Com amor, Simon
Capítulo 25
<ENVIADO 6 JAN 23:18>
PARA: hourtohour.notetonote@gmail.com
DE: bluegreen181@gmail.com
ASSUNTO: Re: Sério?
No Tumblr? Está falando do creeksecrets? Acho que não entro lá desde agosto. O que houve por lá? E você não precisa se sentir idiota. Não faz mal. Mas acho que não estou errado.
Jacques a dit. Certo?
Blue
<ENVIADO 7 JAN 7:23>
POIS É. EU fui descuidado. Parece que deixei uma trilha de pistas, e eu não devia ficar surpreso por Blue ter descoberto quem eu era.
Acho que talvez eu quisesse que isso acontecesse.
Jacques a dit é a versão francesa da brincadeira “O mestre mandou”, que em inglês se chama Simon Says. E obviamente não é tão inteligente quanto achei que fosse.
Eu estraguei tudo. Sério, sou um imbecil. Não sei no que eu estava pensando. Olhos azul-esverdeados e uma sensação instintiva de que Blue era Cal? É a lógica clássica do Simon. Não me surpreende que eu tenha errado de forma tão horrenda e épica.
Passo uns vinte minutos olhando para o e-mail de Blue de manhã cedo antes de responder. Depois, fico atualizando a página sem parar, até Nora bater à porta. Chegamos à escola cinco minutos antes. Então, fico mais cinco minutos sentado no carro estacionado, atualizando meu e-mail de novo, no celular.
Ele não viu a postagem do Tumblr. Já é alguma coisa. É uma grande coisa, na verdade.
Entro quando o sinal toca, e estou bem atordoado. Sorte que minhas mãos parecem saber a combinação do cadeado do armário, porque meu cérebro fritou. As pessoas falam comigo e eu assinto, mas nenhuma informação é registrada. Acho que dois caras me chamam de Sêmen Gay. Não sei. Na verdade, nem ligo.
Só consigo pensar em Blue. Acho que parte de mim está torcendo para alguma coisa acontecer hoje. Algum tipo de revelação. Não consigo acreditar que Blue não me contaria, agora que sabe quem eu sou. Ou seja, estou procurando em toda a parte. Leah me passa um bilhete na aula de francês, e meu coração dispara, porque penso
que pode ser uma mensagem dele: Me encontre em frente ao seu armário. Estou pronto. Alguma coisa assim. Mas acaba sendo um desenho impressionante e realista em estilo mangá da nossa professora de francês executando felação em uma baguete. Por falar em coisas que me lembram Blue...
E quando alguém me cutuca no ombro na aula de história, meu coração dispara como uma bola de pinball. Mas é só Abby.
— Psiu, escute isso — diz ela.
Eu escuto, e é Taylor explicando para Martin que ela não estava tentando ter um vão entre as coxas, mas o metabolismo dela é assim, e ela nem sabia que algumas garotas sonham em ter esse vão. Martin assente e coça a cabeça e parece entediado.
— Ela não pode controlar o metabolismo, Simon — comenta Abby.
— Ao que parece, não.
Taylor pode ser uma agente secreta que combate o bullying, mas ela continua sendo bem irritante.
Abby me cutuca de novo e pede que eu pegue uma caneta que ela deixou cair, e meu coração vira uma bola de pinball outra vez.
Não consigo evitar. Existe uma expectativa no ar que é impossível reprimir.
Assim, quando as aulas terminam sem nenhum acontecimento extraordinário, meu coração fica meio partido. É como dar onze da noite no seu aniversário e você perceber que não vai ter uma festa surpresa, afinal.
* * *
Na quinta-feira, depois do ensaio, Cal menciona casualmente que é bissexual. E que deveríamos sair qualquer dia desses. Fui pego de surpresa. Só fiquei olhando, boquiaberto. O doce Cal de movimentos lentos, franja hipster e olhos de oceano.
Mas a questão é que ele não é Blue.
Que não anda respondendo meus e-mails.
Incrivelmente, esqueço o episódio com Cal até a aula de literatura do dia seguinte. O sr. Wise está fora da sala quando eu entro, e os
nerds estão inquietos. Umas pessoas estão discutindo Shakespeare, e alguém sobe em uma cadeira e berra o solilóquio de Hamlet no ouvido de outro cara. O sofá está lotado. Nick está no colo de Abby.
Ela se joga para trás e me chama. Está sorrindo, toda feliz.
— Simon, eu estava contando para o Nick o que aconteceu no ensaio ontem.
— É — diz Nick. — Mas quem é esse tal de Calvin?
Eu balanço a cabeça e fico vermelho.
— Ninguém. É do grupo de teatro.
— Ninguém, é? — Nick inclina a cabeça. — Tem certeza? Porque essa aqui me disse…
— Shhh! — faz Abby, tapando a boca de Nick. — Desculpa, Simon. É que fiquei empolgada por você. Não era segredo, era?
— Não, mas não é… não foi nada — digo.
— Ah, isso veremos — retruca Abby, com um sorrisinho.
Não sei como explicar para ela que, para todos os efeitos, eu já estou comprometido. Com alguém que tem o primeiro nome igual ao de um presidente e de um personagem desconhecido de quadrinhos e que não gosta de desenhar, não tem olhos azuis e ainda não me empurrou em uma cadeira de rodinhas.
Alguém que parecia gostar mais de mim antes de saber quem eu era.