Com amor, Simon

Becky Albertalli · Capítulo 11 de 38

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Com amor, Simon

Capítulo 11

É O DIA seguinte ao de Ação de Graças e Alice está em casa.

Estamos na varanda dos fundos depois de jantar. Não está muito frio, e estamos de pijama comendo restos de bolo de sorvete e jogando Adedanha.

— Tudo bem. Duplas e trios famosos?

— Abbott e Costello — diz minha mãe.

Nora e eu dizemos ao mesmo tempo:

— Adão e Eva.

É meio surpreendente, considerando que provavelmente somos a única família do Sul que não tem uma Bíblia.

— As potências do Eixo — diz meu pai, e dá para ver que ele sente muito orgulho de sua resposta.

— Alice e os Esquilos — acrescenta Alice, casualmente, e nós todos caímos na gargalhada.

Sei lá. Nós curtimos Alvin e os Esquilos. Imitamos as vozes com perfeição e até chegamos a fazer uma coreografia para a música principal. Por anos a fio, realizamos apresentações em frente à lareira. Que pais sortudos os nossos. Mas foram eles que nos batizaram de Alice, Simon e Eleanor, sem dúvida estavam pedindo por isso.

Alice faz carinho nas costas de Bieber com o pé. Está usando meias diferentes uma da outra, e é quase impossível acreditar que é a primeira vez que ela volta para casa em três meses. Acho que até então eu não tinha percebido quanto a vida tem sido estranha sem ela.

Nora deve estar pensando a mesma coisa, porque diz:

— Não acredito que você já vai embora daqui a dois dias.

Alice aperta os lábios, mas não diz nada. O ar parece mais frio de repente, e enfio as mãos nas mangas da blusa. Mas então meu telefone vibra.

Mensagem de texto do Martírio Abominável: e aí, vai rolar alguma coisa nesse fim de semana

Um instante depois chega outra: com Abby, quero dizer Parece que Martin não poderia se importar menos com qualquer pontuação, o que não é lá muito surpreendente.

Respondo: Desculpa, programa de família. Minha irmã veio nos visitar.

A resposta instantânea: tranquilo spier, meu irmão também está de visita. Ele mandou oi ;)

Não sei se isso era para ser uma piada, uma ameaça ou o quê, mas odeio esse cara. Odeio muito Martin nesse momento.

— Ah — diz Alice, encolhendo as pernas na cadeira. Nossos pais foram dormir, e está ficando frio na varanda. — Não sei se alguém ainda está com fome, mas tenho uma caixa de cookies quase cheia na bolsa. Só digo isso.

Deus abençoe Alice.

Deus abençoe esses cookies!

Vou passar uma noite incrível com minhas irmãs, e vou encher a cara de cookies e esquecer aquele Martírio Abominável e sua carinha piscante do mal. Levamos os biscoitos para o sofá da sala.

Bieber está apagado, com a barriga no colo de Alice.

— Alguém quer um Nick Eisner? — pergunta Nora.

— Está falando sério? Claro! Vá pegar a manteiga de amendoim

— diz Alice, com um tom autoritário.

Nick Eisner é como chamamos um cookie coberto por uma colherada de manteiga de amendoim, e foi inventado quando tínhamos cinco anos. Nick achava que era isso que as pessoas queriam dizer quando falavam em biscoitos de manteiga de amendoim. Eu admito que é uma delícia. Mas, na minha família, esse é o tipo de engano que ninguém deixa passar.

— E como está o pequeno Nick Eisner?

— A mesma coisa. Ainda grudado no violão.

Ele ficaria bem chateado se soubesse que Alice ainda o chama assim. Nick é apaixonadinho por Alice desde o fundamental.

— Eu estava prestes a perguntar. Que fofo.

— Vou dizer que você falou isso.

— Hã, não faça isso. — Alice afunda a cabeça na almofada do sofá e esfrega os olhos por trás dos óculos. — Desculpe. — Ela boceja. — Acordei muito cedo. E tive que adiantar algumas coisas antes de viajar.

— Período de provas? — pergunta Nora.

— É — diz Alice.

E é tão óbvio que tem mais alguma coisa, mas ela não diz mais nada.

Bieber dá um bocejo alto e repentino e rola para o lado, e suas orelhas viram para cima. Em seguida, os lábios tremem. Ele é esquisito assim mesmo.

— Nick Eisner — repete Alice. E sorri. — Lembra do Bar Mitzvah dele?

Nora ri.

— Ai, meu Deus — digo.

É a hora certa para esconder meu rosto em uma almofada.

— Boom boom boom.

Não, espera. É a ocasião perfeita para dar uma travesseirada em Alice.

Ela bloqueia o golpe com o pé.

— Sério, Simon. Podemos abrir espaço na sala agora mesmo, se você quiser.

— Simon Spier, dançarino de break — diz Nora.

— Claro. Ok.

O erro de Nick foi convidar minha família inteira para o Bar Mitzvah dele. O meu foi tentar dançar ao som de “Boom Boom Pow”

na frente deles. Não existe ideia boa quando se está no sétimo ano.

