Com amor, Simon
Capítulo 23
E SIM, eu quero me encontrar pessoalmente com você. E obviamente, isso mudaria as coisas, mas acho que estou meio que pronto para essa mudança. Talvez seja, sim, uma
grande coisa. Não sei. Quero saber os nomes dos seus amigos e o que você faz depois da aula e todas as coisas que não me conta. Quero saber como é sua voz.
Mas só quando você estiver pronto. E eu jamais conseguiria odiar você. Você não vai me perder. Mas pense nisso. Tá?
Com amor,
Jacques
<ENVIADO 2 JAN 12:25>
É O PRIMEIRO dia de aula depois do recesso de Natal, e estou considerando passar o dia todo no estacionamento. Não sei explicar. Achei que ficaria bem. Mas agora que estou aqui, não consigo sair do carro. Fico enjoado só de pensar.
— Nem devem se lembrar mais do post — diz Nora.
Eu dou de ombros.
— Ficou lá por o quê, uns três dias? E foi há mais de uma semana.
— Quatro dias.
— Alguém ainda lê aquele Tumblr?
Entramos na escola assim que o primeiro sinal toca. As pessoas estão correndo e se empurrando pela escada. Ninguém parece prestar atenção em mim, e, apesar de todo o esforço de Nora para me tranquilizar, dá para ver que ela está tão aliviada quanto eu. Sigo com a multidão até meu armário, e acho que estou finalmente começando a relaxar. Algumas pessoas acenam para mim normalmente. Garrett, da mesa do almoço, passa por mim e diz:
— E aí, Spier?
Jogo a mochila no armário e pego os livros de literatura e francês.
Ninguém colocou bilhetes homofóbicos ali, ainda bem. E também não rabiscaram a palavra “bicha” na porta, melhor ainda. Estou quase pronto para acreditar que as coisas melhoraram um pouco em Creekwood. E que ninguém viu a postagem de Martin no Tumblr, afinal.
Martin. Meu Deus, não quero nem pensar em ter que ver aquela cara de capeta dele. E é claro que ele está na mesma droga de turma que eu no primeiro tempo.
Ainda sinto uma onda silenciosa de medo quando penso em vê-lo de novo.
No momento, só estou tentando respirar.
Quando entro no corredor de línguas e artes, um cara do futebol americano que mal reconheço esbarra com tudo em mim quando está descendo a escada. Dou um passo para trás para me equilibrar, mas ele coloca a mão no meu ombro e olha no fundo dos meus olhos.
— Ah, oi — diz ele.
— Oi…
Ele me segura pelas bochechas e puxa meu rosto como se fosse me beijar.
— Smack!
Ele sorri, e seu rosto está tão perto que sinto o calor do hálito dele. E, ao meu redor, as pessoas estão rindo; parecem a merda do Elmo, de Vila Sésamo.
Eu me afasto dele com as bochechas pegando fogo.
— Aonde você vai, Spier? — pergunta alguém. — É a vez do McGregor.
E todo mundo começa a rir de novo. Sabe, eu nem conheço essas pessoas. E não sei que tanta graça elas veem, pelo amor de Deus.
Na aula de literatura, Martin não olha para mim.
Mas, durante o dia inteiro, Leah e Abby parecem dois pitbulls, lançando olhares cheios de fúria para qualquer um que me encare de um jeito esquisito. É muito fofo da parte delas. No final das contas, o dia não é um completo desastre. Algumas pessoas cochicham e riem. Outras me dão sorrisos enormes e aleatórios no corredor, sabe-se lá com que intenção. Duas lésbicas que nem conheço se aproximam de mim em frente ao meu armário, me abraçam e me dão seus números de telefone. E pelo menos uns doze alunos héteros fazem questão de me dizer que me apoiam.
Uma garota até confirma que Jesus ainda me ama.
É muita atenção. Minha cabeça está girando.
No almoço, as garotas decidem discutir e avaliar cinquenta milhões de caras que, na opinião delas, são possíveis namorados para mim. E está tudo perfeito e hilário até Anna fazer uma piada
sobre Nick ser gay. Em resposta, Nick se joga em cima de Abby. E
Leah fica transtornada.
— Devíamos arrumar um namorado para Leah também! — diz Abby, e quando ela fala isso eu me encolho.
Eu amo a Abby e sei que ela só está tentando aliviar o clima, mas meu Deus do céu. Tem horas que ela consegue dizer o contrário da coisa certa.
— Não, muito obrigada, querida — responde Leah, naquele seu tom agradavelmente doentio.
Só que os olhos dela parecem bolas incandescentes de ódio. Ela se levanta de repente e empurra a cadeira sem falar mais nada.
Assim que ela sai, Garrett olha para Bram, que morde os lábios. E
tenho quase certeza de que esse é o código para “Bram gosta da Leah”.
E não sei por quê, mas isso me deixa irritado.
— Se você gosta dela, faça alguma coisa — digo para Bram, e ele fica vermelho.
Sei lá. Estou de saco cheio de gente hétero que não consegue resolver as próprias merdas.
