Com amor, Simon

Becky Albertalli · Capítulo 30 de 38

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Com amor, Simon

Capítulo 30

CHEGO EM CASA e minha única vontade é sair andando por aí. Ir para qualquer lugar. Mas não posso nem passear com a porcaria do cachorro. Estou tão agitado, estranho e infeliz.

Odeio quando Leah fica com raiva de mim. Odeio. Não estou dizendo que não acontece muito, porque tem toda uma questão emocional com ela que eu nunca entendo. Mas a sensação agora é diferente e pior do que o nosso normal. Ela foi tão cruel em relação a tudo.

Além do mais, é a primeira vez que vejo Leah chorar.

O jantar é queijo quente e Oreo, porque meus pais ainda estão trabalhando e Nora saiu de novo. E eu basicamente passo a noite olhando para o teto. Não tenho vontade de fazer o dever. Ninguém vai esperar isso de mim mesmo, já que a peça estreia amanhã.

Escuto música e fico entediado e impaciente e, sinceramente, deprimido.

Por volta das nove, meus pais vêm falar comigo, querem conversar. Logo quando eu pensava que o dia não podia piorar.

— Posso me sentar? — pergunta minha mãe, de pé perto da beirada da cama.

Dou de ombros, e ela se senta, e meu pai se senta na cadeira da escrivaninha.

Coloco as mãos embaixo da cabeça e suspiro.

— Deixa eu adivinhar. Não fique bêbado.

— É, é bem isso — diz meu pai —, não fique bêbado.

— Entendi.

Eles se olham. Meu pai pigarreia.

— Eu lhe devo um pedido de desculpas, garoto.

Eu olho para ele.

— O que você disse na sexta. Sobre as piadas gays.

— Eu estava brincando. Tudo bem.

— Não — retruca ele. — Não está tudo bem.

Dou de ombros.

— Só vou deixar uma coisa clara, caso a mensagem tenha passado batida. Eu amo você. Muito. Acima de tudo. E sei que deve ser incrível ter um pai legal.

— Hã-hã — diz minha mãe.

— Desculpe. Pais legais. Pais ousados, incríveis e hipsters.

— Ah, é incrível — digo.

— Mas dá um toque na gente se precisar, tá? Fala comigo. — Ele massageia o queixo. — Sei que não facilitei as coisas para você se abrir para nós. Estamos orgulhosos de você. Foi muito corajoso, garoto.

— Obrigado.

Eu me levanto e encosto na parede, achando que é uma boa hora para esfregarem meu cabelo e dizerem Durma bem, filho e Não fique acordado até tarde.

Mas eles não se mexem. Então, eu digo:

— Só para constar, eu sabia que você estava brincando. Não foi por isso que não quis contar pra vocês.

Meus pais se olham de novo.

— Posso perguntar qual foi o motivo? — indaga minha mãe.

— Sabe, não houve nenhum específico. Eu só não queria ter que falar sobre isso. Eu sabia que seria um estardalhaço. Sei lá.

— E foi? — pergunta minha mãe.

— Ah, foi.

— Sinto muito — diz minha mãe. — Nós fizemos um estardalhaço?

— Ai, meu Deus. Sério? Vocês fazem estardalhaço por tudo.

— É mesmo? — pergunta ela.

— Quando eu comecei a beber café. Quando comecei a fazer a barba. Quando arrumei uma namorada.

— São coisas emocionantes — diz ela.

— Não é emocionante — respondo. — É… sei lá. Vocês são tão obcecados com tudo o que eu faço. Não posso nem mudar de meia

sem alguém comentar.

— Ah — diz meu pai. — Então o que você está tentando dizer é que somos bizarros demais.

— É.

Minha mãe ri.

— É que você ainda não é pai e não consegue entender. É assim: você tem um bebê, e de repente ele começa a fazer coisas. E eu conseguia ver cada mudançazinha, era tudo tão fascinante. — Ela dá um sorriso triste. — E agora, estou perdendo algumas coisas.

Algumas coisinhas. E é difícil abrir mão.

— Mas eu tenho dezessete anos. Você não acha que é normal que eu mude?

— Claro que é. E eu adoro isso. É a época mais empolgante. —

Ela aperta a ponta do meu pé. — Só estou dizendo que eu gostaria de testemunhar tudo isso acontecer.

Não sei o que responder.

— Vocês estão tão crescidos agora — continua ela —, vocês três.

