Com amor, Simon
Capítulo 12
PARA: hourtohour.notetonote@gmail.com
DE: bluegreen181@gmail.com
ASSUNTO: Eu devia estar…
… escrevendo uma redação para a aula de literatura. Mas prefiro escrever para você.
Estou no quarto, e tem uma janela ao lado da minha mesa. O dia está tão ensolarado, parece que está bem quente lá fora. Sinto como se estivesse num sonho.
Jacques, tenho que confessar que ando curioso com seu endereço de e-mail há muito tempo. Finalmente cedi e consultei o Poderoso Google, e agora sei que é a letra de uma música do Elliott Smith. Já ouvi falar dele, mas nunca escutei nada, então baixei a “Waltz
#2”. Espero que isso não assuste você. Eu gostei muito. Me surpreendeu, porque é uma música muito triste, não é o que eu esperaria de você. Mas já escutei algumas vezes, e o engraçado é que de alguma forma ela me lembra mesmo você. Não é a letra nem o clima da música. É alguma coisa intangível. Imagino você deitado no chão ouvindo essa música, comendo Oreo e talvez escrevendo em um diário.
Também tenho que confessar que ando olhando com atenção redobrada para a roupa das pessoas na escola, para ver se alguém está usando uma camiseta do Elliott Smith. Sei que é um tiro no escuro. Também sei que é injusto, porque eu não devia estar tentando descobrir sua identidade se não dou nenhuma pista significante sobre a minha.
Aqui vai uma. Meu pai vem de Savannah no fim de semana, e vamos fazer o tradicional Chanucá no hotel. Seremos só eu e ele, e tenho certeza de que vai ser constrangedor. Não vamos acender a menorá (porque não queremos disparar os detectores de fumaça).
Depois, vou dar alguma coisa sem graça para ele, como café Aurora e um punhado de redações minhas (ele é professor de literatura, adora essas coisas). Depois, ele vai me mandar abrir oito presentes seguidos, o que deixa claro o fato de que não vou vê-lo antes do ano-novo.
A questão é que estou considerando aumentar o grau de constrangimento: queria aproveitar a situação para sair do armário. Talvez eu devesse usar maiúsculas. Sair do Armário. Perdi o juízo?
Blue
<ENVIADO 2 DEZ 17:02>
PARA: bluegreen181@gmail.com
DE: hourtohour.notetonote@gmail.com
ASSUNTO: Re: Eu devia estar…
Blue,
Uma coisa de cada vez: como eu não sabia que você era judeu? Acho que isso é você me dando uma pista, né? Devo procurar caras de quipá pelos corredores? Sim, eu pesquisei como se escreve isso. E seu povo é muito criativo, foneticamente falando. Mas, enfim, espero que o Chanucá corra bem, e, aliás, café Aurora não é nem um pouco decepcionante. Na verdade, acho que vou roubar sua ideia, porque pais adoram café. E
meu pai vai adorar mais ainda, porque ele botou na cabeça essa ideia hilária de que é hipster.
O mais importante, Blue: Sair do Armário. Uau. Você não perdeu o juízo, não. Acho você incrível. Está com medo da reação dele? Vai contar para sua mãe também?
Também estou muito impressionado por você ter pesquisado sobre Elliott Smith no Google. Ele possivelmente foi o maior compositor desde Lennon e McCartney. E tudo o que você disse sobre a música fazer você se lembrar de mim é tão lisonjeiro e incrível que nem sei o que dizer. Estou sem palavras, Blue.
Então, vou dizer que você está certíssimo sobre o Oreo e sobre ficar deitado no chão, mas errado quanto ao diário. Acho que você é o mais perto que já cheguei de um diário.
Agora você devia baixar “Oh Well, Okay” e “Between the Bars”. Fica a dica.
Odeio dizer, mas acho que é perda de tempo tentar descobrir quem eu sou olhando as camisetas das pessoas. Quase nunca uso camisetas de bandas, apesar de meio que ter vontade. Acho que, para mim, ouvir música é uma coisa muito solitária. Ou talvez isso seja só uma coisa que as pessoas dizem quando são desanimadas demais para ir a shows. De qualquer modo, vivo grudado no meu iPod, mas nunca ouvi as músicas de que gosto ao vivo, e acabo sentindo que usar uma camiseta de banda sem ter ido a um show dela seria uma espécie de trapaça. Faz sentido? Por algum motivo, a ideia de encomendar na internet uma camiseta de banda me deixa estranhamente constrangido. Como se o músico não fosse me respeitar. Sei lá.
Enfim, considerando tudo o que dissemos, concordo que este seja um uso bem mais satisfatório do meu tempo do que escrever redações de literatura. Você me distrai um bocado.
Jacques
<ENVIADO 2 DEZ 21:13>
PARA: hourtohour.notetonote@gmail.com
DE: bluegreen181@gmail.com
ASSUNTO: Eu devia estar…
Jacques,
Quanto a você não saber que eu era judeu, tudo bem, eu nunca mencionei. Nem sou tecnicamente, porque o judaísmo é matrilinear, mas minha mãe é anglicana. Ainda não decidi se vou fazer mesmo o que falei. Eu não achava que faria tão cedo. Não sei por quê, mas ultimamente tenho sentido vontade de abrir o jogo. Talvez eu só queira acabar logo com isso. E você? Já pensou em Sair do Armário?
Tudo fica bem mais complicado quando se coloca religião na equação. Tecnicamente, os judeus e os anglicanos são simpatizantes aos gays, mas é difícil saber se isso realmente se aplica aos próprios pais. A gente sempre lê sobre garotos gays com famílias muito católicas em que os pais acabam participando de organizações de apoio à causa e
de paradas de orgulho gay e tudo. Aí, você ouve também sobre pais que não se incomodam nem um pouco com a homossexualidade, mas não conseguem aceitar quando o próprio filho se assume. Eles são uma caixinha de surpresas mesmo.
Acho que, em vez de baixar as músicas do Elliott Smith que você mencionou, vou pedir para o meu pai me dar uns CDs dele no Chanucá. Garanto que ele tem só uns seis presentes escolhidos e que está desesperado atrás de qualquer dica sobre o que mais pode comprar para mim.