De alguma forma, consigo sobreviver até o ensaio. É o primeiro sem os roteiros, e vamos direto para as cenas de grupo. Há acompanhamento musical agora, e as pessoas estão cheias de energia. Acho que caiu a ficha de que a estreia é em menos de um mês.
Mas, na metade da música do ladrão, Martin para de cantar.
— Você só pode estar de brincadeira — diz Abby.
E todo mundo fica em silêncio por um minuto, se entreolhando.
Olhando para todos os lados, menos para mim. Por um minuto, fico confuso, mas aí sigo o olhar de Abby até o fundo do auditório. E tem dois caras aleatórios em frente à dupla hélice, com aparência meio familiar. Acho que eram da minha turma de saúde do ano passado.
Um está usando moletom com capuz e óculos falsos, além de uma saia por cima da calça cáqui; os dois estão segurando cartazes enormes.
O cartaz do primeiro cara diz: “E aí, Simon?”
E o cartaz do cara de saia diz: “WHAT WHAT - IN THE BUTT?”, fazendo alusão à música.
Os caras estão rebolando, e outras pessoas espiam pela porta e riem. Uma garota está rindo tanto que está com as mãos na barriga, e uma pessoa diz:
— Parem, meninos! Meu Deus, vocês são horríveis.
Mas ela também está rindo.
É estranho, não estou nem ficando vermelho. Parece que estou assistindo a tudo isso de um milhão de quilômetros de distância.
De repente, Taylor Metternich, logo ela, dispara pela escada lateral do palco e pelo corredor do auditório. Abby a segue.
— Ah, merda — diz o cara de saia, e o outro ri.
Eles saem correndo do auditório, deixando a porta bater.
Taylor e Abby vão atrás, e há uma gritaria e passos lá fora. A sra. Albright faz o mesmo, e o resto de nós só fica ali. Só que, de alguma forma, acabo sentado em uma das plataformas, espremido entre duas veteranas que estão com os braços ao redor dos meus ombros.
Tenho um vislumbre de Martin, e ele parece arrasado. Está cobrindo o rosto com as mãos.
Alguns minutos depois, Abby entra de novo, seguida da sra.
Albright, que está guiando Taylor com delicadeza. O rosto dela está inchado e vermelho, como se tivesse chorado. Vejo a sra. Albright levar Taylor até a fila da frente e acomodá-la ao lado de Cal. Ela se ajoelha na frente deles por um minuto para conversar.
Abby vem falar comigo, balançando a cabeça.
— As pessoas são um lixo — diz ela.
Eu faço que sim lentamente.
— Eu achei que Taylor fosse bater em um daqueles caras.
Taylor Metternich. Sério. Quase batendo em um cara.
— Você está brincando — comento.
— Não estou — diz Abby. — Eu também quase bati.
Olho rapidamente para Taylor. Ela está encostada na cadeira, de olhos fechados, só respirando.
— Mas ela não bateu, né? Não quero arranjar um problema para ela.
— Ai, meu Deus. Nunca diga isso. Nada disso é culpa sua, Simon
— diz Abby. — Aqueles caras são uns babacas.
— Eles não podem sair impunes — observa Brianna. — A política aqui não é de tolerância zero?
Mas a política de tolerância zero ao bullying de Creekwood é aplicada com tanta rigidez quanto as malditas regras de vestuário.
— Não esquenta — diz Abby. — Eles estão na sala da sra. Knight agora. Acho que a escola está tentando entrar em contato com os pais deles.
E, instantes depois, a sra. Albright reúne todo mundo em um círculo no palco.
— Lamento que vocês tenham visto aquilo. — Ela olha sobretudo para mim. — Foi incrivelmente desrespeitoso e inadequado, e quero que saibam que levo isso muito a sério. — Ela hesita, e eu olho para ela. Percebo de repente que a sra. Albright está furiosa. —
Infelizmente, vamos ter que encerrar por hoje, para que eu resolva isso. Sei que é inesperado e peço desculpas a todos. Retomamos o ensaio amanhã.
Ela vem até mim e se agacha na frente da minha plataforma.
— Você está bem, Simon?
Sinto que fico um pouco vermelho.
— Estou.
— Tudo bem — diz ela, baixinho. — Saiba que aqueles bostinhas vão ser suspensos. É sério. Vai ser minha prioridade.
Abby, Brianna e eu ficamos olhando para ela, um pouco surpresos. É a primeira vez que ouço uma professora falar de um jeito tão enfático.
Abby fica presa na escola até o último ônibus sair, e me sinto péssimo por causa disso. Não sei. Parece que tudo é um pouco culpa minha. Mas Abby diz para eu não ser ridículo e que ela pode fazer uma horinha vendo os testes do time de futebol.
— Vou com você — digo.
— Simon, falando sério. Vá para casa descansar um pouco.
— Mas e se eu quiser perturbar o Nick?
