morte? Nick, os judeus acreditam no paraíso?
— Tudo bem... — diz Nick.
Ele e Abby trocam um olhar pelo retrovisor, e Abby passa para a faixa da direita. Ela entra no retorno para a rodovia e, quando se mistura aos outros carros, percebo que estamos indo para o norte.
De volta para Shady Creek. Para pegar minha camiseta.
— Abby, já falei que você é a melhor pessoa do universo inteiro?
Ai, meu Deus. Eu amo tanto você. Eu amo você mais do que Nick ama você.
Abby ri, e Nick começa a tossir, e fico meio nervoso, porque agora não consigo lembrar se é segredo que Nick ama Abby. É melhor eu continuar falando.
— Abby, e se você virasse minha irmã? Preciso de novas irmãs.
— Qual é o problema com suas antigas irmãs? — pergunta ela.
— Elas são terríveis. Nora nunca está em casa, e Alice está namorando.
— Como isso pode ser terrível? — pergunta Abby.
— Alice está namorando? — pergunta Nick.
— Mas elas deviam ser Alice e Nora. Não deviam mudar —
explico.
— Elas não têm o direito de mudar? — pergunta Abby, rindo. —
Mas você está mudando. Está diferente do que era cinco meses atrás.
— Não estou diferente!
— Simon. Acabei de ver você flertando com um cara desconhecido em um bar gay. Você está de lápis no olho. E está totalmente bêbado.
— Não estou bêbado.
Abby e Nick se olham de novo pelo espelho e caem na gargalhada.
— E ele não era um cara desconhecido.
— Não era? — questiona Abby.
— Era um cara desconhecido da faculdade — lembro a ela.
— Ah.
Abby para na porta da minha casa e desliga o carro, e eu a abraço e digo:
— Obrigado obrigado obrigado.
Ela bagunça meu cabelo.
— Tudo bem. Um segundo — peço. — Não saiam daqui.
O caminho está meio ondulante, mas nada de mais. Demoro um minuto para acertar a chave. As luzes da entrada estão apagadas, mas a TV está ligada, e acho que na minha cabeça meus pais já
estariam dormindo a essa hora, mas eles estão aconchegados no sofá usando pijamas, com Bieber entre os dois.
— O que você está fazendo em casa, garoto? — pergunta meu pai.
— Tenho que pegar uma camiseta — respondo, mas talvez isso não tenha soado muito bem, então tento de novo. — Estou de camiseta, mas preciso pegar uma camiseta para levar para a casa de Abby, porque é uma determinada camiseta e não é nada de mais, mas preciso dela.
— Tudo bem… — diz minha mãe, e olha para o meu pai.
— Vocês estão vendo The Wire? — pergunto. Eles deram pause.
— Ai, meu Deus. É isso que vocês fazem quando não estou em casa. Vocês veem séries, com roteiro e tudo.
E agora não consigo parar de rir.
— Simon — chama meu pai, parecendo confuso e severo e achando graça, tudo ao mesmo tempo. — Tem alguma coisa que você queira nos contar?
— Eu sou gay — digo, e começo a rir.
Não consigo me controlar, e mais risadinhas escapam da minha boca.
— Tudo bem, sente-se — diz ele, e estou prestes a fazer uma piada, mas ele fica me olhando, então me sento no braço do sofá de dois lugares. — Você está bêbado.
Ele parece meio perplexo. Eu dou de ombros.
— Quem veio dirigindo? — pergunta ele.
— Abby.
— Ela bebeu?
— Pai, fala sério. Não. — Ele dá de ombros. — Não! Meu Deus.
— Em, você quer…
— Eu quero, sim — diz minha mãe, tirando Bieber de cima das pernas.
Ela sai do sofá e vai até a entrada, e escuto a porta da frente abrir e fechar.
— Ela vai lá fora falar com Abby? — pergunto. — É sério? Vocês não confiam mais em mim?
— Não sei se devemos, Simon. Você aparece às dez e meia, claramente bêbado, e nem parece achar que isso seja um problema,
então…
— Então para vocês o problema é que não estou tentando esconder. O problema é que não estou mentindo para vocês.
Meu pai se levanta de repente, e eu olho para ele e percebo que está furioso. Isso é tão incomum que fico tenso, e também meio destemido, porque acabo dizendo:
— Você gosta mais quando minto sobre as coisas? Deve ser uma merda você não poder mais fazer piada sobre gays. Aposto que mamãe não vai deixar, né?
— Simon — repreende ele.
Dou uma risadinha, mas sai aguda demais.
— Aquele momento constrangedor em que você percebe que faz piadas gays na frente do seu filho gay há dezessete anos.
Há um silêncio horrível e tenso. Meu pai só fica me olhando.
Finalmente minha mãe volta, e olha para cada um de nós por quase um minuto. E então diz:
— Mandei Abby e Nick voltarem para casa.
— O quê? Mãe! — Eu me levanto rápido demais, e meu estômago se revira. — Não. Não. Só vim pegar minha camiseta.
— Você vai ficar em casa hoje — diz minha mãe. — Seu pai e eu precisamos de um minuto para conversar. Por que você não vai tomar um copo de água? Vamos até lá daqui a pouco.
— Não estou com sede.
— Não estou pedindo — conclui minha mãe.
Eles só podem estar de brincadeira. Tenho que ficar ali sentado, bebendo água, enquanto eles falam de mim pelas costas. Bato a porta da cozinha.
Assim que a água toca meus lábios, eu bebo tão rápido que quase me esqueço de respirar. Meu estômago está dando voltas.
Acho que a água piora tudo. Estico os braços na mesa e deito a cabeça. Estou cansado demais.
Meus pais entram alguns minutos depois e se sentam ao meu lado.
— Bebeu água? — pergunta meu pai.
Movo o copo vazio na direção dele sem levantar a cabeça.
— Que bom — diz ele, hesitante. — Filho, temos que conversar sobre consequências.
Claro, porque afinal já tem pouca merda acontecendo na minha vida, né? Sou uma piada para as pessoas na escola, não consigo parar de pensar em um garoto, por quem acho que estou apaixonado, e ele pode ser uma pessoa que não suporto. E tenho certeza de que vou vomitar ainda hoje.
Mas é isso. Eles querem falar sobre consequências.
— Nós conversamos e… supostamente, este é o seu primeiro delito, certo? — Faço que sim com a cabeça ainda apoiada nos braços. — Então sua mãe e eu concordamos que você vai ficar de castigo por duas semanas a partir de amanhã.
Levanto a cabeça de repente.
— Vocês não podem fazer isso.
— Ah, não?
— A peça é no fim de semana que vem.
— Ah, sabemos bem — diz meu pai. — E você pode ir para a escola ensaiar e fazer suas apresentações, mas tem que voltar para casa logo depois. E seu laptop vai passar uma semana na sala.