E são todos tão diferentes. Mesmo quando eram bebês. Alice era tão destemida, e Nora era tão tímida, e você era um palhaço. Todo mundo ficava dizendo que você saiu igualzinho a seu pai.

Meu pai sorri, e estou meio chocado. Eu nunca, nunquinha, pensei em mim assim.

— Eu me lembro de quando peguei você pela primeira vez. A sua boquinha. Você pegou direto no meu peito.

— Mãe.

— Você não imagina. Foi um momento incrível. E seu pai entrou carregando sua irmã, e ela ficava dizendo “Bebê não!” — Minha mãe ri. — Eu não conseguia parar de olhar para você. Não conseguia acreditar que éramos pais de um menino. Acho que nos acostumamos tanto a nos ver como pais de menina que foi uma coisa toda nova a se descobrir.

— Me desculpem por não ter sido tão menino assim — digo.

Meu pai vira a cadeira para olhar diretamente para mim.

— Você está de brincadeira?

— Mais ou menos.

— Você é um menino incrível — diz ele. — É tipo um ninja.

— Ah, obrigado.

— De nada — diz ele.

Ouvimos ao longe a porta batendo e unhas caninas arranhando o piso de madeira. Nora chegou.

— Escuta — diz minha mãe, cutucando meu pé de novo. — Não quero me intrometer demais, mas será que você pode fazer um pouco a nossa vontade? Contar para a gente o que você puder, e vamos tentar não ser esquisitos e obcecados?

— Parece um bom acordo.

— Que bom — diz ela. Eles se olham de novo. — Temos uma coisa para você.

— É mais uma anedota sobre amamentação?

— Ah, meu Deus, você adorava os peitos dela — diz meu pai. —

Não acredito que virou gay.

— Hilário, pai.

— Eu sei que sou. — Ele se levanta e tira uma coisa do bolso. —

Toma — diz ele, jogando para mim.

Meu celular.

— Você ainda está de castigo, mas ganha condicional este fim de semana. E pode pegar o laptop depois da peça amanhã, se lembrar todas as falas.

— Mas eu não tenho falas — digo, lentamente.

— Então você não tem nada com que se preocupar, garoto.

* * *

Mas é meio engraçado, porque, mesmo sem falas para esquecer, estou nervoso. Empolgado e agitado e pilhado e nervoso. Assim que o sinal do fim das aulas toca, a sra. Albright leva Abby, Martin, Taylor e alguns outros para fazer um aquecimento vocal na sala de música, e o resto de nós fica sentado no chão do auditório comendo pizza.

Cal está correndo de um lado para o outro resolvendo coisas com a equipe técnica, e é meio que um alívio ficar no meio de um grupo aleatório de garotas do último ano. Nada de Calvin Coolidge nem de Martin van Buren e nenhum outro garoto presidencial para me confundir. Nada de Leah olhando para mim com armas no lugar de olhos.

A peça começa às sete, mas a sra. Albright quer todos nós prontos com o figurino completo às seis. Coloco minhas lentes de contato e troco de roupa cedo, depois fico sentado no camarim das garotas esperando Abby. São cinco e meia quando ela chega, e o humor dela está esquisito. Ela nem diz oi direito.

Puxo a cadeira para o lado dela e a observo passando maquiagem.

— Está nervosa? — pergunto.

— Um pouco.

Ela olha no espelho enquanto passa rímel nos cílios.

— Nick vem hoje, né?

— Vem.

Essas respostas curtas e abruptas... Ela quase parece irritada.

— Quando você acabar, pode me ajudar a ficar ridiculamente lindo?

— O lápis no olho? — pergunta ela. — Tudo bem. Só um segundo.

Abby pega a bolsinha de maquiagem e coloca a cadeira em frente a minha. A essa altura, somos os únicos no camarim. Ela abre o lápis e estica minhas pálpebras, e tento não me mexer.

— Você está tão quieta — comento depois de um tempo. — Está tudo bem?

Ela não responde. Sinto o lápis deslizando pela beirada dos meus cílios.

— Abby?

O lápis se afasta, e eu abro os olhos.

— Não abre ainda. — Abby parte para a outra pálpebra. Ela fica em silêncio por um minuto. E depois diz: — Qual foi a história com Martin?

— Com Martin? — pergunto, e meu estômago revira.

— Ele me contou tudo, mas eu gostaria de ouvir de você.