— Você gostaria de voltar no tempo e fazer tudo diferente? — pergunta Alice. — Tipo: ei, Alice do fundamental, para! Para tudo o que você estiver fazendo.

— AimeuDeus! — Nora balança a cabeça. — Não gosto nem de lembrar do fundamental.

Sério?

Vejamos. Alice já passou um mês usando uma luva de seda até o cotovelo. E tenho certeza de que comi cinco casquinhas sabor

cookie na Ren Faire do sexto ano e depois vomitei num molde de cera da minha própria mão. (Valeu a pena.)

Mas Nora? Não sei nem do que ela deveria ter vergonha. Não parece genética nem evolutivamente possível, mas ela era meio descolada no fundamental. Descolada sem chamar muita atenção.

Descolada a ponto de ser autodidata em violão, usar roupas normais e não ter um Tumblr chamado “OBCECADO por Passion Pit”.

Mas parece que até ela é assombrada pelo fantasma do fundamental.

— É, eu queria que alguém tivesse dito ao Simon do fundamental para, por favor, tentar ser maneiro. Só tentar.

— Você é sempre maneiro, Bub — comenta Alice, se esticando por cima de Bieber para dar um puxão na ponta do meu pé.

Eu sou Bub, e Nora é Boop. Mas só para Alice.

— E seus passos de dança são demais! — acrescenta ela.

— Para com isso — digo.

Tudo fica um pouco mais perfeito quando ela está em casa.

* * *

Até que Alice vai embora e as aulas recomeçam com toda a chatice de sempre. Quando chego na aula de literatura, o sr. Wise dá um sorriso perverso que só pode indicar que ele está terminando a correção de nossos ensaios sobre Thoreau.

Acerto na mosca. Ele começou a distribuí-lo aos alunos, e vejo que a maioria está coberta de tinta vermelha. Leah mal olha para o dela, dobra, rasga a parte de baixo e faz um grou de origami. Ela parece mais mal-humorada do que o normal hoje. Tenho cem por cento de certeza de que é porque Abby chegou atrasada e se sentou entre ela e Nick no sofá.

O sr. Wise mexe nas pilhas de papéis e lambe um pouco o dedo antes de pegar o meu. Alguns professores são muito nojentos mesmo. Ele deve esfregar os dedos nos globos oculares também.

Consigo imaginar direitinho.

Quando vejo a nota perfeita circulada no alto do teste, fico um pouco impressionado. Não que eu seja ruim em literatura, e eu realmente gostei de Walden ou A vida nos bosques. Mas acho que só dormi umas duas horas na noite anterior ao teste. Não é possível.

Ah, espere aí. Eu tinha razão. Não é possível porque este não é o meu teste. Você podia lembrar pelo menos meu nome, sr. Wise.

— Ei — digo. Eu me inclino sobre a carteira para bater no ombro de Bram. Ele se vira de lado para me olhar. — Parece que este aqui é o seu.

— Ah. Obrigado — diz ele, esticando a mão para apanhar o teste.

Ele tem dedos compridos e ossudos. Mãos bonitas. Bram olha para o papel, olha para mim e fica um pouco vermelho. Percebo que se sente mal por eu ter visto a nota dele.

— Tudo bem. Eu ficaria com essa nota se pudesse.

Ele sorri de leve e se vira para a carteira dele. Nunca dá para saber o que Bram está pensando. Mas tenho uma teoria de que ele é muito engraçado dentro da própria cabeça. Não sei por que acho isso.

Mas, sério, sejam lá quais forem as piadas internas que ele tem consigo mesmo, eu gostaria de ouvi-las também.

* * *

Quando vou para o ensaio naquela tarde, Abby está sentada na fileira da frente do auditório com os olhos fechados e os lábios em movimento. O roteiro está aberto no colo dela, e ela está tapando algumas falas com a mão.

— Oi — digo.

Ela abre os olhos de repente.

— Há quanto tempo você está aí?

— Cheguei agora. Está ensaiando suas falas?

— Estou.

Ela vira o roteiro de cabeça para baixo e usa a perna para marcar a fala em que estava. Tem alguma coisa estranha em seu tom de voz.

— Você está bem?

— Estou ótima. — Ela assente. E finalmente acrescenta, olhando para mim: — Um pouco estressada. Você sabia que temos que estar com todas as falas na ponta da língua até o final das férias?

— Até o final das férias de Natal.

— Eu sei.

— Falta mais de um mês. Vai ficar tudo bem.

— É fácil para você, que não tem falas.

Ela olha para mim com as sobrancelhas arqueadas e a boca num formato perfeitamente redondo, e não consigo evitar uma gargalhada.

— Nossa, que vaca eu fui – diz ela. —Não acredito que falei isso.

— Muito vaca. Você é uma vaca sonsa.

— Do que você a chamou? — pergunta Martin.

Juro por Deus, esse garoto aparece do nada e se mete em todas as conversas.

— Está tudo bem, Marty. Só estamos brincando — explica Abby.

— Bem, ele chamou você de vaca. Eu não acho isso legal.