Ela não tem argumentos contra isso. Atravessamos o corredor de biologia e descemos a escada dos fundos, na direção da sala de música, onde parece estar acontecendo um festival radical de bateria e guitarra a portas fechadas. O som é quase profissional, mas os vocais são estranhos e aleatórios, como a parte grave de
uma harmonia. Abby dança ao som da batida por um minuto enquanto passamos, e depois saímos pela porta lateral perto do campo de futebol.
Está muito frio lá fora, e não faço ideia de como esse pessoal do futebol sobrevive de short e pernas de fora. As garotas estão no campo fechado, e são dezenas de rabos de cavalo balançando.
Passamos por elas para chegarmos aos garotos, que estão correndo por entre cones laranja e chutando bolas de futebol de um para o outro. Abby se pendura na cerca e se inclina para olhar.
Vários garotos estão usando camisas justas de manga comprida por baixo da camiseta de futebol, e alguns estão com caneleiras. E
todos têm panturrilhas de jogador de futebol. Até que é algo legal de se ver.
O técnico sopra o apito, e todos os jogadores se reúnem ao redor dele por um minuto. Depois, eles se dispersam, distribuem garrafas de água, driblam com as bolas e alongam as pernas. Nick corre até nós na mesma hora, de rosto vermelho e sorrindo, e Garrett e Bram vêm logo atrás.
— É estranho fazerem vocês passarem de novo pelo teste — diz Abby.
— Pois é — diz Garrett. Ele está suado e vermelho, e os olhos são de um azul elétrico. — É meio que uma formalidade. Mais ou menos. Só para ver — ele faz uma pausa para recuperar o fôlego —
em que posição vão colocar a gente.
— Ah, entendi — diz ela.
— Vocês estão matando o ensaio? — pergunta Nick, sorrindo para Abby.
— Basicamente — responde ela. — Eu pensei: é, acho que vou ficar olhando os garotos do futebol agora.
Ela se inclina para perto de Nick e sorri para ele.
— É mesmo? — pergunta Nick.
Estou com a sensação de que não devia estar ouvindo isso.
— E aí, estão indo bem? — pergunto para Garrett e Bram.
— Estamos — diz Garrett, e Bram assente.
É engraçado. Eu almoço com esses caras cinco dias por semana, mas nunca parei para conversar direito com eles. Tenho vontade de conhecê-los melhor. Mesmo Bram não sabendo direito o que quer
com Leah. Sei lá. Pelo menos, tanto Garrett quanto Bram reagiram muito bem a minha revelação, e acho que eu não esperava isso de atletas.
Além do mais, Bram é fofo. Tipo, muito fofo. Ele está a uns trinta centímetros da cerca, todo suado e com uma camisa branca de gola alta por baixo da camiseta de futebol. Está calado, mas seus olhos castanhos são muito expressivos. Ele tem a pele morena, cachos escuros e sedosos, e mãos grossas.
— O que acontece se vocês fizerem besteira na audição? —
pergunto. — Vocês podem ser expulsos do time?
— Audição? — pergunta Bram, sorrindo de leve.
E, quando ele olha para mim, sinto uma dorzinha estranha e agradável.
— Testes.
Fico vermelho. E sorrio para ele. E sinto um pouco de culpa.
Por causa de Blue. Apesar de ele ainda não estar pronto. Apesar de ele ser apenas palavras em uma tela de laptop.
Mas é que também sinto um pouco como se ele fosse meu namorado. Sei lá.
* * *
Talvez seja o ar do inverno ou talvez as panturrilhas dos garotos do futebol, mas, depois de tudo que aconteceu hoje, até que estou de bom humor.
Até chegar ao estacionamento. Porque Martin Addison está encostado no meu carro.
— Por onde você andou? — pergunta ele.
Só quero que se afaste, para eu não ter que olhar para ele.
— Podemos conversar um segundo? — pergunta.
— Não tenho nada para conversar com você.
— Tudo bem. Entendi. — Ele suspira, e vejo o ar saindo de sua boca. — Simon, é que… eu devo um sério pedido de desculpas a você.
Eu só fico ali parado.
Ele estica os braços e estala os dedos enluvados.
— Meu Deus, é que eu… Sinto muito. Pelo que aconteceu lá dentro. Não sei o que… Eu achava que as pessoas não faziam mais essas merdas.
— É, quem adivinharia? Porque Shady Creek é tão progressista, não é mesmo?
Martin balança a cabeça.
— Eu realmente achava que não seria nada de mais.
Não sei o que responder.
— Olha, me desculpa, tá? Eu estava transtornado. Por causa daquela história com a Abby. Não pensei direito. E aí, meu irmão caiu em cima de mim, e eu fiquei… Eu me senti um merda, sabe. E
apaguei aquelas capturas de tela há séculos. Juro por Deus. Você pode fazer o favor de dizer alguma coisa?
Quase começo a rir.
— O que você quer que eu diga?
— Sei lá. Eu estou tentando…
— Tudo bem, que tal isto? Acho você um babaca. Uma babaquinha de merda. Nem vem com essa de que não sabia que isso ia acontecer. Você me chantageou. Isso... Cara, não era o que você queria? Me humilhar?