Eu congelo. Tudo. Mas o que isso quer dizer?

— A história da chantagem?

— É. Isso. Ok, pode abrir. — Ela começa a riscar embaixo do olho, e luto contra a vontade de piscar. — Por que você não me contou?

— Porque... não sei. Não contei para ninguém.

— E fez o que ele queria?

— Eu não tinha muita escolha.

— Mas você sabia que eu não estava a fim dele, certo? — Ela tampa o lápis.

— É, eu sabia.

Abby se afasta um pouco para me examinar, suspira e se inclina para a frente de novo.

— Vou ter que acertar — diz ela. E fica em silêncio.

— Me desculpe. — De repente, parece importante que ela entenda. — Eu não sabia o que fazer. Ele ia contar para todo mundo. Eu não queria ajudá-lo. Eu mal ajudei.

— É.

— Por isso mesmo ele acabou postando aquilo no Tumblr. Porque eu não ajudei o bastante — acrescento.

— Não, eu entendo — diz ela.

Abby termina com o lápis e esfuma tudo com o dedo. Um instante depois, sinto que ela passa um pincel almofadado nas minhas bochechas e no meu nariz.

— Acabei — diz ela, e eu abro os olhos. Ela olha para mim e franze a testa. — É que, você sabe... Entendo que você estava em uma situação difícil. Mas você não tem que decidir nada sobre a minha vida amorosa. Eu escolho com quem eu saio. — Ela dá de ombros. — Para mim, você entendia isso.

Eu me ouço respirando fundo.

— Desculpe.

Eu baixo a cabeça. Queria poder desaparecer.

— Ah, você sabe. As coisas são assim. — Ela dá de ombros. —

Vou lá para fora, tá?

— Tá. — Eu balanço a cabeça.

— Talvez outra pessoa possa fazer sua maquiagem amanhã —

diz ela.

* * *

A peça vai bem. Melhor do que bem. Taylor está perfeitamente sincera, e Martin está perfeitamente perverso, e Abby está tão

animada e engraçada que é quase como se nossa conversa no camarim não tivesse acontecido. Mas, quando a apresentação acaba, ela desaparece sem se despedir, e Nick já foi embora depois que tiro o figurino. E não faço ideia se Leah apareceu.

Então, é assim. A peça está ótima. Eu é que estou infeliz.

Encontro meus pais e Nora no pátio, e meu pai está segurando um buquê de flores tão gigantesco que parece saído de uma história do Dr. Seuss. Porque, mesmo sem falas, tudo indica que possuo um dom divino para o teatro. E, durante todo o caminho para casa, eles cantarolam as músicas e falam sobre a voz incrível de Taylor e me perguntam se sou amigo do cara hilário de barba. Ou seja, Martin.

Meu Deus, que pergunta.

Eu me reencontro com meu laptop assim que chegamos em casa.

Para ser sincero, estou mais confuso do que nunca.

Não é surpresa Leah estar furiosa por causa de sexta. Acho que ela está exagerando, mas entendo. Eu devia ter imaginado que isso aconteceria. Mas Abby?

Sinceramente, por essa eu não esperava. É estranho, porque eu me sentia culpado por várias coisas, e Abby nunca foi uma delas.

Mas sou um idiota. Porque a pessoa de quem você gosta não pode ser forçada ou persuadida ou manipulada. Se tem alguém que sabe disso, esse alguém sou eu.

Sou um amigo de merda. Pior que isso, porque devia estar implorando o perdão de Abby agora mesmo, mas não estou. Estou ocupado demais me perguntando o que exatamente Martin disse para ela. Porque parece que ele não mencionou mais nada além da chantagem.

O que poderia significar que ele não quer admitir que é Blue. Ou poderia significar que ele não é Blue. E a ideia de Blue não ser Martin me dá uma esperança tão grande que fico até sem fôlego.

Estou realmente esperançoso, apesar da confusão que arrumei.

Apesar do drama. Apesar de tudo. Porque, mesmo com toda a merda que aconteceu essa semana, eu ainda gosto de Blue.

O que sinto por ele é feito um batimento cardíaco, suave e persistente, por baixo de tudo.

Entro no meu e-mail como Jacques e, quando faço isso, tenho um estalo. E não é a lógica do Simon. É a verdade objetiva e

indiscutível:

Todos os e-mails que Blue me mandou têm horário.