Ai, meu Deus, é sério? Ele vai mesmo chegar agora, perder a piada e querer me dar sermão por causa da droga do meu vocabulário? Que ótimo, Martin. Por que você não aproveita e me dá um soco para fazer bonito na frente da Abby? Fora que Martin Addison vir dar lição de moral quando está me chantageando… é um absurdo em todos os níveis.

— Martin, é sério. Estávamos brincando. Na verdade, eu me chamei de vaca.

Ela ri, mas a gargalhada é tensa. Eu olho para os meus sapatos.

— Se você diz.

O rosto de Martin está rosa-shocking, e ele está mexendo no cotovelo. Falando sério: se ele quer tanto impressionar Abby, devia parar de ser tão esquisito e irritante o tempo todo. Talvez ele devesse parar de ficar puxando a pele do cotovelo. Porque isso é muito nojento. Nem sei se ele percebe o que está fazendo.

A pior parte é que tenho certeza de que Alice me mataria se soubesse que chamei Abby de vaca. Minha irmã é bem rigorosa quanto ao uso adequado da palavra “vaca”.

Adequado: “A vaca teve vários bezerrinhos fofos.”

Inadequado: “Abby é uma vaca.”

Mesmo que eu diga que ela é uma vaca sonsa. Mesmo que eu esteja brincando. Pode até ser a lógica maluca da Alice, mas às vezes eu me sinto um pouco mal e desconfortável em relação a isso.

Peço desculpas, gaguejando, e meu rosto fica vermelho. Martin continua parado na nossa frente. Preciso sair dali o quanto antes.

Vou até o palco.

A sra. Albright está sentada ao lado de Taylor em uma das plataformas, apontando para alguma coisa no roteiro. No palco, a garota que faz Nancy está montada nas costas do cara que faz Bill Sikes. Na coxia esquerda, uma aluna do primeiro ano chamada Laura está sentada em uma pilha de cadeiras, chorando na manga da blusa, e parece que Mila Odom a está consolando.

— Você nem sabe se é verdade — diz Mila. — Falando sério, olha para mim. Olha para mim.

Laura olha para ela.

— É a droga do Tumblr, tá? Metade daquela merda é inventada.

A voz de Laura está entrecortada e chorosa.

— Mas… tem… um… fundo… de… verdade… em… toda…

— Isso aí é baboseira — insiste Mila. — Você tem que falar com ele.

De repente, ela me vê ali ouvindo tudo e me olha de cara feia.

É o seguinte: o nome Simon quer dizer “aquele que ouve” e Spier quer dizer “aquele que observa”. O que significa que estou destinado a ser fofoqueiro.

Cal e duas garotas do último ano estão sentados em frente ao camarim com as costas na parede e as pernas esticadas. Ele olha para mim e sorri. Cal tem um sorriso bonito e tranquilo. É um cara fotogênico. Ainda estou meio mal por toda aquela conversa com Abby e Martin, mas acho que estou começando a me sentir melhor.

— Oi — cumprimento.

As garotas meio que sorriem para mim. Sasha e Brianna fazem os garotos de Fagin, assim como eu. É engraçado. Sou literalmente o único garoto de Fagin interpretado por um garoto. Acho que é porque elas são menores e parecem mais novas, sei lá. Não sei mesmo. Mas de certa forma é incrível, porque nessas cenas eu fico

sendo a pessoa mais alta no palco. O que não acontece com muita frequência, verdade seja dita.

— E aí, Simon? — diz Cal.

— Ah. Nada de novo. Ei, a gente tinha que estar fazendo alguma coisa agora?

E, assim que acabo de falar, começo a ficar vermelho, porque pelo meu tom parece que estou fazendo uma proposta a ele. Oi, Cal. A gente tinha que estar se pegando agora? A gente devia estar fazendo sexo selvagem no camarim agora?

Mas talvez seja paranoia minha, porque Cal não parece ter interpretado dessa forma.

— Não, acho que a sra. Albright só está terminando umas coisas e já vai nos dizer o que fazer.

— Por mim tudo bem.

Até que reparo nas pernas deles. Sasha está com a perna ligeiramente por cima da de Cal, na altura do tornozelo. Vai saber o que isso significa.

Acho que estou pronto para esse dia de merda acabar.

É claro que está caindo um temporal quando a sra. Albright nos libera, e minha bunda deixa uma marca úmida no banco do carro.

Minhas roupas estão tão encharcadas que fica difícil até secar os óculos. E só me lembro de ligar os faróis quando já estou na metade do caminho, o que quer dizer que a essa altura tenho sorte de não ter sido detido pela polícia.

Quando chego ao meu bairro, vejo o carro de Leah parado no sinal, esperando para virar à esquerda. Imagino que ela esteja saindo da casa de Nick. Aceno para ela, mas está chovendo tanto que não adianta. Os limpadores de para-brisa viram de um lado para o outro, e sinto um aperto no peito. Eu não devia me incomodar quando Nick e Leah se encontram sem mim. Mas isso sempre me dá a sensação de que estou sendo excluído.

Não o tempo todo. Só às vezes.

Mas é isso. Eu me sinto irrelevante. Odeio me sentir assim.